Não podia deixar de registrar, hoje (30/04), faz 01 ano que este Blog está no ar, ou como se diz, na rede. Devo confessar que, não imaginava a repercussão boa que ele me trouxe. Muitos amigos, encontros e bons presságios. O fato de ter colocado na rede meus textos, comentários (sobre vários assuntos), instigou meu apetite em escrever mais e mais; passar meus recados na medida que o "incômodo" vinha à alma. Escrever é uma coisa solitária, eu sei. Já disse um jornalista que, é infeliz quem escreve. Não acredito, acho que é felicidade também. Na verdade, quem escreve lava sua alma. Vamos tocando o barco. Obrigado a todos. Antonio.
Anttonio Oliveira, arquiteto, urbanista e um aprendiz das palavras. Contatos: Email: anttonioarq@yahoo.com.br Twitter: @Anttonioarq Instagram: anttonioarq
BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.
Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempo – Carlos Drummond de Andrade)
sábado, 30 de abril de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
As atrizes
“Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim”
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| Marilyn Monroe - 1947 (21 anos) |
“Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim”
Com estes versos, meu compositor favorito – desde os 14 anos – completa a letra da canção “As atrizes”. Falo, é claro, de Chico Buarque. Em 2006, ele escreveu esta canção que se confunde, no tema, com outra de sua autoria, do mesmo ano “Ela faz cinema”. Quando acompanhava os programas especiais feitos pela extinta Directv, lembro que Chico compôs esta música, um tanto meio “preguiçosa”, só para fazer parte daqueles programas e porque estava no contrato: uma música nova por programa. Não desmerecendo a canção, é claro. Mas, como tudo tem uma história que justifique, ele contou que somente no cinema francês era possível ver mulher nua; mulher saindo da banheira se enrolando numa toalha, aquela coisa bem rápida. Até então, o cinema americano não havia descoberto a nudez e sensualidade, numa forma comercial de atrair público. Outros tempos.
Aos meus amigos, confesso sempre que não me sinto atraído pelas atrizes nacionais, quando vão parar na telona. Tenho dispensado os filmes nacionais, independente de quem atua. Penso que essas atrizes, nunca fogem do rótulo massante que encarnam nas novelas globais. Pode até ser cisma minha, ou preconceito. Nós não temos atrizes só de cinema, infelizmente. Mas, no cinema hollywoodiano (como disse Antonio Bandeiras: Hollywood hoje é só uma marca e não mais uma indústria cinematográfica) tem uma penca delas que me vem à cena. Citaria as atuais, carregadas de beleza e talento, Kate Winslet, Julia Roberts, Angelina Jolie; e outras das antigas: Joan Crawford, Bette Davis, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, Jane Fonda e, é claro, Marilyn Monroe.
Aos meus amigos, confesso sempre que não me sinto atraído pelas atrizes nacionais, quando vão parar na telona. Tenho dispensado os filmes nacionais, independente de quem atua. Penso que essas atrizes, nunca fogem do rótulo massante que encarnam nas novelas globais. Pode até ser cisma minha, ou preconceito. Nós não temos atrizes só de cinema, infelizmente. Mas, no cinema hollywoodiano (como disse Antonio Bandeiras: Hollywood hoje é só uma marca e não mais uma indústria cinematográfica) tem uma penca delas que me vem à cena. Citaria as atuais, carregadas de beleza e talento, Kate Winslet, Julia Roberts, Angelina Jolie; e outras das antigas: Joan Crawford, Bette Davis, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, Jane Fonda e, é claro, Marilyn Monroe.
Na década de 1950, 10 entre 10 homens eram fascinados pela estonteante Marilyn Monroe. Eu também fiquei – embora nem houvesse nascido quando ela estourou nas telas. Estou lendo agora o livro “A vida secreta de Marilyn Monroe” – J. Randy Taraborrelli (2010). Por ser um livro extemporâneo - sem a menor pretensão de tirar proveito de sua morte, como ocorreu na ocasião -, carrega em si um monte de verdades, com dedos nas feridas e fatos minuciosamente relatados sobre a vida de Marilyn. Da triste infância até o estrelato e passando pelas suas doenças psicológicas. Verdades, sim, porque muito do que se falou dela eram histórias inventadas – até por ela mesma. Ela tinha esta coisa de inventar histórias sobre sua vida, até para tirar proveito na carreira. Quando alguém descobria a verdade, ela voltava atrás, sem sair do tom, dizia o que de fato se passou e justificava porque mentiu. Frank Sinatra, seu amigo, dizia: ela sempre conseguia fazer do limão uma limonada...
A pretexto da sua vida e da atriz que sempre desejou ser – ela era muito dedicada em tudo que fazia –, comecei, já faz um tempo, e não terminei ainda, de escrever um texto falando dela. Parei no meio, confesso, para respirar e ter fôlego; as histórias do livro têm me fascinado, mudando palavras e encontrando outro sentido para descrevê-la. Agora com a atriz também; sem me ater somente ao mito que carrega seu nome. Ela era radical e queria ser uma grande atriz, e para isso usou de tudo, inclusive o seu maior triunfo: a beleza. Foi assim, até a sua morte. O texto estará aqui no início de junho, prometo, quando ela completaria 85 anos.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / abril de 2011.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Pedras e diamantes
Nunca me deparei com uma pedra preciosa na sua brutalidade. Poderia dizer que elas passam longe de mim, é verdade. Elas sempre nos aparecem já talhadas, polidas, brilhantes e belas. Algumas, já lapidadas, ficam à vista somente nas vitrines das joalherias. O que há de tanta preciosidade? Porque se rouba, se mata e se gasta tanto para possuí-las? É só uma pedra! Tento justificar: raridade, fazem bem aos olhos de quem vê, tem dureza, brilho, ostenta uma riqueza, custou sua lapidação — há inúmeras razões. O mundo tem mais preciosidades para brigarmos por elas. Há tantas almas brutas, mas preciosas, de estimado valor, só precisam ser talhadas também.
Faz alguns anos fiz um curso de final de semana, num hotel fazenda. Era um daqueles cursos de imersão, de mergulho interior, de caça aos nossos tesouros. Ao final, percebi que, um final de semana era pouco para desfragmentar todo o HD e colocar os arquivos e pastas no lugar; ou arrumar as gavetas da cômoda: meias em uma, camisetas em outra, cuecas em outra, e roupas velhas puídas no lixo... Mas, sempre trazemos algo de bom, mesmo que o tempo não seja o ideal para a arrumação. Numa dessas dinâmicas, guardei esta metáfora: pare de tropeçar em pedrinhas! Pedras tão pequenas que deveríamos pular, ou desviar, ou simplesmente chutá-las do caminho. Nós, no entanto, paramos dando grandeza de iceberg a elas; valor, imobilidade e choramos quando elas estão a nossa frente. Quanta vida desperdiçada, quanto tempo nós perdemos com essas tolices. É o que ocorre na maioria das relações; as pessoas discutem e brigam; se perdem e se separam por não encontrar soluções nas miudezas e não tratar com pequenez seus problemas. Foi essa constatação, que trouxe daquele final de semana e isso já me valeu ter ido. Nunca mais esqueci e não quero mais tropeçar em pedrinhas. Das pedras no caminho, só quero levar comigo o brilho das preciosas; com a sensibilidade de olhar por trás do barro duro que a esconde e com o trabalho árduo de ter que talhar e polir. Tem que olhar para dentro.
Toda vez que uma pedra preciosa é encontrada na natureza, imagino que, ela esteja na sua brutalidade: desfigurada, empoeirada, suja, rugosa, com crostas de terras e material orgânico que não sai no esfarelar das mãos. A natureza a produziu sem nenhum desses elementos, eu creio; eles, porém, foram se acumulando com o tempo e ela sozinha não pôde extirpar. E tudo aquilo fez esconder sua preciosidade; tudo que dificulta ver o quanto de brilho possui. É necessário ter sensibilidade e conhecimento profundo ao depararmos com algumas dessas pelo caminho; pode ser que pisemos em cima, não enxerguemos e não demos à devida importância, afinal, ela ainda é bruta e ofuscada por essas matérias impregnadas. Somente especialistas e pessoas com mais sensibilidade para percebê-las por aí, nas montanhas e nos fundos de rios. Aquele que encontrar, irá saber o que fazer para torná-la bonita, aparecer sua riqueza e valorizar por toda a vida. Lapidar agora é preciso, mas requer também paciência e zelo.
Lapidação é um estágio das gemas, onde elas passam do estado bruto para a revelação da sua beleza; onde ganham simetria, formas e brilho ao menor feixe de luz. Onde todas as impurezas são retiradas: o pó, a terra, a rugosidade. É um duro estágio para elas. As pedras são levadas aos discos e esmerilhadas, talhadas até o ponto de encontrar luz própria. Diria mais, é o pior sofrimento para elas. Crostas de terra e material orgânico estão lá por anos, agora são retirados com a paciência de um artesão. Não há pedra preciosa que seja encontrada já lapidada; todas têm que passar pelo estágio duro do esmeril. Este que lhe dá a forma simétrica: cônica, oval, redonda; com todas as suas faces iguais. Tudo para dar equilíbrio e perfeição, onde em cada lado que olharmos, revela a beleza; e giramos na ponta de nossos dedos para ver a luz refletida em todas as suas faces. Há beleza por todos os lados agora.
“Lapidar
Minha procura
Toda trama
Lapidar
O que o coração
Com toda inspiração
Achou de nomear
Gritando, alma” (Ânima – Milton Nascimento)
Vejo muitas almas boas, mas brutas, que vivem a tropeçar nas pedrinhas e ali estagnam, param com a sua e a vida de quem as acompanha. Precisam dessa lapidação; precisam dessa limpeza profunda para se tornar pessoas mais atraentes e bonitas; precisam da simetria para torná-las mais equilibradas, sensatas e sem arestas. Pedras preciosas não se talham sozinhas; quem as encontra tem que fazer o polimento, ajudar eliminando suas impurezas. Mas, é preciso que essas almas também se permitam a se limpar e se polir. É preciso passar pelo tratamento da dor do esmeril.
Já faz tempo, carrego comigo esta certeza. O que nos faz melhor não é o grau de instrução que temos; não é o saber falar vários idiomas; não é ser o melhor aluno da sala; ser o melhor funcionário da empresa e com o melhor salário; ou porque já viajamos o mundo todo. O que nos fará melhor é a pessoa boa que podemos ser; na forma mais justa e sincera, verdadeiros conosco e com o próximo. Assim, como as pedras, precisamos passar pelo estágio do esmeril, lapidar para transformar e luzir. Um ser humano na essência da palavra. Como ninguém ensina isso nas escolas, ficamos com a ideia que isso não é importante. Entendemos, sim, que importante é falar três idiomas e ser respeitado por isso. Grandes homens e mulheres da humanidade só falavam um idioma, o do amor. Bastou para serem lembradas por todas as gerações.
Das pequenas pedrinhas do caminho, faremos atalhos e desviaremos; das pedras preciosas, uma coleção para guardar por toda vida. Não importa a pedra que você queira ser: esmeralda, diamante ou rubi. O que importa é se você se permite passar pelo processo do talhamento; o que importa é o quanto você brilhará ao menor feixe de luz; e olhando por todos os lados, não conseguir dizer qual é o mais belo. Todos serão iguais com a incidência da luz.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / abril de 2011.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
A tragédia de Realengo
Começou o festival de besteiras que assolam o país. Depois da tragédia "imprevisível" ocorrida ontem (07/04), em Realengo (RJ), começam novamente a se falar em desarmamento, seguranças dentro das escolas, leis, cadeados. Bobagem! Bobagem! Como se qualquer dessas ações, fosse impedir o cérebro doente de um psicopata. Não se trata de colocar cadeados nas escolas, ou blindadem de crianças; o matador poderia fazer isso em qualquer ambiente, com qualquer pessoa (lembre-se que ele era um psicopata). Temos que voltar, sim, ao resgate de valores morais e de educação, que começam na formação das famílias. Quem prega isso?
O Brasil tem 25,2 homicídios por 100 mil habitantes; os EUA têm apenas 6, menos de um quarto. Lá, já ocorreram várias tragédias similares. Há cérebros doentes lá e aqui. Não justifica que, falas como a da nossa presidenta: um crime como esse “não é característica do país”, venham tratar a coisa como particularização de nações mais desenvolvidas. Isso é fazer politica em cima da dor alheia. Quis dizer que, no Brasil, não ocorrem assassinatos dessa natureza, isto é coisa "duzamericanu". Como não! Não se trata de questões puramente de características de uma nação. Não há o que fazer diante de um crime brutal como ocorreu em Realengo. O assassino podeira ter feito isso dentro de uma igreja, de um cinema (lembrando um caso aqui no Brasil); ou seja, em qualquer lugar, com qualquer pessoa. O que precisa ser feito, de fato, é melhorar, com certeza, a formação do indivíduo, do ser humano na sua base. E isso, tem a raiz fincada dentro de nossos lares; com seus valores morais, de educação e, por que não, de religião. Para um momento como este, não cabem palavras ditas ao vento; não cabem atitudes por decretação de leis; não cabe a política rasteira e vergonhosa; não cabem bravatas; cabe o silêncio e o partilhamento da dor com quem perdeu uma dessas crianças. Meus sentimentos. É o que tenho para dar.
Postado por Antônio - Abril de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
A família feliz
Alguém já viu os carros com adesivos de família feliz? Claro que sim. Virou moda usar adesivos alusivos com bonequinhos, para apresentar sua família. E vale tudo, até dizer a profissão e que se tem gato, cachorro e peixe no aquário. Há uma infinidade de formas, tamanhos, preto e branco, coloridos. Em síntese, são pessoas sentindo orgulho de dizer como são suas famílias; uma maneira rápida de conhecer uma família e até seu estado de espírito. Penso mais, é um resgate de algo que parecia perdido. Eu não tenho no meu automóvel, mas acho bem legal quem aderiu à moda. Para ser sincero, não gosto de adesivos, só deixo o do óleo à vista, para não me esquecer da troca.
Vi numa emissora de TV local, uma reportagem, onde a polícia recomenda que as pessoas não usem os tais adesivos; alegando que assim ficam expostos (a família), vulneráveis e se tornam presas fáceis de bandidos. Confesso que não me convenci da assertiva, quando ouvi a capitão da polícia militar dando entrevista. Até hoje, não ouvi notícias que alguém, ou alguma família, tenha sido sequestrada ou violentada porque o bandido chegou até ela pelos tais adesivos. Pura balela. No mundo de 2011, as maiores exposições que fazemos de nós mesmos estão nas redes sociais espalhadas pelo universo virtual. Colamos fotos, anunciamos negócios, festas, ostentamos e dizemos que estamos felizes. Dificilmente alguém irá usar uma rede social para dizer que ficou pobre e que não tem dinheiro. Vivemos a era das exposições exacerbadas e do parecer, como já disse em outra crônica. Bandidos, quando querem, também abrem páginas na internet para facilitar o seu trabalho.
Nesta coisa de retratos de família, tenho saudade dos tempos em que os fotógrafos (lambe-lambe) batiam de porta em porta oferecendo para fazer o retrato da família (em branco e preto). Aquilo virava um quadro e ia parar na melhor parede da casa – até amarelar pelo tempo. Orgulho e honra dos valores familiares – assim creio. Sempre o patriarca em pé ao lado da mulher e os filhos sentados em cadeiras. Conheço uma família, que mora nos EUA há anos; um dia me mostrou o álbum de fotografia da igreja que frequentava, lá na cidade onde moravam. Como os católicos nos EUA estão em número menor, é fácil conhecer cada membro da igreja e fazer álbum. O álbum não era individual, era da família, com os nomes e o endereço no rodapé. Achei bem legal. Assim, todos ficam sabendo quais são as famílias que frequentam aquela igreja e o pároco; depois podem se conhecer e marcar encontros se quiserem.
Enfim, chegamos no tempo, pela ordem da polícia, onde não é bom ficarmos dizendo de onde viemos, a família que temos e de quem gostamos. Os bichos de estimação, cachorros, gatos, papagaios e peixinhos de aquário; tudo ficou perigoso mostrar. Se tivermos filhos pequenos, então, nem pensar! Diante dessa tal proteção, faremos o quê? Vamos nos entrincheirar em nossas casas cercadas de grades, muros altos e aparatos de segurança? Cadê as brincadeiras de rua? Cadê a boa vizinhança? Cadê retratos de família na sala? Cadê a liberdade? Até quando ficaremos refém desse mundo?
Se algum meliante seguir alguém na rua, com certeza, não será pelo adesivo de sua família, mas talvez, pelo modelo e ano do veículo que ostenta. Portanto, continue usando os adesivos. Não há nada de mal em querer mostrar sua família, até para bandidos.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
A maior do interior
O escritor Luís Fernando Veríssimo, numa de suas crônicas, descreveu e justificou dez razões para o milionário Eike Batista dar parte de sua fortuna a ele. Fiquei pensando depois, quais seriam as minhas razões, ou como seria se fosse o oitavo na lista dos milionários do mundo. O que faria com tanta grana? Se é que preciso de tudo isso... Se estivesse apaixonado, talvez, desse muitos presentes a minha amada; cobriria sua rua com pedrinhas de brilhantes. Mas, preferiria não estar, senão acabaria ficando pobre e sem ver a cor da grana. De verdade, se não tivesse nenhuma paixão, acho que faria um bem à humanidade. Doaria em uma campanha universal pelo amor no planeta. Meu dinheiro renderia muito mais, com certeza; mais do que uma aplicação na bolsa, ou se comprasse uma cidade inteira para morar.
Esta coisa da paixão que se junta com dinheiro nos cega por muito. No futebol também há paixão, ou o futebol é sinônimo de paixão. Um torcedor certa vez me disse: se tivesse uma sorte na megasena, construiria uma grande arena de futebol para o seu time de coração – paixão de torcedor. E por ela ficamos até doentes, um sentimento que nunca acaba. Deixamos casamentos, namoros, amizades, mas a paixão pelo time, esta nunca morre; vai junto conosco e com a bandeira sobre a urna. Há pessoas que não entendem. Eu entendo até certo ponto, quando não se torna loucura de se ridicularizar por qualquer coisa: brigas, discussões e inimizades. Mesmo assim, fiquei surpreso com sua resposta. Cada um teria algo a fazer diante de tamanha fortuna, ele pensou no seu time de coração. Justo.
Chego a me emocionar quando me deparo com esta relação de afeto entre futebol e o torcedor. Vivo o futebol, torço, vibro e quando meu time perde fico irado, mas na manhã seguinte tudo já passou; vivo no limite de não adoecer por isso ou perder a fome. Adoro estádio de futebol, aquele clima, aquela emoção que só quem já foi sabe o que é. A torcida entusiasmada, cantando e gritando uníssono, empurrando o time a todo o momento, é de arrepiar.
Já confessei que sou palmeirense desde criança, mas tenho um segundo time na manga – quando um não ganha, fico feliz com o outro. Há lugar no peito para um segundo time? Afirmo que há sim! O time da minha cidade luta para retornar ao staff do futebol paulista. Já são mais de 12 anos que o São José EC peleja para voltar à elite do futebol. E se fosse pelo tamanho e pela paixão de sua torcida, o time já estaria lá. Cronistas esportivos dizem que ela é o grande patrimônio do clube; e ela se orgulha em dizer: é a maior do interior! Mas, como em toda competição na vida, tem os tempos de lutas até a batalha final e o triunfo. E é isso que temos feito: os jogadores em campo e nós nas arquibancadas.
No ano passado, num desses memoráveis dias de vitórias e estádio lotado, fui chamado pelo torcedor Guilherme Miranda - arquiteto, companheiro de arquibancada e dono do Blog Torcedor da Águia (Clique aqui) - a fazer uma música em comemoração ao aniversário do seu Blog. A encomenda era uma música que homenageasse – merecidamente - a torcida. É de praxe que, todos os times de futebol tenham um hino; mas uma torcida que tem hino, era a primeira vez. De vez em quando, eu me arrisco a escrever letras de músicas, é minha contribuição nas parcerias. Mexo no violão, para algumas raras peças que não me deixam rubros de vergonha, mas na hora de compor, com notas e acordes, não sai nada – já tentei. Então, aguardei meu parceiro de música retornar de viagem para compor, iniciarmos o processo. Enquanto ele não vinha, rascunhei uma letra. Quanto retornou de viagem nos encontramos, e a música saiu no mesmo dia. Dei o nome da marchinha (de carnaval) de “Torcida Águia do Vale”. A letra é uma volta no tempo, da paixão que nasceu desde o preto e branco para o azul e branco de sua camisa; do formigão do vale para a águia; e do seu inesquecível herói do acesso de 1980, Tião Marino - aquele que, dentre os jogadores de futebol depois de Dadá Maravilha, era o único que “parava no ar” para cabecear uma bola. A letra e o vídeo, agora disponíveis no youtube – com os créditos do Renato Emanuel - já contam com mais de 850 acessos. A voz é de Eduardo Borges e Mima Barros.
Esses torcedores não deixam de se apaixonar nunca; e enquanto o time não subir, será assim: uma música atrás da outra e um grito só: vai São José!
Torcida Águia do Vale
(Eduardo Borges / Anttonio Buarque)
11/10/10
Eu vou, eu vou, eu vou cantar gritar
O manto azul é a nossa cor
O manto azul é o nosso amor
Torcida águia do vale
A maior do interior
Desde o tempo do “formigão”
Do preto e branco fez o azul
Vimos nascer, crescer uma nação
De leste a oeste, de norte a sul
O amor por ti vem das vitórias
Nossa torcida em ti constrói
Esta camisa tem história
Tião Marino, o nosso eterno herói
Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe Águia
Enche de orgulho o nosso coração
(com luta e garra de campeão)
“Tá na rede” é gol!
Uma explosão
FINAL (só com palmas)
♫ Sou joseense com muito orgulho,
Com muito amor... ♫
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2011.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Paixões de Outono
Já me manifestei em outra crônica - Nesta manhã de primavera... - minha predileção pelas estações com climas mais amenos. O verão e o inverno são estações rudes, extremistas e irritantes para o corpo: muito quente ou muito frio; interferindo também em nossas decisões. Ouso dizer: o clima influencia mais em nossas vidas que a astrologia – para aqueles que acreditam. As mudanças climáticas apaziguam ou incomodam, na medida que sentimos; mexe com nosso corpo, altera o sono, mexe com o apetite, com o humor; e estes respondem com decisões sobre a vida.
Isto também está nesta estação que se inicia – o outono. Nestes dias, com este friozinho, mangas longas e banhos mornos, nos remetem ao aconchego, ao casulo, à cabana; faz-nos mais carentes de colo e de cafuné na cabeça – como é bom... O calor já se foi e já não dá mais praia, o carnaval já passou, as folhas caem e o ano, de fato, já começou. Tenho esta teoria já faz tempo, de acreditar que o outono é a estação onde mais nos apaixonamos. O pavor com a chegada do inverno e de não ter ninguém no calcanhar, para aquecer nossos pés, torna-nos mais fragilizados e vulneráveis às paixões. Permitimos e nos apaixonamos mais. Em 2005, escrevi um poema sintetizando tudo isso (poema não se explica, já disse Ferreira Gullar). “Paixões de outono” é um convite ao recolhimento, à paixão que bate no peito querendo entrar. Permita-se, então, se vem para ficar - muito além do outono.
Paixões de outono
Outono, outono...
Nunca me dei conta
Como instável era a paixão
Marolas de mar
Balanços das ondas
Suspiros no fim do verão
Passeios à tarde
Taças de vinho ao luar
Rubros no céu de abril
Amores sem dono
Extraídos de um conto
De outono
Outono...
Nunca me dei conta
Dos dias que passei
Em frente aos olhos
Que vi naquele olhar
São coisas de outono:
As noivas de maio
Fogos de junho
Festas de encontros
Rodas de carruagem
Levam histórias, viagens...
Levantam folhas caídas
De igual abandono
De outono...
E nem me dei conta
Do amanhecer de orvalho
Quantas constelações
Estrelas milhares
No jardim daqueles olhos
Vinham em navios
Invadiam noites afora
Saqueavam meu sono
Num encanto
De quase outono
Ah, quando me dei conta
Já hospedava no peito
Mais nova paixão
Navios, estrelas, folhas...
Depois deste outono
Ninguém mais ouse dizer
Que seus olhos
Agora, já não tem mais dono
Antonio - 19/05/2005
segunda-feira, 14 de março de 2011
Janeiro
Hoje é dia da poesia. Encontrei esta do meu pequeno baú literário. Poemas não são feitos para serem explicados, mas para serem sentidos.
Quando ela olhou para trás
Eu vi sua face se esmaecer
Na curva de estrada
Nossa estrada, estrada...
Os anos se foram
Poemas rasgados
Canções furtadas
Janeiros afins
Eu sei...
Nos passos enluarados
Fui de encontro ao mar
Nas preces que me vinham
Em nome do nosso amor
Lânguido meu olhar ficou
E deixei-me na praia
Um corpo estirado
Eu nem sei por que de tudo
Deixamos de amar por nada
Sei que sem ela e ela sem eu
Na curva da estrada
Nossa estrada, estrada...
Vi um janeiro tua pele
Bronzeada árida
Tudo o que ficou
Entornou um mar em mim
Tuas queixas em vão
Onde foi parar meus versos
Arraste um janeiro
Sobre a minha canção
Um poema encomendado
Um poema encomendado
Não pode ser convertido
Na palavra da alma
Não tem origem, nem fim
Um poema encomendado
Não pode ser entregue
Identificado contigo
Mas assino embaixo:
Você é meu amor.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 2007.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Sinais e... Truco!
Segue abaixo um texto antigo, mas que não se perdeu com o tempo. Afinal, os sinais estão aí. Juntando sinais e truco pode-se dizer algo sobre a vida também. Nesta época, eu jogava muito truco, depois fui deixando de jogar até parar. Mas não perdi o jeito. É só chamar que eu vou.
Quem joga truco já ouviu muito isso: Truco! Seis! Nove! Doze! O truco é o jogo do gangolino, do blefe, dos sinais, da sorte e, do azar também. Popularmente é o maior jogo de cartas do Brasil. Digo isso porque não conheci ninguém que já não tenha jogado ou pelo menos tentado jogar truco. Minto, no Rio de Janeiro não se joga truco. Dizem por lá que é jogo de paulista. Na verdade, aqui em São Paulo, Minas, Mato Grosso e Goiás é costume se jogar truco em rodas de amigos e torneios. Claro que, de região para região há variações das regras. Aqui em São Paulo jogamos a regra do “ponto acima”.
Aprendi a jogar truco vendo meu pai jogar com seus amigos. Ali, ao lado da mesa eu ficava prestando atenção em tudo. Meu pai jogava quase todas as noites e sempre que o jogo não era em casa eu ia com ele, onde fosse. Achava divertido os desafios e blefes, embora não entendia muito. Naquele tempo se jogava a versão antiga ou como chamamos hoje de “manilha velha”. As cartas, por ordem de valor, são quatro de paus (zap), sete de copas, “As” de espada (espadilha) e sete de ouro (pica fumo). Hoje, jogar manilha velha não tem graça, s cartas facilmente ficam marcadas; ninguém joga mais, só os mais antigos.
Depois aprendi a jogar a regra do “ponto acima”. Muito mais difícil de jogar e mais difícil de “roubar”. O jogo dos gangolinos requer astúcia e perspicácia para ser um bom jogador e principalmente atentar aos sinais do parceiro. Você tem que conhecer muito bem os sinais do teu parceiro e ele os teus. O olhar fixo, a ligeireza e a malandragem evidenciam que jogar truco é muito mais no blefe do que na sorte das cartas que você tem nas mãos. Se tornando para muitos um vício. O dom de dar o sinal ao parceiro é tudo ou quase tudo no jogo de truco.
Fiquei muito tempo sem jogar. Para ser sincero, tive asco ao jogo. Quando fazia faculdade de Arquitetura era comum as mesas de jogatina entre um projeto e outro. Via muita gente deixando de estudar para jogar. Não que eu fosse um “caxias”, mas aquilo, todo dia me irritava. De lá para cá não joguei mais. Recentemente voltei a jogar, embora um tanto despretensioso, sem vontade nenhuma de alcançar o sucesso com medalhas e troféus; somente para passar o tempo, brincar e dar boas gargalhadas.
Num desses jogos aconteceu algo que me fez refletir a escrever estas linhas. Já na primeira partida, como de costume, ao receber as minhas 03 cartas olhei para o meu parceiro e dei um sinal. Como? Na hora me veio a vontade de encher as bochechas rapidamente para dizer que minhas cartas estavam horríveis. No sinal do truco, isso quer dizer o contrário e, ao contrario ele entendeu. Pensou ele, meu parceiro está cheio, entupido de cartas, tem “casal maior” na sua mão... Confiante no sinal, meu parceiro, se acomodou melhor na cadeira e disparou um truco, sem pestanejar. Do outro lado, nossos adversários levantaram e quase subiram em cima da mesa para gritar um sonoro SEIS!! Olhei para meu parceiro e fiquei sem entender nada, já que nada havia na minha mão. Fugimos rapidinho e passamos o baralho.
A pecha me serviu de lição e me chamou atenção a importância que devemos dar aos sinais, em tudo na vida. Vivemos a emitir e receber sinais pela vida inteira. Aprendemos desde o berço a ser usuário dos sinais. Observamos isso claramente quando uma criança é estimulada a pular no colo do pai, apenas pelos gestos e o sinais do olhar feliz do pai. Sem ter noção de distancia ou a altura, se jogam no espaço, sem medo e confiantes. Os surdos e mudos não se socializariam se não conhecessem os sinais de libra que usam constantemente, até para pedir comida. Ao guarda de trânsito colocamos nossa confiança e através de seus gestos e sinais nos orientamos. Assim, como meio substancial na vida humana, devemos acreditar nos sinais que o universo nos emana? Basta olharmos para o mundo que encontramos; a cada dia deparamos com manifestações na natureza, no meio ambiente e no comportamento do próprio homem. São os sinais do tempo, diriam, mas aqui não no sentido apocalíptico e, sim na pura verdade que há sinais demais no mundo para acreditarmos significativamente que mudanças vem em pencas; e tudo que emitimos devendo ter a absoluta credibilidade, o universo não se engana. No mundo que nós inventamos e mantemos, não vivemos sem estabelecer uma comunicação através dos sinais. Com Deus, fazemos o sinal da cruz. O sinais dos tempos, sinais dos corpos, sinais de trânsito... Tudo nos rege.
Depois do meu vexatório início, quer saber como terminou aquele dia do truco? Eu e meu parceiro ganhamos as 7 partidas seguintes, claro, com muita atenção aos sinais. Os mesmos sinais da vida.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 07/Agosto/2008.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Quase sem querer
Sou comedido e, por muitas vezes, me abstenho a dar título que não está na biografia das pessoas, ou atribuir algo que não são. Nessa, posso confundir o motorista com o cobrador; o garçom com o maître; o empregado com o patrão. Assim também, há como discriminar a inteligência da sabedoria, a honestidade da competência — cada qual na sua frase e contexto. Por muito tempo, atribuíram a Renato Russo o título de poeta; um poeta do cancioneiro popular. Não, ele era um bom letrista de música e só. Já disseram o mesmo de Vinícius de Moraes e Bob Dylan. Vinícius era poeta quando fazia poesia, e letrista, quando sentava, com seu parceiro Toquinho, para compor canções. As poesias são outras palavras e têm a sua própria musicalidade — desprovida de instrumentos e harmonia musical.
Mas voltando a Renato, lembro-me dele escrevendo coisas lindas na sua curta carreira. Letras que se encaixaram em harmonias musicais como vagões nos trilhos; hinos que ecoaram no grito da juventude daqueles anos 80 — a geração coca-cola. Tem uma em especial que gosto: “Quantas chances desperdicei / Quando o que eu mais queria / Era provar pra todo o mundo / Que eu não precisava / Provar nada pra ninguém...”. Precisou Renato dizer isso, para todo mundo começar a não ter que prestar contas da vida a ninguém. Eu também me apeguei ai. Renato expressou nesta letra, seus dramas e conflitos pessoais. Desperdiçou oportunidades para provar que não precisa de provação nenhuma. Chorou suas melancolias e se libertou: não preciso provar minhas qualidades ao mundo, elas estão aí. Desabafou.
Mas voltando a Renato, lembro-me dele escrevendo coisas lindas na sua curta carreira. Letras que se encaixaram em harmonias musicais como vagões nos trilhos; hinos que ecoaram no grito da juventude daqueles anos 80 — a geração coca-cola. Tem uma em especial que gosto: “Quantas chances desperdicei / Quando o que eu mais queria / Era provar pra todo o mundo / Que eu não precisava / Provar nada pra ninguém...”. Precisou Renato dizer isso, para todo mundo começar a não ter que prestar contas da vida a ninguém. Eu também me apeguei ai. Renato expressou nesta letra, seus dramas e conflitos pessoais. Desperdiçou oportunidades para provar que não precisa de provação nenhuma. Chorou suas melancolias e se libertou: não preciso provar minhas qualidades ao mundo, elas estão aí. Desabafou.
Nossa sociedade é cruel, há cobranças com provações a todo o momento — explícita ou muitas vezes velada —, que tenhamos sucesso em tudo na vida: ter corpo sarado, ter carro do ano, frequentar os melhores lugares, ter imóvel próprio, ter alguém especial, ter filho na melhor universidade, viajar nas férias para o exterior, obter vantagens em negócios e ter dinheiro aplicado na bolsa. Obrigam-nos a alcançar o auge, como se todo sucesso (a felicidade) fosse medido pela régua social das conquistas que nos coloca acima de tudo e de todos — o cume do mundo. Vivemos inconscientes, a provar que nós somos especiais para o mundo; e por consequência, deixamos de lado a nós mesmos e à família de onde viemos — nossos verdadeiros valores.
Nem todos os jogadores de futebol serão fenômeno, mas o futebol precisa de todos para existir. Há pessoas de sucesso que não aparentam; são quietas e não se mostram. Há pessoas satisfeitas, felizes e nem por isso, serão reconhecidas quando saírem à rua. Essas não precisam provar nada para ninguém e não desperdiçam vida para ser o que não são. Hoje, dou valor às pessoas pelo que elas viveram, pelo seu caminhar e não pelo que elas têm ou aparentam. Aprendi a viver com o pouco, e assim me encontro com mais frequência na felicidade, nas minhas andanças pelas aldeias e cidades. O mais importante do caminho é o caminhar.
Nem todos os jogadores de futebol serão fenômeno, mas o futebol precisa de todos para existir. Há pessoas de sucesso que não aparentam; são quietas e não se mostram. Há pessoas satisfeitas, felizes e nem por isso, serão reconhecidas quando saírem à rua. Essas não precisam provar nada para ninguém e não desperdiçam vida para ser o que não são. Hoje, dou valor às pessoas pelo que elas viveram, pelo seu caminhar e não pelo que elas têm ou aparentam. Aprendi a viver com o pouco, e assim me encontro com mais frequência na felicidade, nas minhas andanças pelas aldeias e cidades. O mais importante do caminho é o caminhar.
Numa entrevista, que divulguei do médico psiquiatra Roberto Shinyashiki, ele afirma que vivemos os tempos da valorização do parecer, das aparências. A mentira como método de sobrevivência, nesta sociedade que pune, por falsa moralidade, a quem não está no staff social dos bem sucedidos. “Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem.” — disse Shinyashiki.
É a vida solapando seu próprio dono; a todo tempo construindo um perfil falso de si mesmo — numa confusão existencial. Vai se encontrar lá na frente na frustração e na depressão. Aí, vem Renato nesta mesma música e endossa: “Que mentir pra si mesmo / É sempre a pior mentira”. Os escritores Barbara e Allan Pease dizem que mentimos por duas razões: evitar a dor ou obter um ganho. A primeira é a mais branda, pois todo mundo mente para minimizar a sua e a dor alheia; a segunda talvez seja a que mais esteja na moda. Mentimos para obter sucesso e ter aparência que somos bem quistos. Num de seus livros, a escritora Lya Luft, diz: “Por isso a palavra, o abraço, o olhar, o momento de atenção, são infinitamente mais importantes do que o cartão de crédito, o compromisso, a viagem, o novo cargo”. Quando vivemos a aparência, também está na mesma oração, os objetos da vida que servem a ela: a mentira, a hipocrisia e a falta de humildade. Vamos nos apegar a isso e nos esquecer de outros gestos que fazem nos tornar tão próximos. É de surpreender ao ver pessoas bem sucedidas socialmente, serem humildes também.
Vi recentemente o filme “O discurso do rei”. Achei genial. Na trama vemos duas figuras antagônicas: um candidato à realeza inglesa, George VI (Colin Firth), uma pessoa fraca e com limitação imposta pela sua gagueira, desde os 04 anos; e um médico (Geoffrey Rush), um sujeito despretensioso, perspicaz, sem nobreza, mas com os pés no chão. O médico ajuda o rei a resolver seus problemas, invadindo sua intimidade e atingindo seu psiquismo. Como imaginar que uma pessoa poderosa — um rei — tenha suas frustrações, medos e limitações? Somos todos iguais, precisamos da humildade para assumir nossas limitações e viver o que somos de verdade, de carne e osso; assumir nossas raízes, de onde viemos; e os caminhos, que abrimos com as ferramentas que temos. Construiremos nossa canoa com as madeiras que dispomos. Navegaremos — rio abaixo ou rio acima — sendo nós mesmos, sem mistérios, sem sentimentos de derrotas, sem provar nada que não seja nosso braço e nossa força.
Vão dizer isso ou aquilo sempre de como alcançaremos nosso sucesso pessoal — as cobranças. Não dou provações e me calo. As palavras internas vão caindo: preste atenção no seu foco e na estrada; vivemos a repetir tudo para um dia aprender, de fato. “Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?” — de Renato Russo, quase sem querer.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / fevereiro de 2011.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Outras palavras
Meu psicanalista de cabeceira — Flávio Gikovate — sempre afirmou que, sexo não tem nada a ver com amor. Embora, romanticamente, falamos que fazemos amor quando, na verdade, fazemos só sexo. Porém, nada impede que façamos sexo com quem amamos — o que seria o ideal.
Vira-e-mexe, as palavras vão tomando lugar uma da outra, e esta perdendo o sentido, quando queremos expressar o que sentimos ou que desejamos. Tudo se confunde. Isto não ocorre com os extremos, com as antagônicas. Mas muitas palavras, pelas suas aproximações, vão tendo outras conotações que se perdem com o tempo. Até mudar inteiramente de sentido. Nem sempre elas tem a etimologia direta para explicar suas origens. As gírias, por exemplo, nascem no meio das conversas reservadas de grupos sociais, e quando cai no gosto popular, se espalham por aí como rastilho de pólvora. Outro dia, perguntei se alguém sabia de onde vem a palavra "ataia", muito usada em Minas. Uma pessoa me disse: é uma derivação de atalho, atalhar. Quer dizer atalhe a conversa, encurte, seja breve. "Ataia Zé!" No popular mineiro virou "ataia".
Vira-e-mexe, as palavras vão tomando lugar uma da outra, e esta perdendo o sentido, quando queremos expressar o que sentimos ou que desejamos. Tudo se confunde. Isto não ocorre com os extremos, com as antagônicas. Mas muitas palavras, pelas suas aproximações, vão tendo outras conotações que se perdem com o tempo. Até mudar inteiramente de sentido. Nem sempre elas tem a etimologia direta para explicar suas origens. As gírias, por exemplo, nascem no meio das conversas reservadas de grupos sociais, e quando cai no gosto popular, se espalham por aí como rastilho de pólvora. Outro dia, perguntei se alguém sabia de onde vem a palavra "ataia", muito usada em Minas. Uma pessoa me disse: é uma derivação de atalho, atalhar. Quer dizer atalhe a conversa, encurte, seja breve. "Ataia Zé!" No popular mineiro virou "ataia".
No início da década de 1970, usávamos a palavra "transar" para dizer "curtir"; no dicionário, diz ser uma gíria em substituição das palavras ajustar, combinar, tramar, cuidar de, dedicar-se a. Era como se usava naquela época. Lembro de Elis Regina usando muito o termo "transei" isso ou aquilo nas suas entrevistas. Hoje "transar" ainda continua no sentido da gíria inventada a época, mas de maneira pejorativa só para ajustar com alguém no sexo, combinar com alguém no sexo, dedicar-se a alguém no sexo. Ou seja, fazer sexo.
Até o início da década de 1980, ainda era assim usada, numa novela que se chamava Transas e Caretas. Vai botar o nome de qualquer coisa hoje de Transa, lá vem sexo na mente.
Postado por Antônio - Fevereiro 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Almas perfumadas - o amor, o tempo, o vento...
De fato, não há vida só no plano. Entre montanhas e planícies, altos e baixos, construímos nossos estreitos caminhos. Contudo, quando a idade bate à porta, junto as más lembranças dos naufrágios, aprendemos que, o importante é saber lidar com tudo isso; se conhecer, posicionar o leme e navegar sem medo: hoje eu estou bem, nada me tira do prumo...
Fico altivo, quando minha autoestima se espalha pelo dia como um raio de sol: riso fácil, encontros, amigos, piadas, chope, um bocado de bom humor – a felicidade. Já, quando estou no andar de baixo do meu intimo – faz tempo que não visito - fico mais calado, pensativo, introspectivo e observador com tudo ao redor. Sem gritos, de acordar vizinhos ou causar perturbação alheia. Espero passar, e passa.
Há 12 anos, como fazia todas as manhãs, aportei numa padaria perto da minha casa para tomar meu café. O café da manhã sempre foi sagrado no meu dia a dia. E lá, entre uma mordida no pão, um trago no café e umas olhadelas no telejornal matutino, o pensamento viajava longe e tudo que me incomodava naqueles dias vinham em gotas na minha mente – o andar debaixo. Nessa mesma manhã, adentrou de mãos dadas um casal de velhos; ou, como é correto se dizer hoje, de idosos. (Gosto de dizer velhos.) Pela quantidade de cabelos brancos que cobriam suas cabeças, as fendas profundas nos rostos e os passos lentos — como se os pés se agarrassem ao chão —, eles aparentavam ter mais de 80 (depois dessa idade, diz ser ancião). Sentaram-se ao balcão bem à minha frente. A partir daí comecei a observar seus movimentos, ou seus quase não-movimentos; velhos não chamam atenção, mas algo atiçou meus olhos naquela manhã de inverno. Desde quando chegaram não falaram nada um com o outro. Ele só dirigiu a palavra ao balconista para pedir o café, o seu e o dela. Sem perguntar nada a ela, ele disse: “café com leite, um pedaço de bolo e um suco de laranja coado”. Ali ficaram, comendo em silêncio, sem se olhar. Quando ele percebeu que ela já havia também terminado levantou-se com a comanda na mão, e ela o seguiu. Até ao caixa, ainda deu tempo de segurar na ponta dos dedos da companheira. Pagaram e foram embora no mesmo silêncio, de mãos dadas e com os pés presos no chão, de velhos que eram. A partir desse dia, passei a refletir sobre a comunicação pelo silêncio das almas perfumadas.
Meu médico, sempre me recomenda os exercícios físicos para melhor minhas taxas de colesterol; elas teimam em me acompanhar já há alguns anos. Já lhe disse que não me pertencem, mas elas insistem, e não me largam do pé (do meu sangue)... Agora, já depois de outros esforços com dieta, tenho me dedicado às caminhadas de fim de tarde — e assim sigo, chutando as doenças para longe. Quando não há companhia, vou com o fone no ouvido. Caminho, penso e observo. Recentemente, tenho visto um casal de velhos, também caminhando no mesmo parque — em sentido contrário. O caminhar também é lento — com os pés presos ao chão — e também sem dizer uma palavra. Tudo igual. Voltas, voltas e calados; ouvindo somente as batidas do coração e o gorjear dos passarinhos que se aglutinam na copa das árvores. Um silêncio incomum, pois as pessoas que caminham juntas acabam exercitando também a língua. Quando os vejo irem embora, o silêncio vai junto; já fora do parque, ela enlaça em seu braço e vão para casa. Tudo em total silêncio.
“És um senhor tão bonitoQuanto a cara do meu filhoTempo Tempo Tempo TempoVou te fazer um pedidoTempo Tempo Tempo Tempo” (Caetano Veloso)
Quando caminhamos para velhice, nossas células vão morrendo de forma acelerada, e sem nunca fazermos um funeral a elas; a cada dia enterramos milhares delas, sem saber. É como se diz: morrer aos poucos. Por causa desse falecimento amiúde, diminui a ligeireza das pernas, das mãos e os sentidos vão ficando menos aguçados: próteses, óculos de grau, aparelhos de surdez, etc. A memória longínqua permanece assaz, lembrando lugares, cores e pessoas da infância; enquanto os últimos quinze minutos são esquecidos. Onde deixei meus óculos? As únicas coisas que crescem com o envelhecimento são as orelhas e o nariz — dizem.
Mas, na senilidade, é o amor que nunca morre; torna-se célula viva que não corrói com o tempo e como chama que não se apaga. Depurado em porto seguro, o amor sobrevive às intempéries da vida como uma rocha à beira mar. Já li por várias vezes que amar é uma decisão e não um sentimento. Na senilidade decidimos pelo amor; sem abandono, sem palavras duras, sem tréguas, sem cobranças — no silêncio. Não há mais o que falar; não há mais o que alcançar; nem o que pensar, sentir, reclamar, julgar, profanar, maldizer e provar. O tempo urge. O tempo é assim, faz o amor se condensar, purificado pelo filtro da alma; criam-se ramos e raízes que se aprofundam na terra e sustentam a ponta da vida sobre os ombros já arqueados. Fala-se sem palavras, fala-se no silêncio do coração, fala-se nos olhares, fala-se nos gestos de bondade e se acolhe nos braços, quando se cai. E quando não, transpassa a morte e vai além da vida.
“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...”. (Mário de Andrade)
Lembro, então, das flores do quintal. A polinização é um fenômeno da natureza que acontece quando as flores se reproduzem; é o transporte do pólen que fecundará formando nova espécie. O vento se encarrega de levar as sementes (o amor ao vento) para que se fecundem em outro solo e desnude outra flor igual; e outra flor fará o mesmo, infinitamente... Sem nenhuma ação humana. Assim, também precisamos de elementos naturais para fecundar o nosso amor na alma. O tempo fecunda o amor quando já não vemos mais estrada para caminhar e o corpo range; quando ninguém nos vê mais com beldade; quando ninguém mais se interessa por nós; e nem a vida nos quer mais — só o amor nos anseia. O tempo é o vento para nós, aquele que transporta o amor para a terra fértil; o tempo conduz os caminhos para que os laços eternos se estreitem. No silêncio das palavras, na quietude como broto de flor. O amor é mais bonito e precioso quando envelhecemos. Quando as almas ficam silenciosas e perfumadas.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / fevereiro de 2011.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Bons conselhos
Meus Caros,
O meu próximo texto — ainda no forno — fala sobre idade, velhice e amor. À propósito, por coincidência, acabei de receber um e-mail com alguns "bons conselhos" de quem já chegou lá... Achei interessante em postar aqui e compartilhar com todos.
Escrito por Regina Brett, 90 anos de idade, assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio.
"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou.
É a coluna mais solicitada que eu já escrevi."
Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto aqui vai a coluna mais uma vez:
1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .
3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.
4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.
5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.
6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.
7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.
8. É bom ficar bravo com Deus Ele pode suportar isso.
9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.
10. Quanto a chocolate, é inútil resistir.
11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.
12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.
14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.
16. Respire fundo. Isso acalma a mente.
17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.
18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.
19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.
20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.
21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.
23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..
26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'
27. Sempre escolha a vida.
28. Perdoe tudo de todo mundo.
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..
31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.
32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.
33. Acredite em milagres.
34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.
35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.
36. Envelhecer ganha da alternativa -- morrer jovem.
37. Suas crianças têm apenas uma infância.
38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou
39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.
41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor ainda está por vir.
43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.
44. Produza!
45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.
Postado por Antônio - Fevereiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Deus e as enchentes
Quando assumiu o gabinete presidencial, uma das primeiras providências da Presidente eleita Dilma Rousseff, foi pedir para retirar um crucifixo da parede e a Bíblia sobre a mesa, conforme noticiou o jornal Folha de São Paulo em 09 de Janeiro. Logo depois, o Palácio do Planalto tratou de remendar, dizendo que, os objetos foram retirados porque pertenciam ao mandatário anterior. Olhando por este lado, não vejo nada de anormal e acho justo; imaginando que, sendo ela uma cristã católica, iria providenciar imediatamente o seu próprio crucifixo e sua Bíblia. Nada! Até agora não li uma linha que tenha tido tal ato que demonstre sua fé. De verdade, ela não quer saber mesmo de religião em seu governo. Deus não entra ali.
Quando vem à tona esta polêmica entre Estado e religião, os entrincheirados esquerdopatas já estão armados: o Estado é laico; por isso deve manter-se longe da religião e governar com isenção às crenças religiões... Já me manifestei algumas vezes sobre isso, minhas visões vão além do Estado independente e soberano; as Leis Divinas também estão incutidas na sociedade, na família e penso que elas se fundem nas próprias leis humanas, onde os governos atuam. Não há mal em Deus.
Durante seus dois mandatos, Fernando Henrique nunca se incomodou com tais objetos em seu gabinete e não me lembro de ter pedido para retirar quaisquer símbolos religiosos da sua frente - governou com eles. Por respeito? Sei lá. E dizem que ele é o verdadeiro ateu.
Durante seus dois mandatos, Fernando Henrique nunca se incomodou com tais objetos em seu gabinete e não me lembro de ter pedido para retirar quaisquer símbolos religiosos da sua frente - governou com eles. Por respeito? Sei lá. E dizem que ele é o verdadeiro ateu.
Nos EUA, já muitas eleições - desde George Washington (1789) -, quase todos os presidentes, na cerimônia de posse, fazem o juramento ao governo sobre a Bíblia. Aconteceu com o presidente Barack Obama – antes mesmo, uma discussão polêmica cercou os noticiários que ele iria quebrar tal protocolo -, contrariando, ele fez o juramento repetindo o mesmo gesto sobre a Bíblia de Abraham Lincoln (1861). A utilização da Bíblia não é prevista na Constituição norte americana, mas é uma tradição seguida por quase todos os presidentes desde George Washington. Não sei qual a religião dele (Obama), mas o louvo por não fugir à tradição. Não lhe custou nada, seguir um velho costume americano, nada mesmo. Respeitou as crenças do seu povo.
Não tenho nada contra o ateísmo, embora não me lembro de conviver muito perto com pessoas dessa “crença”. Talvez, porque sejam mais comedidas e menos fervorosas quando pregam; e por isso, não as veja por aí “evangelizando” ninguém. Entendo somente, ser muito pobre em acreditar no nada, ou, como ouvi uma vez de um colega de profissão numa reunião de trabalho, “só acredito naquilo que meus olhos vêem...”. Natural, mas viver sem crenças, além dos olhos humanos, é um vazio enorme, a negação da própria alma – pensei - sem me manifestar.
Esquerdopatas remanescentes do comunismo vivem nesse mundo polarizadoentre Deus e o “nada”, e para isso se carregam da tese conduzida por um de seus mestres: “religião é opio do povo”. A fim de se justificar que não devemos misturar alhos com bugalhos; aí, eu devolvo ao condutor da frase: “suas ideias são os verdadeiros ópio do povo”. Suas teorias naufragaram. As religiões ajudam a formar boas famílias; e elas a sociedade.
Esquerdopatas remanescentes do comunismo vivem nesse mundo polarizadoentre Deus e o “nada”, e para isso se carregam da tese conduzida por um de seus mestres: “religião é opio do povo”. A fim de se justificar que não devemos misturar alhos com bugalhos; aí, eu devolvo ao condutor da frase: “suas ideias são os verdadeiros ópio do povo”. Suas teorias naufragaram. As religiões ajudam a formar boas famílias; e elas a sociedade.
Diante das enchentes que vêm devastando o país, exclusivamente a Região Serrana do RJ, a pergunta que faço, não tem a ver com as ocupações irregulares da população – que já são discutidas sistematicamente por toda a imprensa. Pergunto: O que Deus tem a ver com isso, com as tragédias? Creio que seja tudo! Especialistas disseram que a quantidade de chuva veio numa proporção igual ao mesmo período em outros anos. E pelo que sei, chove desde que o mundo é mundo.
As ocupações irregulares e o mau uso do solo urbano estavam no caminho da tragédia, dos deslizamentos – tudo às vistas do poder público que nada fez para desocupar essas áreas, o que chega a ser óbvio também neste país. Por outro lado, é fato que, os deslizamentos de terra ocorreriam, com ou sem gente morando lá; choveu e as águas arrastaram o que havia pelo caminho. Deus também entra nesse território - quando também não está - na forma de ajuda, compaixão, solidariedade e comoção das pessoas.
As ocupações irregulares e o mau uso do solo urbano estavam no caminho da tragédia, dos deslizamentos – tudo às vistas do poder público que nada fez para desocupar essas áreas, o que chega a ser óbvio também neste país. Por outro lado, é fato que, os deslizamentos de terra ocorreriam, com ou sem gente morando lá; choveu e as águas arrastaram o que havia pelo caminho. Deus também entra nesse território - quando também não está - na forma de ajuda, compaixão, solidariedade e comoção das pessoas.
Enquanto escrevo estas linhas, são 809 mortos e 469 desaparecidos, estes que, ficarão ali nos escombros enterrados. Na sexta-feira, pós-tragédia, o jornalista Ricardo Boechat, disse, num tom de indignação que, o exército brasileiro levou mais de 48 horas para chegar à região, por questões burocráticas. Não fosse ajuda de voluntários e outras corporações militares locais, muitas pessoas outras, teriam morrido.
O país, que se prepara para tantas festas como Copa do Mundo e Olimpíadas - anunciadas com abraços, champanhe e politicagem -, não está preparado para remediar e socorrer pessoas em tragédias dessa natureza. A leniência, a omissão e o descaso têm sido a tônica nesses últimos anos de governo. Há muita dureza nos olhos, desrespeito, falta amor, compaixão e falta de Deus. Em outra ponta, no apagar das luzes do seu governo, o ex-presidente abastece com abundância seus familiares com passaportes diplomáticos ao arrepio das leis e torna um de seus filhos, um empresário bem sucedido e milionário. Tanta desfaçatez.
O país, que se prepara para tantas festas como Copa do Mundo e Olimpíadas - anunciadas com abraços, champanhe e politicagem -, não está preparado para remediar e socorrer pessoas em tragédias dessa natureza. A leniência, a omissão e o descaso têm sido a tônica nesses últimos anos de governo. Há muita dureza nos olhos, desrespeito, falta amor, compaixão e falta de Deus. Em outra ponta, no apagar das luzes do seu governo, o ex-presidente abastece com abundância seus familiares com passaportes diplomáticos ao arrepio das leis e torna um de seus filhos, um empresário bem sucedido e milionário. Tanta desfaçatez.
Aconselho nossa Presidente, como católica que diz ser, a voltar com o crucifixo e a Bíblia ao seu gabinete; e rezar mais. Contra as forças da natureza (de autoria Divina) não podemos nada, ou quase nada. Nem mesmo o Estado brasileiro pode. Ela tem feito as suas rezinhas - como já disse - quando o avião balança; tem acreditado em nossa senhora de “uma forma geral” (uma nova santa desconhecida do povo); precisa agora acreditar de fato que, só através da verdade e do amor – está em Deus - irá conduzir melhor esta nação. Ou - o que me parece mais provável -, assumir a verdade que também só acredita no que seus olhos vêem.
Não tenho dúvida, Deus vive se comunicando conosco, inclusive nas tragédias. Por esses mesmos sinais, Noé resolveu um dia entrar na sua Arca... A enchente é só Deus descontente, nada mais. Não consigo imaginar uma nação soberana, desenvolvida e sem crença, como querem. “Feliz a Nação que tem o Senhor por seu Deus, e o povo que escolheu para sua herança” – Salmo 32.12. Está lá no livro, que estava sobre a mesa.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Pão com manteiga
Um dos atores, hollywoodiano e contemporâneo, dos mais talentosos é Tom Hanks. Nos filmes em que atua, não me perco em ler a crítica antes; sento para ver, já sabendo que vai me prender do começo ao fim.
Faz um tempo, li uma entrevista que concedeu às páginas amarelas da semanária Veja. Ao ler o que pensa sobre a carreira, a fama, a vida e seu modo de escolher os filmes em que atua, extrapolei minha admiração, agora também é pela pessoa. Ele é um sujeito modesto, familiar, que até acha um despropósito os cachês que recebe pelos filmes; considera que há outras profissões que mereçam muito mais. Hoje, se dá ao luxo de escolher seus papéis só porque fará um bom personagem, sem se preocupar com o destino do filme; fugindo dos roteiros comerciais e dos mocinhos caricatos, enfadonhos, e assim justifica: “... nunca tive um tipo físico que me permitisse encarnar o Super-Homem”. No final da entrevista, ainda tece rasgados elogios ao diretor brasileiro Fernando Meireles pelo filme “Cidade de Deus”, e confessa: “vi o filme com atraso, há poucas semanas, e estou até agora atônito”.
Faz um tempo, li uma entrevista que concedeu às páginas amarelas da semanária Veja. Ao ler o que pensa sobre a carreira, a fama, a vida e seu modo de escolher os filmes em que atua, extrapolei minha admiração, agora também é pela pessoa. Ele é um sujeito modesto, familiar, que até acha um despropósito os cachês que recebe pelos filmes; considera que há outras profissões que mereçam muito mais. Hoje, se dá ao luxo de escolher seus papéis só porque fará um bom personagem, sem se preocupar com o destino do filme; fugindo dos roteiros comerciais e dos mocinhos caricatos, enfadonhos, e assim justifica: “... nunca tive um tipo físico que me permitisse encarnar o Super-Homem”. No final da entrevista, ainda tece rasgados elogios ao diretor brasileiro Fernando Meireles pelo filme “Cidade de Deus”, e confessa: “vi o filme com atraso, há poucas semanas, e estou até agora atônito”.
Dentre os filmes, de sua brilhante carreira, cito o exuberante “Forrest Gump — o contador de histórias” — 1994. Nessa trilha, Hanks é Forrest, uma criatura ingênua, pura, ausente de picardia, cinismo, e com um QI abaixo da média das pessoas ditas normais. Toda sua inspiração e os conselhos que leva para vida são os da própria mãe, a quem sempre citava por suas frases: “A vida é como uma caixa de bombom, você nunca sabe o que vai encontrar”. Forrest narra as suas próprias histórias, ou, se coloca como centro das histórias de “coadjuvantes” ilustres como: Elvis Presley, John Lennon, John Kennedy e Richard Nixon. Sentado num ponto de ônibus, esperando uma condução que parece nunca chegar, Forrest fala e fala...
Da sua infância, vem o primeiro amor, digo, o único amor por Jenny. Uma menina que parece ser a única, além de sua mãe, que o vê como uma pessoa normal; e o aceita com seu jeito desengonçado, tentando andar dentro de um par de botas ortopédicas. Ao falar sobre Jenny e de como a conheceu dentro do ônibus escolar, Forrest enaltece: “Nós éramos como pão com manteiga...” — uma versão em português para peas and carrots. Na sua forma mais simplista e pueril, queria dizer: éramos inseparáveis, um não vivia sem o outro, unha e carne, corpo e alma... A versão dada em português foi o que deu grandeza na descrição do que era sua relação com Jenny.
Pão francês com manteiga é uma delícia; e a manteiga é sempre na medida: nem mais, nem menos. E fica mais gostoso passar nas duas abas do pão, depois dobramos e comemos uma aba por vez, com café e leite. A manteiga sem o pão é detestável, quase nenhuma utilidade, às vezes serve para untar forma de bolo; o pão sem a manteiga é sem gosto, incompleto. Não há valor, um sem o outro. São complementos. Assim, como dizer, arroz com feijão, na nossa culinária. Tudo é mais gostoso e saboroso quando estão juntos: manteiga no pão. O café colonial é farto, nos enche os olhos, mas nos perdemos em tantas variedades; já o pão com manteiga não comemos com os olhos, é o que temos para comer naquela hora, no dia-a-dia e nos saciamos também.
Assim, era na entrega, como Forrest vivia seu amor, que durou a vida toda — ou pelo menos até o final da trama —, sem cobrar de Jenny a reciprocidade. Era incondicional da sua parte. “Posso não ser inteligente, mas sei o que é amar...”, disse ele quando a pediu em casamento. Ele sabia o que estava dizendo, sobre as duas coisas. Após anos sem vê-la, ele a encontra numa vida mambembe, em más companhias e enfiada nas drogas. Mesmo assim, ela o reconhece e respeita, ao enxergar pela única fresta que restou da sua vida, o amor — o único que teve. O tempo poderia passar; o vento esvoaçar as cortinas da sala, bater as portas, mas o amor estava lá, guardadinho, prontinho para viver. Forrest amava como uma criança e agora ela sabia e desejava este amor.
O espírito de Forrest, nesta parca analogia, nos trás à reflexão: onde estão nossos verdadeiros valores? Na fartura ou na simplicidade de viver o dia-a-dia? E como ansiamos, muitas vezes, combinações mais caras, ou com maior valia — pela abundância. Quando, um simples pão com manteiga, também mata a fome — a fome de amor. Talvez, estejamos errando aí, quando buscamos a perfeição nas relações, ambicionando riquezas que as traças comerão um dia. Na gíria futebolística chama-se “jogar o arroz com feijão”; onde se ganha o jogo da vida, sem muitas ambições e jogadas de mestre. Um não é melhor que o outro e o placar a favor é sempre com score baixo. Quando os dois jogam juntos, o amor sempre vencerá. Relacionamentos sem ciúmes, sem intrigas e cobranças, caminhando num mesmo sentido, são fadados a ser por toda a vida. O universo conspira.
Talvez, se forçarmos a memória, encontraremos casais que vivem o “pão com manteiga” — dá para contar nos dedos —, caminhando juntos e construindo tijolo com tijolo, um lar, uma família... Nos seus horizontes projetados, a grande ambição é sempre manter acesa a chama do amor; regando o jardim da vida que os uniu, onde cada um segura em uma das alças do regador, enquanto espargem água sobre as sementes. Tudo num “pão com manteiga”, simples; e como Forrest e Jenny, inseparáveis.
Tom Hanks escolheu fazer Forrest, pelos mesmos critérios que sempre adotou: um personagem marcante; um personagem que deixou plantado em nossas mentes, de QI elevado, a confirmação que para amar só precisamos ter um amor e pureza dentro de si. O filme, ganhou naquele ano 06 Oscar dos 13 concorridos; inclusive o de melhor filme e melhor ator, para Tom Hanks.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.
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