BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Criar e Educar


Muitas vezes sou chamado a explicar da minha não paternidade. Sim, as pessoas vivem a cobrar você disso e daquilo (já toquei no tema em outra crônica). Mulheres são cobradas e os homens também. Enfim, convivemos com isso. Neste assunto, não me importo em entrar (sem explicações Divinas...) e deixo que tudo se expire e se esvazie. Sinto-me como um ator que foi chamado para atuar num filme; estava no elenco, sabia o roteiro, decorei o script, mas na estreia, o projeto do filme foi cancelado. Continuo sabendo tudo do filme, mas não fui o ator que todos esperavam ver nas telas. Ser pai é, sem dúvida, uma das tarefas (papéis) mais difíceis; saber o script é obrigação, há que se ter preparação e dedicação. Principalmente no mundo em que vivemos, com suas fórmulas instantâneas para tudo e efêmero nas suas particularidades. É muito difícil educar, eu sei.

Içama Itiba é mestre em falar de assuntos de educação. Suas palestras começaram a brotar aqui e ali, e seus livros foram devorados por muitos pais, depois do caso Isabella Nardoni. Já foi o tempo, educar filhos era instintivo, como vestir um calçado ou andar para frente; passava de geração para geração, avós para pais, pais para filhos e filhos para filhos. Sem literatura ou fórmulas. Todo mundo respeitava todo mundo; e o mundo, creio, era bem melhor. Quando Oprah Winfrey perguntou à primeira dama dos EUA, Michelle Obama, como era a educação das filhas Sasha e Malia, ela foi imediata: “Não há nada de especial. Crio como meus pais me criaram: hora para desligar a tv, fazer as tarefas de casa e quando acordam, elas arrumam suas camas...”. Vindo de uma família que, pela posição de poder, teria todas as regalias do mundo para criar filhos, eis um belo exemplo. Michelle foi simplista ao lembrar-se da educação que obteve dos pais e quis resgatar. Quando ela palestrou aqui no Brasil, eu fiquei admirado com sua inteligência e carisma, agora mais ainda.

Não existe ditado mais antigo: a família é a célula (do lat. Cellula – estrutura básica que forma todos os indivíduos) da sociedade. As novas famílias estão perdendo a didática e a raiz; assim, mandam os filhos para escola, não para serem alfabetizados, mas pensando serem educados pelos professores. Delegam os primeiros passos de um indivíduo, na sua formação — onde tudo pode ser mudado ainda —, aos mestres. Esses, porém, não se veem obrigados a educar filhos dos outros. E aí veremos, tanto no ensino público como no particular, professores sendo ameaçados em sala de aula. Na minha formação, ninguém mandava filhos para escola, com o intuito que a pobre professorinha educasse o comportamento do fedelho. Tudo iniciava em casa.

Um jornalista me chamou atenção, para outra regra, que anda em moda nos dias de hoje: “seja o melhor amigo do seu filho”. Errado! Amigos passam a mão na cabeça, compartilham coisas erradas, muitas vezes estimulam o mal e são corporativos com suas vontades e vícios. Pais devem educar, se impor, dar e exigir o respeito; situar o indivíduo (filho) no mundo, para que ele não atravesse o sinal vermelho e invada além dos seus limites. Amizades, boas ou más, ele irá fazer na sua vida. E por elas fará suas escolhas. Nenhum pai deve ser o melhor amigo do filho; ele deve ser, sim, o melhor pai para o seu filho.

De um palestrante, ouvi a maior desculpa dos pais quando descobrem que seus filhos estão caminhando à margem da sociedade: “eu não tenho tempo...” Caso detalhado de um casal de médicos, que trabalhava 12 horas por dia, e não sabia que seu filho de 16 anos, tinha um pé de maconha plantado num vaso dentro do armário do quarto. Quando o garoto procurou ajuda externa e os pais foram chamados, a resposta foi essa: “não temos tempo...” Creio, ao passar dos 40 anos, já posso considerar que escapei dessa cilada da vida, as drogas. Sem vícios, me considero um privilegiado de um mundo que se construiu a minha volta, onde fui chamado a praticar o mal, mas lembrava de meus pais dentro de casa e tudo fez com que mudasse o leme do meu barco para águas calmas e limpas. Eles tiveram tempo e eu os mirei.

Para a colunista Bárbara Gancia, a palavra em português de mais aproximação para a tradução de bullying é “intimidação”. Não sei por que até hoje não há tradução; quem sabe, haveria mais compreensão na sociedade brasileira para este mal. Na verdade, a coisa começa dentro de casa também, na educação. Aceitar o outro como é, torna-se princípio básico para esta questão, que tanto nos atormenta e já motivou muitos crimes bárbaros, inclusive no Brasil. O filme “Um sonho possível” — 2010, retrata uma família que vive sem preconceitos, sem fronteiras racistas, com tolerância e amor ao próximo. Onde um jovem negro sem teto é adotado por essa família branca. A conquista pelo jovem Michael começa dentro da high school, com os filhos bem educados da família que o adotou depois. As crianças, em nenhum momento, viram o pobre Michael como os demais, com preconceito. Desde o princípio o trataram como um ser humano, sem distinção. Imperdível.

Ainda sobre o bullying, a coisa não é atual, como se supõe. Conheço uma mulher que, aos 13 anos em 1981, sofreu discriminação e intimidação num colégio na minha cidade, inclusive por suas próprias educadoras. Sistematicamente, era corrigida a falar “escola” e não “iscola”; a falar “Ê” ou invés de “É”, como assim se pronunciava, de onde veio no Rio de Janeiro. Para piorar, um aluno que sentava atrás da sua cadeira, cortou o seu cabelo com uma tesoura, aos olhos da educadora. Imediatamente seu pai a retirou daquele lugar, que chamavam de escola. O episódio desencadeou uns meses de depressão na menina. Foi bullying por preconceito.

Entre criar filhos e educar filhos há um abismo a ser vencido. Muitos pais abastecem seus filhos das necessidades básicas: alimentação, vestuário, play station, computador e por aí ficam. E mal sabem que, a educação realmente está na ponta, na raiz, na célula. Quem está de fora percebe isso melhor. Os dias de hoje são cruéis nas formações familiares. Perdeu-se o controle, perderam-se os princípios morais e religiosos. Meus pais eram poucos instruídos, mas o baú com heranças morais e religiosas estão guardados em mim. Eu pedia a bênção aos meus pais e avós a cada encontro, a cada dia. Dou graças a eles por ter errado menos na vida.

Como já disse não sou um especialista em educação de filhos, mesmo porque o universo me privou dessa dádiva — não lamento por isso. Mas vejo muitos pais, sem o cuidado necessário para preparar o indivíduo para um mundo desconhecido, o futuro. Isso está em todos os ambientes sociais, na plebe e na aristocracia. Em tudo vale a regra desses princípios: não roubar, respeitar e amar o próximo, não invejar, não trair, não corromper, não matar... Criar não é o mesmo que educar. Educação requer dedicação e não é um prato de comida sobre a mesa.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sorrisos de orelha a orelha

Por João Pereira Coutinho

QUE SE passa contigo, Brasil? Leio e pasmo: o país da alegria está afundado em tristeza. O periódico médico "Lancet" investigou. Sentença: as doenças mentais são as principais responsáveis pelos anos de vida perdidos no país devido a maleitas crônicas.

Depressão. Psicoses. Dependência de álcool. Em São Paulo, um em cada dez adultos está na fossa. Será que Nelson Rodrigues tinha razão quando dizia que a maior forma de solidão é a companhia de um paulista?

Os especialistas avançam com explicações científicas para apaziguar o abismo. Existem causas bioquímicas, que antigamente eram difíceis de diagnosticar ou tratar. Existe uma longevidade humana que aprofunda os problemas mentais.

Certo, tudo certo. Mas posso sugerir ao leitor deprimido um dos mais importantes livros sobre a nossa desgraçada condição?

Pascal Bruckner escreveu-o, e o título diz tudo: "A Euforia Perpétua - Ensaio sobre o Dever de Felicidade" (ed. Bertrand).

Não, não é um livro sobre o Brasil e a imagem solar e carnavalesca para consumo turístico. É um livro sobre a natureza da felicidade no Ocidente pós-moderno, o que implica uma comparação com o Ocidente pré-moderno.

Regressemos à Idade Média. E perguntemos aos nossos antepassados o que significava a felicidade para eles. A resposta oscilaria entre o riso e a estupefação. Felicidade? Para homens que transportam o pecado sobre o lombo e se arrastam por um vale de lágrimas?

A vida é passagem. Se felicidade existe, ela existe do outro lado: esse momento redentor em que, pesadas as virtudes e os vícios, somos contemplados com o paraíso perdido.

Explica Bruckner que o iluminismo alterou profundamente essa concepção ao remeter o divino para o seu diminuto, ou nulo, papel. A construção da felicidade passou a ser terrena, dependendo de mãos terrenas e não dos caprichos de uma divindade julgadora.

O problema é que essa "secularização" da felicidade não terminou com as nossas infelicidades. Aumentou-as significativamente ao transformar a felicidade em direito e, de forma crescente, em dever.

Hoje, não queremos apenas ser felizes. Sentimos a obrigação esmagadora de o ser: de acumular os objetos, as experiências e as aparências de uma utopia pessoal tão devastadora como as utopias coletivas do passado.

Nós e apenas nós somos os autores do nosso próprio roteiro. Falhar é falhar sem desculpa: "O paraíso terreno é onde eu estou", dizia Voltaire. O inferno também, digo eu. Mas como lidar com as chamas da infelicidade quando me prometeram tudo e um pouco mais?

Não é por acaso, explica Pascal Bruckner, que somos a primeira civilização que se sente infeliz por não ser feliz; no fundo, a primeira civilização para a qual a tristeza e a dor, a doença e a decadência, a velhice e a morte são vistas como aberrações que não estavam no programa.

E essas aberrações são tratadas como aberrações: proscritas por uma sociedade de euforia perpétua.

Infelizmente, uma sociedade de euforia perpétua só pode gerar perpétuos hipocondríacos, avisa Bruckner: gente obcecada com o estado do corpo e da alma, e que vai ao tapete ao mínimo sinal de alarme. Quem vive para um único fim perfeito não pode tolerar uma multidão de momentos imperfeitos.

Ilusões. Agônicas ilusões. Porque nem todo o poder dos homens foi capaz de extirpar as misérias humanas; perversamente, o que a modernidade fez foi abolir a sua expressão pública, uma forma de as remeter para canais esconsos, silenciosos, invisíveis. Como um vulcão em atividade dormente que explode no dia em que o sorriso petrifica.

O ensaio de Pascal Bruckner, ao analisar os descontentamentos das sociedades afluentes, de que o Brasil é agora um representante excelso, não é uma apologia da tristeza; muito menos de um regresso à medievalidade cristã, como se isso fosse razoável ou desejável. "O fato de nem tudo ser possível", escreve o autor, "não significa que nada é permitido".

Na verdade, muito é permitido. Mas a única forma de domar a "euforia perpétua" passa por entender que a felicidade não é um direito nem um dever; a felicidade é, quando muito, a decorrência contingente de uma ambição mais modesta e que, à falta de melhor palavra, se designa simplesmente por viver.

(Jornal Folha de São Paulo - 17/05/2011)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O homem que amava velórios

Com o avanço tecnológico, novas profissões estão surgindo no mercado de trabalho; outras vão desaparecendo, se tornando obsoletas; e outras são esquisitas mesmo. Nunca mais veremos telegrafista, datilógrafo, engraxate, bedel, sacristão, leiteiro, barbeiro (de navalha), vendedor de enciclopédia, pianista de filme mudo e fotógrafo lambe-lambe. Por outro lado, o que anda em moda é o personal: trainer, computer, designer, fashion, style e tem até a bizarrice do “marido de aluguel”. Coisas da vida moderna. O que falar de treinador de baleias? Como seria um anúncio da Sea World para contratar tal profissional? Há no mercado?

Na minha cidade, há um homem franzino e pequeno que tem uma profissão excêntrica. Faz anos, desde que o único cinema da cidade era no centro, as opções de lazer eram escassas e não havia mais nada a se fazer, todo mundo baixava lá. A coisa piorava quando eram os grandes filmes da época, os campeões de bilheteria: ET- O extraterrestre, Exterminador do futuro, Grease – Nos tempos da brilhantina... Havia filas intermináveis, dobrando quarteirões. Bem, aí entrava o homem franzino. Ele era quem organizava as filas. Sim, sua profissão era essa: organizador de filas em locais de eventos. Como eu adoro criar siglas, diria que ele era um profissional OFLE. Quando não estava na porta do cinema, estava nos eventos esportivos e até em portas de igrejas, sempre como seu uniforme marrom e um apito pendurado no peito. Uma vez, estava num desses eventos e ouvi alguém gritar: ô linguiça, sai daí! Pensei, depois, será por uma frustração, por nunca ter sido um policial ou um segurança? Bem recente, vi que ele ainda não se aposentou; passava perto de uma igreja e ele estava lá – já de cabelos grisalhos – organizando a saída do estacionamento. Creio nunca ter sido remunerado por isso, faz tudo por prazer mesmo e em troca de algumas gorjetas para sobreviver.

Numa dessas conversas fiadas de fim de tarde, um amigo me contou que em sua cidade, em Minas Gerais, havia um homem que tinha também uma profissão, no mínimo, esquisita. Ele anunciava o obituário e organizava toda logística dos velórios da cidade. Quando Zé Teodoro (Zé velório) ligava para alguém, a pessoa do outro lado tremia e arrepiava até o último fio de cabelo: lá vem notícia ruim... Não havia velório sem ele. Deveria ser um prazer dar a notícia em primeira mão. Imagino também que, tivesse por zelo,  o cadastro de todos os velhinhos da cidade, como assim dizer: para adiantar seu trabalho...

Zé velório era um obituário ambulante — o senhor morte. Divertia-se com a dor das pessoas, ou lhe sobrava compaixão num momento de tristeza? Sabe lá. Não importa, ele figurava presente em todos. Afinal, quem iria se preocupar com que roupa o finado seria enterrado? Quem iria preparar a logística (café, bolinho de chuva, pão de queijo e assentos) para os velantes? E os arranjos de flores? Quem haveria de colar o cartaz anunciando a hora do enterro? E o padre, quem iria chamar para fazer a reza? E o choro — quando necessário —, quem iria puxar o choro? Seu trabalho era árduo, mas proficiente.

Revirando seu lado psíquico, talvez ele tivesse outra compreensão que os demais não tinham pela morte. Em conformação, ele já a esperasse num canto qualquer da vida e por isso a tratava com intimidade e blasé, mas com os olhos zelosos para os que ficavam. Era a coisa mais certa que poderia acreditar; pois sim, enterrem os mortos; é o que nos resta, pois a vida é uma viagem sem volta — pensava.

Hoje nos grandes centros, os serviços funerários, já cuidam de grande parte de tudo isso. Até velório acompanhado pela internet é possível; o que se justifica, quando os parentes estão distantes e o finado precisa ser enterrado logo. Na dor pela perda de um ente, é difícil encontrar quem temha cabeça, no momento, para pensar nessas preocupações todas. Numa cidade pequena, onde o serviço funerário, só existe para vender urnas, não é de se surpreender que existam pessoas com o perfil profissional de Zé velório. Ele inventou o personal death.

Depois dessa conversa, não tive mais notícias de Zé velório, se já faleceu ou se continua ainda gozando de boa saúde e “trabalhando”. Se já partiu, fica a dúvida: quem organizou seu próprio funeral? Será que foi anunciado no serviço de som da praça central? Será que teve café com pão de queijo e bolinho de chuva? Será que deixou em testamento como desejaria que fosse? Vai saber. Ele deve ter deixado seu legado, presumo. Filhos costumam seguir as profissões dos pais. Algumas cidades, Brasil adentro, ainda conservam certas tradições regionais; o progresso ainda não chegou por lá.

Mas, não quero nunca imaginar, se um dia meu telefone tocar e do outro lado da linha ouvir uma voz lúgubre: Alô, aqui é o Zé Teodoro! Eu caio duro no chão.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Era um garoto que como eu, amava os Beatles, mas não os Rolling Stones

Já virou vício, ouço alguma música dos Beatles e tento decifrar quem está cantando, se é Paul ou John; ainda há algumas confusões em suas vozes. Quando é George e Ringo, já é mais fácil; eles pouco contribuíram com suas vozes nas gravações. É um exercício, ou eu já passei da fase de dançar na minha cabeça com elas; já estou no estágio máximo de suas canções, tirando o sumo? Eu cansei de ouvir Beatles? Em hipótese alguma, eles continuam cantando na minha vida, no meu carro, no meu quarto, nos meus sonhos; e às vezes na minha cabeça. Sempre tem uma que não sai do dial da minha mente.

Na minha adolescência, eu não era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, como dizia aquela canção italiana. Quem ama Beatles não tem o mesmo sentimento pela música dos “Stones”; é o que penso e falo por mim. São sons diferentes de se ouvir. Eu sou beatlemaníaco. Jamais imaginaria, por exemplo, ver Paul vestido de beatle (naquele terno justinho) correndo no palco com seu contrabaixo Hofner e mostrando a língua para o publico. Era outra proposta. No mundo “Stones”, isso é o que faz seu público delirar. O fato que a história registrou - e ninguém poderá negar – foi a música que nasceu num canto do estúdio de gravação em 1963; Lennon e McCartney compuseram “I wanna be your man” e deram para Mick Jagger e sua banda gravarem seu primeiro sucesso. Foi a partir dessa contribuição dos Beatles que os Stones surgiram. De resto, já tentei ouvir, mas foi em vão, paro na primeira música, as outras parecem uma repetição, como bem lembrou uma vez um amigo.

Outro dia fui chamado atenção – sem nenhum peso de crítica, não me leve a mal – de ouvir “música de velho”. Como se me propusessem: largue mão disso e junte-se a nós, os contemporâneos e “jovens”, que ouvimos Lady Gaga, Amy Winehouse, João Bosco e Vinícius e Ivete Sangalo! Não me rendi, não desci o nível, mas justifiquei. Depois de um tempo, com o ouvido depurado por ouvir o som da guitarra do Pink Floyd, o teclado do Supertramp, o baixo de Paul, o violão folk de Simon, a harmônica de Bob Dylan e a batida “bossa nova” de João Gilberto, fica difícil me render ao modismo musical. Esses, que tentam me empurrar, sequer serão lembrados daqui a 10 anos. É tudo modismo mesmo e muitas vezes ruim!

Na minha infância, não fugi desse rótulo – de ouvir coisas do momento -, afinal, ouvíamos o que as rádios tocavam. Na minha época, era Sidney Magal, Odair José, Fernando Mendes e Perla. Não havia como não se contagiar com aquilo, vinha em enxurradas aos nossos ouvidos. E saia cantarolando por aí, até sem querer.

Descobri, porém, que poderia escolher minhas músicas (santa vitrola!), e na minha casa havia um bom acervo musical para isso. O disco Abbey Road dos Beatles (1970) quase furou. Ouvi muito Chico Buarque e já nos meus 18 anos fui apresentado à MPB mineira, ao som do violão folk de Paul Simon, Supertramp, Pink Floyd e James Taylor. Meus amigos da época, eram como eu, gostavam das mesmas músicas. Eu os ensinei a gostar de Chico; eles a gostar desses outros. Eram noites sem fim na esquina tocando violão e tomando vinho.

Naquela época, lembro-me de nos reunirmos em casa para ver um show que a tv exibiria numa noite de 1983. Era o memorável show do Central Park, com a volta da dupla Simon and Garfunkel (eles haviam parado?). Fiquei apaixonado pela música de Simon e a voz afinadíssima de seu parceiro. Eram 500mil vozes cantando junto com eles no Central Park. Nas rodas de violão era obrigatório tocar suas canções. Preferência? Acho que fiquei com “The bridge over troubled water”; era romântica e uma letra linda, falando de otimismo, amizade e amor. Foi também nesse tempo que meu amigo foi convidado a tocar violão num casamento. A música escolhida pelos noivos foi “Love of my life” do Queen, com direito a todos solos que Brian May fazia no seu violão ovation. Fiquei emocionado também naquele dia.

Das montanhas de Minas Gerais vinha um som maravilhoso também. Comecei ouvindo Milton e o disco Clube da Esquina, aquele que fez junto com o “menino” Lô Borges. “Por que se chamava moço também se chamava estrada / viagem de ventania /... e lá se vai mais um dia”. Nunca mais me esqueci de como se tocava esta música ao violão. Coinscidência ou não, os mineiros sempre foram apaixonados pelos Beatles.

Neste breve roteiro musical, tudo que ouvi e continuo ouvindo são canções contextualizadas na minha trilha sonora, com passagens memoráveis; de canções que ainda perpetuam em meus ouvidos, e como se fosse a primeira vez. Aos amigos próximos digo sempre, se Paul pudesse tocar piano na cerimônia do meu casamento, pediria que tocasse “The long and winding road”, é a mais apaixonante composição que dividiu com John.

Voltando àqueles que me julgam ultrapassado, não se preocupem com o que ouço. Quando ouço minhas músicas, não convido ninguém para ouvir comigo – é íntimo. Mas, não queira me tirar nunca da cabeça o solo inicial de “Day Dripper”; com a guitarra de George tocando só nos bordões, ao fundo a percussão do pandeiro de Ringo. Não sai mais de mim. Todo mundo na minha adolescência queria fazer igual, em qualquer violão na esquina, era Beatles. Como vou esquecer? Como vou mudar? Como gostar de Stones e do modismo? É a minha música, é música de velho sim, e com muito orgulho!

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Avenida pôr-do-sol



Na década de oitenta, e até meados dos anos noventa - assim como hoje -, aos domingos não havia muita opção de lazer na cidade. Ou quase nada. No domingo, era um cinema aqui, uma sorveteria ali e os clubes com seus parques aquáticos lotados no verão. De resto, mais nada.

Na extrema carência do que fazer, a juventude de São José freqüentava todos os domingos a Avenida pôr-do-sol – a praia joseense. Não havia um cidadão que conhecesse as avenidas Anchieta e Borba Gato, todos conheciam todo aquele trecho de frente para o Banhado, como Avenida pôr-do-sol. Os passeios, os encontros, as paqueras, os risos, desfiles, os shows eram ao pôr-do-sol do Banhado. Nossa aventura de domingo à tarde, era reunir os amigos, pegar a bike, o buzão e ir para lá encontrar com outras tribos e ficar contemplando o descortinar do dia, vendo o sol se apagar atrás da serra da mantiqueira.

Os shows da cidade aconteciam por lá também. No palco desfilavam: Marcos Flexa, Grupo revoada, Margareth Machado e outros artistas locais. O palco era sempre montado na Av. Borba Gato (a debaixo), e nós ficávamos sentados no gramado do talude que dividia as vias. Tempo bom.

Por que acabou, eu não sei. Será que crescemos e a geração seguinte trocou o pôr-do-sol do Banhado pelo messenger? Acredito que não. A verdade é que, nada acontecerá se não houver o estímulo. Esta geração – chamada de Y - vive em shoppings entupindo seus corredores e fazendo barulho, com seus celulares e notebooks. Poderia ir para lá, e ver o lindo pôr-do-sol que temos ainda.

Certa vez, ouvi de um colega de trabalho que, São José cresceu de costas para o Rio Paraíba. Não tinha me atentado a isso. Ninguém quis evocar a cidade a se voltar e contemplar o rio que corta todo seu tecido urbano. Que falta de atenção! Digo isso, agora como urbanista. Poucos são aqueles que têm memória em lembrar que o rio era navegável; suas águas caudalosas e mais limpas. Hoje, é quase uma paisagem morta, coberta por aguapés. Estamos deixando de contemplar e preservar nossas riquezas naturais. O Banhado corre o risco de ir junto nesse bojo.

Assim, como muitas cidades no mundo todo, no Rio de Janeiro, a Praia de Copacabana e o Aterro do Flamengo têm uma das pistas fechadas todos os domingos, e não pense que é para dar melhor fluidez do transito. São fechadas para virar lazer da população. E olha, estamos falando de uma cidade cujas opções de lazer são inúmeras, inclusive praias em abundância.

A pergunta é: Por que não voltar a Avenida pôr-do-sol? Naquela época a avenida tinha predominância de residências e poderia até causar mais incômodo; hoje tem mais comércio e serviços e muitos deles nem abrem aos domingos. Os eventos, como ação juventude, ruas de lazer, shows poderiam ser levados para lá, com a paisagem do banhado ao fundo, cheios de notebooks e celulares nos ouvidos.

Espero que a Avenida o pôr-do-sol volte logo; e esta juventude de hoje, possa viver aquela bela paisagem do banhado como nos dias felizes da minha juventude. Minha geração a respeitou e deixou lá, incólume.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Do batom vermelho no trabalho

LUIZ FELIPE PONDÉ


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O erro das chatinhas é supor que a percepção da beleza feminina implica em excluir a capacidade feminina

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Muitas leitoras me perguntam se sou contra a emancipação feminina. Como alguém pode ser contra uma mulher fazer o que quiser da vida e se desenvolver livremente? Ser contra a emancipação feminina é como ser contra aviões ou computadores.
O que leva muitas leitoras a pensarem que sou contra a emancipação feminina é porque não poupo o feminismo de seus excessos teóricos e de sua desmedida negação ideológica dos sofrimentos que a emancipação causou.
Não acredito na afirmação de que a sexualidade seja mero fenômeno social (teoria de gênero na sua versão "hard"), sou darwinista até a última gota de sangue: acho que nossas fêmeas (não apenas elas) carregam sobre suas almas o peso de milhares de anos de adaptação a condições específicas de cada sexo.
Por exemplo, para que serviria um macho chorão e covarde, em meio à savana africana, se escondendo atrás de "sua" fêmea grávida, no momento em que um predador fosse comê-los como janta? Para nada. Provavelmente as mais inteligentes se recusaram a reproduzir com tais frouxos. E elas legaram às suas filhas essa percepção aguda contra o macho fracassado.
Resultado, as fêmeas da espécie não suportam homens pobres, fracassados e deprimidos, mesmo que mintam por aí dizendo o contrário, porque ficou bonitinho mentir para deixar todo mundo feliz.
O pensamento público hoje em dia flerta com o jardim da infância. A mentalidade de classe média (covarde e mesquinha) devora a inteligência viril.
Lembro quando estava na sétima série do então "ensino fundamental", por volta de 1974. Estudava num colégio da elite branca de Salvador. Colégio jesuíta, que só tinha meninos. Naquele ano, os padres colocaram quatro meninas em cada classe. No ano seguinte, mais quatro. No seguinte, a sala estava cheia de meninas, todas lindas, pelo que me lembro. Com seus cabelos longos e cacheados.
Foi uma mudança cósmica. Novas hierarquias foram criadas. Os hábitos mudaram, passamos a brigar menos no recreio, não só o futebol contava, mas também com quem as meninas falavam. Quem comia o lanche com uma delas estava no paraíso.
Quem ganhava um sorriso de uma delas virava celebridade. Grande parte dos meninos morria de medo de falar com elas. Chegar perto era um ato heroico porque a indiferença era como a morte.
Os grupos de trabalho em classe disputavam cada uma delas. Grupos só de meninos eram a assinatura do fracasso.
É assim que vejo a emancipação feminina: um presente para nosso cotidiano, na escola, no trabalho, nos aeroportos, nos congressos, nas ruas. Com suas saias, calças justas, saltos altos, batons vermelhos, elas pintam nosso cotidiano com o desejo. E, com o desejo, o clássico inferno da insegurança de cada um de nós.
Imagino o horror que era trabalhar numa universidade onde todo o corpo docente fosse apenas de homens e as classes fossem cheias de rapazes. Que tédio.
Ou uma empresa onde apenas homens trabalhassem. Como seria uma reunião sem uma colega de pernas lindas resolvendo problemas sérios com um toque de charme inigualável?
Claro, as mais chatinhas me acusarão de machista quando pareço "defender" a emancipação feminina porque gosto de ver o mundo do trabalho cheio de saias curtas e batons vermelhos. Podem achar, não ligo para o que elas pensam. Dirão que sou um egoísta. Será culpa da minha mãe?
O erro das mais chatinhas está em supor que a percepção da beleza feminina implica em exclusão da percepção da capacidade feminina. Não, a beleza feminina torna a parceria com as mulheres no trabalho um oásis em meio ao deserto da violência profissional cotidiana.
Outro erro é não perceber o escopo da beleza feminina no cotidiano do trabalho. A beleza feminina inclui uma série de fatores que vai do corpo à voz doce ao dizer "bom dia", das ancas à forma sutil com que elas enxergam coisas para as quais os homens são cegos, surdos e mudos, da "intuição feminina" ao erótico de ter "um chefe" mulher.
A vida sem Eros é uma vida menor. Um mundo só de homens é em branco e preto. Prefiro o batom vermelho na boca à burca no corpo.

(Jornal Folha de São Paulo - 02/maio/2011)

sábado, 30 de abril de 2011

Aniversário do Blog!!!

Não podia deixar de registrar, hoje (30/04), faz 01 ano que este Blog está no ar, ou como se diz, na rede. Devo confessar que, não imaginava a repercussão boa que ele me trouxe. Muitos amigos, encontros e bons presságios. O fato de ter colocado na rede meus textos, comentários (sobre vários assuntos), instigou meu apetite em escrever mais e mais; passar meus recados na medida que o "incômodo" vinha à alma. Escrever é uma coisa solitária, eu sei. Já disse um jornalista que, é infeliz quem escreve. Não acredito, acho que é felicidade também. Na verdade, quem escreve lava sua alma. Vamos tocando o barco. Obrigado a todos. Antonio.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

As atrizes


Marilyn Monroe - 1947 (21 anos)

“Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim”

Com estes versos, meu compositor favorito – desde os 14 anos – completa a letra da canção “As atrizes”. Falo, é claro, de Chico Buarque. Em 2006, ele escreveu esta canção que se confunde, no tema, com outra de sua autoria, do mesmo ano “Ela faz cinema”. Quando acompanhava os programas especiais feitos pela extinta Directv, lembro que Chico compôs esta música, um tanto meio “preguiçosa”, só para fazer parte daqueles programas e porque estava no contrato: uma música nova por programa. Não desmerecendo a canção, é claro. Mas, como tudo tem uma história que justifique, ele contou que somente no cinema francês era possível ver mulher nua; mulher saindo da banheira se enrolando numa toalha, aquela coisa bem rápida. Até então, o cinema americano não havia descoberto a nudez e sensualidade, numa forma comercial de atrair público. Outros tempos.

Aos meus amigos, confesso sempre que não me sinto atraído pelas  atrizes nacionais, quando vão parar na telona. Tenho dispensado os filmes nacionais, independente de quem atua. Penso que essas atrizes, nunca fogem do rótulo massante que encarnam nas novelas globais. Pode até ser cisma minha, ou preconceito. Nós não temos atrizes só de cinema, infelizmente. Mas, no cinema hollywoodiano (como disse Antonio Bandeiras: Hollywood hoje é só uma marca e não mais uma indústria cinematográfica) tem uma penca delas que me vem à cena. Citaria as atuais, carregadas de beleza e talento, Kate Winslet, Julia Roberts, Angelina Jolie; e outras das antigas: Joan Crawford, Bette Davis, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, Jane Fonda e, é claro, Marilyn Monroe.

Na década de 1950, 10 entre 10 homens eram fascinados pela estonteante Marilyn Monroe. Eu também fiquei – embora nem houvesse nascido quando ela estourou nas telas. Estou lendo agora o livro “A vida secreta de Marilyn Monroe” – J. Randy Taraborrelli (2010). Por ser um livro extemporâneo - sem a menor pretensão de tirar proveito de sua morte, como ocorreu na ocasião -, carrega em si um monte de verdades, com dedos nas feridas e fatos minuciosamente relatados sobre a vida de Marilyn. Da triste infância até o estrelato e passando pelas suas doenças psicológicas. Verdades, sim, porque muito do que se falou dela eram histórias inventadas – até por ela mesma. Ela tinha esta coisa de inventar histórias sobre sua vida, até para tirar proveito na carreira. Quando alguém descobria a verdade, ela voltava atrás, sem sair do tom, dizia o que de fato se passou e justificava porque mentiu. Frank Sinatra, seu amigo, dizia: ela sempre conseguia fazer do limão uma limonada...

A pretexto da sua vida e da atriz que sempre desejou ser – ela era muito dedicada em tudo que fazia –, comecei, já faz um tempo, e não terminei ainda, de escrever um texto falando dela. Parei no meio, confesso, para respirar e ter fôlego; as histórias do livro têm me fascinado, mudando palavras e encontrando outro sentido para descrevê-la. Agora com a atriz também; sem me ater somente ao mito que carrega seu nome. Ela era radical e queria ser uma grande atriz, e para isso usou de tudo, inclusive o seu maior triunfo: a beleza. Foi assim, até a sua morte. O texto estará aqui no início de junho, prometo, quando ela completaria 85 anos.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / abril de 2011.


terça-feira, 12 de abril de 2011

Pedras e diamantes


Nunca me deparei com uma pedra preciosa na sua brutalidade. Poderia dizer que elas passam longe de mim, é verdade. Elas sempre nos aparecem já talhadas, polidas, brilhantes e belas. Algumas, já lapidadas, ficam à vista somente nas vitrines das joalherias. O que há de tanta preciosidade? Porque se rouba, se mata e se gasta tanto para possuí-las? É só uma pedra! Tento justificar: raridade, fazem bem aos olhos de quem vê, tem dureza, brilho, ostenta uma riqueza, custou sua lapidação — há inúmeras razões. O mundo tem mais preciosidades para brigarmos por elas. Há tantas almas brutas, mas preciosas, de estimado valor, só precisam ser talhadas também.

Faz alguns anos fiz um curso de final de semana, num hotel fazenda. Era um daqueles cursos de imersão, de mergulho interior, de caça aos nossos tesouros. Ao final, percebi que, um final de semana era pouco para desfragmentar todo o HD e colocar os arquivos e pastas no lugar; ou arrumar as gavetas da cômoda: meias em uma, camisetas em outra, cuecas em outra, e roupas velhas puídas no lixo... Mas, sempre trazemos algo de bom, mesmo que o tempo não seja o ideal para a arrumação. Numa dessas dinâmicas, guardei esta metáfora: pare de tropeçar em pedrinhas! Pedras tão pequenas que deveríamos pular, ou desviar, ou simplesmente chutá-las do caminho. Nós, no entanto, paramos dando grandeza de iceberg a elas; valor, imobilidade e choramos quando elas estão a nossa frente. Quanta vida desperdiçada, quanto tempo nós perdemos com essas tolices. É o que ocorre na maioria das relações; as pessoas discutem e brigam; se perdem e se separam por não encontrar soluções nas miudezas e não tratar com pequenez seus problemas. Foi essa constatação, que trouxe daquele final de semana e isso já me valeu ter ido. Nunca mais esqueci e não quero mais tropeçar em pedrinhas. Das pedras no caminho, só quero levar comigo o brilho das preciosas; com a sensibilidade de olhar por trás do barro duro que a esconde e com o trabalho árduo de ter que talhar e polir. Tem que olhar para dentro.

Toda vez que uma pedra preciosa é encontrada na natureza, imagino que, ela esteja na sua brutalidade: desfigurada, empoeirada, suja, rugosa, com crostas de terras e material orgânico que não sai no esfarelar das mãos. A natureza a produziu sem nenhum desses elementos, eu creio; eles, porém, foram se acumulando com o tempo e ela sozinha não pôde extirpar. E tudo aquilo fez esconder sua preciosidade; tudo que dificulta ver o quanto de brilho possui. É necessário ter sensibilidade e conhecimento profundo ao depararmos com algumas dessas pelo caminho; pode ser que pisemos em cima, não enxerguemos e não demos à devida importância, afinal, ela ainda é bruta e ofuscada por essas matérias impregnadas. Somente especialistas e pessoas com mais sensibilidade para percebê-las por aí, nas montanhas e nos fundos de rios. Aquele que encontrar, irá saber o que fazer para torná-la bonita, aparecer sua riqueza e valorizar por toda a vida. Lapidar agora é preciso, mas requer também paciência e zelo.

Lapidação é um estágio das gemas, onde elas passam do estado bruto para a revelação da sua beleza; onde ganham simetria, formas e brilho ao menor feixe de luz. Onde todas as impurezas são retiradas: o pó, a terra, a rugosidade. É um duro estágio para elas. As pedras são levadas aos discos e esmerilhadas, talhadas até o ponto de encontrar luz própria. Diria mais, é o pior sofrimento para elas. Crostas de terra e material orgânico estão lá por anos, agora são retirados com a paciência de um artesão. Não há pedra preciosa que seja encontrada já lapidada; todas têm que passar pelo estágio duro do esmeril. Este que lhe dá a forma simétrica: cônica, oval, redonda; com todas as suas faces iguais. Tudo para dar equilíbrio e perfeição, onde em cada lado que olharmos, revela a beleza; e giramos na ponta de nossos dedos para ver a luz refletida em todas as suas faces. Há beleza por todos os lados agora.

    “Lapidar
     Minha procura
     Toda trama
     Lapidar
     O que o coração
     Com toda inspiração
     Achou de nomear
     Gritando, alma” (Ânima – Milton Nascimento)

Vejo muitas almas boas, mas brutas, que vivem a tropeçar nas pedrinhas e ali estagnam, param com a sua e a vida de quem as acompanha. Precisam dessa lapidação; precisam dessa limpeza profunda para se tornar pessoas mais atraentes e bonitas; precisam da simetria para torná-las mais equilibradas, sensatas e sem arestas. Pedras preciosas não se talham sozinhas; quem as encontra tem que fazer o polimento, ajudar eliminando suas impurezas. Mas, é preciso que essas almas também se permitam a se limpar e se polir. É preciso passar pelo tratamento da dor do esmeril.

Já faz tempo, carrego comigo esta certeza. O que nos faz melhor não é o grau de instrução que temos; não é o saber falar vários idiomas; não é ser o melhor aluno da sala; ser o melhor funcionário da empresa e com o melhor salário; ou porque já viajamos o mundo todo. O que nos fará melhor é a pessoa boa que podemos ser; na forma mais justa e sincera, verdadeiros conosco e com o próximo. Assim, como as pedras, precisamos passar pelo estágio do esmeril, lapidar para transformar e luzir. Um ser humano na essência da palavra. Como ninguém ensina isso nas escolas, ficamos com a ideia que isso não é importante. Entendemos, sim, que importante é falar três idiomas e ser respeitado por isso. Grandes homens e mulheres da humanidade só falavam um idioma, o do amor. Bastou para serem lembradas por todas as gerações.

Das pequenas pedrinhas do caminho, faremos atalhos e desviaremos; das pedras preciosas, uma coleção para guardar por toda vida. Não importa a pedra que você queira ser: esmeralda, diamante ou rubi. O que importa é se você se permite passar pelo processo do talhamento; o que importa é o quanto você brilhará ao menor feixe de luz; e olhando por todos os lados, não conseguir dizer qual é o mais belo. Todos serão iguais com a incidência da luz.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / abril de 2011.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A tragédia de Realengo


Começou o festival de besteiras que assolam o país. Depois da tragédia "imprevisível" ocorrida ontem (07/04), em Realengo (RJ), começam novamente a se falar em desarmamento, seguranças dentro das escolas, leis, cadeados. Bobagem! Bobagem! Como se qualquer dessas ações, fosse impedir o cérebro doente de um psicopata. Não se trata de colocar cadeados nas escolas, ou blindadem de crianças; o matador poderia fazer isso em qualquer ambiente, com qualquer pessoa (lembre-se que ele era um psicopata). Temos que voltar, sim, ao resgate de valores morais e de educação, que começam na formação das famílias. Quem prega isso?

O Brasil tem 25,2 homicídios por 100 mil habitantes; os EUA têm apenas 6, menos de um quarto. Lá, já ocorreram várias tragédias similares. Há cérebros doentes lá e aqui. Não justifica que, falas como a da nossa presidenta: um crime como esse “não é característica do país”, venham tratar a coisa como particularização de nações mais desenvolvidas. Isso é fazer politica em cima da dor alheia. Quis dizer que, no Brasil, não ocorrem assassinatos dessa natureza, isto é coisa "duzamericanu". Como não! Não se trata de questões puramente de características de uma nação. Não há o que fazer diante de um crime brutal como ocorreu em Realengo. O assassino podeira ter feito isso dentro de uma igreja, de um cinema (lembrando um caso aqui no Brasil); ou seja, em qualquer lugar, com qualquer pessoa. O que precisa ser feito, de fato, é melhorar, com certeza, a formação do indivíduo, do ser humano na sua base. E isso, tem a raiz fincada dentro de nossos lares; com seus valores morais, de educação e, por que não, de religião. Para um momento como este, não cabem palavras ditas ao vento; não cabem atitudes por decretação de leis; não cabe a política rasteira e vergonhosa; não cabem bravatas; cabe o silêncio e o partilhamento da dor com quem perdeu uma dessas crianças. Meus sentimentos. É o que tenho para dar.
 
Postado por Antônio - Abril de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

A família feliz

Alguém já viu os carros com adesivos de família feliz? Claro que sim. Virou moda usar adesivos alusivos com bonequinhos, para apresentar sua família. E vale tudo, até dizer a profissão e que se tem gato, cachorro e peixe no aquário. Há uma infinidade de formas, tamanhos, preto e branco, coloridos. Em síntese, são pessoas sentindo orgulho de dizer como são suas famílias; uma maneira rápida de conhecer uma família e até seu estado de espírito. Penso mais, é um resgate de algo que parecia perdido. Eu não tenho no meu automóvel, mas acho bem legal quem aderiu à moda. Para ser sincero, não gosto de adesivos, só deixo o do óleo à vista, para não me esquecer da troca.

Vi numa emissora de TV local, uma reportagem, onde a polícia recomenda que as pessoas não usem os tais adesivos; alegando que assim ficam expostos (a família), vulneráveis e se tornam presas fáceis de bandidos. Confesso que não me convenci da assertiva, quando ouvi a capitão da polícia militar dando entrevista. Até hoje, não ouvi notícias que alguém, ou alguma família, tenha sido sequestrada ou violentada porque o bandido chegou até ela pelos tais adesivos. Pura balela. No mundo de 2011, as maiores exposições que fazemos de nós mesmos estão nas redes sociais espalhadas pelo universo virtual. Colamos fotos, anunciamos negócios, festas, ostentamos e dizemos que estamos felizes. Dificilmente alguém irá usar uma rede social para dizer que ficou pobre e que não tem dinheiro. Vivemos a era das exposições exacerbadas e do parecer, como já disse em outra crônica. Bandidos, quando querem, também abrem páginas na internet para facilitar o seu trabalho.

Nesta coisa de retratos de família, tenho saudade dos tempos em que os fotógrafos (lambe-lambe) batiam de porta em porta oferecendo para fazer o retrato da família (em branco e preto). Aquilo virava um quadro e ia parar na melhor parede da casa – até amarelar pelo tempo. Orgulho e honra dos valores familiares – assim creio. Sempre o patriarca em pé ao lado da mulher e os filhos sentados em cadeiras. Conheço uma família, que mora nos EUA há anos; um dia me mostrou o álbum de fotografia da igreja que frequentava, lá na cidade onde moravam. Como os católicos nos EUA estão em número menor, é fácil conhecer cada membro da igreja e fazer álbum. O álbum não era individual, era da família, com os nomes e o endereço no rodapé. Achei bem legal. Assim, todos ficam sabendo quais são as famílias que frequentam aquela igreja e o pároco; depois podem se conhecer e marcar encontros se quiserem.

Enfim, chegamos no tempo, pela ordem da polícia, onde não é bom ficarmos dizendo de onde viemos, a família que temos e de quem gostamos. Os bichos de estimação, cachorros, gatos, papagaios e peixinhos de aquário; tudo ficou perigoso mostrar. Se tivermos filhos pequenos, então, nem pensar! Diante dessa tal proteção, faremos o quê? Vamos nos entrincheirar em nossas casas cercadas de grades, muros altos e aparatos de segurança? Cadê as brincadeiras de rua? Cadê a boa vizinhança? Cadê retratos de família na sala? Cadê a liberdade? Até quando ficaremos refém desse mundo?

Se algum meliante seguir alguém na rua, com certeza, não será pelo adesivo de sua família, mas talvez, pelo modelo e ano do veículo que ostenta. Portanto, continue usando os adesivos. Não há nada de mal em querer mostrar sua família, até para bandidos.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

A maior do interior


O escritor Luís Fernando Veríssimo, numa de suas crônicas, descreveu e justificou dez razões para o milionário Eike Batista dar parte de sua fortuna a ele. Fiquei pensando depois, quais seriam as minhas razões, ou como seria se fosse o oitavo na lista dos milionários do mundo. O que faria com tanta grana? Se é que preciso de tudo isso... Se estivesse apaixonado, talvez, desse muitos presentes a minha amada; cobriria sua rua com pedrinhas de brilhantes. Mas, preferiria não estar, senão acabaria ficando pobre e sem ver a cor da grana. De verdade, se não tivesse nenhuma paixão, acho que faria um bem à humanidade. Doaria em uma campanha universal pelo amor no planeta. Meu dinheiro renderia muito mais, com certeza; mais do que uma aplicação na bolsa, ou se comprasse uma cidade inteira para morar.

Esta coisa da paixão que se junta com dinheiro nos cega por muito. No futebol também há paixão, ou o futebol é sinônimo de paixão. Um torcedor certa vez me disse: se tivesse uma sorte na megasena, construiria uma grande arena de futebol para o seu time de coração – paixão de torcedor. E por ela ficamos até doentes, um sentimento que nunca acaba. Deixamos casamentos, namoros, amizades, mas a paixão pelo time, esta nunca morre; vai junto conosco e com a bandeira sobre a urna. Há pessoas que não entendem. Eu entendo até certo ponto, quando não se torna loucura de se ridicularizar por qualquer coisa: brigas, discussões e inimizades. Mesmo assim, fiquei surpreso com sua resposta. Cada um teria algo a fazer diante de tamanha fortuna, ele pensou no seu time de coração. Justo.

Chego a me emocionar quando me deparo com esta relação de afeto entre futebol e o torcedor. Vivo o futebol, torço, vibro e quando meu time perde fico irado, mas na manhã seguinte tudo já passou; vivo no limite de não adoecer por isso ou perder a fome. Adoro estádio de futebol, aquele clima, aquela emoção que só quem já foi sabe o que é. A torcida entusiasmada, cantando e gritando uníssono, empurrando o time a todo o momento, é de arrepiar.

Já confessei que sou palmeirense desde criança, mas tenho um segundo time na manga – quando um não ganha, fico feliz com o outro. Há lugar no peito para um segundo time? Afirmo que há sim! O time da minha cidade luta para retornar ao staff do futebol paulista. Já são mais de 12 anos que o São José EC peleja para voltar à elite do futebol. E se fosse pelo tamanho e pela paixão de sua torcida, o time já estaria lá. Cronistas esportivos dizem que ela é o grande patrimônio do clube; e ela se orgulha em dizer: é a maior do interior! Mas, como em toda competição na vida, tem os tempos de lutas até a batalha final e o triunfo. E é isso que temos feito: os jogadores em campo e nós nas arquibancadas.

No ano passado, num desses memoráveis dias de vitórias e estádio lotado, fui chamado pelo torcedor Guilherme Miranda - arquiteto, companheiro de arquibancada e dono do Blog Torcedor da Águia (Clique aqui) - a fazer uma música em comemoração ao aniversário do seu Blog. A encomenda era uma música que homenageasse – merecidamente - a torcida. É de praxe que, todos os times de futebol tenham um hino; mas uma torcida que tem hino, era a primeira vez. De vez em quando, eu me arrisco a escrever letras de músicas, é minha contribuição nas parcerias. Mexo no violão, para algumas raras peças que não me deixam rubros de vergonha, mas na hora de compor, com notas e acordes, não sai nada – já tentei. Então, aguardei meu parceiro de música retornar de viagem para compor, iniciarmos o processo. Enquanto ele não vinha, rascunhei uma letra. Quanto retornou de viagem nos encontramos, e a música saiu no mesmo dia. Dei o nome da marchinha (de carnaval) de “Torcida Águia do Vale”. A letra é uma volta no tempo, da paixão  que nasceu desde o preto e branco para o azul e branco de sua camisa; do formigão do vale para a águia; e do seu inesquecível herói do acesso de 1980, Tião Marino - aquele que, dentre os jogadores de futebol depois de Dadá Maravilha, era o único que “parava no ar” para cabecear uma bola. A letra e o vídeo, agora disponíveis no youtube – com os créditos do Renato Emanuel - já contam com mais de 850 acessos. A voz é de Eduardo Borges e Mima Barros.

Esses torcedores não deixam de se apaixonar nunca; e enquanto o time não subir, será assim: uma música atrás da outra e um grito só: vai São José!

Torcida Águia do Vale
(Eduardo Borges / Anttonio Buarque)
11/10/10

Eu vou, eu vou, eu vou cantar gritar
O manto azul é a nossa cor
O manto azul é o nosso amor
Torcida águia do vale
A maior do interior

Desde o tempo do “formigão”
Do preto e branco fez o azul
Vimos nascer, crescer uma nação
De leste a oeste, de norte a sul

O amor por ti vem das vitórias
Nossa torcida em ti constrói
Esta camisa tem história
Tião Marino, o nosso eterno herói

Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe Águia
Enche de orgulho o nosso coração
(com luta e garra de campeão)
“Tá na rede” é gol!
Uma explosão

FINAL (só com palmas)

♫ Sou joseense com muito orgulho,
Com muito amor... ♫



© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2011.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Paixões de Outono


Já me manifestei em outra crônica - Nesta manhã de primavera... - minha predileção pelas estações com climas mais amenos. O verão e o inverno são estações rudes, extremistas e irritantes para o corpo: muito quente ou muito frio; interferindo também em nossas decisões. Ouso dizer: o clima influencia mais em nossas vidas que a astrologia – para aqueles que acreditam. As mudanças climáticas apaziguam ou incomodam, na medida que sentimos; mexe com nosso corpo, altera o sono, mexe com o apetite, com o humor; e estes respondem com decisões sobre a vida.

Isto também está nesta estação que se inicia – o outono. Nestes dias, com este friozinho, mangas longas e banhos mornos, nos remetem ao aconchego, ao casulo, à cabana; faz-nos mais carentes de colo e de cafuné na cabeça – como é bom... O calor já se foi e já não dá mais praia, o carnaval já passou, as folhas caem e o ano, de fato, já começou. Tenho esta teoria já faz tempo, de acreditar que o outono é a estação onde mais nos apaixonamos. O pavor com a chegada do inverno e de não ter ninguém no calcanhar, para aquecer nossos pés, torna-nos mais fragilizados e vulneráveis às paixões. Permitimos e nos apaixonamos mais. Em 2005, escrevi um poema sintetizando tudo isso (poema não se explica, já disse Ferreira Gullar). “Paixões de outono” é um convite ao recolhimento, à paixão que bate no peito querendo entrar. Permita-se, então, se vem para ficar - muito além do outono.

Paixões de outono

Outono, outono...
Nunca me dei conta
Como instável era a paixão
Marolas de mar
Balanços das ondas
Suspiros no fim do verão
Passeios à tarde
Taças de vinho ao luar
Rubros no céu de abril
Amores sem dono
Extraídos de um conto
De outono

Outono...
Nunca me dei conta
Dos dias que passei
Em frente aos olhos
Que vi naquele olhar
São coisas de outono:
As noivas de maio
Fogos de junho
Festas de encontros
Rodas de carruagem
Levam histórias, viagens...
Levantam folhas caídas
De igual abandono
De outono...

E nem me dei conta
Do amanhecer de orvalho
Quantas constelações
Estrelas milhares
No jardim daqueles olhos
Vinham em navios
Invadiam noites afora
Saqueavam meu sono
Num encanto
De quase outono

Ah, quando me dei conta
Já hospedava no peito
Mais nova paixão
Navios, estrelas, folhas...
Depois deste outono
Ninguém mais ouse dizer
Que seus olhos
Agora, já não tem mais dono

Antonio - 19/05/2005

segunda-feira, 14 de março de 2011

Janeiro

Hoje é dia da poesia. Encontrei esta do meu pequeno baú literário. Poemas não são feitos para serem explicados, mas para serem sentidos.



Quando ela olhou para trás
Eu vi sua face se esmaecer
Na curva de estrada
Nossa estrada, estrada...
Os anos se foram
Poemas rasgados
Canções furtadas
Janeiros afins
Eu sei...

Nos passos enluarados
Fui de encontro ao mar
Nas preces que me vinham
Em nome do nosso amor
Lânguido meu olhar ficou
E deixei-me na praia
Um corpo estirado
Eu nem sei por que de tudo
Deixamos de amar por nada
Sei que sem ela e ela sem eu
Na curva da estrada
Nossa estrada, estrada...

Vi um janeiro tua pele
Bronzeada árida
Tudo o que ficou
Entornou um mar em mim
Tuas queixas em vão
Onde foi parar meus versos
Arraste um janeiro
Sobre a minha canção
Um poema encomendado
Não pode ser convertido
Na palavra da alma
Não tem origem, nem fim
Um poema encomendado
Não pode ser entregue
Identificado contigo
Mas assino embaixo:
Você é meu amor.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 2007.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sinais e... Truco!

Segue abaixo um texto antigo, mas que não se perdeu com o tempo. Afinal, os sinais estão aí. Juntando sinais e truco pode-se dizer algo sobre a vida também. Nesta época, eu jogava muito truco, depois fui deixando de jogar até parar. Mas não perdi o jeito. É só chamar que eu vou.

Quem joga truco já ouviu muito isso: Truco! Seis! Nove! Doze! O truco é o jogo do gangolino, do blefe, dos sinais, da sorte e, do azar também. Popularmente é o maior jogo de cartas do Brasil. Digo isso porque não conheci ninguém que já não tenha jogado ou pelo menos tentado jogar truco. Minto, no Rio de Janeiro não se joga truco. Dizem por lá que é jogo de paulista. Na verdade, aqui em São Paulo, Minas, Mato Grosso e Goiás é costume se jogar truco em rodas de amigos e torneios. Claro que, de região para região há variações das regras. Aqui em São Paulo jogamos a regra do “ponto acima”.

Aprendi a jogar truco vendo meu pai jogar com seus amigos. Ali, ao lado da mesa eu ficava prestando atenção em tudo. Meu pai jogava quase todas as noites e sempre que o jogo não era em casa eu ia com ele, onde fosse. Achava divertido os desafios e blefes, embora não entendia muito. Naquele tempo se jogava a versão antiga ou como chamamos hoje de “manilha velha”. As cartas, por ordem de valor, são quatro de paus (zap), sete de copas, “As” de espada (espadilha) e sete de ouro (pica fumo). Hoje, jogar manilha velha não tem graça, s cartas facilmente ficam marcadas; ninguém joga mais, só os mais antigos.

Depois aprendi a jogar a regra do “ponto acima”. Muito mais difícil de jogar e mais difícil de “roubar”. O jogo dos gangolinos requer astúcia e perspicácia para ser um bom jogador e principalmente atentar aos sinais do parceiro. Você tem que conhecer muito bem os sinais do teu parceiro e ele os teus. O olhar fixo, a ligeireza e a malandragem evidenciam que jogar truco é muito mais no blefe do que na sorte das cartas que você tem nas mãos. Se tornando para muitos um vício. O dom de dar o sinal ao parceiro é tudo ou quase tudo no jogo de truco.

Fiquei muito tempo sem jogar. Para ser sincero, tive asco ao jogo. Quando fazia faculdade de Arquitetura era comum as mesas de jogatina entre um projeto e outro. Via muita gente deixando de estudar para jogar. Não que eu fosse um “caxias”, mas aquilo, todo dia me irritava. De lá para cá não joguei mais. Recentemente voltei a jogar, embora um tanto despretensioso, sem vontade nenhuma de alcançar o sucesso com medalhas e troféus; somente para passar o tempo, brincar e dar boas gargalhadas.

Num desses jogos aconteceu algo que me fez refletir a escrever estas linhas. Já na primeira partida, como de costume, ao receber as minhas 03 cartas olhei para o meu parceiro e dei um sinal. Como? Na hora me veio a vontade de encher as bochechas rapidamente para dizer que minhas cartas estavam horríveis. No sinal do truco, isso quer dizer o contrário e, ao contrario ele entendeu. Pensou ele, meu parceiro está cheio, entupido de cartas, tem “casal maior” na sua mão... Confiante no sinal, meu parceiro, se acomodou melhor na cadeira e disparou um truco, sem pestanejar. Do outro lado, nossos adversários levantaram e quase subiram em cima da mesa para gritar um sonoro SEIS!! Olhei para meu parceiro e fiquei sem entender nada, já que nada havia na minha mão. Fugimos rapidinho e passamos o baralho.

A pecha me serviu de lição e me chamou atenção a importância que devemos dar aos sinais, em tudo na vida. Vivemos a emitir e receber sinais pela vida inteira. Aprendemos desde o berço a ser usuário dos sinais. Observamos isso claramente quando uma criança é estimulada a pular no colo do pai, apenas pelos gestos e o sinais do olhar feliz do pai. Sem ter noção de distancia ou a altura, se jogam no espaço, sem medo e confiantes. Os surdos e mudos não se socializariam se não conhecessem os sinais de libra que usam constantemente, até para pedir comida. Ao guarda de trânsito colocamos nossa confiança e através de seus gestos e sinais nos orientamos. Assim, como meio substancial na vida humana, devemos acreditar nos sinais que o universo nos emana? Basta olharmos para o mundo que encontramos; a cada dia deparamos com manifestações na natureza, no meio ambiente e no comportamento do próprio homem. São os sinais do tempo, diriam, mas aqui não no sentido apocalíptico e, sim na pura verdade que há sinais demais no mundo para acreditarmos significativamente que mudanças vem em pencas; e tudo que emitimos devendo ter a absoluta credibilidade, o universo não se engana. No mundo que nós inventamos e mantemos, não vivemos sem estabelecer uma comunicação através dos sinais. Com Deus, fazemos o sinal da cruz. O sinais dos tempos, sinais dos corpos, sinais de trânsito... Tudo nos rege.

Depois do meu vexatório início, quer saber como terminou aquele dia do truco? Eu e meu parceiro ganhamos as 7 partidas seguintes, claro, com muita atenção aos sinais. Os mesmos sinais da vida.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 07/Agosto/2008.