Anttonio Oliveira, arquiteto, urbanista e um aprendiz das palavras.
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BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.
Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempo – Carlos Drummond de Andrade)
Hoje, me veio esta questão — que tanto precisamos ter certeza no mundo em que vivemos —, em quem posso confiar? Muito difícil dizer; fechamo-nos e nos retraímos mais nos dias de hoje; tudo por falta de confiança nas pessoas, ou porque, um dia, confiamos em quem não devíamos. Não dá mais para confiar em ninguém, então me refugio ao meu porão, com meus conflitos e medos; não há relação que se possa confiar. Será que caminhamos, de fato, para isso? Será que o isolamento, é o grande mal que aflige a humanidade? Já nos perdemos em relações, empregos, descaminhos por quebra de confiança em quem mais depositávamos. Decepções e angústias ficaram. Sentimentos que fingimos, relações de fachada, interesses pessoais; eis um cenário bom para a traição e a falta de confiança. Que grau de confiança, temos com as pessoas com quem nos relacionamos?
Eu era do tipo que muito fácil, depositava tesouros e tesouros em cofre alheio. Naufraguei-me muito por isso. Confiar em quem não conhecia profundamente. Agora, acredito que confiança tem que ter o tempo de amadurecimento da relação; tempo para conhecer e saber em que chão pisamos ou em que mundo tocamos as mãos.
Sempre quando quer dar exemplo de confiança, um amigo me faz esta pergunta: você deixaria fulano ou sicrano tomando conta da sua casa, com tudo que tem lá dentro? Esta pergunta passou a ser importante em minha vida. Em quem eu deixaria a guarda de meus pertences? Em qual coração eu depositaria meu amor, com a certeza de rendimentos futuros? Difícil dizer sem conhecer fundo, sem penetrar na alma. Já depositei muito pensando em rentabilidade, mas o que obtive foi um saldo devedor e dívidas (sentimentais) para sanar. Triste, mas é real. Aprendemos, então.
Na minha adolescência, lembro-me de um amigo que confiou a mim um segredo familiar. Ele apareceu chorando no portão da minha casa. Hoje reflito muito sobre esse dia, ele só poderia confiar em quem ele gostava demais. Depois que ele me contou e chorou, disse a ele que não era para ficar assim e tudo se resolveria. Guardei o que disse a sete chaves, como um tesouro precioso e íntimo daquela amizade. Os amigos são para sempre.
Confiamos, necessariamente, pela lente do amor. Confiar é umas das ramificações dos caminhos do amor. Para confiar é preciso olhar com a alma, mais do que com os olhos. Quando amamos e somos amados temos confiança. Se errarmos, iremos dizer que erramos para quem nós amamos, na confiança de que seremos perdoados. Se isso for importante ao mundo — aprisionado e isolado —, saiba que a confiança une e liberta os corações. Quem confia ama e cuida. Ou, como uma paráfrase de um roteiro para um filme de amor: confiar, amar, cuidar.
Vi recentemente o novo filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”. Saí do cinema recomendando para todo mundo, me entusiasmei. Allen tem essa coisa de tratar o real e o imaginário sob o mesmo prisma; seus personagens fazem essa transgressão sem nenhum temor – vão e voltam; entram e saem. O que torna a trama uma viagem sem fim. Esta me tocou fundo; entrou pelo túnel do tempo, com o olhar no passado sob as noites da cidade luz.
No filme, traz à Paris – a fim de colher inspiração – um escritor de roteiros para filmes americanos, Gil Pender, vivido por Owen Wilson; ele está escrevendo seu primeiro romance. Sua noiva Inez lhe faz companhia na viagem, com o propósito de viver noites maravilhosas na cidade luz. Ele é obcecado pelo passado, crendo que tudo que foi feito e quem existiu lá, era bem melhor. Descreve também ser um adorador das chuvas que molham seu corpo, sem nunca se importar em carregar uma “umbrella”. Numa dessas noites de embriaguez, sozinho, ele é convidado a entrar num Peugeot antigo, indo parar numa festa. Na verdade, aquela carruagem de rodas sem cavalos, o conduz de volta à Paris dos anos de 1920, onde irá encontrar com personagens ilustres e pelos quais admirava: Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Cole Porter, Salvador Dali, Scott Fitzgerald... Ainda foi agraciado por conhecer Adriana, a sedutora mulher – uma ilustre desconhecida –, por quem ficou apaixonado. Mas, qual a mensagem do filme?
Esperei quase o final do filme para decifrar, ou perceber a mais clara das mensagens que surdiu. Pode haver uma obsessão, mas nunca poderemos dizer que as melhores coisas da vida ficaram no passado, que vivemos ou não (imaginamos). No passado que voltarmos, outras pessoas que lá vivem, também acharão outros passados melhores - foi meu insight. Ele queria se auto afirmar sobre o que escrevia, dando seus manuscritos a esses personagens, com o intuito de receber elogios e confirmação do grande escritor que deseja ser - justificando suas viagens noturnas. Para ensejar sua aventura, ele se ajeita mesmo é com Gabrielle, a moça que vendia disco vinil na praça; e tal, como ele, não se importava em tomar chuva. Fica a dúvida, se ela era do seu presente, ou veio do futuro para encontrar e amar o grande escritor: Gil Pender.
Já faz tempo, tenho trocado o hábito de ver TV por ouvir rádio, quando me levanto. Gosto de acordar e começar o dia com café e notícia. O rádio ainda é uma companhia e continua a encantar; percebi que ele faz nossa imaginação fluir, penso com ele e personifico as vozes que ouço. No dia, vejo garis que trabalham solitariamente varrendo as ruas e os parques da cidade com o radinho no bolso do macacão – a espantar solidão. A locução do futebol pelo rádio é inigualável, dinâmica e emocionante. O mesmo jogo que vemos pela TV, só tem graça se for completado pelo som do rádio. Como os mais antigos diziam da locução de futebol, o jogo é irradiado. Deduzo, então, que o rádio não é do presente, vem do passado; daquele que não deixamos morrer; daquele passado que sobreviveu ao mundo carregado de mudanças e outros meios mais velozes de comunicação. Como nem a TV - o rádio com imagem -, colocou o rádio no passado distante – obsoleto –, então, nada mais irá substituir o prazer que suas ondas criaram em nós.
Antes da chegada da televisão em nossos lares, era pelo rádio que nossos antepassados adoçavam sonhos e ilusões. Dou minha explicação para o time do Flamengo ter a maior torcida do Brasil: a rádio Nacional era a única rádio que transmitia para o Brasil todo – década de 1940 – e irradiava somente os jogos do campeonato carioca. Junto vinham as notícias, radionovelas e programas de humor.
A rádio Mayrink Veiga – RJ foi precursora do melhor programa humorístico das décadas de 1940 até 1960. Está no anuário de 1950: naquela época, a rádio Nacional detinha as maiores estrelas do rádio como Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas, Emilinha Borba; entre os dez melhores programas, nove eram exibidos pela Nacional, mas somente um programa era da rádio Mayrink Veiga – o humorístico PRK-30 -; com o prefixo de uma emissora "de ondas longas e compridas, curtas e encolhidas". O maior show de humor já feito no rádio no Brasil estreou nas ondas da rádio carioca em outubro de 1944. Para muitos, o maior programa de rádio já feito até hoje. Sendo disputado por outras emissoras, passou, posteriormente, para a rádio Tupi-RJ, de Assis Chateaubriand, até findar em 1964. Foram exatos vinte anos de PRK-30 e de muitas gargalhadas no ar.
Lauro Borges e Castro Barbosa
Tive oportunidade agora de conhecer e ouvir as célebres piadas criadas pelos seus apresentadores Lauro Borges e Castro Barbosa. Tudo ainda muito hilário, cheio de deboche, irreverência, improviso e criatividade. Lauro Borges criou 28 personagens ao longo de sua carreira no rádio. É fato, muitos dos humoristas que hoje conhecemos pela TV, como Chico Anísio, fizeram escola ouvindo PRK-30.
O rádio os imortalizou, como aqueles anos de ouro. Depois, com a chegada da TV, eles foram parar nas emissoras da época e aquela coisa do rádio, da imaginação se perdeu. Lauro Borges se suicidou em 1967, quando descobriu um câncer; Castro Barbosa faleceu em 1975. O humor deve ainda muito a eles. Se pudesse, viveria aquela época, só para ouvir PRK-30, como uma volta no tempo: "Bléim! Ao oubir esta suabe gongada, entra no ar, como se fosse uma barbuletinha dourada a PRK-30!...”.
Entrei num Peugeot antigo agora também, eu sei, mas foi bom...
Voltando a Woody Allen, ele dirigiu outro filme que se chamava “A era do rádio”, mas é só coincidência com o que acabo de narrar. Tudo o que nos faz melhor hoje (não somos frutos de nós mesmos), vem dessa raiz do passado que, por vezes, nos incita a voltar com os olhos e ouvidos mais atentos a tudo que nos trouxe até aqui; e assim podermos ser mais puros, essenciais, compreensivos com o presente e esperançosos com o futuro. Como o personagem do filme, podemos achar que tudo e todos eram realmente melhores no passado; até descobrir que outros viajantes do tempo pensam como nós. Não há nada de errado com a linha do tempo, certo com as lições que trazemos para a vida.
Era como um livro de Ernest Hemingway; poderia ser como um quadro de Picasso, ou como um filme de Luís Buñuel, ou quem sabe, uma música de Cole Porter; mas era a PRK-30, uma obra de arte que o rádio eternizou, sem tempo de padecer. Por noites, não me deixa dormir ou embalam involuntariamente meu sono, até me levar a dar boas gargalhadas pelo canal do inconsciente, dormindo. PRK-30 veio até mim pelo dial do passado, e é tudo de bom!
Nas ondas da rádio Bandeirantes-Am (SP) 840mhz, há um programa de madrugada que se chama "Memória". Trata-se de um programa que conta a história do rádio no Brasil, trazendo muitos programas e personagens que marcaram a época de ouro do rádio. E como tem história para contar... Na política, nas artes, na cultura, na música é um acervo enorme. Quem tiver curiosidade e não está disposto ficar de madrugada ouvindo rádio (acha melhor dormir), os programas ficam disponíveis no portal da Rádio Bandeirantes. É só clicar aqui: Memória .
Antes da TV, era no rádio onde tudo acontecia. Com o nascimento da TV no Brasil, era de esperar que o rádio fosse acabar, ou ficar à mingua - com uma fatia menor de audiência. Isso não aconteceu aqui e nenhum país do mundo. O rádio sobreviveu a todos os demais meios modernos de comunicação que vieram depois.
Num desses programas de madrugada descobri que, o melhor programa humorístico da história do rádio se chamava PRK-30. Fiquei entusiasmado que, resolvi pesquisar mais e escrever o próximo texto para o Blog falando da PRK-30; numa volta ao passado, pelo dial do rádio. Confesso que dei boas gargalhadas com Lauro Borges e Castro Barbosa - protagonistas do programa. É um humor leve, sem apelação e de muita inteligência e improvisos.
O texto está quase pronto para postar. Aguardem.
SOM NO BLOG
Quem acessa o Blog agora, percebe que há um tocador, ou player de música, no canto direito acima. Estou ainda em teste com a novidade. Apanhando, pois algumas músicas não tocam e outras sim. Pelos menos a nova música do Chico Buarque – a que mais gosto – toca na íntegra: “Se eu soubesse”.
O mundo está de TPM. Ou, como cantava aquele transeunte na rua “O mundo está ao contrário e ninguém reparou". A TPM — da miséria nacional — tomou conta do nosso cotidiano. Meninas fiquem felizes, o que antes era uma chatice somente do staff feminino, agora virou aborrecimento geral. Bem, como homens não menstruam, sobrou-lhe o pior: a irritação com tudo que lhe afeta no metro quadrado a sua volta. O que antes era um evento feminino, agora virou epidemia nacional! Fulano matou cicrano porque era gay, exemplo de TPM. Vamos absolver o indivíduo, ele é filho de deputado — outro exemplo. Estamos diante de um fenômeno que, pela intolerância, cometem-se crimes: açoitam, violentam e matam. Nada de preconceito, ou marcha disso e daquilo, somente as leis já bastariam.
Como remédio, instituíram a pregação do “seja politicamente correto”; censurando e repudiando os incorretos. No campo do livre arbítrio — onde estabelecem os regimes democráticos —, não se pode dizer e escrever mais nada sobre nada. Alguém ou algum grupelho, com TPM compulsiva, irá gritar: você ofendeu a mim e minha classe, por isso vou te processar! Acabou o humor! Acabou a livre opinião, o livre pensar... Tudo virou homofóbico e preconceituoso. Não podemos opinar sobre o que se passa em nossa cabeça. Nem para dizer nossas verdades sobre as unanimidades nacionais (todas elas são burras, diria Nelson Rodrigues). Claro, você só poderá opinar, sim, se for para ridicularizar (até ofender) aquele que está a sua direita; já o que estiver à esquerda, aí é preconceito.
O artigo quinto da Constituição Brasileira — muitas vezes esquecido — diz: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Poderíamos parar por aí e cortar o mal pela raiz, baixando as leis contra os crimes de qualquer natureza. Mas não! Eles incitam a manifestar em favor desses grupos, agora organizados — alegando ser do “bem” — em favor do ladismo político que os servem. Pegar na mão daquele grupo, para dizer aos microfones: "esse pobre foi ofendido por um humorista que fez anedotas preconceituosas!" Por outro lado, o chargista que se transforma em mulher para protestar, a favor desse mesmo grupo, é louvado e levado para frente das câmeras de TV. Cabe dizer, um oportunista de marca maior. O mundo está ao contrário e ninguém reparou mesmo.
Em suma, querem mesmo é fatiar a sociedade por seus credos, cor de pele e opção sexual. Disseminando mais o ódio. Não bastavam as leis? Assim, cada qual irá sobressair individualmente a sua maneira e ganhar um pouco de holofote nos meios de comunicação; depois será usado politicamente por este ou aquele vigilante político. Assim também, ninguém irá se unir — numa causa única —, também em praça pública, para extirpar aquele político corrupto, que diz estar ao seu lado. Quando menos organizado a sociedade; melhor para seus fins. O restante, aquilo que se chama povo, este não diz nada, foi privatizado e permanecerá calado planejando seu próximo final de semana onde poderá ser feliz na praia.
Saibam estes grupelhos — como gados no curral — que, nenhum desses que dizem defendê-los, fariam se não houvesse, como objetivo de seus interesses, a política. Ninguém quer uma sociedade justa e igualitária, senão, não rasgariam a Constituição do país. Do outro lado, aquele que se posiciona como vítima, ficará bem quisto perante uma parcela da opinião pública, vendendo uma imagem do bonzinho excluído; ou alguém irá defender uma pessoa única por ter sido molestada por preconceito de ser heterossexual? O chique é se posicionar ao lado de quem faz bem o papel de vítima social. Tolos!
Você idolatra alguém? Se for sim sua resposta, você já tem a minha repulsa. Detesto a forma como algumas pessoas se dirigem a alguém que, por sua obra, admiram. Não visto camiseta estampada com alguns desses que julgam estar acima de qualquer pecado; os sacralizados, como já disse o músico Lobão. A única camisa que visto, às vezes, é do meu time de coração e outra dos Beatles. Agora, não uso para fazer apologia das minhas preferências. Mas, o idólatra, julga seus escolhidos acima mesmo do pecado. Tudo que fazem ou já fizeram essas “divindades” é o que mundo precisa, é o melhor que podemos seguir. Cito, por exemplo, Che Guevara. Na minha adolescência fui conduzindo, como quase toda minha geração, a seguir os passos desse facínora que, parte do mundo resolveu colocá-lo no altar, ao lado de muitos santos cristãos — estes de verdade. Uma grande tolice, que as pessoas vão pregando por aí e adotando como referência universal. Não sigo ninguém. Admiro as pessoas comuns, aquelas que pecam, mas sempre tentam acertar seu torto caminho e são anônimas.
O que reina no mundo? Os interesses pessoais, financeiros e políticos. Como se diz, “não existe almoço e jantar de graça”. Você pagará ou já pagou por este almoço. Não sonhe caro leitor! Ninguém irá dizer: estou lhe fazendo este bem por que gosto da sua amizade, do seu bairro, da sua gente; ou simplesmente para retribuir algo que você fez de bem ao seu próximo. Há sempre um interesse maior e político por qualquer relação que se estabeleça nessa esteira. Alguém irá lembrar: antes já não era assim? Era, mas não tão escancarado. Hoje acabou a hipocrisia. Estamos chegando ao fim das relações por amor e paixão e fazendo somente negócios e contratos. Enquanto isso, a ladroagem, a gatunagem virou algo corriqueiro que, não enxergamos mais crimes onde só existem crimes.
No texto “Criar e Educar”, toquei de leve no tema, mas o mal social está na intolerância. Estamos cada vez mais intolerantes uns com os outros e com quem deveríamos reivindicar, omitimos. As nossas relações interpessoais estão por se esfacelar. Está claro como não há tolerância, cada vez mais nos encurralamos num mundo solitário, como um fone no ouvido. E quando querem nos ensinar como agir contra o mal, ao contrário, somos induzidos a não tolerar mais ainda as pessoas, por suas opções religiosas, sexuais e políticas. Que tal pregar o amor ao próximo?
Como caminhamos, no futuro, a sociedade e a família estarão cada vez mais minguadas — seres isolados. Não por que teremos menos dinheiro para criar filhos e formar famílias, mas para que esses filhos nãos caiam nas mãos de governantes que, pensa que possam criá-los por nós. Querem dizer como devo me dirigir ao ser humano que tropeço na rua, ou que sejamos politicamente corretos, ao se dirigir a quem quer que seja. Sejamos só respeitosos uns com os outros — ponto final.
Contra qualquer intolerância, prego a tolerância zero! É insuportável esta miscigenação; o sangue que corre na veia tem a mesma cor em qualquer ser humano. Tratar com acinte um grupo organizado, ou agredir um único indivíduo comum tem o mesmo teor da intolerância a ser extirpada. Mas, longe com a censura em meu pensamento.
Cronistas leem outros cronistas para poder se inspirar, ou tirar água da pedra, quando a fonte seca – dar ânimo. Não dá para viver de inspiração a todo o momento; muitas vezes vamos buscar no cotidiano, nos livros, nos filmes e na vida alheia; ou simplesmente nos deparamos com algo em nosso caminho que nos faz pensar mais profundamente na vida. Os objetos, os retratos, as lembranças, em tudo podemos encontrar almas desgarradas e assim desfragmentar as palavras ocultas. Aquelas que só o coração sabe entender.
Perdi um irmão recentemente. Foi dolorido, da lembrança da convivência e agora sem sua presença abriu-se um vazio. Algo que não se preenche com mais nada, só a saudade, ainda doída. Aquela pessoa que nos dávamos e por muitas vezes conversámos tolices cotidianas, agora partiu. Não haverá mais a conversa dos olhos; tudo virou oração.
Minha diferença de idade para ele era 08 anos. Quando era eu criança ele me levava para todos os lados que podia. Lembro-me de uma cena quando ele pediu para minha mãe deixar andar com ele num brinquedo em um parque de diversões; o brinquedo não era para minha idade, mas ele me colocaria no colo, me protegeria. Acho que minha mãe não deixou, pois não me vem a cena dele me segurando. Era caridoso, tinha alma boa, alternando entre o semblante fechado e o riso fácil quando queria.
Tive a primeira experiência de trabalho por intermédio dele. Era ele quem me pagava um pequeno salário, para manter nosso quarto de dormir arrumado e limpo - para mesada não sair de graça. Eu fazia isso todos os dias quando chegava da escola, e quando terminava ia ouvir os discos que tínhamos em casa. Todo final de mês ele me pagava uma quantia, que dava para o lanche na padaria.
Foi nesta época que ele comprou um chevette azul – outro dia me confundi e disse que era verde. Ele vivia lustrando o carro, lavando e encerando - seu primeiro patrimônio. Não sei por que, mas o carro era apelidado carinhosamente por ele de “avião”. Presumo que seja, porque não havia limites em seus rumos e viagens. Com ele íamos para roça pescar, íamos ao estádio ver jogo de futebol e para onde quisesse. Tenho uma lembrança nítida, dele lavando o carro todo final de semana em frente ao nosso portão. A lembrança desse carro me veio nesses dias após sua partida e trouxe-me aqui a saudade que descrevo nessas curtas palavras que lhe rendo. Estas que brotam do coração.
Nesses dias, ainda tragado pela dor, entre muitos abraços que recebi, veio uma frase que guardei, e de certa forma, abreviou um pouco meu sofrimento e de todos os seus queridos que ficaram: “As pessoas não morrem, elas apenas vão à nossa frente, abrindo o caminho”. O avião azul, agora encontrou o seu dono, num voo infinito, no mais longínquo céu...
Enquanto ateava fogo à lareira, o bondoso corretor de imóveis narrava uma pequena história à Frances:
“Senhora, entre a Áustria e a Itália há uma parte nos Alpes chamada Semmering. É uma região de montanhas muito íngreme e alta. Assentaram os trilhos nessa parte dos Alpes para ligar Viena e Veneza. Assentaram os trilhos antes mesmo que houvesse trem para percorrer o trajeto. Construíram porque sabiam que um dia o trem chegaria”.
De Viena à Veneza são 420 quilômetros, Semmering está no meio do caminho, com suas montanhas quase intransponíveis e belas paisagens – uma estância turística. O tramo ferroviário de Semmering possui 41 quilômetros de longitude e foi declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO, em 1998. De fato, era ousado desbravar esta região montanhosa. Aquele corretor sabia o que estava dizendo ou ele tinha boas razões para afirmar que não devemos nos preocupar com a vida e seus “porquês”; tenham sonhos e assentem os trilhos, o trem um dia vai chegar.
O universo conspira com nossos pensamentos, aspirações e ações; abrindo trincheiras, construindo pontes e caminhos. Chegará o dia em que iremos atravessar por eles e perceber que nada foi em vão, valeu ter lutado. Perguntas sem respostas, distâncias percorridas, vidas doadas — tenhamos paciência e deixemo-nos seguir. Pode ser que tudo mude no meio do caminho, mas haverá sempre uma vida a nos esperar. Apontemos o horizonte como uma seta; conheçamos bem a região, as matas e as montanhas que iremos desbravar; carreguemos chulipas nos ombros e as assentemos; depois sobre elas, os trilhos — bem fixos. Um dia chegará a hora de o trem passar.
Na minha profissão, sou encarregado em planejar. Poucos administradores públicos dão importância a essa questão; não há resultado imediato em curto prazo, há que se debruçar sobre os mapas, sonhar e acreditar. Vivemos a planejar a cidade que queremos no futuro. Aqui haverá uma ponte, um viaduto, uma estrada, uma estação, uma praça para descansar... Não sei quando, mas terá. Talvez não viva o suficiente para ver, mas gosto de imaginar as coisas longínquas, futuras. A quem servirá minhas ideias? Difícil dizer. Eu também me beneficio de um mundo onde meus antepassados também traçaram. Eles também pensaram em mim.
Vasculhando minha infância, no caminho da escola, eu avistava todos os dias uma casa exótica de três andares. Cada metro de fachada era uma miscelânea de peças estampadas — sem arquitetura. Meus coleguinhas da época, diziam que o proprietário, construía essa casa há mais de 20 anos, sozinho. Ficava curioso com o que deveria haver lá dentro; ao mesmo tempo, entender da sua paciência em assentar tijolo por tijolo. Ele não teve pressa, sabia esperar a hora, um dia entraria na casa.
No meu primeiro dia, pela janela do ônibus, via a luz do dia ser sugada pela noite que caía naquela serra de luar. Algo me sufocou, era outra cidade, era um desafio nos meus 20 e poucos anos. Pensei: hoje é só o primeiro dia de cinco anos que tenho que cumprir; viajar, aprender, recomeçar, fazer novas amizades, me relacionar; um sacrifício, como se toda a vida findasse ali. E depois? Será que vou suportar? Será compensador? É isso que quero para minha vida? Perguntas e perguntas, enquanto olhava a estrada. Na primeira aula de introdução à arquitetura, o professor também nos encurralou: Vocês querem mesmo a arquitetura, sabendo que terão que ralar muito osso para serem bem remunerados? Houve um silêncio sepulcral na sala de aula. Não me abati e enfrentei. Os cinco anos se passaram como um vendaval que se aplacou; e já faz 20 anos da minha graduação na faculdade de arquitetura. Amizades construídas, obras projetadas. Tudo passou como tudo também ficou guardado.
Há dias em que acordamos inquirindo à vida. O que estou fazendo aqui? Como vim parar nessa cidade? O que me trouxe aqui? O que farei daqui em diante? Onde me levará essa estrada? Por não encontrarmos a resposta imediata (is blowing in the wind), achamos que estamos diante de um abismo e o fim será a sua queda; e viver será a angústia pelo desconhecido, ou sua grande aventura. E com isso vem o medo de viver, de pisar. Ou devemos voltar ao ponto inicial? Não dá mais.
Há mistérios demais na vida e quase todas as respostas estão pairando no vento, como já disse Bob Dylan. Vale, então, o olhar da paciência, da esperança e da fé; compreender e aceitar os caminhos que iremos percorrer e viver sem ter muitos questionamentos quando as portas se abrem (ou se fecham). Há momentos únicos e de encontros; onde os sonhos se concretizam; onde as vidas se juntam e ruas se cruzam; a noite vira dia, o mar encontra a terra; onde os enigmas se decifram (sentem) de uma forma ou outra. Faz-se luz, onde parecia haver só o breu. Ou, como disse a mulher árabe: maktub — está tudo escrito; está tudo traçado na palma da mão, ou nas estrelas...
O que buscamos? Por que caminhamos? Se for felicidade o que ansiamos, não tenhamos dúvidas quando encontrar. Se for o amor, saibamos reconhecer suas nuances, feições e sinais. Pode ser que ele já esteja ao nosso lado, e o desprezemos. Se não soubermos o que almejamos, quando encontrar, também não reconheceremos. Não há busca sem razão. Se não soubermos o que buscamos, poderemos nos deparar também com o que deveríamos desprezar.
Semmering era um obstáculo natural e o trecho dos trilhos tinha muitas razões para existir: ligar duas cidades, dois países, duas culturas, dois povos. Não havia um sentido qualquer, desprezível. Era justificável, que se fizesse os trilhos antes da chegada dos trens. Quem planejou, foi alvissareiro, um visionário, sem medo do erro e do futuro. Na hora certa, o trem chegou e tornou aquela paisagem à vista dos olhares e contemplativa por muitos turistas. Viena se ligou à Veneza pelos trilhos das montanhas quase intransponíveis. Isso é louvável.
Ah, a história inicial do corretor de imóveis é do livro/filme “Sob o sol da Toscana” (Under the Tuscan Sun) — 2003. No filme, dá para fazer uma viagem pela Toscana, com toda sua exuberância; ainda há a graciosidade de Diane Lane. Mas, agora eu fiquei com vontade mesmo de deslizar pelos trilhos de Semmering — as montanhas. A que horas passará o trem?
A encomenda não chegou, mas o gostoso, o mais doce é a espera, quanto tudo nos surpreende. O lado bom da surpresa é nos despertar do mal-estar e nos pôr de volta à vida — em forma de resgate. Hoje o mundo virtual — das compras online — nos dá esta satisfação. Compras pela internet são assim: você compra e paga, depois espera chegar, até exaurir a paciência do porteiro do seu prédio de tanto perguntar: chegou algo para mim? Antes, quando um disco novo saia, íamos à loja e comprávamos; a curiosidade e a surpresa acabavam até chegarmos em casa abrirmos a embalagem e pôr na agulha para tocar. Foi assim quando adquiri meus discos, nos tempos dos long playing. Hoje, atormentamos ao porteiro tarde da noite, até ele, impaciente, dizer: "Senhor, nesta hora não entrega mais SEDEX...". Vamos dormir na incompletude, e botando a culpa no pobre.
Gosto de surpreender com coisas e notícias boas (quem dá notícia ruim é o Zé velório). Quem tem esta prática, se delicia com os olhos de quem recebe. Não precisa haver troca; tudo já foi retribuído no olhar que brilhou ao ver a caixa de presente, ou a faixa de pano estirada na esquina da casa dela, ou por ler um simples e-mail. E o melhor do mundo é quando tudo vem, aparentemente, do nada; digo, sem data de aniversário, ou nenhuma data comemorativa; simplesmente pelo gesto, ou porque precisava dizer aquelas doces palavras. Conheço pessoas que gostam mais de dar do que receber presentes.
Cesta de café da manhã é algo que já recebi. Gostei muito. Primeiro, porque estava apaixonado e depois porque curto uma mesa com café, sem hora para levantar dali. Mas, já tive outra surpresa que recebi mal. Uma vez recebi um buquê de flores. Quem deu fez com boa intenção e paixão, mas minha cara não negou que não gostei. Ela até se irritou e com razão. Eu era imaturo, por não saber que seu gesto foi grandioso; e ela não era obrigada a saber que muitos homens se sentem desconfortáveis, ou diminuídos na sua masculinidade, quando recebem flores. Homens nem têm jeito com flores. Mas, para mim, naquele momento, era: homens não recebem flores. Fui grosseiro na cara, depois me arrependi. Se ela me desse uma bola de futebol, iria gostar mais, com certeza. Depois, pensei: acho que gosto mais de surpreender do que ser surpreendido.
Para os consumistas, vai uma dica: é melhor fugir das compras online e principalmente das compras coletivas. Ponha tais e-mails para cair diretamente na lixeira. Surpreender a si mesmo, às vezes vicia. Surpreenda, então, quem você ama. Assim, poderá fazer nas vezes quando o amor te sufocar.
Era tarde de um domingo ensolarado de outono, 01 de junho de 1980, o Flamengo e Atlético-MG se encontravam para decidir o título do campeonato brasileiro daquele ano. Mesmo sendo torcedor do Palestra, minha torcida naquela final era para o Atlético, ou melhor, eu era ReinaldoFC. Reinaldo era meu ídolo, incontestável. Nas peladas de rua, eu sempre usava seu nome (em vão) para as minhas jogadas de mestre; imitando seu gesto a cada gol que marcava. “Rei” era o Tostão do Atlético e quando parava com o punho fechado para cima, não dava outra, o goleiro estava estirado na grama — era mais um gol de Reinaldo. Mais tarde, descobri que esse gesto comunista, era na verdade um protesto contra o regime militar, que o Brasil vivia seus últimos capítulos. O Atlético perdeu o título ou o Flamengo ganhou por 3 a 2, pouco importava, pois para mim, Reinaldo tinha dado seu show, até o árbitro tê-lo expulso de campo.
Três anos mais tarde, em 1983, o Flamengo decidia novamente o título, agora contra o Santos. A final foi dia 29 de maio e novamente vitória do Mengão de Zico e Cia. Nesse domingo, quiçá, fosse mais um dia de futebol, macarronada com frango, casa cheia e com as torcidas para os dois lados. Naquele dia, a movimentação à tarde em nossa casa, tinha outro motivo e sabor; tínhamos a missão de ensaiar a música para a final do festival, e compensar o fracasso da nossa torcida na primeira noite do V FECAP — Festival da Canção Peregrina. Mesmo intuindo, que os jurados ficaram comovidos com nossa música na sexta-feira, nossa torcida foi um fiasco; muito dispersa, um tanto atrapalhada e desorganizada para os moldes daquele festival, que premiava também a melhor torcida. A família, os amigos, todos se somavam na sala, no corredor a picar papéis e enchendo sacos de plástico – tudo para a noite da grande final. Havia uma sensação no ar que os deuses da música olhavam para aquela casa naquela tarde. Eu sentia isso.
Quando a noite chegou, seguimos para o ginásio, uns de carro, mas a maioria num ônibus fretado. Um tremor acometeu em meu peito — quase incontido. Atônito, aceitava todos os drinques que me ofereciam. Era preciso relaxar, para não errar nenhuma nota da flauta doce que introduzia a música. No sorteio, para ordem das apresentações, nossa música era a última das dez classificadas. Isso era bom sinal, já com o público aquecido e esfuziante. Em compensação, a espera era pungente.
Após assistir impaciente as nove concorrentes, chegava, por fim, nossa vez. De camisetas vermelhas com estampas brancas, subimos ao palco em dez para defendê-la. O Plantador da Paz (de Claudinho e Gajão) tinha uma letra com tema social: ”Fazer valer a força da paz, que eu pensei nunca ser capaz de alcançar/e refleti como se fosse um farol/ no seio do povo/como um brilho do sol”. Era uma música de festival, daquelas, cujo refrão, evocava o público a cantar junto. Contagiou o ginásio todo. Quando descemos do palco, tivemos a certeza que demos o melhor de nós; agora, isso se concretizaria em vitória? Era uma fantasia, não dependia de nossos esforços mais.
Com os jurados reunidos, ficamos apreensivos, imaginando que poderíamos ficar pelo menos entre as três primeiras, era justo. Quando, finalmente, as músicas começaram a ser anunciadas uma a uma, eu murmurava baixinho ao lado do palco: “agora somos nós”, e não era. Minha sofreguidão se desmilinguiu, quando o apresentador nos anunciou como vencedores daquela noite; aquele festival, onde entramos como meros coadjuvantes, sem intenção nenhuma em vencer. Foi a glória.
Saímos de lá consagrados e mais amigos do que nunca. Após os abraços da vitória, lembrei-me, naquele instante, de meu ídolo do futebol e repeti novamente o gesto de Reinaldo. Levantei o punho fechado para gritar aquele que seria o melhor gol da minha linda juventude. Foi um salto para o céu, daquela juventude que cantava e plantava a paz com suas músicas recheadas de amor e intimismo. Nossa linda juventude viveu naquela noite o seu êxtase. Para mim, o dia mais feliz daqueles vinte anos. Se comparada, uma sensação como as vividas, na década de 60, por Edu Lobo, Chico, Vandré e outros no palco do Teatro Paramount. Nossa canção não vinha de encontro aos padrões daquele festival, mas era, sim, a melhor.
Formamos ali uma família, na música, na amizade e demos o nome de Clube da Esquina nº3. Passados 28 anos, ainda tenho aquele domingo guardado na minha memória, e uma frase que o meu irmão escreveu, parece ainda grafitada no muro da esquina da rua, onde nos encontrávamos para tocar violão: “Enquanto existir neste mundo qualquer tipo de violência, sempre haverá em qualquer esquina do mundo, uma juventude cantando todo tipo de paz”. Nunca me esquecerei da nossa linda juventude, agora marcada e grafitada para sempre no muro branco da minha alma. Daquela noite, ficou o registro de uma fotografia, que alguém cuidou em guardar, o resto são memórias de uma noite em 83.
Abri meu baú de memórias e revivi - tirando o pó - um dia dos meus 20 anos. Uma noite de alegria, que passei ao lado de meus amigos da época. Gosto de abrir baús, mas lamento pelas cartas de amor que rasguei ou devolvi à emissária, nos meus momentos de fúria. Lembro-me de uma que recebi nessa época dos 20 anos, veio de Minas. Depois do fim, levei-a até o quintal e pus fogo. Hoje, lamento não ter guardado, faz parte da minha história; agora não sei mais com que palavras eu fui tratado; se era tinta azul ou preta; qual a data; que cheiro tinha (cartas de amor tem cheiro); nem se havia um beijo com batom no final; e se terminava com P.S I love you.
Mas meu baú de memórias, anda cheio de coisas, boas e ruins. Enquanto tomo meu chocolate quente (ouvindo Samba em Prelúdio), olho a neblina dessa manhã de sábado e vem muito das lembranças da vida, do trem da minha história. A propósito, um trem será tema de uma próxima crônica, que já pincelei. Acho que não se deve olhar para o passado com tristeza, mas como lições. Sou contrário ao emprego daquela frase "era feliz e não sabia". Na verdade, sabia sim! Todos os momentos da vida que vivemos felizes, nós sabemos, não temos é coragem de assumir a felicidade presente. Medo de dizer e acabar.
O próximo texto aqui do Blog, falarei de "Uma noite em 83". De fato, eu já havia feito essa minuta de crônica , com algumas palavras lançadas no papel em branco - nada conclusivo. Agora, retomei a conversa e pus as mãos na poeira do meu baú. Saiu uma cronicazinha boa. O título é alusivo ao filme "Uma noite em 67" - a noite que mudou a nossa música popular. Quem quiser ver o filme documentário, assista. Só faço uma ressalva, pois o DVD, deixou Elis Regina, Nara Leão e Sidney Miller nos extras. Uma pena.
Bem, meu chocolate está esfriando e a neblina se dissipando. Hoje será um dia feliz e com sol para uma caminhada no parque, e com coragem para dizer: EU SOU FELIZ HOJE!
Durante uma noite, quando navegava pela rede, descobri – sem querer - um texto escrito três dias depois da morte de Marilyn Monroe (a pronuncia certa é “monrôu”). Essa crônica, intitulada apenas “MARILYN”, foi publicada no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 08 de Agosto de 1962 (ela morreu dia 5). Seu autor é o cronista José Carlos Oliveira. Desconheço seus textos, mas este vem bem de encontro ao que escrevi sobre ela. O mito, a mulher, a sensual Marilyn Monroe.
MARILYN
Antes de mais nada era um corpo, não há dúvida. Um corpo tremendamente perturbador. Um corpo de formas opulentas, sempre na fronteira da obesidade: corpo de mulher-fêmea, acrescido de um defeito particularmente feliz nos joelhos: quando ela andava, só pensava em sexo, sexo, sexo. A pele clara e roliça descia vertiginosamente pelos decotes, deixando entrever a totalidade do corpo envolto em roupas colantes, e então ninguém mais pensava em outra coisa que não fosse sexo. Mas era, além disso, um sorriso maravilhoso, ao mais belo sorriso que jamais houve. Quando Marilyn sorria, a perturbação do espectador aumentava. Ela sorria com a língua entre os dentes – dengosa, maliciosa, pura dádiva. Era a feminilidade em pessoa. A alegria em pessoa.
Ela não teve infância. Nem pai, nem mãe, nem família. Cresceu como enjeitada em sucessivos lares. Não há motivo para atribuir à publicidade a informação obtida no momento supremo da glória: - violaram-na aos sei anos de idade. Há um detalhe praticamente infalível na biografia dessas deusas da beleza, sejam atrizes ou call-girls, de acordo com o inquérito e com os depoimentos de psiquiatras: - nos Estados Unidos, a violação de meninas bonitas ocorre com a assustadora frequência. Humbert Humbert, atormentado pelo encanto da nymphets, não é apenas um momento privilegiado do romance moderno, mas a revelação de um desejo que está presente na aventura íntima do cidadão norte-americano, desejo ara o qual Lolyta provavelmente representa um veículo liberatório eficaz.
Marilyn encontrou na história do cinema pela porta do menor esforço, isto é, tão logo descobriram que tinha corpo. E tão logo decidiu revelar-se na totalidade sua pessoa, isto é, corpo e espírito, sensualidade e tormento, ânsia de felicidade e desconforto no pináculo da fama – humana, frágil, sedenta de afeto, incompreendida e solitária – então, foi deixada em paz. Naquela paz desconfortável, naquela pobreza profunda da vida rodeada de riqueza e mentira. Mas eu pensei muitas vezes que o ser humano é indestrutível, porque toda a vergonha daquela infância e, mais tarde, o selvagem mecanismo que cria e devora os ídolos modernos, nada disso conseguira destruir o maravilhoso e inesquecível sorriso de Marilyn. Agora vejo que estava enganado.
Por José Carlos Oliveira
Jornal do Brasil – 08 de agosto de 1962
Sobre o autor:
José Carlos Oliveira (Vitória, 18 de agosto de 1934 - Vitória, 13 de abril de 1986) foi um escritor brasileiro. Celebrizando-se por suas colaborações diárias no Jornal do Brasil para onde escreveu por mais de duas décadas, tornou-se um dos grandes cronistas brasileiros do século XX, mas praticou também o romance e o memorialismo.
Quando pensei em escrever essas linhas, era
pretenso que o texto fosse jocoso, cômico; pinçadas textuais como referência às
comédias dos anos de 1950, protagonizadas e estreladas por Marilyn Monroe. Aos
poucos, enquanto mergulhava em sua vida, aparecia mais e mais a sua verdadeira
silhueta: medos, perturbações, insegurança, frustrações, vozes, dualidade e as
buscas (sem remédio) para uma mente doentia. Percebi a seriedade que
deveria tratar a pessoa, e, consequentemente, o mito que desejava descrever.
Já faz alguns meses ganhei de uma amiga o livro
“1001 filmes para ver antes de morrer”. Para cinéfilos, um belo presente, um
livro de consulta e profícuo. Se conseguir ver a metade dos filmes ali
recomendados, já estarei satisfeito. O livro seria perfeito — minha amiga vai
brigar comigo —, se não faltasse um filme. Cadê, senhor editor, “O pecado
mora ao lado”? Você esqueceu! Você não gosta de Marilyn? Já sei! Como todas
as outras mulheres feias e desprovidas de “sex appeal”, sua mulher o
proibiu da recomendação do filme. Despeito, Marilyn ainda vive e continua
causando com ou sem a inveja de sua mulher. Mas, pode dizer que não há
mais nada além de Marilyn naquela comediazinha sem tempero; aceito, afinal o
que mais precisaria aparecer naquele filme do que a figura de um mito. E
maravilhosamente linda.
Verdade mesmo, ele não se esqueceu dela, esqueceu só
do filme. No livro, cita o filme “Quanto Mais Quente Melhor” — 1959, também
estrelado por Marilyn, mas a cena ali foi roubada pela interpretação de Tony
Curtis e Jack Lemmon fazendo papéis femininos. Mas, em “O pecado mora ao
lado” (The seven year Itch) é todo de Marilyn. O título do filme é
justificado pelo que ela representa: a encarnação do próprio pecado.
Frequentemente flertamos com o pecado em nossa vida, mas abolimos a sua
pregação e juramos não mais cometer (eu juro!). “O pecado é que dá
tesão e não a liberdade sexual” — disse Luiz Felipe Pondé. Marilyn é sua
própria encarnação na Terra. Olhar, desejar, pensar em Marilyn é pecar
mortalmente.
Revendo o filme — sempre com os olhos mais atiçados
—, como se esquecer daquela cena imortal do vestido que se levanta ao vento da
grelha do metrô? (Sente a brisa do metrô. Não é uma delícia?) Qual
meninão (ou homem feito) não tenha tocado o chão com suas babas naquelas pernas
torneadas e a inocência da personagem tentando segurar a barra do vestido
plissado? Ela nem precisou tirar a roupa, aquela cena bastou todas as outras
provocantes já feitas no cinema. Seu marido na época, Joe DiMaggio, quase teve um
ataque quando acompanhou-a no set de filmagem; com a cena sendo repetida
mais de 15 vezes — mesmo sabendo que ela usava duas calcinhas, bem comportadas.
O casamento se ruiu após esse dia, ela pediu o divórcio por não aceitar
mais viver com um marido ciumento que a batia covardemente.
A cada repetição — e não me canso — de “O pecado
mora ao lado”, um centímetro a mais de seu vestido se levanta naquela cena;
Marilyn Monroe está cada vez melhor... Os argentinos dizem o mesmo
de Gardel: “está cantando como nunca”; Marilyn está cintilante, também,
como nunca. É a figura do mito, vivo, presente, imortalizado em nossas
memórias. No poema “Ulisses”, o poeta português Fernando Pessoa
descreve: “O mito é o nada que é tudo / O mesmo sol que abre os céus / É um
mito brilhante e mudo / O corpo de Deus, / vivo e desnudo”.
Os mitos atravessam os tempos, não morrem jamais.
Eternizam como águas nas fontes, jorrando sem parar. Ela é daquelas mulheres
que vieram ao mundo não para ser uma dona de casa, criar filhos, amar um só
homem e viver anônima. Aterrissou aqui para ser estrela, deusa, bela, blonde,
sensual, provocante, fonte infinita e inquieta de beleza... Suas curvas e
silhuetas são injustas às demais obras humanas já desenhadas, provocando um sentimento
ambíguo: se ama Marilyn, se odeia Marilyn — na mesma frase. Uma mulher arguta,
que faz qualquer ser humano sair de sua compostura, até os sem pecados... E vão
dizer que não precisa de talento para isso? A natureza a esculpiu como suas
melhores obras de arte, na forma mais perfeita e generosa. Assim, como nas
palavras que trago de Rubem Alves: “a alma não se cansa da beleza. A beleza
é aquilo que faz o corpo tremer”. Em outro trecho completa: “tive
vontade de chorar por causa da beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que
ficou arrepiado: a beleza se fez carne”
Marilyn é tudo que se pode se dizer de beleza na
inquietude do ser. Um altar contemplativo. Desculpem-me as magras (modelo de
beleza atual), mas ser Marilyn Monroe é essencial. Não há nela, a silhueta
retocada com foto shop, com lipoaspiração e plásticas antes dos clicks e
filmes — truques muitos utilizados hoje em dia. É possível notar, em algumas
cenas, que ela tem até uma barriguinha, bem sutil. É beleza mesmo, pura, sem as
máscaras tecnológicas de hoje, que escondem até o umbigo.
Marilyn nasceu Norma Jeane. Ainda bebê, nos
primeiros dias de vida, sua mãe Gladys Baker — sem condições psicológicas de
criá-la — entregou-a a um casal de desconhecidos. Mãe e avó sofriam dos mesmos
problemas. Contam que, sua avó fazia da gaveta da cômoda o seu berço. Infância
sofrida por muitas perdas e lares arruinados. Depois da morte da avó, a vida da
pequena Norma Jeane foi de casa em casa, até parar num orfanato. Durante um
curto tempo, foi obrigada a viver com sua mãe; uma mulher esquizofrênica,
psicótica e desequilibrada; tão doida — talvez mais — quanto o pai que nunca a
conheceu. Certa vez na infância, num momento raro de lucidez, sua mãe lhe
disse: morra na hora certa! (no auge). Ela obedeceu. Após ter vivido o seu
último romance, com John Kennedy, o presidente dos EUA, Marilyn morreu em
agosto de 1962, aos 36 anos de idade, de causa mortis ainda suspeita.
Ele também morreu um ano depois em Dallas-Texas, por tiros disparados por Lee
Oswald. Algum roteirista sádico poderia ter escrito que ele teve inveja do
presidente garanhão. Eu também teria.
No verdadeiro roteiro da vida, que a levou do
estrelato à morte, ela não soube lidar como os traumas da infância, com o
sucesso galopante, a fama, o sexo, os calmantes para dormir e não dormir, o
desejo dos homens por ela, seus casamentos e com a personagem que criaram para
Norma Jeane; se vendo escravizada por ela até sua última gota de sangue. “Os
homens não me veem, eles me olham” — disse ao seu psicanalista. Faltou-lhe
o quê? O berço necessário da infância, a estrutura familiar, o preparo
para uma carreira de sucesso, o amor das pessoas ao redor? Tudo, talvez, numa
vida curta, onde a única coisa que lhe sobrou, foi beleza em torrente. Ela até
tentou ser normal, mas sem sucesso, ela era Marilyn Monroe.
Depois do fim do casamento com Arthur Miller,
desabafou: “tentei melhorar um pouco, e quando consigo, descubro que estou
imitando eu mesma”. Pobre menina, ela só queria ter uma vida normal, casar,
ser mãe, ter família... Tudo que não teve. Por muitas vezes, dizia invejar as
pessoas de vida comum — se queixava à sua meia-irmã Berniece. Mas, foi tragada
pela fama, levada pelo glamour; subjugada pela personagem que mais soube
representar em sua vida: Marilyn Monroe. Nunca mais voltou a ser Norma
Jeane. Longe das teorias conspiratórias, foi roubo de vida mesmo; digo,
Marilyn Monroe, sequestrou, aniquilou, manteve em cativeiro e viciou Norma
Jeane até sua morte. Ela tentou matar Marilyn da sua vida; quem morreu foi Norma
Jeane, a vida real. Não há outro fato histórico que prove o contrário.
Nesse ensaio com Marilyn, descobri, com seu
hipnotizo que imanta meus olhares, o mais doce pecado. O que podemos fazer
mais com uma taça de champanhe e um saco de batata chips? Pecar com Marilyn, é
claro. (Não se preocupe. Está tudo bem. Um homem casado, ar-condicionado,
champanhe e batata chips. É uma festa maravilhosa...). Descobri depois, na
pele que cobria Norma Jeane, havia Marylin Monroe; e na sua tez todo pecado,
que convida a maltratar e açoitar quem se deixa levar por sua beleza
inquieta. Descobri, por fim — já numa forma de rendição —, que o pecado não
mora mais ao lado; o pecado, agora mora dentro de mim.
Muitas vezes sou chamado a explicar da minha não paternidade. Sim, as pessoas vivem a cobrar você disso e daquilo (já toquei no tema em outra crônica). Mulheres são cobradas e os homens também. Enfim, convivemos com isso. Neste assunto, não me importo em entrar (sem explicações Divinas...) e deixo que tudo se expire e se esvazie. Sinto-me como um ator que foi chamado para atuar num filme; estava no elenco, sabia o roteiro, decorei o script, mas na estreia, o projeto do filme foi cancelado. Continuo sabendo tudo do filme, mas não fui o ator que todos esperavam ver nas telas. Ser pai é, sem dúvida, uma das tarefas (papéis) mais difíceis; saber o script é obrigação, há que se ter preparação e dedicação. Principalmente no mundo em que vivemos, com suas fórmulas instantâneas para tudo e efêmero nas suas particularidades. É muito difícil educar, eu sei.
Içama Itiba é mestre em falar de assuntos de educação. Suas palestras começaram a brotar aqui e ali, e seus livros foram devorados por muitos pais, depois do caso Isabella Nardoni. Já foi o tempo, educar filhos era instintivo, como vestir um calçado ou andar para frente; passava de geração para geração, avós para pais, pais para filhos e filhos para filhos. Sem literatura ou fórmulas. Todo mundo respeitava todo mundo; e o mundo, creio, era bem melhor. Quando Oprah Winfrey perguntou à primeira dama dos EUA, Michelle Obama, como era a educação das filhas Sasha e Malia, ela foi imediata: “Não há nada de especial. Crio como meus pais me criaram: hora para desligar a tv, fazer as tarefas de casa e quando acordam, elas arrumam suas camas...”.Vindo de uma família que, pela posição de poder, teria todas as regalias do mundo para criar filhos, eis um belo exemplo. Michelle foi simplista ao lembrar-se da educação que obteve dos pais e quis resgatar. Quando ela palestrou aqui no Brasil, eu fiquei admirado com sua inteligência e carisma, agora mais ainda.
Não existe ditado mais antigo: a família é a célula (do lat. Cellula – estrutura básica que forma todos os indivíduos) da sociedade. As novas famílias estão perdendo a didática e a raiz; assim, mandam os filhos para escola, não para serem alfabetizados, mas pensando serem educados pelos professores. Delegam os primeiros passos de um indivíduo, na sua formação — onde tudo pode ser mudado ainda —, aos mestres. Esses, porém, não se veem obrigados a educar filhos dos outros. E aí veremos, tanto no ensino público como no particular, professores sendo ameaçados em sala de aula. Na minha formação, ninguém mandava filhos para escola, com o intuito que a pobre professorinha educasse o comportamento do fedelho. Tudo iniciava em casa.
Um jornalista me chamou atenção, para outra regra, que anda em moda nos dias de hoje: “seja o melhor amigo do seu filho”. Errado! Amigos passam a mão na cabeça, compartilham coisas erradas, muitas vezes estimulam o mal e são corporativos com suas vontades e vícios. Pais devem educar, se impor, dar e exigir o respeito; situar o indivíduo (filho) no mundo, para que ele não atravesse o sinal vermelho e invada além dos seus limites. Amizades, boas ou más, ele irá fazer na sua vida. E por elas fará suas escolhas. Nenhum pai deve ser o melhor amigo do filho; ele deve ser, sim, o melhor pai para o seu filho.
De um palestrante, ouvi a maior desculpa dos pais quando descobrem que seus filhos estão caminhando à margem da sociedade: “eu não tenho tempo...” Caso detalhado de um casal de médicos, que trabalhava 12 horas por dia, e não sabia que seu filho de 16 anos, tinha um pé de maconha plantado num vaso dentro do armário do quarto. Quando o garoto procurou ajuda externa e os pais foram chamados, a resposta foi essa: “não temos tempo...” Creio, ao passar dos 40 anos, já posso considerar que escapei dessa cilada da vida, as drogas. Sem vícios, me considero um privilegiado de um mundo que se construiu a minha volta, onde fui chamado a praticar o mal, mas lembrava de meus pais dentro de casa e tudo fez com que mudasse o leme do meu barco para águas calmas e limpas. Eles tiveram tempo e eu os mirei.
Para a colunista Bárbara Gancia, a palavra em português de mais aproximação para a tradução de bullying é “intimidação”. Não sei por que até hoje não há tradução; quem sabe, haveria mais compreensão na sociedade brasileira para este mal. Na verdade, a coisa começa dentro de casa também, na educação. Aceitar o outro como é, torna-se princípio básico para esta questão, que tanto nos atormenta e já motivou muitos crimes bárbaros, inclusive no Brasil. O filme “Um sonho possível” — 2010, retrata uma família que vive sem preconceitos, sem fronteiras racistas, com tolerância e amor ao próximo. Onde um jovem negro sem teto é adotado por essa família branca. A conquista pelo jovem Michael começa dentro da high school, com os filhos bem educados da família que o adotou depois. As crianças, em nenhum momento, viram o pobre Michael como os demais, com preconceito. Desde o princípio o trataram como um ser humano, sem distinção. Imperdível.
Ainda sobre o bullying, a coisa não é atual, como se supõe. Conheço uma mulher que, aos 13 anos em 1981, sofreu discriminação e intimidação num colégio na minha cidade, inclusive por suas próprias educadoras. Sistematicamente, era corrigida a falar “escola” e não “iscola”; a falar “Ê” ou invés de “É”, como assim se pronunciava, de onde veio no Rio de Janeiro. Para piorar, um aluno que sentava atrás da sua cadeira, cortou o seu cabelo com uma tesoura, aos olhos da educadora. Imediatamente seu pai a retirou daquele lugar, que chamavam de escola. O episódio desencadeou uns meses de depressão na menina. Foi bullying por preconceito.
Entre criar filhos e educar filhos há um abismo a ser vencido. Muitos pais abastecem seus filhos das necessidades básicas: alimentação, vestuário, play station, computador e por aí ficam. E mal sabem que, a educação realmente está na ponta, na raiz, na célula. Quem está de fora percebe isso melhor. Os dias de hoje são cruéis nas formações familiares. Perdeu-se o controle, perderam-se os princípios morais e religiosos. Meus pais eram poucos instruídos, mas o baú com heranças morais e religiosas estão guardados em mim. Eu pedia a bênção aos meus pais e avós a cada encontro, a cada dia. Dou graças a eles por ter errado menos na vida.
Como já disse não sou um especialista em educação de filhos, mesmo porque o universo me privou dessa dádiva — não lamento por isso. Mas vejo muitos pais, sem o cuidado necessário para preparar o indivíduo para um mundo desconhecido, o futuro. Isso está em todos os ambientes sociais, na plebe e na aristocracia. Em tudo vale a regra desses princípios: não roubar, respeitar e amar o próximo, não invejar, não trair, não corromper, não matar... Criar não é o mesmo que educar. Educação requer dedicação e não é um prato de comida sobre a mesa.
QUE SE passa contigo, Brasil? Leio e pasmo: o país da alegria está afundado em tristeza. O periódico médico "Lancet" investigou. Sentença: as doenças mentais são as principais responsáveis pelos anos de vida perdidos no país devido a maleitas crônicas.
Depressão. Psicoses. Dependência de álcool. Em São Paulo, um em cada dez adultos está na fossa. Será que Nelson Rodrigues tinha razão quando dizia que a maior forma de solidão é a companhia de um paulista?
Os especialistas avançam com explicações científicas para apaziguar o abismo. Existem causas bioquímicas, que antigamente eram difíceis de diagnosticar ou tratar. Existe uma longevidade humana que aprofunda os problemas mentais.
Certo, tudo certo. Mas posso sugerir ao leitor deprimido um dos mais importantes livros sobre a nossa desgraçada condição?
Pascal Bruckner escreveu-o, e o título diz tudo: "A Euforia Perpétua - Ensaio sobre o Dever de Felicidade" (ed. Bertrand).
Não, não é um livro sobre o Brasil e a imagem solar e carnavalesca para consumo turístico. É um livro sobre a natureza da felicidade no Ocidente pós-moderno, o que implica uma comparação com o Ocidente pré-moderno.
Regressemos à Idade Média. E perguntemos aos nossos antepassados o que significava a felicidade para eles. A resposta oscilaria entre o riso e a estupefação. Felicidade? Para homens que transportam o pecado sobre o lombo e se arrastam por um vale de lágrimas?
A vida é passagem. Se felicidade existe, ela existe do outro lado: esse momento redentor em que, pesadas as virtudes e os vícios, somos contemplados com o paraíso perdido.
Explica Bruckner que o iluminismo alterou profundamente essa concepção ao remeter o divino para o seu diminuto, ou nulo, papel. A construção da felicidade passou a ser terrena, dependendo de mãos terrenas e não dos caprichos de uma divindade julgadora.
O problema é que essa "secularização" da felicidade não terminou com as nossas infelicidades. Aumentou-as significativamente ao transformar a felicidade em direito e, de forma crescente, em dever.
Hoje, não queremos apenas ser felizes. Sentimos a obrigação esmagadora de o ser: de acumular os objetos, as experiências e as aparências de uma utopia pessoal tão devastadora como as utopias coletivas do passado.
Nós e apenas nós somos os autores do nosso próprio roteiro. Falhar é falhar sem desculpa: "O paraíso terreno é onde eu estou", dizia Voltaire. O inferno também, digo eu. Mas como lidar com as chamas da infelicidade quando me prometeram tudo e um pouco mais?
Não é por acaso, explica Pascal Bruckner, que somos a primeira civilização que se sente infeliz por não ser feliz; no fundo, a primeira civilização para a qual a tristeza e a dor, a doença e a decadência, a velhice e a morte são vistas como aberrações que não estavam no programa.
E essas aberrações são tratadas como aberrações: proscritas por uma sociedade de euforia perpétua.
Infelizmente, uma sociedade de euforia perpétua só pode gerar perpétuos hipocondríacos, avisa Bruckner: gente obcecada com o estado do corpo e da alma, e que vai ao tapete ao mínimo sinal de alarme. Quem vive para um único fim perfeito não pode tolerar uma multidão de momentos imperfeitos.
Ilusões. Agônicas ilusões. Porque nem todo o poder dos homens foi capaz de extirpar as misérias humanas; perversamente, o que a modernidade fez foi abolir a sua expressão pública, uma forma de as remeter para canais esconsos, silenciosos, invisíveis. Como um vulcão em atividade dormente que explode no dia em que o sorriso petrifica.
O ensaio de Pascal Bruckner, ao analisar os descontentamentos das sociedades afluentes, de que o Brasil é agora um representante excelso, não é uma apologia da tristeza; muito menos de um regresso à medievalidade cristã, como se isso fosse razoável ou desejável. "O fato de nem tudo ser possível", escreve o autor, "não significa que nada é permitido".
Na verdade, muito é permitido. Mas a única forma de domar a "euforia perpétua" passa por entender que a felicidade não é um direito nem um dever; a felicidade é, quando muito, a decorrência contingente de uma ambição mais modesta e que, à falta de melhor palavra, se designa simplesmente por viver.