BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

domingo, 24 de outubro de 2010

À francesa

Françoise Hardy
Nenhuma outra década colocou tantas beldades francesas no mundo pop, como a década de sessenta. No cinema, era o auge de Jeanne Moreau e Brigitte Bardot. Vi recentemente a comédia “Viva Maria!” — 1965. As duas atrizes estão lindas, interpretando papéis cômicos e sensuais, é claro. Moreau com 37  e Bardot com 31 anos. Balzaquianas, com as suas siluetas bem definidas, faziam duas “Marias” que viviam enfiadas em seus corpetes, arrancando suspiros dos homens em shows de strep tease, que atuavam seguindo um grupo mambembe de atores circenses. Imperdível.

Na música, a década de sessenta também trouxe a cantora Françoise Hardy. Minha memória foi despertava quando lia o livro “A Era dos festivais” e vi citado o nome de Françoise Hardy. Imediatamente veio à lembrança uma canção que fez sucesso no Brasil no início da década de setenta. Em 1968 — com 24 anos — ela veio ao Brasil participar do FIC — Festival Internacional da Canção — defendendo uma das suas belíssimas obras: “À quoi ça sert”. Sua identificação com a música brasileira foi tão contagiante, que logo depois gravou em francês a música que ganhou aquele festival, “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque. Na sua versão, a música ganhou o nome de “La ménsage”. Em 1971, ela faz novamente sucesso no Brasil depois de ter gravado o disco “La Question”, agora ao som do violão da brasileira Tuca.

O que encantava em Françoise Hardy não era somente a sua bela voz, mas a sua beleza vestida de eloquência. Sempre linda, elegante, magra e tímida; dava-se a impressão que ela não sabia que era tão bonita assim. Disfarçava sua beleza cantando. Naqueles anos, ela foi capa de muitas revistas famosas e foi, com certeza, um dos rostos mais fotografados naqueles anos.

Para o Blog, escollhi a canção “La Question”, que foi o que me fez lembrar-se de Hardy e trouxe muitas outras boas lembranças. Lá em casa havia um compacto simples “som livre”, um dos lados do disco era ela. Esta música era tema de uma novela de 1971. No site oficial de Françoise Hardy, está registrado que a letra é dela (Hardy) e a música é da violonista e compositora brasileira Tuca.




La Question
A questão
(Françoise Hardy)

Je ne sais pas qui tu peux être
Eu não sei o que você pode ser

Je ne sais pas qui tu espères
Eu não sei o que você espera

Je cherche toujours à te connaître
Procuro sempre te conhecer

Et ton silence trouble mon silence
E seu silêncio perturba meu silêncio

Je ne sais pas d'où vient le mensonge
Eu não sei da onde vem a mentira

Est-ce de ta voix qui se tait
É de tua voz que se cala

Les mondes où malgré moi je plonge
Os mundos onde, contudo eu mergulho

Sont comme un tunnel qui m'effraie
São como um túnel que me assusta

De ta distance à la mienne
De sua distância em relação à mim

On se perd bien trop souvent
Se perde sempre

Et chercher à te comprendre
E procurar te entender

C'est courir après le vent
É como correr depois do vento

Je ne sais pas pourquoi je reste
Eu não sei por que eu fico

Dans une mer où je me noie
Em um mar onde eu me afogo

Je ne sais pas pourquoi je reste
Eu não sei por que eu fico

Dans un air qui m'étouffera
em um ar que me sufoca

Tu es le sang de ma blessure
Você é o sangue da minha ferida

Tu es le feu de ma brûlure
Você é o fogo da minha queimadura

Tu es ma question sans réponse
Você é minha pergunta sem resposta

Mon cri muet et mon silence.
Meu grito mudo e meu silêncio.

Postado por Antônio - Outubro de 2010

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O ótimo, o medíocre e o idiota. Ou: Agora falando sério, Chico...

Começo escrevendo estas linhas ouvindo na minha vitrola virtual um dos meus álbuns favoritos. O disco “Meus caros amigos” de Chico Buarque, era obrigatoriamente tocado todos os dias lá em casa. Ainda fervilha na memória o som da agulha chiando (xii...) antes de entrar - sem introdução – a voz de Chico: “O que será que será / Que andam suspirando pelas alcovas...”. Em 1976, Chico ainda compunha suas canções de protesto sob metáforas. Muitas dessas músicas, hoje conhecidas, não existiriam se não houvesse a censura. A censura, ao contrário que muita gente imagina, o estimulava a criar.

Naquela época, o fedelho cronista aqui, queria ser Chico Buarque. Fiz alguns versos, mas nunca chegaram nem perto da sua genialidade, é claro. Então fui me ter com o violão e desse disco só saiu “Mulheres de Atenas”, cujos acordes e dedilhados sei décor até hoje. Só não me peçam para interpretá-la, pois sua letra é complexa e tem seis estrofes longas. Nem Chico sabia décor e por isso gravou o especial da TV Bandeirantes, com a letra ao lado. Essa vergonha de tocar violão em publico já me rubrou a face muitas vezes. Não toco.

Poucas pessoas sabem, mas sou assíduo freqüentador do Blog do jornalista político Reinaldo Azevedo. Petistas o detestam, e por eles o detestarem é que ele deve ser bom mesmo e deve ser lido. É uma lógica fácil de compreender, Reinaldo gosta de tratar a verdade como verdade e a mentira como mentira. Num de seus textos recentes, ao ser questionado por um dos leitores sobre a ausência da citação do nome de Chico Buarque, num tal manifesto da “esquerda intelectual” – se é que existem as duas coisas juntas ou separadas – em favor da candidata petista Dilma Rousseff, Reinaldo escreveu: “Há até quem diga que ele é o articulador [do manifesto]. Poder ser. Faria sentido. Chico é um ótimo letrista de MPB, um romancista medíocre e um idiota político. Não é de hoje”. Engoli seco. Ainda no embargo, refleti e depois disse a mim mesmo em voz baixa: ele tem razão... Talvez, eu nunca quisesse admitir, afinal é um ídolo sendo insultado e posto no banco dos réus, onde jamais imaginaria vê-lo. Podemos ser ótimos, medíocres e idiotas na mesma oração da vida. Por que não? Iremos brilhar no lado onde temos mais luz. Reinaldo e sua verdade desta vez me apunhalaram.

Tentei ler algumas das obras literárias que Chico escreveu e parei no meio do caminho, por falta de fôlego e emoção. Sua leitura é cansativa e não tem o lirismo e o capricho de suas canções. Seria como pedir a Machado de Assis escrever letras de músicas. Talvez, o encontrasse no mesmo ponto da mediocridade. Cada um na sua. Por isso, me considero um urbanista aprendiz de palavras e talvez fique no aprendizado a vida toda. Assim, me conservo longe do limite da mediocridade ou da idiotice e serei melhor naquilo que sei fazer bem. Minhas palavras são curtas e não têm a ânsia de romper fronteiras. Por muitas vezes é só um desafogo.

Em 1981, quando uma bomba explodiu no colo de um militar na porta do Riocentro, Chico era o anfitrião daquele show primeiro de maio. Aquela noite ficou marcada como um dos últimos capítulos de um enfretamento ao regime, que perdurou por longos 20 anos no país. Parte da arrecadação do show foi para o MR-8 – um movimento comunista clandestino que resistia àquela ditadura. Chico nunca se declarou engajado a partidos, mas já no período democrático começou a flertar com o PT e continua como um soldado, quando é convocado, ele está lá. Não me lembro também de declarações onde Chico tenha dito que é de “esquerda” ou que é um ateu convicto. Sempre fugiu desses assuntos polêmicos, embora parecesse ser ambos. Naquela época era muito comum comparar Chico a Caetano. Nas questões políticas, hoje fico com Caetano. Ele sempre se posicionou claramente, dizia o que pensava e continua dizendo - sem medo do patrulhamento.

Pô cara! Você é “chicólatra”, não vai com ele nessa? Não vou, e explico por que. Vou com Chico só na música e nas suas letras, onde ele é de fato ótimo. Outro dia parei para pensar no verdadeiro emprego da palavra dissociar e acho que ela seja talvez até mais importante que seu antônimo. Cérebros porosos e mentes ventiladas sabem dissociar informações, como um filtro da construção do nosso intelecto. Assim, como manga com leite, dois e dois são quatro e outras equações de obviedade igual. Sábio é o individuo que dissocia e filtra sob a luz da razão, do discernimento, da justiça e da verdade. Sem cabresto ideológico. Senão, fosse eu um sociólogo/escritor e não urbanista, naturalmente teria que ser de “esquerda”, ateu e andaria com Karl Marx embaixo do braço? Não! Desconstruo. Sou livre e penso como quero, carregado de princípios da minha formação e dissociando o que deve ser. Não pactuo e não dou meu voto de confiança a quem diz e desdiz antes de concluir o parágrafo (Eu odeio, eu adoro numa mesma oração – Chico Buarque). Quem - na política - usa da mentira como método. De certo, Chico, por seus princípios ideológicos, gosta disso. Eu não.

Não mudo uma vírgula de lugar quando trato de valores morais, de ética e de crenças. Já desisti de muitos políticos por isso. Na minha infância, quando me deitava para dormir, era minha mãe quem segurava minha mãozinha e junto comigo fazia “Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos, Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos”, depois a Ave Maria e o Pai nosso. Ela era pouco instruída e foi alfabetizada já adulta; nunca foi intelectual nenhuma, nem de esquerda nem de direita, mas ensinou tudo que precisava aprender. Não troco isso por qualquer pensamento idiota, rasteiro e bocó. Uma questão de princípio.

Quando leio crônicas políticas em que começa com polarização de esquerdas e direitas, paro logo de ler. Sempre a mesma ladainha. No cenário atual, não cabe mais isso, como ainda insistem alguns saudosistas. Não há divisão por raças, crenças, credos e posições políticas. Acredito que a melhor divisão - para posicionar o ser humano no mundo - está entre quem é do bem e quem não é. O que de fato faz todo o sentido do equilíbrio das forças do universo. Toda luz só se propaga onde há o breu, o escuro. Um não existe sem o outro. A escuridão só é percebida pela ausência de luz. Com o bem e o mal é assim também. No campo das relações humanas – onde a política atua – seria melhor se colocássemos todos os seus personagens juntos e separássemos os que são do bem e o que não são. O joio do trigo. O resto é balela, propagadas por ideais que os partidos mesmos não mais carregam em si. Hipocrisia pura e ingenuidade dos que adulam e douram a pílula em troca do encalço da verdade. Procuro olhar para dentro, para biografia de quem quer que seja o postulante. Sob ética, decência e competência.

Talvez, Chico esteja ainda fugindo do seu rótulo de “unanimidade nacional”. Se estiver, contribuo me dissociando da sua mediocridade e da sua idiotice, mas continuo preferindo os seus ótimos versos em canções: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade arrancada de mim / Leva o vulto teu / Que a saudade é o revés de um parto...”. Saudade do Chico, aquele das canções.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2010.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Quando as flores eram de verdade

Muitas histórias de amor já foram contadas por romancistas mundo a fora. E quem já não leu um desse folhetins na vida, uma história curta que fosse? Na maioria delas, descrevem lugares lindos, com encontro e desencontros; citam poemas e cartas; cavalheiros e damas, mocinhos e suas heroínas; buquês de flores com promessas de amor eterno e, porque não, contam também os dramas, as tragédias.

Devo confessar, sou um romântico tentando se corrigir. E se ninguém mais levantar a mão vou dizer que sou o “o último romântico” —  como já escreveu um poeta do cancioneiro popular. Quando vivo esse feitiço, me deixo levar pelas palavras e gestos de carinho quando me dirijo à mulher amada. Meus devaneios passionais vêm como brisas de outono, em sons de conchas de mar, com recheios de doçuras, de estrelas que se ouvem; e lições, que procuro me valer, como um bom vinho ao paladar.

Não receio em olhar para trás e colher da vida os melhores parágrafos, separando do passado as suas mágoas. Procuro ficar com o que foi bom. No final, resta aquela sensação: aprendi muito com isso. Não duvido, mesmo depois da dor, que se cicatrizou, podemos viver outro amor. Que graça tem a vida se nos matarmos de amor? Haverá sempre um novo a caminho, numa esquina do tempo. Tudo depende do comando da vida o quanto damos de colher de chá para que ela aconteça. Sem desesperanças e com muita inspiração.

Tenho saudades de tudo que foi bom — é claro —, da simplicidade da vida de outrora; da leniência do tempo, nas mudanças e tudo mais que me trouxe até aqui. Tempo em que as paixões nos corações arrebatavam; no cinema, namorávamos; nos olhos, olhávamos; nas bocas, beijávamos. Fazia parte do cotidiano encontrar poesias e versos pelos cantos da casa, receber e dar flores; simplesmente porque era delicioso sentir o coração mais efervescente.

Ah, o primeiro amor, como foi bom viver. Era belo quando a moça respondia à carta com uma boca de batom vermelho estampada num papel de carta. Havia aquelas que colecionavam esses papéis; eu mesmo recebi algumas cartas escritas nesses papéis especiais. E quanto aos recadinhos escritos em guardanapo, era o garçom quem entregava à mesa. Nas minhas declarações, “catava milho” tentando escrever numa “Olivetti”; e no final havia aquela frase em letras maiúsculas ou em CAPS-LOCK, como se diz hoje: P.S EU TE AMO! Era bom, quando dispúnhamos de uma caneta, um papel e um amor para pensar e sonhar — mesmo que fosse só platônico. Meus olhares eram tragados pelas atrizes de cinema e as dançarinas da TV; e as tratava como musas das minhas fantasias. Criava os meus romances particulares. Minhas cartas de amor não foram jogadas em garrafas ao mar. Mas por muito tempo elevaram e pairaram meu coração em colos de nuvens.

O mundo do século 21 tornou as pessoas mais individualistas e distantes; pôs asas na comunicação e como tudo também ficou mais sem emoção e inspiração; pôs até macarrão instantâneo na nossa mesa — que mau gosto! O amor agora é virtual, os beijos são “carinhas” com bocas vermelhas que vão anexas aos correios eletrônicos. Rosas em arquivos formatos PPS, poemas em formas diversas de apresentação espalhadas na blogosfera. Tudo virou Ctrl “C” / Ctrl “V” e colocou para debaixo do tapete o bom e velho cortejo com criatividade; aquele que vem do coração, explícito em forma de um buquê de rosas vermelhas ou numa caixa de bombom.

No fim das relações a coisa também enveredou por este caminho, diga-se, mais ligeiro. Segundo a agência Reuters, levar um fora digital é um fenômeno que vem crescendo. Pesquisas feitas na Inglaterra apontam que muitas pessoas hoje preferem as redes sociais e e-mails para terminar seus relacionamentos. Mais de um terço dos pesquisados disse que havia terminado seu relacionamento por e-mail, 13% mudou o status no Facebook sem avisar o parceiro e 6% divulgou a má notícia primeiramente no Twitter. Como se pode ver, a modernidade chegou aqui também e como tenho dito: ser solteiro hoje não é mais estado civil, virou status.

Tudo agora gira a milhões de gigabytes por segundo. Difícil mesmo é ser avesso a essa tecnologia. Não vou mentir, é difícil para mim — e acredito que para muitas pessoas também — resistir a tudo isso; agora, por exemplo, estou escrevendo estas linhas diante de uma engenhoca que meus antepassados jamais imaginariam existir. Necessitamos das ferramentas do mundo moderno, precisamos nos comunicar e entrar neste imbróglio informatizado, virtual e globalizado, mas não façamos virtuais também nossas emoções e sentimentos.

Para piorar, a palavra da moda agora é workaholic. Esses jovens viciados preferem como companhia à mesa do restaurante, não mais a namorada ou o velho amigo para falar de futebol; é comum vermos pessoas com seus computadores ultima geração ao lado do prato de comida. Navegando, navegando onde não há água.

Na minha cidade, percebo uma frequência cada vez menor de pessoas comprando flores. Uma floricultura que ficava aberta 24 horas fechou as portas. As flores agora vão por endereço eletrônico — aquela coisa fria e sem fragrância. As poucas visitas às floriculturas são em dias de finados, pois ainda não descobriram os endereços eletrônicos do “além”.

Em 1980, Roberto Carlos compôs a sua Amante à moda antiga: “Eu sou aquele amante à moda antiga / Do tipo que ainda manda flores...”. Exatos há 30 anos, já era antigo mandar flores. Imagina hoje. Ficou antiquado, démodé, cafona, brega demais. Quando as flores eram de verdade, havia o perfume e a alegria denunciada nos olhos de quem recebia; e não tinha como negar: era mesmo uma prova de amor despida por um gesto simples. Naqueles dias das flores, o ambiente se revigorava, se transportava, era outro. Um dia alguém me disse: "Por que mandar flores, se o final delas é o lixo?" Não quis lembrar que, durante aquele período da sobrevida no vaso, aquelas flores renovaram e aguçaram nos corações o amor, deixou os corações mais próximos, atados por um laço de ternura e carinho.

Outro dia fui buscar uns versos e encontrei esses: “as melhores flores são aquelas colhidas à luz das estrelas e entregues na surpresa da primeira luz da manhã”. Se existe a saudade alheia — como romântico ainda — sinto das flores de verdade. As rosas não falam — cantava Cartola —, agora elas também não exalam mais. Deixo-os com esta reflexão: se um dia Deus criou as flores, hoje o Google criou a forma mais rápida de encontrá-las.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2010.


Este Blog

Só para esclarecimento. Muitos leitores (as) vêm visitar o blog procurando novidades - textos inéditos todos os dias. O fato, é que este escriba não tem hábito de escrever todos os dias. Não que não queira. Desculpa, às vezes sou tragado por outros compromissos e pouco tempo resta para escrever. É claro, tenho outros hobbies, que não é só escrever, outro é ler. Quem escreve tem que ler. Nas letras como na arquitetura sobrevivemos à base de inspiração. Tem dias que olho para o papel virtual do Word e não vem nada, nadinha. Gostaria de ser uma máquina de escrever (Olivetti). Minha atividade principal é urbanista (agora convicto) e por isso escrevo nas horas que me sobram.

Para o próximo texto do Blog, fui buscar inspiração onde não havia. A ideia já existia, mas faltava um empurrão no “ócio criativo”. Saiu. Acredito que hoje à noite já esteja pronto para postar aqui. Dei o nome de “Quando as flores eram de verdade”, mas poderia se chamar “Pra não dizer que não falei das flores também”.

Como podem perceber não conto com colaboradores. O blog é só meu e não tenho mais ninguém mexendo aqui, mas aceito sugestões dos leitores. Por enquanto, faço dele meu cantinho, meu esconderijo da vida. Quem sustenta e me dá alento são vocês. Obrigado e vamos em frente. (Antonio)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Caminhos cruzados

Ela não podia ouvir
Como poder ouvir?
Latejante era a dor
E nem lembrava
Como a lua dançava
Quando o sino dobrava
Na noite do seu “sim”...
Ela não caia em si
Como poder fingir?
Ele velejava
Dia e noite
Noite e dia
E não voltava pra ela
Noites acordada
Apertava no peito
Mil convites pra sair
Ele não podia sentir
Mas havia um só beijo
Em seu paladar
E não desembarcava
Nunca daquele avião
Ignorava suas rotas em vão
Caminhos cruzados mudarão
Trajetórias e vida
Namorados de outros serão

Em vastos oceanos
Ele atravessava
De um país a outro
Remando em canções
Chamando seu nome no fim
Ela não havia
E nem sabia mais a razão
Ele virou numa esquina
E sumiu na retina
A sua visão
E aí, conta uma lenda...
Quer que o amor se prenda?
Solte dentro do coração
Até que o destino, milagres
Presságios e sonhos...
Outra vida, outras ruas
Cruzem, então
Os amores, olhares
De dois corações

Ele virou vento
Ela virou flor
Ele esperou no tempo
Ela dormiu na espera
Ele seguiu na correnteza
Ela na primavera
Ele chorou, no entanto...
E ela com certeza.

Antonio / 2005

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma canção, um parceiro



Caros leitores (as),

Alguns de vocês já conhecem, mas gostaria de compartilhar com os demais também, uma canção que compus em parceria com meu amigo Eduardo Borges. Digo amigo, pois além de parceiros na música, somos amigos nos momentos de alegrias e tristezas — já há 10 anos. Como em toda relação, às vezes nos debatemos em alguns pontos de vistas — o que é natural —, mas de volta à música tudo nos une de novo. Sei que ele anda preguiçoso para “mexer” com música, mas é inegável o talento que sempre teve, e isso não vai perder nunca. Espero.
Desde o início da amizade, fizemos umas 05 músicas, mas a última canção ficou marcada. E posso dizer que foi nossa melhor parceria: “Amor da Vida”.
Em setembro de 2007, mandei por e-mail um esboço (na arquitetura se diz “croqui”) de uma letra. Algumas horas depois, minha impaciência me tomou e peguei no telefone. Quando perguntei se ele havia recebido o e-mail, ele pegou o violão e cantou a música pra mim. Não acreditei, me aprontei logo para ira a sua casa e terminar de fazer o resto.
A canção faz bem aquele estilo “sertanejo romântico”, talvez se eu soubesse “mexer” bem no violão e fosse também o autor da música, saísse mais com cara de Chico Buarque. Mas, ficou como teria que ser. Ele acertou.
Faz 01 mês eu registrei a música e agora já podemos divulgá-la, e depois quem sabe receber uma proposta de gravação. Já temos alguns contatos.
O vídeo acima está postado agora no youtube, e vocês podem ver clicando aqui (Amor da Vida).
A música, com arranjo e como foi registrada, está no sítio “músicas registradas” e se vocês quiserem ouvir também podem clicar aqui (Músicas registradas).
Escolhi para o Blog esta gravação acústica (violão e voz), sem os arranjos, pois está como a música foi feita. A voz, é claro, não é minha. O cantor é Eduardo Borges.
Em tempo, um agradecimento ao meu outro amigo palmeirense João Pedro pelos créditos do vídeo, que ficou muito bom.
Só para não haver dúvidas, “Anttonio Buarque” sou eu. Com qual intenção?
Espero que gostem.

AMOR DA VIDA
(Eduardo Borges/Anttônio Buarque)
27/09/2007

Amor da vida
Flor da primavera
O tempo fez em mim.
Sua longa espera

Amor da vida
Sol do meu caminho
Vem morar comigo
E aquecer o meu ninho

Poeiras e pedras
Passei para estar aqui
Antes de você chegar
Meu destino um deserto
Meu futuro incerto
Foi Deus que mandou você pra mim.

|Quantas noites vazias
|Em meu quarto
|Eu te chamo
|No meu sonho
|Nele você vem
|Há tantos motivos
|Pra dizer que
|Eu te amo
|Você é minha razão
|E me faz tão bem
|E me faz tão bem...

Canção pra vida
Hoje tocou em nós
Tatuou nossos corpos
Marcou nossos lençóis

Amor da vida
Será pra sempre assim
Eu em você
Você dentro de mim.

REFRÃO
Eduardo Borges e eu
Postado por Antônio - 04/10/2010

domingo, 26 de setembro de 2010

Encontrei a felicidade

O cristianismo prega que encontraremos a felicidade plena no Reino de Deus. E onde está o Reino dos Deus? Fui lá conferir: O Reino de Deus não virá de modo ostensivo. Nem dirá: Ei-lo aqui; ou Ei-lo ali; Pois o Reino de Deus está dentro de vós. (Lc 17, 20-30). Aqueles fariseus não entenderam nada e muitos de nós (cristãos) ainda continuamos a não entender patavina do que disse o Cristo. Depois dessa inferência secular, poderia parar de escrever por aqui. Perdeu a graça em dizer que encontrei a receita da felicidade e ela está no livro dos livros; ou para outras crenças: nas alquimias, nos chás, na bula do prozac, no horóscopo, num pergaminho escondido no críptex, ou num baú secreto cuja chave foi lançada ao mar. Nada! Não há chave, não há baú, nem segredo. Há sim, nossas vidas e o modo de como queremos que ela prossiga daqui em diante, com ou sem amor. Continuemos a olhar para fora, ou vamos ao encontro da nossa espiritualidade?

A busca do externo, do exibicionismo, do materialismo, do consumismo, da satisfação nas coisas que o mundo oferece, faz muitos de nós sentirmos este vazio interior. O que falta para sermos felizes plenamente, se já provamos de tudo? Partindo desse engodo, já numa forma de desespero, acreditamos então que só seremos felizes quando alguém nos trouxer a felicidade a nossa porta. Como se tudo fosse uma mercadoria a delivery. Esta é nossa última cartada. Exigimos e aguardamos. Traga-nos uma porção. Não! Queremos uma quantidade farta que é para durar a vida toda. Ok?!

Pode ser que eu não esteja falando com você, mas isso é o que a maioria das pessoas busca. Anseiam nas suas relações interpessoais, que a outra pessoa a faça feliz. Esperam do outro e nada fazem por si, e para si. Faz parte do requinte que a pessoa escolhida, além de todos os outros atributos (ser príncipe ou princesa), traga ainda a felicidade no seu caminhão de mudanças. Depois do beijo no altar eles irão agora requerer seus direitos num casamento: a felicidade do outro. E se houver falhas nas suas atribuições um irá cobrar o outro e tudo caminhará para um divórcio bem rápido; e somente mais tarde, depois de algumas visitas ao analista, irão perceber que não há dívida de felicidade com ninguém. Querer sugar a felicidade alheia, é exigir além das fronteiras das relações humanas, mas muitas pessoas pensam, vivem e agem assim.

“É impossível ser feliz sozinho”, na música de Tom Jobim este é o verso mais comentado e propagado por aí. Tem outro de Vinícius de Moraes também: “mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”. A música, a poesia tem a licença para dizer o que vier e tudo fica permitido, mesmo que seja uma receita que não se aplica na vida real. Assim, quem quiser acreditar nessas frases poderá concluir que a solidão é sinônimo de infelicidade. Entretanto, a solidão quando sofrida — e não sentida —, poderá trazer a infelicidade sim, mas ela não é determinante. Vou mais fundo.O que de fato é estar sozinho? Estar sozinho é ausência de companhia, de abandono e não falta de felicidade. Vasculhei nos dicionários de sinônimos e não há menção da ausência de felicidade para a palavra solidão. O pior abandono que causamos a nós é o abandono da alma; e uma vez instalado esse vírus, ali começará brotar a infelicidade — a erva daninha. É quando perdemos o foco e a referência, num sinal fatídico de se olhar no espelho e não se ver – nossa alma e tudo esvaecem.

Pode ser lugar comum o que vou dizer, mas não existe a vida totalmente feliz, e aqui, aonde viemos aprender, não existe felicidade plena. Por isso, necessitamos aprender a exercitar e expelir nossas emoções: as boas e as más; mais cedo ou mais tarde iremos precisar desprendê-las quando tivermos que encarar a realidade dos fatos. Não há vida sem luta e para isso há que se ter coragem para viver. O sofrimento, a dor são imputáveis à vida, assim como a felicidade. Não poderemos evitar nunca o sofrimento e a dor, as noites tempestuosas virão, com certeza, mas poderemos ansiar e permitir a felicidade sempre. Isto sim. Quando vivemos algum drama na nossa vida, somos aconselhados a fugir, fazer as malas numa viagem para esquecer. Sem notar que todas as nossas dores vão junto com as malas. Quem sofre com alguma dor, deve viver isso como se vive o amor na sua plenitude. Nunca devemos fugir dos nossos sentimentos.

Para saber até que ponto o dinheiro compra a felicidade, uma pesquisa recente nos EUA, com mais de 450 mil pessoas, constatou que para ser feliz o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre. A verdade, é que as dificuldades de acesso aos bens de primeira necessidade desencadeiam fatores de ordem física, psíquica e emocional — trazendo a infelicidade. Respondendo à pesquisa, a grande maioria que está feliz ou vivendo momentos felizes encontrou na religião (qualquer delas) a sua maior causa; já a infelicidade, está mais atrelada à solidão, e esta, com certeza, já numa forma de sofrimento, de abandono da alma.

O ser humano é uma máquina de queixumes. Não bastasse o corpo, que com o tempo dará sinais de cansaço e dores, as pessoas se queixam também das dores da alma — ainda na juventude. Gostaria que essas pessoas que vivem a reclamar da vida, olhassem para dentro dela e enxergassem os tantos motivos que têm para dar felicidade a si. Quiçá, uma visita à ala de pediatria de um hospital de câncer mudasse seu comportamento, com mais resignação. Iriam se queixar menos e amar a vida que tem. O melhor remédio para dor é o amor. Por outro lado, encontraremos poucas pessoas que irão dizer: EU ENCONTREI A FELICIDADE. A felicidade dá medo até de dizer que se tem, ficamos com a sensação que irá fugir a qualquer momento e não encontraremos mais o fio da meada. Dá medo de ser feliz. Ou, por um instante, nos perguntamos: mas isso que é a felicidade? Duvidamos dela. E como numa frase que li: “o medo da felicidade está na raiz de todo pensamento supersticioso: estando bem, nos sentimos ameaçados e nos protegemos batendo na madeira”.

O filme “O Divã” — 2009 traduz bem esta conversa aqui. A personagem vivida por Lilia Cabral é daquelas mulheres mais do que comum: casou, criou filhos, vida modesta e em paz. Durante uma sessão de psicanálise percebe que sua vida falta algo, um sentimento de incompletude a toma conta. Então, ela resolve viver aventuras amorosas e perigosas. Em consequência, rompe o casamento de anos e cai na vida. O fato, é que a terapia a traz para a realidade, e ela se descobre ao olhar para dentro da sua vida — vivida e escolhida. A frase final dita por ela sintetiza tudo: “Se tive problemas um dia, não foi por falta de felicidade. Ah, não foi mesmo”.

Acender um fósforo numa noite fria irá aquecer somente o minúsculo inseto ao redor da chama, e tão logo se apagará; mas acender uma lareira no canto da sala irá aquecer a casa e as pessoas que ali moram. O amor é o fogo duradouro da lareira, que devemos manter aceso para encontrarmos o caminho da felicidade. Os que acendem a fogueira do amor, irão se aquecer ao seu redor e viver mais felizes. Há aquelas pessoas que passaram a vida toda buscando a felicidade sem encontrar, mas na verdade, viveram nela a “não felicidade”: a negação da sua presença em muitos momentos da vida. Essas pessoas amarguradas, birrentas e de mal com o mundo são puramente ocas, incompletas e terminam sozinhas — o tempo já se foi. Quem não quiser chegar ao final de sua jornada assim, ainda há tempo para abrir as portas do coração e deixar forjar o amor na espiritualidade e por fim a felicidade — tudo na mesma fornalha. E quando a vida um dia lhe questionar, poderá dizer: se tive felicidade um dia, foi porque vivi muito o amor.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / setembro de 2010.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Como se fosse a primavera

Ainda a primavera...

O novo texto para o blog está quase pronto. Como o texto "Nesta manhã de primavera..."(leia) ainda está "bombando" com muitos acessos, vou adiar por uns dias a postagem do novo texto. Já fins uns ensaios com alguns leitores e a resposta foi muito boa. Acho que irão gostar.
Enquanto isso, assistam o video da canção "Como se fosse a primavera" de Pablo Milanés/Nicolas Guillén. Chico Buarque gravou está música - 1984. Esta música é uma das belas coleções de compositores cubanos. Deles, gosto muito desse: Pablo Milanés, e de Silvio Rodriguez. Na política, Cuba é um atraso, mas seus compositores são muito bons. Por sinal, esses dois não se alinham mais com a forma governamental e regimentar da ilha.
Enquanto aguardam o próximo texto, leiam os antigos. A primavera começou hoje, vamos mudar o foco e o rumo da prosa.




Como Se Fosse a Primavera

Composição: Pablo Milanés/Nicolas Guillén

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril
Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal
De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
Eu morrendo

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bicicletas, etc...


Quando fui dar nome ao blog, veio a lembrança de uma música chamada “Bicicletas, etc...” (Eduardo Souto Neto e Geraldo Carneiro). Esta belíssima música esta no LP de Taiguara de 1971, na última faixa do lado A. Este disco foi uma das grandes inspirações musicais do meu aprendizado. O título era “Carne e Osso” e na capa aparecia uma boca enorme (provavelmente a de Taiguara). Ouvi este disco até furar, literalmente falando. “Bicicletas, etc...” tinha num trecho da letra: “todas as manhãs eu entro no cinema/ numa imagem de luzes coloridas...” e um arranjo com base em piano, como quase tudo que Taiguara fazia. Neste mesmo disco havia outra canção que se chamava “Momento de amor”, era a 3ª faixa do lado A. Sempre interpretei esta música como uma resposta do amor. Do amor que se dá e recebe na mesma proporção. Sua letra e melodia vão da carícia, do afago ao ápice, ao orgasmo e depois o repouso, o descanso. Tudo dentro de uma sutileza de versos e harmonia. Ao fundo se ouvia uníssono uma voz feminina falando ao seu amante palavras de amor.


Momento de Amor (Taiguara)

Neném, eu percebi quando te amei
Teu medo foi maior que o teu amor, neném
Neném, abre o teu peito e diz pra mim
Tudo que te faz temer assim
Neném, dor que se guarda fere mais
Faz medo, desespera e esfria o amor, neném
Meu bem, faz no leito um sol pra nós
Faz da tua treva o amanhecer
Vida é só uma estrada e vai levar
Aonde o teu amor puder
Vida é teu momento de entregar
É dentro de você, mulher
Neném, agora sim num corpo só
Os nossos corpos sós vão se encontrar no amor
Amor, agora sim eu vou te amar
Mais do que te amar vou te saber
Assim, meu colo acolhe a tua mão
E colhe em tua mão o tato bom do amor
Assim, meu braço estreita o nosso amor
Deita sobre o teu o meu viver
Quero, e esse é o momento de alcançar
Vir junto e mergulhar no amor
Quero, deixar no mundo do teu ser
No fundo do teu ser, o amor
Comigo agora, vem, vem, vem neném


Postado por Antônio - Setembro 2010

sábado, 18 de setembro de 2010

O lado B - Ontem, um sonho...



"Yesterday" é uma canção originalmente gravada pelos Beatles para o seu álbum Help 1965!. De acordo com o Guinness World Records, "Yesterday" tem mais covers de qualquer canção já escrita. A música continua a ser há mais popular até hoje com mais de 3.000 regravações, a bater o primeiro top 10 do Reino Unido, três meses após o lançamento de Help!.A Broadcast Music Incorporated (BMI), afirma que foi tocada ao longo de sete milhões de vezes no século 20. A canção não foi lançada como single no Reino Unido no momento do lançamento americano e, portanto, nunca ganhou um status de número 1 no país. No entanto, "Yesterday" foi eleita a melhor canção do século 20 em 1999 pela BBC Radio 2 na pesquisa de especialistas em música e ouvintes. Em 2000, "Yesterday" foi votada a canção pop nº 1 de todos os tempos pela MTV e Rolling Stone Magazine. Em 1997, a canção foi introduzida no Hall da Fama do Grammy.Embora creditada a Lennon / McCartney ", a canção foi escrita exclusivamente por McCartney. Em 2002, McCartney pediu a Yoko Ono se ela consideraria reverter os créditos de composição na música para ler "McCartney / Lennon." Ono recusou.

Origem

Segundo os biógrafos de McCartney e os Beatles, McCartney compôs a melodia inteira em um sonho de uma noite em seu quarto na casa em Wimpole Street de sua então namorada Jane Asher e sua família.Ao acordar, ele correu para o piano e tocou a música para evitar de esquecê-la.Ainda não tinha letra e ele a chamou de Scrambled eggs. Mas Paul ficou encucado, achando que já tinha ouvido aquela melodia em algum lugar. Então passou vários dias mostrando para os amigos e perguntando se eles já não a conheciam. Não, ninguém nunca tinha escutado aquilo antes.
Após ser convencido de que ele não havia roubado de alguém a melodia, McCartney começou a escrever letras para adequá-la.O verso inicial de trabalho foi "Ovos mexidos / Oh, meu amor como eu amo seus pés" (Scrambled Eggs/Oh, my baby how I love your legs), foi utilizado para a música, até algo mais apropriado foi escrito. Em sua biografia, Paul McCartney: Many Years From Now, McCartney lembrou: "Então, primeiro de tudo eu verifiquei a melodia, e as pessoas me diziam: 'Não, ele é lindo, e eu tenho certeza que ele é todo seu." Demorei um pouco para me permitir afirmar isso, mas então, como um garimpeiro eu finalmente aceitei e disse: "Ok, ela é minha!" Ela não tinha palavras. Costumava chamá-lo de "ovos mexidos".
Durante as filmagens de Help!, Um piano foi colocado em um dos lugares em que a filmagem estava sendo realizada e McCartney queria aproveitar esta oportunidade para mexer com a música. Richard Lester, o realizador, acabou por ser extremamente irritante com isso e perdeu a paciência, dizendo para McCartney
terminar de escrever a música ou que teria o piano removido.Paciência dos outros Beatles, também foi testado por um trabalho de McCartney em andamento, George Harrison somando isso quando ele disse: "Caramba, ele está sempre falando sobre essa música. Você acha que ele foi Beethoven ou alguém!"
McCartney disse que a descoberta com a letra surgiu durante uma viagem a Portugal em Maio de 1965 quando esteve em Algarve:
"Lembro-me remoendo a canção" Yesterday ", e de repente começou com uma palavra para o verso. Comecei a desenvolver a ideia ..." da-da da, yes-ter-day, sud-den-ly, fun-il-ly, mer-il-ly and Yes-ter-day, that's good. All my troubles seemed so far away". É fácil para rimar os A's: dizer, ou melhor, hoje, fora, jogar, ficar, há uma muitas rimas e aqueles em queda com bastante facilidade, por isso gradualmente coloquei as partes juntos daquela viagem. Sud-den-ly, e 'b', novamente, outra rima fácil: e, me, tree, flea, we, e eu tive a base nele. "
Em 27 de Maio de 1965, McCartney e Asher voaram para Lisboa para passar férias em Albufeira, Algarve, e pediu um violão de Bruce Welch, em cuja casa eles estavam hospedados, e completou o trabalho em "Yesterday"
A canção foi oferecido como uma demonstração de Chris Farlowe antes da gravação dos Beatles, mas ele a recusou por considerá-lo "muito brando".

Gravação

A faixa foi gravada no Abbey Road Studios (imediatamente a seguir na gravação de "I'm Down"), em 14 de Junho de 1965. Há relatos conflitantes sobre a forma como a canção foi gravada, o mais citado é que McCartney gravou a música por si próprio, sem se preocupar em envolver os outros membros da banda. Fontes alternativas, no entanto, afirma que McCartney e os outros Beatles tentaram uma variedade de instrumentos, incluindo bateria e um órgão, e que George Martin mais tarde convenceu-os a permitir que McCartney a tocar a sua Epiphone Texan cordas de aço da guitarra acústica, mais tarde, na edição de um quarteto de cordas para backup.Nenhum dos outros membros da banda foram incluídas na gravação final.No entanto, a música foi tocada com os outros membros da banda em concerto em 1966, em Sol maior, em vez de Fá maior.
McCartney gravou dois takes de "Yesterday", em 14 de junho de 1965.Take 2 foi considerado o melhor e usado como o take master. Um quarteto de cordas foi adicionada no take 2 e essa versão foi lançada.Take 1, sem o overdub seqüência, foi lançado posteriormente no Anthology 2.Em um teste, McCartney pode ser ouvido dando mudança de acordes para George Harrison antes de começar, mas George não parece realmente para tocar.Take 2 tinha duas linhas transpostas a partir do primeiro exame: "There's a shadow hanging over me"/"I'm not half the man I used to be,"",embora pareça claro que a sua ordem no take 2 foi correta, porque McCartney pode ser ouvida, em ter um, contendo o riso em seu erro.
George Martin disse mais tarde:
"Ele [Yesterday] não era realmente um disco dos Beatles e eu discuti isso com Brian Epstein:" Você sabe que esta é a canção de Paul... vamos chamá-lo de Paul McCartney? Ele disse 'Não, tudo o que fazemos, não estamos na divisão do Beatles.''

Lançamento

A influência dos Beatle sobre sua gravadora americana., Capitol, não era tão forte como era na Parlophone da EMI na Grã-Bretanha. Um single foi lançado em nos Estados Unidos.,a "Yesterday" com o "Act Naturally", uma faixa com vocais por Starr.O single foi desenhando até 29 de Setembro de 1965, e liderou as paradas por todo o mês, com início em 9 de outubro. A canção passou um total impressionante de 11 semanas nas paradas americanas, vendendo um milhão de cópias em cinco semanas. "Yesterday" foi a canção mais tocada nas rádios americanas por oito anos consecutivos, a sua popularidade se recusa a diminuir.
"Yesterday" foi o terceiro de seis singles número um nas paradas americanas, um recorde na época.Os singles foram "I Feel Fine", "Eight Days a Week", "Ticket to Ride "," Help! "," Yesterday "e" We Can Work It Out ". "Yesterday " também marcou uma viragem no que escreveu uma série de singles para o grupo. Lennon escreveu cinco através de "Help!", Ao passo que depois McCartney escreveu oito começando com "Yesterday".
Em 4 de março de 1966, "Yesterday" foi lançada como um EP no Reino Unido, juntamente com "Act Naturally" no lado A com "You Like Me Too Much" e "It's Only Love" no lado-B. Até 12 de Março, tinha começado a sua execução nas paradas. Em 26 de março de 1966, o EP foi o número um, a posição que ocupava há dois meses.Mais tarde naquele mesmo ano, "Yesterday" foi incluída como faixa-título do Yesterday and Today album nos EUA.
Dez anos depois, em 8 de março de 1976, "Yesterday" foi lançado pela Parlophone como single no Reino Unido, apresentando "I Should Have Known Better", no lado-B. Entrando nas paradas em 13 de Março, o single permaneceu lá por sete semanas, mas nunca subiu mais do que o número 8 (no entanto, por esta altura a canção tinha sido apresentado em pelo menos três top 5 álbuns e um EP, que liderou as paradas) . O lançamento aconteceu devido à expiração do contrato dos Beatles com a EMI, Parlophone.EMI lançou singles como muitos dos Beatles como poderiam no mesmo dia, levando a 23 deles acertando o top 100 nas paradas do Reino Unido, incluindo seis no top 50.
Em 2006, uma versão da canção foi incluída no álbum Love. A versão começa com a introdução da guitarra acústica da canção "Blackbird".
Comentário:O site da Globo nessa semana numa reportagem falou que a música Yesterday tinha sido escrita na Espanha,o que NUNCA aconteceu!Ela foi escrita em Portugal com as palavras declaradas por Paul

domingo, 12 de setembro de 2010

Nesta manhã de primavera...

Se eu pudesse intervir no tempo e mudar as estações do ano, eu faria tudo começar com a primavera. Tem tudo a ver com o início da vida: os dias, suas flores e cores sem fim; onde tudo parece se realizar e transformar. Nos dias da criação, não tenho dúvida que era primavera. Deus criou tudo a partir dali. Toda a beleza do mundo foi criada primeira e depois veio o resto. Esta estação encanta, dá alento e esperança; e o sentimento é de renovação e mudanças, com dias claros de contemplação. Eu sempre escolho a primavera para arrumar as gavetas da alma e dar o próximo passo adiante.

Na vida sempre iremos recomeçar algo, do marco zero. Ninguém está livre disso. Há momentos — e aqui eu falo da vida de todos nós — em que haverá um divisor de águas, um barco à deriva que muda sua rota, um novo rumo onde mudanças ocorrerão: um casamento (ou divórcio), o nascimento de um filho, um novo emprego, uma nova moradia, outro lugar ou um novo amor... Também não nos esqueceremos das passagens tristes por acidentes e desastres — esses nunca planejados. Essas fases ficarão perpetuadas nas nossas memórias. É a primavera mudando nossas vidas.

Faz alguns anos vi um filme nacional cujo enredo se baseava em: “a vida tem sempre o lado B” — fazendo uma alusão aos discos “long-playing” —, e na minha modesta tradução, sintetizei: na dificuldade, alterne, vire o disco! Termo este que muitos jovens já ouviram, mas não sabem de onde vem. Vem daí. Em 2000, a revista americana MTV elegeu a música “Yesterday”, a melhor música pop de todos os tempos — o que concordo. No álbum “Help!” dos Beatles — 1965 , “Yesterday” é a penúltima música do lado B, a 13ª música do disco. Às vezes, as melhores músicas estão tocando no lado B de nossas vidas. É preciso virar o disco para desvendá-las e deixá-las entrar.

Nessa toada, nos apontam todos os caminhos, quando a vida diz não para um lado, abrirão outras portas para um novo sentido: vire o disco. Agora a deixo assim, seguir seu norte. Onde vai dar? São minhas escolhas, que apontarão as setas do caminho, iluminado por uma luz espiritual, que me permito a todo o momento. Tenho falado: à vida fazemos as escolhas e ela se posicionará para o lado que está o leme que remamos. Quem insiste e perde tempo com as pessoas erradas, não obstante, terá tempo depois para encontrar e amar a pessoa certa.

É fato, viemos a esta vida fadados a fazer escolhas; e isso começa desde quando nossos pais nos soltam das mãos e então damos os primeiros passos sozinhos. Assim, esticamos nossos bracinhos para o colo de quem queremos ir. Como um filhote de águia que despenca do ninho e aprende a dar seus primeiros rasantes: voamos, voamos por aí buscando alimentos para corpo e para alma. A partir daí nos sentimos livres para fazer o que bem queremos dela; e por ela fazemos muitas opções. Malgrado, para outros é optar até pela morte em detrimento à vida, como muitas tragédias têm mostrado. É claro, a cartilha da boa educação e moral nos é dada também já no engatinhar, tendo também a opção de seguir ou não na fase da consciência.

Depois de sofrer muita resistência e dor, hoje uma amiga aceita a condição de vida de seu pai e sua relação com ele. Aprendeu a amá-lo como ele é; com seus defeitos e qualidades. Ela me disse: “ele escolheu esta vida para ele, isto mesmo antes de eu nascer. Não posso mudar, ele fez suas escolhas. Aprendi agora a amá-lo assim”. Todos os dias nós acordamos já fazendo tais escolhas: banho frio ou quente? Com que roupa eu vou? O quê comer? E no nosso estado de espírito também: como iremos encarar o primeiro que depararmos no elevador ou na rua, com sorriso ou cabisbaixo?

Sempre achei que estivesse escondida numa concha no fundo do mar”. Quando ouvi esta frase me trouxe uma sensação de que vivemos buscar alguém que está longe dos nossos olhos e do alcance das mãos. Sonhamos com o impossível, a perfeição — talvez, até porque não somos. Achando que só iremos encontrar nossas pérolas, em conchas nos reinos abissais mais profundos. E assim, corremos em busca da perfeição. Haverá uns que brilharão em suas manhãs mais singelas de primavera; há outros que se ofuscarão até ao maior brilho do sol. Esta é vida e o tom que cada um dará a ela. Algo de errado está nos nossos olhos que vivem a buscar o mar com suas riquezas infinitas e inatingíveis, e cegam para outras tão perto e possíveis.

Fazer opção pela sua vida é dar sentido a ela própria. Parece ser conversa fiada, mas nem sempre é assim, muitos castram seus projetos para fazer outras escolhas, viverem a vida que não é sua, e se perdem por aí. Por volúpia ou paixão, às vezes nos confrontamos com lampejos de sentimentos do qual não dominamos e por eles deixamos tudo, e trocamos a nossa pela vida do outro. Isto ocorre com a maioria das mulheres, que, em busca de uma relação perfeita, obedecem a seus cônjuges e se abdicam de seus projetos de vida em prol de um casamento, pensando na sua eternidade. Um dia, acordarão no tédio, já maltrapilhas, sem espelho e sem identidade. A tarefa árdua agora é juntar os cacos, colocar no lugar tudo que espalhou pelos cômodos — a casa agora precisa de uma boa faxina. Mas ainda haverá tempo de se buscar a nova primavera.

Agora escolho esta manhã de primavera (quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos...) e tudo que me renova. Vou abrir todas as janelas da alma e contemplar as cores do dia; vou dar o perdão, vou partilhar o bem, vou tomar meu café sem tempo para sair da mesa, vou despedir da tristeza, vou encontrar com o amor. Nesta manhã de primavera vou andar descalço, vou rir de tudo, vou cumprimentar meu vizinho, vou abrir o coração, vou fechar um livro com lágrimas de emoção, vou começar outro com devoção; vou orar mais um pouquinho, vou trocar de leme e continuar remando.

Nesta manhã de primavera, vou escolher a minha melhor roupa, vou pintar uma tela, vou acreditar no amor, vou fazer nova amizade, vou transgredir, vou ver o mar... Nesta manhã de primavera vou pôr na vitrola e ouvir “Yesterday”, a penúltima música do lado B da trilha sonora da minha vida.

A cada primavera eu renasço, como um réveillon em fogos de artifício e em pétalas de flores. Leva-me daqui, desse inverno, desta dor. Se tiver que escolher, escolho agora esta manhã para renascer. Das estações, eu escolhi a primavera. E você?

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / setembro de 2010.



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A mullher árabe

A tarde já se ia quando cheguei naquela praia deserta. Meus passos lentos traçavam um caminho incerto na areia. Queria chegar até as pedras, encontrar meu prumo, minha vida. Os povos do oriente nunca me fizeram compreender. As ondas apagavam tudo em que pensava. O inverno que havia em mim era árido e deserto. A brisa gelada fazia minha pele sentir o frescor sob minhas vestes brancas. Sem forças, estirei meu corpo ao chão com minhas mãos espalmadas sobre a rocha ainda quente. Minhas veias saltadas supuravam um suor amargo. A boca seca desencontrava em murmúrios e palavras que brotavam sem direção no espaço. O mar revirava, agitava e lançava suas ondas nas pedras, como um convite para o mistério das suas profundezas. Quero ser como o mar, dizia dentro de mim. Voltarei um dia como mar... Lembrei-me do sonho em que vi um anjo que saltava do penhasco e sumia entre as nuvens. Era bom presságio sonhar com anjos, diziam meus antigos. Mas meus olhos ali amorteciam no firmamento. A cortina do dia fechava num espetáculo que as minhas pupilas teimavam em não espiar e minhas mãos reticentes em não aplaudir. Fiz de mim um vinho entornado, uma palha seca de sentimentos vãos, migalhas de um coração partido em mil pedaços. Um raio de sol quisera que penetrasse inteiro em minha alma, mas não pude represar minhas lágrimas no mesmo instante. Abaixei o queixo, fechei os olhos e com nitidez veio a cena daquele dia na biblioteca. Num livro antigo empoeirado, desvendava o mistério dos meus tormentos e pesadelos: a mulher árabe não pode amar. Convencido que já havia lido e sabia tudo sobre o amor, de como se dissemina entre os povos, na chama do coração e pelo tempo. Que o amor não tem raça, nem credo. Que o amor liberta. Que amar é uma dádiva. Nunca imaginava saber a verdade sobre quem eu amava. Desfolhei outros livros, contos, manuscritos, histórias reais. Nada. Quebraram meus braços, cravaram em meu peito uma lança. Chorei, cuspi nas folhas, disse injúrias e teimei com Deus. Não pode ser assim! Como somos tão desiguais. Meu coração agora arde de amor, eu preciso entregar este amor à minha amada. Minhas teses se concluíam, fechavam como peças de um quebra-cabeça. Das nossas conversas e encontros. Senti que ela sofria e eu por ela mais ainda, mas nada podia fazer. Manifestei aos céus, ceifaram a liberdade dela amar mesmo antes de vir ao mundo. Pensei nas pedras e na água fria que poderia encontrar lá embaixo. Nossos poemas, as canções que compus no mel dos seus olhos. Reli a última mensagem do celular. Mas em tudo voltava como um trem desgovernado: a mulher árabe não pode amar nem aqui, nem em lugar algum. Chorei por nós, pois agora não podia mais lutar por aquele amor que já deveria partir de mim sem tempo. A mulher árabe não serve para o amor. Indaguei o destino que nos cruzou, o evangelho, as escrituras. Por quê? Quero este amor! Em vão, tudo se esmaeceu como uma centelha que se dissipa no ar.

Levantei a cabeça. A noite caia fria e as embarcações eram tragadas no nevoeiro. Pássaros partiam para o repouso noturno. Agora eu era só, as estrelas primeiras surgiam como pontos no pano do céu. Traçava a bel prazer desenhos de geometria incompreensível. Lia sobre elas o nome que me vinha e não era outro senão o nome dela. Músicas entoavam ao longe um hino de amor que guardei para lembrar de nós. Cadernos, poemas, bombardeios, fronteiras, caravanas, desertos tudo se misturava com meu sangue quente. Como compreender? Bêbadas manhãs que acordei pra sonhar com este amor. Para qualquer lugar distante, queria fugir sem deixar vestígios.

Já era tarde e chovia ao norte. Pus-me em pé e fiz um crucifixo do oriente ao ocidente dos meus braços. Gritei - sem eco. Um vento forte soprou em meus olhos e secou minhas lágrimas. Por fim, era verdade como em meu sonho. Senti então meu anjo suspirar ao redor; túnica longa e branca, com a mão estendida sobre meus ombros e na sua plenitude transfigurava: "vai, volte à vida, leve este teu amor para guardar no coração e para sempre na eternidade juntar-se a ela; quanto à mulher árabe, saiba que a ela foi dado somente o prazer de chorar". Parti.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril 2007

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Eu quero uma casa no campo



Foi Zé Rodrix quem compôs “Casa no Campo”. Ele faleceu em 2009 aos 61 anos de idade. Durante sua carreira, cheia de altos e baixos, foi: cantor, compositor, produtor, arranjador, saxofonista, publicitário e escritor. E no final da vida, ainda lhe sobrou tempo para por os pés na estrada, e junto com velhos parceiros, Sá e Guarabyra, reviver alguns dos seus rocks rurais fazendo shows pelo país.

A canção que marcou sua carreira foi composta em parceria com Tavito e ganhou o Festival de Música de Juiz de Fora — 1971, pouco depois Elis Regina deu alma e tornou-a conhecida nacionalmente. Faz algum tempo fiquei sabendo que “Casa no Campo” era o hit da juventude daquele início de anos setenta, pós Woodstock; o hino da galera hippie — um movimento de contracultura que propunha viver em uma sociedade alternativa e comunitária; em comunhão com a natureza, desapegada de tudo e longe do convívio urbano. Aquela geração queria esse refúgio, esse retiro espiritual para o avesso do mundo. Justificando a asserção de plantar amigos, discos, livros e nada mais. Nada mais e ponto final.

Naqueles idos, do outro lado do mundo a Guerra do Vietnã ainda corria em trincheiras abertas; o Brasil vivia debaixo de um governo de regime militar; ensaiava-se uma nova ordem na música com o fim dos Beatles. Enfim, havia tantos mais motivos para se refugiar numa casinha de pau a pique e sapé. Acredito que, Rodrix morreu sem viver o sonho daquela casa, ou melhor, precisou pelejar para ganhar o seu pão, sobrevivendo à metrópole com seus arranha-céus; e pouco lhe restou para viver num lugar onde pudesse ficar como queria: do tamanho da sua paz.

Todas as manhãs eu abro meu jornal virtual — não saio de casa sem pelo menos ler algumas notícias —, há muitas desgraças e poucas coisas boas para lhes contar. É corriqueiro, não muda. Às vezes me pego pensando como virar este mundo ao avesso, digo, como chamar atenção das pessoas que, pelo jeito, não se sentem responsáveis por nada. Ainda não aprendemos a viver, lutamos contra nós mesmos; e não há outra raça para competir conosco em igualdade. Por que então? Precisamos de um homem novo, um arquétipo novo da raça? O mundo de 2010 ainda continua a fabricar suas guerras estranhas e sem propósito; o Brasil — agora da democracia — vive sob o estigma da corrupção, das torturas ideológicas e das desigualdades sociais; por fim, ninguém mais veio substituir os Beatles na música. Como naqueles anos, temos tantos outros ou mais motivos para se refugiar e querer a paz, a nossa paz interior. Ou então — já que não conseguimos vencer o mal do mundo —, de maneira radical, nos retiramos daqui, como sugeriu o físico Stephen Hawking em declaração recente.

Os hippies, da mesma forma que se espalharam também sumiram do planeta, e ninguém apareceu de novo organizando festivais de rock sob a batuta do lema “paz e amor”. Nada mudou, ou tudo mudou e agora para pior; muito perdemos em moralidade e no sentido do respeito à vida e ao próximo. Agora querem também incendiar a casinha que desenho para um dia morar. Não deixarei. Quero minha casa no campo: aconchegante, sem infiltrações, sem goteiras, de forte alicerce sobre rocha, e no extremo norte da minha paz.

Em alguns hectares do meu pensamento ela se constrói. Eu também quero uma casa no campo. Ela será modesta com poucas divisões e volumetria singular: um alpendre generoso para acomodar cadeiras de balanço, ganchos para redes e ladeado por samambaias e avencas. A sala com pé-direito duplo e lareira; a cozinha com fogão à lenha; aposentos com esquadrias com vista para um gramado e montanhas como seu pano de fundo. Um ambiente para “jogos radicais” como sinuca e futebol de botão. Um lago para pescaria de final de tarde; uma horta para colher folhas tão necessárias à saúde; um pomar de frutas cítricas; um rio raso de águas cristalinas e de três margens correndo no quintal. Por fim, uma lua colada no céu (cancerianos não vivem sem). Ah! Também terei a companhia de um casal de cães labradores e um jipe “Willis” para um “off road”, em busca de cachoeiras e paraísos exóticos. Uma vida simples com meus amigos, discos, livros e nada mais.

São inúmeras as histórias de pessoas que largaram tudo, ou quase tudo, e foram em busca do seu refúgio. É o caso do ator Walmor Chagas que há anos mora num sítio em Guaratinguetá e de lá só sai para um trabalho que vale a pena. Imagino que muita gente já tenha vivido a fase de querer uma casinha no campo. Eu tenho sempre esta vontade, vivo tendo. Esconder-me do mundo, de tudo e de todos. Sem vizinhos, sem trânsito, sem reuniões de trabalho. Não porque não gosto das pessoas; não porque quero ser um hippie e odeio o mundo onde vivo, mas porque às vezes há que se desistir para recomeçar num outro ponto qualquer da vida; é o melhor para a sobrevivência, um trem que chegou ao fim da linha, precisa agora mudar de trilhos. Irei mudar o que há em mim, fora do meu corpo fica difícil competir.

A casa agora em meu peito é um abrigo de sonhos, um sol que desponta com suas janelas abertas para a alma, e vem com a aurora; e o coração meu quarto refúgio — de segredo, mistérios e amores guardados. Do lado de lá passo a vida e o tempo que me resta, que me cabe. Vivida e longe das mãos dos que torturam e esmigalham o amor em troca de rancores e riquezas fúteis — eu quero minha casa no campo. Não quero mais carregar o mundo sobre os ombros, como já teimei. Agora estou a caminho, a minha estrada é de luz, de exuberantes flores, mas com pesada cruz, a minha. Serei efêmero? Não importa, a casinha no campo é um sonho. Caminho até ela. A face rubra do sol, os pés empoeirados e as pedras que me atormentam. Logo chegarei até ela — há tempo. Renunciarei orgulhos, tristezas, decepções e mágoas pelo caminho. Regarei os jardins dos corações insensatos com sorrisos e esperança. Colhendo frutos e seguindo os passos justos. Um andarilho dentro de mim caminha sem parar. Que inveja fará ao peregrino de Santiago? Haverá dias que virão tristezas, eu sei, mas resistirei em seu propósito. Quero encontrar minha casa antes do arrebol, antes da minha morte, antes da minha próxima dor.

Plantarei comigo todos os amores que vivi. Do baú, os retratos que guardei de histórias passadas. De nossas risadas e beijos ao luar. Da brisa da infância tão distraída. O presépio da noite de natal. A bola de futebol. As laranjas do quintal e o primeiro uniforme escolar. Quero levar você, nesga saudade, com suas cartas de amor e as canções que nos fez chorar. Sua doçura e tudo que ficou no meu paladar. Não serão objetos de adornos as iras e mágoas. Tenha certeza, sob minha guarida não haverá revoltas. Nas paredes, quero afrescos dos seus olhos para as tardes que tiver que suspirar de amor. Do nascer ao pôr-do-sol irei pensar que o amor nunca morreu, o tempo adiou para ser eterno como será a vida na minha casa no campo. Deixa-me construir agora...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Agosto de 2010.

sábado, 21 de agosto de 2010

Teletema


Hoje acordei com esta música na cabeça. Ela é uma das jóias raras do final da década de 60. Fui me ater aos seus autores, Antônio Adolfo e o letrista Tibério Gaspar, descobri que andaram pelos festivais daquela época. Em 1969 colocaram a canção "Juliana" em segundo lugar no IV FIC - Festival Interancional da Canção, perdendo só para "Cantiga por Luciana" de Paulinho Tapajós e Edmundo Souto. No ano seguinte eles ganhariam o festival com BR-3. Eu só não entendo porque "Teletema" não tenha feito parte daqueles festivais. Depois a canção foi parar na trilha de uma novela. "Teletema" teve várias gravações na voz de Regininha, Evinha, Paula Toller, Luiza Possi e Ivo Pessoa.
Uma grande sacada da letra de Tibério está no fim de três frases musicais, onde ele interrompe a palavra - junto com a frase musical - para continuar na frase seguinte: Só + Corro = Socorro; Fim + Dando = Findando e; Além + Brando = Lembrando. Este recurso já foi utilizado por Caetano Veloso também. Genial!
Segundo os créditos do video abaixo, a voz é de Regininha e ao piano Marcos Valle.



Teletema
(Antônio Adolfo e Tibério Gaspar)

Rumo
Estrada turva
Sou despedida
Por entre
Lenços brancos
De partida
Em cada curva
Sem ter você
Vou mais só
Corro
Rompendo laços
Abraços, beijos
Em cada passo
É você quem vejo
No tele-espaço
Pousado
Em cores no além
Brando
Corpo celeste
Meta-metade
Meu santuário
Minha eternidade
Iluminando
O meu caminho
E findando a incerteza
Tão passageira
Nós viveremos
Uma vida inteira
Eternamente
Somente os dois
Mais ninguém
Eu vou de sol a sol
Desfeito em cor
Refeito em som
Perfeito em tanto amor

Postado por Antônio - Agosto/2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ufa!

A expressão não seria melhor: "Ufa!". Estou terminando o próximo texto que ficou engavetado pelo menos uns três meses. Tirava, olhava, escrevia e guardava. Comecei e terminei outros e este não ia adiante. Agora creio que a ideia já esteja totalmente formada, as palavras condensadas e o recado passado. Nem sempre os temas fluem, às vezes eles precisam de um empurrão quem vem de dentro ou de fora. Este teve vários empurrões.
Parti do tema de uma canção para  me aprofundar em "Eu quero uma casa no campo". Trata-se de uma resenha do nosso cancioneiro, com uma pitada de lirismo. Por ter alguns leitores que estão gostando das escritas - alguns revelados de maneira pessoal - aí você começa a ficar meio chato consigo mesmo. Por vezes fica o receio que o recado não seja dado,  falte conteúdo ou que ninguém se interesse pelo assunto.
Não obstante, também não uso da força da memória, faço porque curto fazer isso. É um exercício diário que também contribui para colocar os pensamentos e a vida nos trilhos. Quando as palavras vêm, são avalanches, que chegam até me tirar o sono; como ocorreu em "Balões Cristalizados", que nasceu da noite para o dia. Em outros, elas já não brotam com tanta facilidade. Há que se provocar.
Mais uns dias e deixarei postado aqui este texto inédito. Será o mês de Agosto? Então, venha logo Setembro com sua primavera e seus brotos de flores.