BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A doutrinação e a revolução do bem



Enquanto era velado o corpo de meu primo, que morrera de câncer em múltiplos órgãos, eu conversava na outra calçada com seu irmão, meu primo mais velho. Gosto da sua conversa, mesmo num momento de muita dor, ele sempre é um bom papo, familiar, que nos remete a lembrar de coisas boas da vida.

O tom de sua conversa naquela tarde não era como das outras vezes, quando contava causos de um passado feliz, com uma memória de elefante (quem tem memória de elefante lembra até dos tons das cores do uniforme escolar). Naquela tarde, ele estava triste e desenxabido, como se tudo se juntasse ali, na sua perda recente.

O que se queixava era da vida de hoje. Mas não da falta de dinheiro ou de prestações em atraso; o que lamentava era a falta de amor, caráter, ética, moral, educação, gentileza, cidadania, respeito, princípios, esperança, fé; e tudo mais que ficou no seu passado de memórias. Da família que fomos e agora não somos mais. Dessa regressão humana aos tempos pré-civilização (homem fisiológico); do elo perdido da família tradicional (como se houvesse outro modelo); e aqui faço um parêntese para citar aquela professora marxista: “A família tradicional acabou” — justificando que em sua escola não se comemora mais o dia do pai e da mãe. Ela é professora discípulo de um mal que se impregnou. Falarei mais adiante.

E tudo que vivemos dessa degradação social e familiar, não é mero fruto do acaso. Isso foi calculado, medido, planejado para que fosse assim: o rebaixamento das instituições. Uma ordem mundial, uma liderança, uma superioridade, uma entidade, uma doutrinação organizada — algo sem rosto, sem presença — tratou de aliciar militantes a esse reino, e esses como fios condutores desse futuro que cá confrontamos.

Há mais de cinco décadas isso vem sendo disseminado (nas escolas, nas ruas, campos, construções). Os temas polêmicos e distorcidos das novelas que vemos hoje, foram encaminhados há mais de 50 anos: segregação e luta de classes. Você não sabe, mas a todo tempo estamos sendo manipulados e conduzidos. A revolução mental, que não pega em armas, mas dilacera mentes, como assim disse Luiz Felipe Pondé:

"Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas 'sua casa'. Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da "justiça social" ela silenciará todos."

Meu primo sofre com a família que formou. Um filho temporão com problemas de comportamento, desobediência, rebeldia e um sobrinho delinquente preso por assalto com arma de fogo. Tudo que nunca imaginávamos que pudesse ser nossa família, nosso futuro, quando ainda jogávamos bolinha de gude nas ruas de terra da nossa infância.

Ao lembrar-se de seu pai, veio um olhar marejado. Disse que, seu pai, assim como os meus, não tinha escolaridade, mas tinha uma coisa que falta muito ao mundo de hoje: SABEDORIA. E por isso, reconhece o merecimento, sem trauma nenhum, dos bofetões que levou dele, um alemão alto de mãos enormes e pesadas. No dia seguinte do bofetão — recorda —, seu pai ia trabalhar, sem nenhum remorso, mas nele ainda estavam as marcas dos dedos como sinal do aprendizado.

Aprendizado do quê? Aprendizado que não devemos subtrair o que não nos pertence; aprendizado que devemos respeitar pai e mãe; aprendizado que não há vida sem labuta, sacrifício e suor; aprendizado de respeito ao próximo, às regras, leis e instituições; aprendizado que há sinais de perigo na vida e, portanto, não devemos atravessar tais fronteiras; aprendizado de fé e amor a Deus.

A palavra é doutrinação. Durante décadas fomos doutrinados a muitos comportamentos, ordens, conceitos, catequeses e crenças sem percebermos. Conduzidos como gados. Ajustando a sociedade para uma conversão, no sentido mais inglório, pragmático, ideológico possível. 

Acreditamos por anos que, a igreja católica é retrógrada, ultrapassada e rica; acreditamos por anos que, a "polícia para quem precisa de polícia" e por isso é um óbice social; acreditamos por anos que, Oscar Niemeyer é o maior de todos, sem conhecer os outros; acreditamos por anos que, Che Guevara era o novo Cristo a se seguir; acreditamos por anos que, o capitalismo oprime, sem entender o que isso significa; acreditamos por anos que, pobres são vítimas da sociedade, sem reconhecer que são também agentes dela; acreditamos que, se existe pobreza é porque alguém ficou rico a sua custa; aprendemos por anos a enaltecer às esquerdas e ridicularizar tudo ao contrário à elas; aprendemos por anos que. o regime militar foi um atraso ao país; acreditamos por anos que, só inocentes e heróis foram torturados e mortos pelas mãos desse regime de governo; acreditamos que, esses "heróis" queriam democratizar o país. Factoides e mentiras que viraram verdades. A doutrinação é a revolução silenciosa, proposta pelo italiano Antonio Gramsci e seguida ipsis litteris.


Numa das conversas (hangout) com o cantor Lobão, o professor e filósofo Olavo de Carvalho afirmou que, o erro do regime militar, nos 20 anos de governo, foi ter combatido os comunistas e não o seu mal: o comunismo. Esse foi o vacilo, a porta entreaberta descuidada, que se escancarou para uma invasão de pragas ideológicas nos lares, escolas, igrejas e todo meio social que pudesse embrenhar.

As universidades, as redações de jornais e revistas, editoras, todos os meios culturais foram tomados e serviram de canais disseminadores de uma doutrina marxista. De “pensadores” e vendedores de sonho do mundo melhor; na visão mais arcaica, cínica de pregação de um paraíso comunista. Em consequência, o rebaixamento das instituições ao pó, aos pés de um grande irmão (The big brother).

Foi por aí, por esse caminho, que se pavimentou a via para a chegada de Lula (o operário) ao poder. Ou você acha que seria fácil aceitar um apedeuta como ele? Ele chegou como a semente de um sonho (bad dream), o maná, a  boa nova que levaria seu povo à terra prometida, onde jorra o leite e o mel. Mentiram (e muito) para mim e para você.

Se formos buscar o fio desse emaranhado, que se tornou a família, iremos chegar na política, claro. Falsos moralistas, os donos das leis agora estão dentro de nossas casas, ditando regras para uma família "melhor", como Olavo de Carvalho publicou na sua página do Facebook: "Moral petista: não dê palmadas no seu filho. Mate-o no nascimento". Ele se referia a duas leis absurdas: da palmada e a que está em curso, do aborto.

Não me lembro de meu pai (com 11 filhos sob sua criação) reclamar do governo militar, se sentir perseguido e injustiçado por ele. Não, ele só olhava para sua prole, trabalhava dobrado em turnos alternados (desses que mexem com o metabolismo) na fábrica, para sustentar uma família e dar o mínimo de educação. Ele se foi aos 59 anos, cansado da vida muito labutada e tendo o cigarro como parceiro de solidão e morte. Meu pai não deixou em mim nenhuma semente comunista.

Procuro não desviar o foco: a humildade, a religião e fé em Deus foi seu maior trunfo em mim. Indiretamente, ele enxergava a família: pilar mestre dessa fé (judaico/cristã). E as vezes que arrisquei sair, lembrei-me e voltei. E assim eu sigo, cambaleante, mas arraigado... Depois minha mãe, que também foi um exemplo de pessoa. Dona de casa cuidadosa, zelosa, de caráter, brio, fé e responsabilidade.

Esses foram meus tesouros, minhas doutrinas, que essa geração de agora desconhece, porque ninguém lhe passou. Por isso, se perde demente com seu tempo, e sem projeto nenhum de futuro.

Depois, e antes que eu fosse embora, meu primo ainda me disse da sua esperança. Disse sobre uma revolução do bem. Exatamente aquela que esperamos num futuro breve acontecer. (Há sinais no horizonte) O bem que vence o mal. Sem liderança, e também silenciosa, ela virá resgatar nossos sonhos sufocados. O fundo do poço é próximo, e quando chegarmos lá, só existirá um caminho: da volta. Emergir, subir, subir... E de volta ao seio familiar como imaginamos: célula social, mãe protetora e condutora da vida. E que nenhum Estado, governo ou poder possa substituí-la. Jamais.  

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Setembro de 2014.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Pacto de amor



Tenho pensado muito no amor. Durmo amor, acordo amor, resmungo e respiro amor. Tomo café sentindo aroma de amor. As canções no carro, na vitrola são de amor. Meus filmes antigos — Oh my God! — são histórias de amor... Incomoda-me não o amor nesses dias, mas o que resultará do mundo se rarear pelo espaço e tempo. Mas que amor é esse que as pessoas clamam, buscam, rastejam por querer?

Outro dia, numa conversa sobre política, sem querer, soltei a frase: "Este mundo não está legal...". Sem dizer precisamente o quê. Fazia referência a tudo que nos cerca, dos caminhos tortos que a vida, no conjunto da raça, tem tomado. Com valores distorcidos, moralidade ética baixa, corrupção alta e muita gente não se indignando com nada. Simplesmente assistindo tudo, passivamente, comendo pipoca, ouvindo música pelo iPhone, numa fria arquibancada de cimento.

Não sei dizer se já foi pior — guerras mundiais que não vi, com muito ódio espalhado por aí —, mas o amor não vai bem no mundo, senão não estaríamos reclamando tanto sua ausência, ouvindo queixas das pessoas de todas as idades. Reproduzo, no anonimato, um pequeno texto que recebi pelo WhatsApp (modernidade do desabafo): "...O que há com o mundo? Será esse o nosso destino permanecer só? Quem muito deseja tem seus sonhos traídos, mas aqueles que não esperam são surpreendidos. E eu me pergunto: onde está o amor?". Desabafou minha nova amiga, que já confessou o sonho do casamento e da maternidade. Ela, apesar de nova, tem desejos antigos: quer ser mãe de muitos filhos e ter um amor para vida toda.

Não dá para responder de súbito, ou tentar campear palavras, quando de quem se queixa não é um indivíduo único; aquele que dia desses abria a porta do carro para ela entrar, e dizia coisas lindas no seu ouvido. Mas de uma legião de outros semelhantes, gananciosos por ostentar e preocupados, e tão somente, com seu umbigo, sua cerveja, sua academia, seus bíceps, suas festinhas, happy hours sem compromisso e por levar um número maior de moças para cama.

Dizer o quê? Há esperança de o grande amor acontecer um dia? Sim!, ela é nova, bonita e ainda é possível que um desses por aí, seja diferente dos demais (despertado do seu egocentrismo), e sua alma o encontre na fila do supermercado. Muitos tropeços acontecerão até aquele eterno namorado venha sufocar seu vazio e dor.

Há muitas frases que Nelson Rodrigues deixou. Estou lendo agora o livro de Luiz Felipe Pondé "A filosofia da Adúltera", onde ele disseca o íntimo rodriguiano. Nelson filosofou muito sobre o amor, mas a que separei para este singelo texto é: "Este mundo não é a casa do amor". Havia um contexto, é claro, mas fiz minha interpretação: "casa" é moradia e o amor não encontra morada nessa casa (Terra), ele mora em algum lugar, mas não aqui. Não nega sua existência, ele só diz que não mora aqui. Ele perambula mendigo por ai, batendo de porta em porta, mas seu presente e futuro é o chão da rua, sem lar e sem comida. Não tem morada o amor neste mundo. E quem quiser visitá-lo, na essência, terá que se aventurar rompendo fronteiras cósmicas — galáxias (?). A morte, talvez, seja o alcance da plenitude desse amor, na divindade. Quiçá quisesse dizer Nelson: sendo o amor flutuante, inconstante neste mundo, ele não pode encontrar morada onde o trata tão mal e em segundo plano.

Em outros tempos vivi confusões sentimentais. Com elas havia pessoas envolvidas e a psicanálise para desatar tantos nós... Não, hoje eu não sou um ser totalmente "limpo" da sofreguidão pela maturidade; de coisas postas no lugar, organização, sem pecados e um tanto blasé. Erro, mas teimando em acertar mais com a vida.

Fiz amor, quando na verdade fazia sexo. Depois aprendi que não era amor, porque mulheres gostam de dizer que é, talvez porque procuram em tudo o amor. Até no sexo. "O sexo suja o amor. O homem deve possuir todas as mulheres, menos a bem-amada" — disse Nelson Rodrigues. Fingi amor, quando tinha só desejo pelas pernas, pelas coxas, pela bunda, pelos seios e pela boca da mulher na cama. Elas sabem nos enfeitiçar e fui dominado muitas vezes por magia, aflição, loucura e desejo febril. Não senti o amor acontecer depois de tudo consumado. Na manhã seguinte, ele não estava ali entre nós. Era só um gosto amargo de ressaca; uma mistura de gozo com altas doses de whisky, sem Engov.

No sexo, os corpos se trepam; no amor eles se aconchegam.

Agora veio à mente um texto que recebi, na época que ainda se encaminhavam e-mails (começa já fazer tempo...). Dizia o monge da história, que o amor não era um sentimento (separando-o da paixão), mas uma decisão que se toma juntos. Se decide amor, não se sente amor. Desprezei-o e mandei-o para lixeira virtual... Passados esses anos, sinto aquelas palavras me penetrarem como água. O que sentimos, muitas vezes, são sentimentos efêmeros (tesão, atração, ânsia, ciúme); de pouca duração, de horas e dias finitos. O que não conversamos antes, para que tudo dure, é sobre pacto, compromisso, acordos, tarefas, cumplicidade, comprometimento, na presença e na distância dos olhos. Cumprir um acordo, como se negocia um contrato comercial registrado em cartório.

O leitor pode perguntar: "Você está dizendo que o amor é um negócio?". Sim!, exemplifiquei como negócio de objetos, mas o amor é parceria; o amor é negócio de alma; tem profundidade em regiões inatingíveis, onde os objetos não fazem diferença, parte e não penetram. O mais que tudo que precisamos. Aquilo que o psicanalista Flávio Gikovate chama de "mais amor".

Afirmo que o amor é pacto, decisão, trato. Quando duas pessoas têm firmado entre si uma relação cúmplice, e mesmo estando longe de suas vistas, a palavra será mantida, porque tem peso e valor; a fidelidade do trato daquele negócio que se serviram e selaram entre elas — olhos nos olhos. Nas discussões, brigas, o pacto do amor é o pêndulo do equilíbrio que traz a serenidade, acima de qualquer grito mais alto que se ouse, e que supera todas as palavras duras. Pacto de amor, de sangue, de vida e morte, porque não se quebra um trato certificado na alma.

Antes de iniciar o caminhar, vejo aqueles que pactuam o amor na confidência; mas há aqueles que os olhares se cumpliciam já à primeira vista, sem palavras, como se as almas falassem por si. Na palavra ou no olhar, tudo é um pacto que torna as vidas agora transpassadas, entrelaçadas, fundidas numa só; um resgate do amor mendigo (ainda que neste mundo, seja possível existir e morar).

E ao raiar de todos os dias, depois do desfrute dos desejos entre pernas, coxas, seios, boca e sexo bom, que o amor seja devolvido ao corpo sagrado, descoberto do colo e útero da mesma mulher. O meu afã é pela alma feminina. Onde reina meu amor. Onde mora o amor perfeito. 

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Agosto de 2014.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Da Sessão da Tarde

Minha peregrinação em busca do elo perdido continua. Onde deixei meus tesouros guardados? Que cofre ou montanha do meu passado abandonei o que me preenche? Desprezo ao presente? Falta de anseios na vida por lacunas no coração? (O vazio sempre será ocupado por algo). São tantos assuntos para filosofar que renderiam muitas crônicas. Vamos ao que interessa.

Muita gente que me conhece não sabe, mas a maioria dos meus filmes vejo pesquisando sempre pelo diretor e pelos atores que atuam. Nessa seleção, consigo separar o que vale mesmo a pena ver do que é uma incógnita surpresa e do trash

No ambiente da comédia, não consigo classificar nenhum ator contemporâneo que mereça destaque, talvez Adam Sandler. Tornei-me míope para o que há no presente e os ditos filmes "blockbusters". Mas quando olho para o passado, vejo com nitidez: Jack Lemmon, Peter Sellers e o impagável Jerry Lewis (hoje com 88 anos, os outros dois já morreram).

Adquiri recentemente três filmes dublados de Jerry. Os mesmos filmes que via na minha sessão da tarde, que parece que estou lá ainda: antes da pelada no campinho, sentado no sofá de napa vinho da minha sala, vendo num televisor Colorado RQ, em P&B. O Jerry imortal e dos tipos e caras, criados por ele, ainda são impressionantes, atuais, fazendo rir gerações, mesmo essas que não o alcançaram nas sessões da tarde do sofá duro de napa vinho.

Então, revi recentemente, pelo Netflix do meu iPad, "O Professor Aloprado", de 1963, e dei muitas risadas com as trapalhadas do professor Kelp e sua dupla personalidade, o seu alter ego (macho fodão), que criou para impressionar e conquistar sua musa. Com a belíssima Stella Stevens - com carinha e sensualidade congênita da época, como era outra musa Marilyn Monroe.

Jerry ainda me conquista a cada filme, como aquele amor que se renova a cada dia. Não conseguiria citar um filme favorito, porque cada qual tem sua peculiaridade e graça. Mas deixo aqui este vídeo extraído do YouTube, do filme "The Nutty Professor" (O Professor Aloprado).  Aliás, me fez lembrar outro professor destrambelhado, mas vilão: professor Fate. Mas isso é outro assunto para recordar da sessão da tarde...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Agosto de 2014.

terça-feira, 22 de julho de 2014

A verdade em cartaz

Achei este cartaz — pregado a algum muro — que diz a verdade deste blog e deste escriba. Acho que a maioria de nós somos assim: sai pelos poros da ponta dos dedos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Queima aqui dentro


O domingo de inverno descortinava. O sol já era moço quando a neblina baixou insinuante na minha varanda, ainda sem plantas; e era domingo da final de Copa do Mundo, no Brasil. Café com pão, notícias, futebol, frio, meias... E veio com tanta coisa junto ardendo no peito, como vem saudade em notas musicais pingando numa partitura, desenhando uma velha canção. Minto, vem orquestra.

Às vezes, desperto meio assim, vocacionado para tempos idos. Você vai me perguntar, mas é sempre saudade de alguém. Eu tenho saudade também de lugares, trajes, mobília, costumes, modos, retratos, ambientes, paisagens, aromas; tempos doces e despercebidos quando vividos; que não vimos passar, porque estávamos distraídos sendo felizes; e quando estamos assim, em êxtase, estamos construindo a saudade no futuro. A felicidade presente é a moldura e tudo que contorna a saudade no futuro — lembranças a ser contada ou ser só sentida. Ah! E tenho saudade, é claro, com canções de fundo, como uma trilha sonora.

Não sei dizer, precisamente, quantas vezes já sonhei com a saudade. Uma vez, lá nos meus 15 anos, tive um longo sonho — ainda dormia oito horas sem despertar — que viajava ao passado da rua, do bairro onde morava: olha a casa da minha avó como era, de fachada amarelada e jabuticabeira carregada; olha a rua de terra, com cheiro de chuva; olha a igreja matriz; olha a amoreira orvalhada. Eram nítidas tais visões, sentidas em pele arrepiada. Lembro ter passado aquele dia assim: vagando de um canto ao outro, nostálgico e sobre nuvens.

Mas eis o que queria dizer. A música me toma inteiro por nostalgia, como uma carruagem do velho oeste. Terminei o sábado, vendo uma programação na TV. E por ela, uma canção nostálgica, de uma voz me chamou atenção. E, súbito, me exaltei. Por que a deixei passar esse trem na estação? Por que não ouvi essa moça cantar, quando tinha essa voz? Por que ela sumiu? Por que as lindas canções passam ligeiras, como passarinho que pousa na janela? O que me ocupava tanto a vida, que não senti sua voz penetrar nos meus instintos? Apunhalei-me em vão, já era tarde para viver...

Fui à pesquisa da internet. Ela ainda canta. Aos 40 anos de idade, Patrícia Marx, já não é mais aquela menina precoce, só Patrícia, mas ainda conserva a voz doce de rouxinol, afinadíssima em diapasão. Comemorando 30 anos de carreira (ela começou nos seus 9 anos), ela tentava emplacar um CD/DVD cantando soul musics e baladas que marcaram sua, já longa, carreira. Não estava conseguindo, porque o mundo de hoje não reverencia o seu passado, mas sim, o desrespeita, desaconselha e alija.

Fucei mais e deparei com uma entrevista de 2013, que ela concedeu ao portal G1, falando sobre seu novo álbum. Assim como Guilherme Arantes, ela desabafou dizendo que não tinha mais espaço para cantar. Paga-se pouco e shows são cancelados em cima da hora. Já pensava em um plano B: virar professora de canto lírico. Uma pena. Essa moça tem talento; e não foi à toa, e por graciosidade, que foi eleita a melhor cantora em 1994/95, com 20 anos de idade. Fiquei triste quando terminei de ler a entrevista. Fechei o tablet e me enrolei nas cobertas sem querer ver mais nada. Veio a saudade (como canções) e uma vontade de voltar à 1994 e dizer-lhe: "faça tudo agora, aproveite, porque o futuro te abandonará, será ignorada, desrespeitada. Ele se importará só com lixos culturais que lá existem". Fecho aspas.

Acho que houve exposição máxima e exploração. Ela é daquelas precocidades raras, que descobrem por aí e depois se esquecem, porque isso é o mercado e aquele era o momento: a criança; combinando imagem, ingenuidade, graciosidade e talento nato. Assim foi a carreira de Shirley Temple, Judy Garland e Macaulay Culkin. Crianças talentosas exploradas ao sumo, atoladas no sucesso, e depois jogadas na sarjeta do mundo.

Então me lembrei de Guilherme Arantes. Em 2013, ele também desabafou nas redes sociais. Sentiu que as pessoas (seu público) o cobravam por aparecer mais na mídia, fazer mais shows. Ele disse que também era seu desejo, mas sentiu que não havia mais espaço, mesmo seu último álbum sendo eleito o melhor disco de MPB, pela revista Rolling Stones. Não há espaço no mercado audiovisual e na grande mídia, para um dos maiores cantores e compositores dos anos da minha e da vida de muita gente. No seu desabafo parecia quebrantado e eu fiquei com ele, como agora fiquei com Patrícia.

Senti que precisava "consolá-lo" de alguma maneira, e não me confortaria só escrever algo na sua página no Facebook, como: "Tamo junto cara!". Busquei algumas lojas virtuais e não achei nenhum daqueles discos antigos — não há muito sebos virtuais. Acabei adquirindo dois álbuns recentes e intimistas, onde ele faz uma releitura dos seus grandes hits. Uma mão pequena a quem nossas memórias devem muito.

Tenho uma frase, que recorro sempre, para esses momentos de choque de gerações: "O mundo deveria ter acabado no pico dos anos de 1980. Assim, terminaríamos nossa jornada mais feliz e no auge". Tenho a sensação que nada do que se fez depois foi bom. Tudo foi se esvaindo, se desprendendo, desmilinguindo, esfacelando. Também temo, assim eu li por ai, que a vida real termine nos próximos anos (!). Estaremos, de uma vez, desfazendo o compromisso com uma vida (como ela é); e suportando, como seres rastejantes passivos e infelizes, uma vida virtual, sem trocas de olhares, carinhos e alianças. Que assim não seja! (fazendo já nome-do-Pai). Que Deus faça o melhor antes.

Veio-me agora.  Imagine, assim, um terminal de aeroporto num ponto qualquer do planeta, com voos diretos (sem escala), e um painel anunciando a próxima partida: "PAST"; ou outro apontando: "FUTURE" (O passado é a verdade que vivemos.) Divago. Não, ainda não inventaram alguma viagem que pudéssemos organizar sentimentos com tempos, malas e pessoas afetivas; de poder somar coisas vividas com outras sensações ainda não passadas. Entrar num voo que nos leve onde deixamos o "tudo-de-bom", o pote de ouro do arco-íris e sem desperdício de vida. Além do horizonte perdido das nossas geleiras frias, talvez desvende um paraíso, sem tempo e morte, assim Xangrilá ad aeternum.  E se a morte for isso: visitar, com o tato e todos os sentidos, o que foi bem e bom, que seja esperada com aplausos de um estádio lotado. Cheio de seres humanos alentados, esperançosos, como eu, com vontade de viver só o que vale a pena viver. 

Por enquanto, como diz aquela canção de Patrícia, só queima aqui dentro.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2014.

terça-feira, 4 de março de 2014

Houve uma vez no verão

Quem é capaz de se lembrar da sua primeira paixão? Para muitos meninos, como eu fui, foi aquela descontrolada, inimaginável, inatingível e distante do coração; aquela que nos deslumbrou e fez tremer as pernas. A menina mais linda da rua, do bairro, da escola. Ou, quiçá, a professora...

Paixões platônicas são como espinhas no rosto, sempre iremos passar por elas na adolescência. Foram nossos primeiros contatos com esse sentimento que a vida toda nos entorpece e dilacera o coração. É lá, na adolescência, que também descobrimos o sofrimento, simplesmente, porque ele é ingrediente triunfal da paixão.

Era menino, tinha 11 anos quando me apaixonei pela minha professora de português (naquela época se dizia língua pátria). Eu era “triste”, como diziam naqueles idos. Triste, mas no sentido das peraltices, traquinagens, das brincadeiras, piadas e bagunça em sala de aula. Não posso negar, mas era um bom aluno, apesar da fama. Tirava boas notas em quase tudo. Como uma vez em que a professora de história, por punição, me aplicou uma prova oral na frente de todos. No dia marcado, estava eu lá em pé respondendo às perguntas. No final, ela teve que me engolir; respondi todas, sem errar uma. Mas em nada melhorei em sua aula, continuei o mesmo bagunceiro, de sentar na última fileira, na turma do fundão. Talvez, porque ela não me arrancava suspiros e não me hipnotizava. E eu precisava mais...

Mas volto à professora de língua pátria. Lembro-me que na sua aula eu também bagunçava, mas isso foi só no início do ano letivo. Até o dia em que algo surtiu forte em mim e comecei a olhá-la com outros olhos, com os olhos da paixão. Reparava suas panturrilhas, seu sorriso, seus cabelos castanhos e cacheados nas pontas; como andava e sua pele e voz terna. Fiquei encantado. Recém-casada, espiava, ao longe, quando seu marido vinha buscá-la num chevette marrom; eu fitava para ver se eles se beijavam antes de sair com o carro. Ela era jovem e aparentava ter, no máximo, uns 25 anos.

E foi paixão platônica. E foi tanto, que mudei meu comportamento em sua aula e passei admirá-la; consequentemente me tornei o melhor aluno da sala, em língua pátria. Um dia, ela me fez rubrar a face. Ao dar uma repreensão coletiva – coisa rara, pois era sempre boazinha -, ela me citou como um bom exemplo de transformação. Lembro bem das suas palavras, colocando sua mão alva sobre minha cabeça: “olha o Antônio, este menino mudou muito depois que veio aqui pra frente. Ficou prestando atenção mais nas aulas e suas notas melhoraram...”. Mal sabia ela, que não era pelo aprendizado e pela aula a minha atenção toda, e sim pelo coração. Ela estava dentro dele.

Bem, no ano seguinte ela não me deu mais aula, não estava mais nem na minha escola. Havia sido transferida. Era início de um ano desenxabido, é claro, mas tudo passou... Depois só fui encontrá-la – e pela última vez - três anos depois, num evento num ginásio poliesportivo, quando todas as escolas municipais se encontravam para uma gincana. Quando um amigo me disse, que ela estava na arquibancada, atrás de nós, eu olhei para o alto. Ela me viu, me reconheceu e me acenou mandando um beijo no ar. Foi o beijo mais doce que voou até mim naqueles 14 anos. Ela foi minha Dorothy e eu me senti como Hermie. Ela se foi e eu também.

Estou lembrando agora do filme “Summer of '42”, ou em português “Verão de 42” ou “Houve uma vez no verão”. Revi recentemente e tive sensações esquisitas. Como o menino tem sobre si este tabu do sexo e como será seu primeiro amor, sua primeira vez. Em mim, assim como em Hermie, veio a paixão junto com o desejo. Mas Hermie já tinha passado deste ponto. Ele via em Dorothy a mulher dos seus sonhos. Enquanto seus amigos só queriam a primeira transa; ele triturava, túrbido, o trágico tabu sexual com o que sentia por ela. Hermie a via com os olhos do coração, a mais linda paixão que pudesse sentir, embora houvesse distâncias enormes e um abismo entre eles. Ela, uma moça já vivida e casada e ele, um pirralho de calças curtas e tenra idade. Quando ela se foi, depois de ter passado com ele uma noite daquele verão, ele ficou quebrantado, sofrido, jogado. Sua primeira transa seria lembrada com forte paixão, e aquilo doeu. Assim como eu, nunca mais a viu, mas a história da paixão ficou forjada para sempre.

Eu já tinha 15 anos e estudava em outro colégio, quando me apaixonei por uma menina da minha sala. Eu sabia Física e ela não. Era minha serventia e truque para sentar com ela e ensiná-la, embora houvesse uma fila de marmanjos querendo aquele lugar na sua estreita carteira. Minha desilusão foi descobrir, no final, que ela não gostava de mim e me largou no meio da festa para ir embora a pé com meu melhor amigo; e depois, para tornar mais trágica a história, no dia seguinte descobri que os dois namoravam. Naqueles dias cinzentos perdi a fome e a vontade de viver, assim, me confidenciei com outro amigo: "nunca mais vou gostar de ninguém...". Como se isso fosse possível e eu pudesse mandar no universo do coração.

Muitos verões passaram na minha vida, mas nunca iguais àqueles que me apaixonei na minha adolescência. Penso que, hoje, se esses meninos soubessem o que é sentir paixão pela professora de língua pátria, não teriam outros vícios... Eles não se mostram românticos, não se olham, não se declaram, não choram, não sonham ao ouvir "Rock N'roll lullaby"; e, assim, pensar na mais doce e rara das paixões. Aquela que a gente se entrega, carrega e sofre num coração de adolescente. Este era Hermie; assim fui também eu.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2014.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Síndrome d. Hélder

Abandono nas obras da transposição do rio São Francisco

Recordei-me agora da revista semanária Seleções Redear's Digest. Elas foram as minhas primeiras leituras já na pré-adolescência. Não lembro de publicação tão antiga e que ainda mantém o mesma estampa: tamanho, seções, capa, etc. Segundo minhas consultas, desde 1922. Lá se vão quase 100 anos nos jornaleiros do mundo todo.

Faz algum tempo estava na casa de um amigo que tinha muitas delas, era um colecionador assinante; havia  edições antes mesmo de eu nascer. Coisa assim do final da década de 1950. Curiosamente, passei uma tarde folheando, vendo principalmente os anúncios de xarope e eletrodomésticos.

Ah, os eletrodomésticos, fez-me lembrar de uma matéria que mostrava como seriam os eletrodomésticos do futuro. Claro, dei muita risada como as pessoas daquela época viam o nosso futuro (presente). O que me chamou atenção, veio à mente agora, foi o aspirador de pó que você coletava o pó numa tubulação na parede. E isso já existe, porque que já vi.

Mas o que fez-me aqui folhear a famosa revista foi mesmo uma piada. Havia — creio que ainda há — uma seção que se chamava "piadas de caserna". Eram piadas inteligentes, que eu sempre lia e decorava para contar ali na esquina. Mas uma ficou marcada, pois, o fato, tinha lá sua graça, nos levava a refletir. Piada inteligente.

Um velho médico oncologista se aposenta e seu filho, seguindo o mesmo ramo, herda seu consultório. Já nos primeiros dias de trabalho (ou meses), o novo médico chega em casa todo contente; e o pai quer saber de toda sua euforia. Foi quando ele diz: "Lembra daquela senhora gorda sua paciente, que tinha um câncer que parecia incurável, sofria há anos com aquilo? O pai: "Sim, eu sei qual é. Ela morreu?" O filho: "Não pai! Eu a curei. Ela está sem nenhum câncer". Onde o pai arremata: "Você fez bem meu filho, mas fique agradecido a ela. Seu tratamento foi o que pagou a sua faculdade...".

Volto ao terreno baldio de Nelson Rodrigues. Lá onde as verdades, ao espio da cabra vadia, eram arrancadas a ferro quente, como numa sessão de tortura, ao velho estilo dos chamados anos de chumbo. A figura e a síndrome d. Hélder se espalhou também no Brasil, agora "livre e democrático". Ela não vai acabar, enquanto houver pobreza e o discurso de mundo melhor. A sanha política só aumentou; e pouco ou quase nada se avançou na luta pela diminuição da pobreza e a seca nordestina. Há disfarces, truques, discursos, maquiagens aos quilos; e agora com assistencialismo embutido. Ninguém quer curar doença nenhuma.

Não é de hoje que a pobreza tem sido usada como embuste, sustentação, canal (sem trocadilho) para o establisment político. Se discursam nas campanhas a mesma ladainha e depois de eleitos dão as costas à causa. Falar da seca no nordeste é catequese, mas pôr a mão na massa ninguém irá fazer, porque sujam e calejam as mãos, e não terá mais a árvore para colher os frutos de promessas futuras. É fato, se o povo brasileiro tivesse um desnível social menos íngreme, muitos dos políticos que aí estão não teriam mais tanto espaço para cargos eletivos.

A seca do nordeste é remota. As obras de transposição do rio São Francisco, que poderiam diminuir a carência, manter a produtividade e as condições humanas na região, são, ademais, peças publicitárias, vídeos ilustrativos (parecendo real) de uma obra de arte invejada pelo melhor painter. Como no velho chavão: "falta a vontade política para tantas carências". Político não gosta de solucionar os problemas da população, porque são esses problemas que o sustentam por anos em seus mandatos. A síndrome d. Hélder.

E d. Hélder Câmara? A esquerda sempre se curvou a ele, uma coisa meio assim disfarçada de "luta" pelos pobres, TdaL, discurso manso, que dá preguiça de falar... Nelson Rodrigues desmascarava e ria da cara de cada um dos revolucionários e padres de passeatas daquela época; desses contempladores do crepúsculo de maio de 1968 (nenhuma maria antonieta foi decapitada e nenhuma bastilha caiu). Dirão: "foi uma revolução cultural". De fato, nada trouxe de significativo para os nossos dias, senão a retórica, porque nada tinha para apresentar de novo. Não havia uma agenda de mundo.

Por um acaso, li com certo atraso, a entrevista que o filósofo inglês Roger Scruton concedeu à semanária Revista Veja, em setembro de 2011. Disse Scruton: "Eu acordei do meu delírio socialista durante os tumultos de maio de 1968, em Paris. No meio da destruição, das barricadas e das janelas quebradas, percebi que aqueles estudantes estavam intoxicados pelo simples desejo de destruir coisas e ideias, sem a mínima preocupação em colocar algo relevante no lugar. Foi difícil aceitar que meu futuro era me tornar um pária intelectual em meio à maioria esmagadora de esquerdistas." Em outro trecho, ele arremata: "É uma tradição esquerdista, que vem desde o século XIX e de Karl Marx, em particular. Consiste em julgar toda forma de sucesso humano a partir do fracasso dos outros. Com base nisso, engendrar um plano de salvação para os mais fracos. Esse é um dos motivos pelos quais os movimentos de esquerda continuam a fazer sucesso. Eles sempre oferecem uma causa justificável e uma vítima a ser resgatada. No século XIX, a esquerda pretendia salvar os proletários. Nos anos 60, a juventude. Depois, vieram as mulheres e, por último, os animais. Agora, eles pretendem resgatar o planeta, a maior de todas as vítimas que encontraram para justificar seus atos."

Voltando aos problemas da seca e as intermináveis promessas. Em novembro de 2013, o jornalista blogueiro Augusto Nunes escreveu em seu blog: "Os habitantes do país real ainda não conseguem enxergar a olho nu um único e escasso canal semelhante ao que aparece no vídeo provando que o sertão já virou mar. (Um mar de primeira, permanentemente irrigado por águas cristalinas que serpenteiam por desertos de faroeste americano e percorrem túneis mais modernos que o trem-bala). O monumento à criatividade lulopetista deveria ser concluído em 2010. Ficou para 2012, depois para 2014 e agora não tem prazo para sair do mundo da ficção."

Nessa história secular, pode ser que surja um político seguidor (apóstolo) de d. Hélder que queira dar jeito em tudo; cure o câncer do sertão nordestino: da pobreza à seca. No instante, se orgulhará e baterá no próprio peito por seu feito; depois, mais tarde, perceberá que precisará de outras doenças sociais, controladas em UTI, para manter seu ganha-pão e aumentar seu patrimônio, à custa de um discurso, diga-se de passagem, verborrágico, vigarista e oportunista.

Na vida real, o sertão vai virar mar, só na letra da música de Sá e Guarabira. O sertão sempre será o sertão árido, seco, pobre e explorado. Tudo que pavimenta o caminho e sustenta a retórica política.

Termino ponderando. Os inocentes e bons, se tiverem alguma chance de alcançar um status político, irão atrás das curas para os males sociais. Os hipócritas e covardes (a grande maioria) continuarão sugando, acumulando eleições e protelando doenças, em detrimento de uma pregação e de uma razão cujo único fim é o seu bem-estar pessoal.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Fevereiro  de 2014.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O ex-covarde

Nota: Trago ao Blog um dos melhores textos de Nelson Rodrigues. Extraí do livro de crônicas que acabei de ler "A cabra vadia". Nelson Rodrigues é delicioso de ler. Sagaz, inteligente, contemporâneo e cheio de bom humor. Suas histórias do cotidiano, misturam persanalidades vivas (da época) com outras imaginárias, como a cabra vadia no terreno baldio, a vizinha gorda e o Palhares (o canalha). Aproveitem Nelson, ele é excelente! 


Nelson Rodrigues

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.

O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.

Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo".

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.

Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.

Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".

(14 de Janeiro de 1968)

RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10. 

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Fevereiro  de 2014.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Entrevistas imaginárias e um mundo perfeito


Enquanto isso na minha page do Facebook...

Em 24 de janeiro de 2014

ENTREVISTAS IMAGINÁRIAS - Como tem gente boazinha no mundo. Oh my Dog! Gente "protegendo" sem tetos, sem terras, índios, viciados (Haddadolândia). É gente boazinha demais para o meu gosto. Fazendo política abjeta e proselitismo canalha aos quilos.

Mas isso não é uma prática dos nossos dias. A pobreza e o sub-humano sempre foram meio de vida pra muita gente (política), há muito tempo.

Estou lendo um livro de crônicas de Nelson Rodrigues (A Cabra Vadia), e me deliciando mundos com o jeito de sua escrita, recheada de cinismo e picardia. Numa de suas crônicas Nelson Rodrigues dizia: "como é falsa a entrevista verdadeira". Concluí: as entrevistas imaginárias têm mais verdades e credibilidade (aquilo que as pessoas "conscientes" só falam com o gravador desligado). 

Então, ele foi entrevistar d. Hélder Câmara. Quando quis saber sobre a fome no Nordeste, seu imaginário entrevistado tentou tergiversar, mas confessou: "Ó rapaz. Ainda nunca desconfiaste que a fome do Nordeste é o meu ganha-pão?" (Março/1968).

Em 26 de janeiro de 2014

E SE O MUNDO FOSSE PERFEITO? - Ainda sobre postagem da "Entrevistas imaginárias" — colou em mim Nelson Rodrigues —, me veio à mente outros deliciosos pensamentos. Como seria um mundo imaginário e perfeito? Um mundo sem ódio, vingança, injustiças, mentiras, múmias, patetas, corruptos, opressor e oprimidos. Um paraíso na terra.

E se o mundo fosse todo uma suíça, só de gozo, prazer e bem estar? Estado bom, justo, leal e povo assistido e feliz, com saúde, emprego e moradia. Não haveria o que e quem pudesse usar o pretexto da revolta. Revoltar com o quê? Revolucionar contra qual Estado? Imagina um mundo sem o coitadismo, os fracassados, os tolos, os idiotas e excluídos? De que viveriam os heróis da pátria e os mercadores de bondade? O que seria dos vampiros, dos chupadores de pobres e periféricos? Em que pescoço, jugular deitariam seus caninos? 

Seria o fim de um fim. Seria o fim de um discurso das chagas sociais. É fato, a doença curada pelo tempo é o pior dos mundos para um médico charlatão. Teriam que trabalhar como qualquer um na produção e manutenção desse mundo, agora bom. Que tédio! Trabalhar é um saco pro revoltado. Mas reclamar do que, my devil?

Uma coisa ficaria clara (mais que a luz deste dia), eles morreriam de raiva, com uma sensação de indiferença, de não-discurso, de impotência e um comichão tomaria o corpo todo, e sairia pelas narinas e pelo xixi. Providenciariam rapidinho uma revolução, "plantariam" a maconha no bolso do que é bom para chamá-lo depois de maconheiro: "Eis o delinquente! Prendam!" .

Enfim, começaria o estado de vida que eles gostam: a desordem. E assim acabariam com o "bom da vida", com a monotonia, porque o mundo precisa se equilibrar, e o mal é o que tempera suas ânsias. E dessa forma, voltariam colher da vida o que ela tem de pior: a maldade, a ira, a raiva, a melancolia, a injustiça, a desilusão, a pobreza. O seu ganha pão, enfim. E do fruto dessa árvore malévola, chupariam até o caroço. Como no velho mundo podre que gostavam de espalhar e cultivar.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Janeiro  de 2014.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Herói sem caráter

No último dia 20 de novembro, chamado dia da "consciência negra" (50 tons a escolher), li um texto que veio parar na minha feed de notícias do Facebook, afirmando que Zumbi (dos palmares) era uma espécie de herói sem caráter, um outro Macunaíma. Ele era racista e também mantinha seus escravos. Virou herói pelas lendas e poesias de cordel cantada por historiadores esquerdopatas.

Não sei se é verdade, mas é bem provável. Não existe ser humano 100% bom e 100% mal. Os romancistas só contam o lado bom.

Lembrei-me do excelente filme de Quentin Tarantino "Django Livre". Também narrando a escravidão nos EUA sulista. Ao modo Tarantino, tudo com muito humor, perspicácia, ódio e sangue — muito sangue. Excelente filme.

O que me chama atenção nesse filme não são os personagens interpretados por Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio, mas o personagem de Samuel L. Jackson.

Ele era Stephen, um velho negro manco, racista e puxa-saco de brancos poderosos. Humilhava e ria dos outros negros. Se achava acima da sua gente. Odiava negros tanto quanto seu patrão Calvino Candie (Leonardo DiCaprio).

É dele a percepção do plano de Django e Dr. Schultz, para libertar a bela escrava poliglota Broomhilda. Chamou seu patrão num canto e o alertou sobre aqueles dois forasteiros. Um canalha!

A justiça veio. Django matou aquele velho safado e subserviente; mas antes, com requinte de crueldade, lhe deu um tiro no seu joelho doente. Eis, sim, um negro traidor da sua melanina, da sua gente. Bem feito!

Django (negro) era mocinho, inteligente, justiceiro, mas cruel; Stephen (negro) era asqueroso, covarde e medroso. Fosse pela política e seus interesses, era bem provável que tornasse um herói manco e Django um criminoso foragido da justiça.

Há muitos heróis agora em Gotham City. Porque até os vilões querem passar que são. O povo, na ignorância, se confunde e já não sabe mais a diferença entre Batman/Coringa e Django/Stephen. 

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Dezembro de 2013.

sábado, 9 de novembro de 2013

Monopólio das virtudes




(mais um texto que nasceu com a expressão facebookiana, mas resolvi postar aqui também)

De tudo de bom que disse o economista Rodrigo Constantino em sua palestra, por ocasião lançamento do livro "Esquerda Caviar", em São Luis do Maranhão, guardei a expressão "monopólio das virtudes".

Vivemos por anos construindo a história de um país sob a tutela do bom-mocismo; como se vivêssemos uma luta do bem contra o mal; e a gente, povo, sempre ao lado do (pérfido) bem, é claro.

Essa era fina flor que dizia trazer a boa nova à terra prometida, como heróis verdadeiros. Por uma classe artística, intelectual e política dominante do pensamento coletivo. De seitas, cujos os atores fomos subservientes; e lhes demos (de graça), status, gracejos e elogios para suas festas regadas a champanhe e caviar.

O que pensavam e diziam caiam como mantras e orações em nossas vidas. Por uma rede oculta e manipuladora, eles monopolizaram o amor, a esperança, a inteligência, os fatos, os caminhos, a palavra e as demais... virtudes.

Passamos por essa era de sensibilidade mal calibrada. Viajamos por contos de fada e histórias contadas sob um único olhar, o da chapeuzinho vermelho. Achando que tudo era só uma questão de matar o lobo mau; de tirar um rei e pôr outro no trono; um mais humano e justo. Um rei nosso.

Em suma, todo baile de máscaras termina com o raiar do dia, com toda orquestra esbodegada e com todas as máscaras no assoalho do salão. Os rostos serão expostos, revelados e não tem mais noite feliz e nem dança. A festa terminou.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Novembro de 2013.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ter razão ou ser feliz?

É melhor que tenha razão em sua vida. Não no sentido ditame de opressão e imposição da palavra sobre a outra. Mas na forma que se descreve na sua raiz: a faculdade de compreender as relações das coisas e de distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal; a faculdade de raciocinar, de apaziguar, de estabelecer razões lógicas; justiça, retidão, juízo, bom senso, equidade... É mais do que isso, mas paro por aqui.

Ter razão é mais importante que os sentimentos vorazes e submersos. Podemos ter razão pelas estações e a florescer a vida toda, mas com a felicidade não temos a mesma garantia.

Razão é temperança, gentileza, amadurecimento, conhecimento; a felicidade é temporal, é do self, a forma que espírito se manifesta quando se reluz pelo feixe da... razão. Apagará com as noites sombrias, com as tempestades, a menor fagulha de dor, e com as pedras do caminho.

A razão é mister porque nela toda casa se edifica; e com a felicidade se apetrecha e se enfeita seus cantos. A razão nos põe no eixo, no equilíbrio e traz a paciência de viver dia após dia. A felicidade se aproveita disso, da sua existência para acontecer.

Ter razão, torna a vida mais esperançosa e feliz. Este é o aprendizado. Se tiver que haver uma ordem, que a razão venha a frente, abrindo os caminhos do entendimento, da compreensão; e que o coração seja a porta de entrada para ambas.

Deus me livre de ser feliz sem razão nenhuma. Quando desse torpor despertar, sentirei frio, fome, sede e amargura; e tudo sem onde me agarrar. Cadê a minha razão?  


© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Novembro de 2013.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Só vou ser feliz o dia que...



Meu filósofo favorito diria "fuja dos chatos, daqueles que vivem buscando a felicidade". Eles são melancólicos, tristes e podem pisar (sem querer) em você. Toda busca vociferada e alarmada é uma mentira delirante (todos nós somos bons em mentira); uma ladainha de desculpas para a vida e de não vivê-la; de verdade, ele nunca tem vida; tem só intenção e ânsia.

Engana-se vivendo, ou dizendo que vive sua busca incessante, que nunca chegará; a verdade única é que toda ela [vida] por ele passará, e sem piedade. Justificará tudo, pela ausência daquilo que acredita não ter; mas como um merecimento de prêmio, um diploma de graduação que receberá no final. Não existe vida no pressuposto, no imaginário, no futuro, no condicional e no final. Ou essa coisa tola de pensar positivamente e ficar na estação esperando, esperando... "Só vou ser feliz o dia que..." é um trem que não chega e dá preguiça de esperar.

Só digo uma coisa, não peça nada na forma mais infantil como se deseja um brinquedo novo; de querer as coisas que pode tocar com as mãos; não procure nada que seja coisa. Você terá pouco tempo para maravilhar-se e brincar com ela. Todo brinquedo depois de explorado perde o prazer e o sentido em si (já disse meu irmão). Depois é abandonado na caixa. A confusão se estabelece quando se confunde tudo com prazer e gozo.

Quem corre atrás do outro, procurando o que já tem em si, viverá sempre uma jornada agonizante e em vão. Àquele que, na sua solitária vida, reclama da ausência daquilo que já possuí de graça, seria melhor se provocasse suas revoluções internas, e começar a promover a justiça ao seu redor. Tudo que vivemos é tão próximo e por que queremos o longe?

Toda vida em si é melancólica, triste, labutada, difícil e também feliz; tudo nela é transitório e se desmancha no ar. Não existe a noite do amor eterno, porque sempre haverá um amanhecer para findar. É sempre um começar de novo; voltar algumas casas e reiniciar o jogo da vida.

Quem diz "só vou ser feliz o dia que...", a garantia que esse dia nunca chegue é imensa. Penso, por fim, que deveria ser abolida tal verbete dos dicionários de sinônimos e dos livros de auto-ajuda. Quem sabe, então, teríamos mais momentos e instantes altivos de vida vivida; veríamos mais noite de estrelas no céu e com os dias mais radiantes.

Tudo sem compreensão do nada, simplesmente porque não cabe explicação.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Novembro de 2013.