BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

É possível viver sem trauma?

Luiz Felipe Pondé, filósofo, nos vídeos do seu canal do YouTube, começa quase sempre com uma pergunta. Eu também começo essa nova crônica com uma pergunta, que poderia se destrinchar em muitas outras: É possível viver sem traumas? Antes, a propósito da crônica anterior, que falo da mulher de 30 e 40 anos, estou me sentindo como um Roberto Carlos com suas músicas para as mulheres: uma para cada idade. A próxima crônica deverá ser para a mulher de 50. Voltando.

É possível um mundo sem traumas? Ou: é possível viver sem problemas e frustrações? Talvez numa galáxia distante, ou na eternidade, como cremos nós, os cristãos, sim. A vida abreviada de suas dores não pode ser considerada vivida; é um paraíso em outro lugar distante da Terra. E por que eu digo, invoco, isso? Vivemos num mundo tão autossuficiente, cheios de avanços tecnológicos, facilidades que já consideramos uma vida sem dores (tiraram o álcool do merthiolate) algo, sim, possível. Oras, uma vida, um mundo sem dor é para gente descolada. Que passa ao lado de um corpo caído na sarjeta, com as vísceras à mostra, e sai chupando seu Chicabon e assoviando ao mesmo tempo.

Em 2011, quando ainda recebíamos muita coisa por email, caiu um texto muito bom na minha caixa postal. O texto escrito pela jornalista Eliane Brum, "Meu filho não merece nada" (clique aqui), é uma carta a essa geração; um recado aos pais; um alerta a esse novo tempo e novo mundo. Seis anos depois, continua muito atual na minha memória e, pode ter certeza, continuará pelos próximos anos. Talvez fosse até desnecessária estas minhas palavras, mas há sempre algo a acrescentar. Num dos trechos, ela diz:

“Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode, significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.”

Dois anos atrás, ouvi um relato de uma mulher casada (com dois filhos e com os pés no chão), onde ela acusava seu irmão mais novo de vagabundo. E porque vagabundo? (Ela não disse, mas eu entendi assim.) Ele se encaixava perfeitamente nessa descrição, dessa geração que não sabe conviver com traumas, frustrações e desconforto; que acha que a vida é uma imensa Disneylândia, um parque temático onde a felicidade não é conquistada, mas um direito. E por isso, seu esforço diante da vida é mínimo. Ao menor destempero, ele se encolhe e corre para cama, na casa dos pais, é claro.

Ela me contou que seu irmão, aí na faixa dos 30 anos, não parava em emprego nenhum. E qual era o motivo? Ele não tinha qualificação para assumir o trabalho que lhe davam? Não! Ao contrário, ele era formado numa das maiores faculdades de engenharia do país, o ITA, aqui na minha cidade. O problema do rapagão era achar que as empresas que o contratavam, não estavam adaptadas ao seu estilo de trabalho, e tudo mais que ele tinha a oferecer (?). Isto é, a empresa não se enquadrava no seu perfil. Assim, ele ficava em casa (dos pais) à espera de alguma que viesse dizer: — Olha, fulano, diga o que você quer e melhoramos, para você vir trabalhar conosco.

Estamos falando dessa geração que não está acostumada a ter esforço, ou executar tarefas que não são do seu agrado. Então, ele volta correndo para casa dos pais, antes mesmo que alguém o mande fazer um serviço num país africano, quando ele queria mesmo era fazer um tour em Paris, às custas da empresa. Esse caso, do rapagão vagal, elucida bem que o problema não é o esforço dos pais, em colocar e formar os filhos numa das maiores escolas do país. O problema é como eles educaram esses seres para a vida.

Gosto de usar a analogia do sorvete (picolé) na praia. Toda criança, ali na faixa dos 5 anos, na praia, dá trabalho; ainda mais se a praia está cheia e com fortíssimas e altas ondas. Aí, os pais, ao invés de escolherem uma praia para criança (mais calma), preferem uma bem muvucada, pensando em si. Assim, não conseguem desgrudar os olhos da criança por um triz — criança cega, como se diz. Até o picolé, que está ali a cinco, dez metros de distância, a mãe levanta da cadeira para comprar. Penso que, se você fizer com que ele vá até o sorveteiro, com o dinheiro, e ele fizer sua escolha de sabor (tudo sobre seu olhar), você está dando a esse ser uma autonomia que ele ainda não tinha experimentado.

Qual o risco? Só o de não receber o troco correto. Parece pouco, mas isso é o que ele vai precisar o dia que sair da casa (se é que vai sair um dia): tomar à frente, decisões e se virar, mesmo com aqueles que ele não confia. Se ele escolher o picolé errado, não poderá fazer birra e se irritar com a mãe; a escolha foi dele. O sorveteiro foi embora, e a vida há momentos que fazemos escolhas erradas e não há mais tempo de reparar os erros. Não há garantia de sucesso e que tudo dará certo por nossas escolhas. Tudo começa aí. Construir uma vida também é conviver com os "nãos" que ela nos dá, por que nem tudo depende de nós.

Mas a coisa, da vida sem frustração, vem antes, acontecendo já na pré-escola. É crescente, a cada ano, o número de escolas (particulares e públicas) que têm abolido datas comemorativas como o dia dos pais e das mães. (Acho que já disse isso em uma crônica. Bem, não custa repetir.) Em lugar dessas datas, eles querem instituir o "Dia da família". (Vamos ver se o comércio irá gostar.)

E por que o dia da família? Como todos sabem, família virou uma palavra deturpada, vilipendiada e massificada nesses novos tempos. Tudo virou família. Um casal homossexual e um gato é uma família, por exemplo. Então, se no dia da família, na escola do seu filho, alguém aparecer com a avó, com o tio, o padrasto, a madrasta, o irmão mais velho, uma vizinha, um casal homossexual, etc., tudo está contextualizado. E aí nenhum aluno sofrerá bullying ou se sentirá traumatizado por não ter um pai ou uma mãe biológica. E aqui eu descrevo, e porque é necessário, como era na minha infância na escola. Lembro-me que na minha sala (deveria haver em outras), havia uma aluna que sempre levava a avó nos dias dos pais e das mães. E ninguém olhava aquela garota como uma coitada. Não éramos ensinados a nos compadecer, até porque nem sabíamos se havia dor dentro dela. E se havia, era só dela e para sentir sozinha. Dor é aquilo que se sentia no particular, sem que a sociedade tomasse partido. Se ela viveu com trauma depois? Garanto que não.

Há um desprezo também dessa geração pela morte. Neste mundo (cheio de tecnologias, avanços, curas, saúde e facilidades) é impossível, para essa geração, pensar que tudo um dia acaba, tem um fim, pelo menos no corpo. Assim, eles vão vivendo a vida sem freios, obstáculos e consequências. Um garoto de 13 anos, num desses jogos de internet, onde se joga online, suicidou-se em 2016; talvez sem saber até que morreria, ou que a morte era o fim, porque a punição para o perdedor era o enforcamento. Talvez ele achasse que houvesse mais jogo, ou que alguém o encontraria antes de dar o último suspiro e que não haveria dor. Ninguém lhe disse nada sobre morrer (no corpo). Depois os pais vêm dizer que não sabiam que o filho jogava esses games perigosos.

Também, desde a mais tenra idade, eles aprendem a odiar com facilidade. A frase "eu odeio" está sempre presente no vocabulário, mais do que "eu gosto". O que fica explicitado que eles gostem de poucas coisas e odeiem muito mais. Isso (gostar e odiar) pode ser qualquer coisa ou pessoa. Vai desde um sanduíche até uma música do tempo dos seus pais. Eles acham que tudo que está dentro do seu tempo e espaço é bom e por isso ele deve gostar. E muitas vezes o "odeio isso" é simplesmente para dizerem aos seus pais: "não me venham impor nada." O odiar para uma comida, por exemplo, pode ser aquele jiló que eles nunca sequer experimentaram. Muito diferente da minha geração, que não tinha essa coisa de odiar, sem experimentar. E assim, seus pais os libertam de dizer "não", até para aquilo que eles nem sequer provaram antes. Para odiar cigarro, eu tive que experimentar.

O relativismo moral, já dito por mim aqui neste Blog, tem link com essa conversa toda. Quando nada é proibido, porque tudo é ponto de vista, pronto!, estamos diante de fatos e posturas diversas, sem nenhum tipo de regra, punição, seja por parte dos pais ou mesmo da sociedade em volta. (Nota baixa não repete mais ninguém de ano.) Se um menino de 13 anos, por exemplo, começar a usar droga no sofá da sala, na frente dos pais, isso poderá ser contemporizado por essa visão; ainda mais se os pais forem um desses descolados progressistas. Eles poderão dizer: "melhor que ele fume aqui, na nossa frente, do que fumar escondido, na rua." Esse adolescente não se sente mais impedido de fazer nada dali em diante, dentro e fora de casa. Um mundo de possibilidades foi criado. Ele se sentirá dono desse mundo, cada vez mais.

Enquanto encerro essas linhas — alguns podem até dizer que não tenho paternidade para entender essa geração, ok! —, uma mãe está deitada, neste momento, no sofá da sala, com a TV ligada para paredes, e conectada numa conversa tola de WhatsApp com uma amiga. Enquanto isso, seu filho está no quarto no computador jogando numa rede online, sabe lá o quê. E depois ela (e ele) não entende quando seu filho começa a dar problemas fora de casa. A primeira coisa é o psicólogo, sem nenhuma mea culpa. Sempre eles (pais) vão dizer que os educaram direito, não absorvendo nada. Nem mesmo suas ausências e a referência sagrada de pai e de mãe.

Concluindo. Na próxima vez que seu filho quebrar a cara por fazer algo, sem ao menos consultar você, não lhe dê colo, ombro, compaixão, como está acostumado. Dê-lhe desprezo e uma bela lição de moral. Se ele não aprender com você, pode ter certeza que aprenderá com o punhal da vida. Os traumas, evitados pelos pais, virão em forma de uma dor maior e mais profunda. Muito maior será, se um dia ele sentir a falta que faz um pai ou uma mãe, que morreram num acidente de carro. Até para comprar um simples picolé na praia, ele não saberá se virar (exagero), até por que nem isso você deixou que ele aprendesse.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Trintona, solteira. E agora?


Imagina aquela mulher, entre 30 e 40 anos, que citei na crônica A taça de vinho (quase) vazia (clique aqui); que está na pegação por aí, como se diz; portando-se como antes só cabiam aos homens: desinteressada de relações e interessada somente em seu "eu" (umbigo) e desejos. Sim, ela existe e começa a ser maioria entre elas. Isso eu já disse. E agora, imagina outra, na mesma faixa etária, que mesmo estando nos ambientes de moda (baladas, bares e festas), ainda conserva, por tradição, um desejo de um modelo antigo de relação: namoro, casamento, filhos e família. É sobre ela que escrevo agora.

A escassez de homem do mercado, para essa mulher que está aí na faixa dos 30 a 40 anos, tem várias vertentes. Primeiro, tem muito veado ou genérico na praça. Segundo, os homens, hoje em dia, na faixa dos 40 anos (bom para ela), ainda moram com os pais. O cara já está na segunda pós e seus ganhos não condizem, muitas vezes, com seus gastos (a sociedade de mercado nunca ofereceu tantos produtos para se gastar com o mísero salário que se ganha). Melhor morar com a mamãe, que serve janta quentinha todos os dias e ainda o mima como se tivesse 15; muito melhor do que dividir um apê com um amigo bagunceiro, que só sabe fazer omelete e comer no Burger King. No final do mês, tem o salário limpinho e pode fazer prestações de um iPhone novo.

Depois, aquele que ganha mais e quer se emancipar (são raros), tem projetos individuais, como: estar sempre de carro novo; ter um apê próprio para levar não só essas de 30, mas as de 20; tem futebol society quase todos os dias; melhor tomar cervejas com amigos, do que ter que pagar a sua conta; filho nunca foi objetivo na vida (são muito caros); viagem para Europa é mais barata para um e tranquila, quando não tem uma mulher para encher seu saco querendo ir a lugares de compra, quando ele quer tomar cerveja australiana num pub. Enfim, ele está fugindo de compromissos longos, cobrados; passando bem longe da casa da sogra e dos almoços de domingo. Aí fica parecendo que você, mulher, vai às baladas em vão. É verdade. Vai, sim. Não tem homem!

Aí eu pergunto: Como penetrar nesse universo (quase misógino) e sair dali com seu homem zerinho, em suaves prestações? Difícil responder. Vivemos numa época muito controversa, confusa de relacionamentos. Com tantas facilidades em construir e desfazer tudo como num passe de mágica. Anti-sentimental e pró-imagem. Muito status e pouca vida. Muita tecnologia e poucas relações. Muito WhatsApp e poucos telefonemas. Eu diria até que vivemos um hiato, um vazio, um abismo ou uma transição de eras. O sentimento, o amor deixam de ter suas importâncias e o que vale é o sucesso, o corpo, a saúde, a imagem, o parecer, a felicidade, a longevidade, a grana, o prazer e o desfrute.

Mudar isso é como virar um tabuleiro inteiro, no meio do jogo. Essa mulher precisa aprender: homens amadurecem mais tarde. Não é como na década de 70, quando eles, com 30 anos, eram casados, já com três filhos. Homens com 40 anos, hoje, andam com boné de aba para trás, bermuda, regata e jogam vídeo game com seu sobrinho de 15. Só vão criar juízo e visão do mundo depois dos 50. E olha lá...

Por outro lado, essa mulher (sem terapia), por achar que a escassez é um problema que está com ela (não imagina que ele não quer compromisso), começa a se sentir rejeitada (se for bonita, mais ainda); vai querer ficar mais bela (do que já é), só para atrair esse cara. Gastos excessivos com cabeleireiros, manicures semanais, academia e plásticas (bumbum, seios, nariz, etc.). Está tudo misturado no seu subconsciente. (Ela pode até dizer que turbinou os peitos por ela mesma, mas não há explicação quando é algo do corpo que se quer consertar. É para ser visto de fora e não no espelho.) Mesmo assim, ele só a quer para uma noite, porque beleza cansa e só serve até ele gozar. Mesmo se você for bonita, não pense que tem o poder de escolha. Mulheres bonitas são péssimas para escolher homens. Sempre acabam nos braços de caras mais ricos, bonitos, adúlteros e cafajestes.

(Quando eu falo em escassez, é no sentido da raridade de um tipo de homem. Aquele que está pronto, homem feito, mas precisa de um empurrão ou algo que o impulsione para assumir um compromisso sério.)

Essas mulheres deveriam se mirar naquela da sua espécie, que está numa faixa mais acima (45 e 50 anos). Se estiver sozinha, é porque já foi casada, ou porque entrou nessa safra de escassez também, tudo com blasé. Menos ansiosa, mais paciente, sem aquele elã dos trinta; até por que, para ela, sobraram os filhos para cuidar, enquanto o ex-marido veleja em Ilhabela. Essa, que já passou pela crise dos 30 (de difícil namorado/parceiro), aprendeu, com os tropeços, que o homem não a quer da maneira que ela sempre achou que fosse.

Repare bem e se pergunte: Por que tem mulher feia, gorda, desajeitada e malvestida casada? A resposta é simples. É porque ela não tem muita frescura na escolha de homem. São tímidas e até passam despercebidas numa festa. Ela não olha a conta bancária do cara, seus olhos azuis, seu nariz italiano, seu Corolla, etc., mas enxerga muito além. Enxerga futuro, filhos, etc. E, principalmente, se ele tem disposição para uma vida a dois. Pronto! Depois, ela tem algo a mais que oferecer que sexo. Já dizia o velho Gikovate: as relações, hoje, são feitas de parcerias e não de amor-romântico (século XIX). Ela oferece parceria.

Homem feito não gosta de mulher burra. Bonita/burra só para se divertir na balada. No dia seguinte, ele vai jogar futebol com amigos e nem se lembra dela. Se ela não sabe discutir política (assunto do momento), oriente médio, livros, séries da Netflix, etc., esquece. Você tem que se parecer (e ser) interessante para ele. Sua beleza e atração é sua fala, seus argumentos, seus conhecimentos e tudo que possa se somar à vida dele. (Conhecer futebol não serve). Atributos como: cozinhar, servir, arrumar, decorar, educar devem ser instintivos. Não são acessórios. Fazem parte do conjunto daquele universo atrativo.

Tem um um ditado popular que diz que você tem que casar com quem você gosta de conversar, porque, na velhice, o que sobra é só a amizade. Eu acredito nisso.

Por fim, se você mulher trintona tradicional, ainda tem alguma esperança de um bom relacionamento, é melhor olhar mais para o lado. Quem sabe aquele carinha feio e magro do teu trabalho. Pode ser ele. Frequente mais supermercado do que baladas. Gaste mais tempo com livros e filmes do que com supinos, legpress e crossfit. Mais tempo em conhecimento do que com futilidades, shopping, sapatos, raves e música sertaneja. 

Olhando para esse nosso tempo (cheio de mutações e imprevisibilidade), talvez com 40 (ou mais) você, com paciência e sorte, encontre esse homem para o resto da sua vida. No silêncio da alma, na respiração serena de uma manhã. Depois, aprenda acender a churrasqueira e a manter sua cerveja na temperatura certa. E já vou avisando, ele tem barriga.

(Outra dica: "Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas" – Nelson Rodrigues)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017

sábado, 5 de agosto de 2017

Nossos ídolos não são os mesmos

Começo escrevendo estas linhas no dia que o jogador, e ídolo brasileiro, Neymar foi transferido do Barcelona para o Paris Saint-Germain (PSG). A maior transação, em cifras, do futebol mundial — não cansa de repetir a crônica esportiva. O valor recebido pelo Barcelona foi de 222 milhões de euros (cerca de R$ 822 milhões).

Fiquei sabendo, logo de manhã, pelo rádio, que o "mlk" havia descido em Paris. Mais tarde, o site O Antagonista ironizou: "Na frente do seu hotel, um manifestante exibia um cartaz com a seguinte frase: 'O Qatar compra tudo. Jogadores e Jihad.' Bem-vindo a Paris, Neymar." O dono do time chama-se Nasser Ghanim Al-Khelaifi. Nem precisa dizer sua origem e de onde vem toda essa dinheirama.

Eu nem estava aí para o fato, mas um amigo futebolista me mandou um áudio — audião —, no WhatsApp, falando que a TV estava mostrando o momento da sua apresentação; e que ele estava mobilizando um pais, o mundo (exagero). E se é que tem alguém que presta neste país (Brasil) é Neymar — disse. Depois de ouvir o áudio, e antes de responder, me veio muitas coisas juntas. E aqui eu me pego na palavra "Ídolo". Quem é seu ídolo, Sr. cronista?

Já falei aqui neste Blog que, no Brasil, por falta de heróis de verdade (de guerra), idolatramos os do esporte, da música, da política, da TV, etc. E com ajuda da mídia, esses ídolos são transformados em heróis da noite para o dia. Como disse Nelson Rodrigues, em 1968: "Por isso, falo na solidão do Brasil. Não há perspectiva do grande enterro porque não há o grande homem para enterrar". Depois dessa frase, só me lembro do finado presidente (sem posse) Tancredo Neves, morto em 1985, às vésperas de se tornar o primeiro presidente do período "redemocrático" — com perdão das aspas — do Brasil. Depois, em 1994, Ayrton Senna, morto em uma prova automobilística.

Aí eu ponho a pergunta: Para quem corria Ayrton Senna? Ele corria pelo seu país, pela pátria de rodas? Ele corria por ele, pelo seu entusiasmo, gosto, talento e por muitas cifras de dinheiro, claro. Por mais ninguém. Morreu como morre um operário de construção que cai do andaime, no exercício do seu ofício. Não devíamos nada a ele e nem ele a nós. Tancredo foi uma comoção nacional pelo calvário que passou até o anúncio de sua morte. Os heróis nacionais não são heróis, que morrem em campos de batalhas, como vimos em guerras do passado. Aquilo que sempre digo: se temos paz em algum canto do mundo é porque foram conquistadas por grandes guerras. O antagonismo da vida, de  guerra e paz: esses são os heróis, os ídolos anônimos e sem rosto.

Na verdade, acho mesmo que os heróis deveriam morrer no anonimato e pobres, com uma bala na testa, porque não seriam heróis; e assim se preservam da desonra, da medalha, do nome de ruela. O heroísmo só cabe aos anônimos, aqueles que estão enterrados debaixo de nossos pés, para que possamos, hoje, passear à tarde numa praia ensolarada. Quantos já foram heróis e esquecidos? Depois, eles (grande mídia) deturpam tudo e transformam, mesmo, grandes assassinos da humanidade em ídolos de pano. Assim como Lênin, Stalin e Che.

Lembrei-me ainda, na conversa com meu amigo, que se olharmos para o mundo, veremos grandes figuras do show business vivendo suas vidas como pessoas comuns, no seus trajetos, no dia a dia. Como a foto, mostrada esses dias, de Paul McCartney dentro do metrô, supostamente em Londres; como também já vi um vídeo, onde o ator hollywoodiano Keanu Reeves, dentro do metrô, oferecendo seu lugar a uma mulher. São figuras reconhecidas e públicas, mas não se sentem superiores, divindades e nem heróis de sua nação.

Lá fora, no primeiro mundo, eles têm uma noção maior do que seja um ídolo e um herói. Porque tiveram muitos heróis em guerras travadas com seus vizinhos. Aqui, no Brasil, confundimos tudo. Tratamos tudo igual. Depois eles nos decepcionam, se mostram soberbos, como o cantor Roberto Carlos, que vive processando as pessoas que tentam tirar e publicar algo da sua vida. Diga-se de passagem, vida pública. Ele quer continuar ídolo, mas ser tratado como um ser intocável, celestial.

Roberto Carlos processou o autor da sua biografia. Proibiu o livro de circular, ameaçou.  Depois do episódio da biografia, ele processou também o deputado Tiririca por utilizar uma de suas músicas numa campanha política. (Deve haver outros casos, que não me lembro agora.) Tudo através de seus advogados, sem botar a cara. No final do ano, ele aparece na TV, canta aquelas mesmas canções, sorri, oferece música a Deus, às mulheres e distribui rosas ao som de Jesus Cristo. Tudo muito simétrico, calculado, igual e enfadonho ao mesmo tempo.

Esse cidadão é ídolo num país sem heróis, e por isso o avistamos, ao longe, como um cavaleiro vindo de uma batalha, com uma lança numa das mãos, quando sua música é gravada em outro idioma ou ganha um prêmio Grammy Latino. Confesso que gosto de algumas de suas músicas, mas, assim, como outros da música brasileira, só aprecio a obra e não a pessoa.

A arrogância não parou em Roberto Carlos. O manifesto dos artistas contra as biografias não autorizadas ganhou textos e mais textos em jornais. A produtora Paula Lavigne encabeçou um movimento de artistas, contra as biografias não autorizadas, chamado, à época (2013), de “Procure Saber”. Ela não só cuida da carreira de Caetano Veloso (ex-marido), mas de diversos nomes da música brasileira. A fórmula é fazer o dinheiro chegar até eles por vias mais rápidas. De Caetano ela disse em 2003:
“Hoje a gente tem quem cuide só da carreira internacional dele, na verdade é um império. E é justo que seja. Ele é um artista importante. Hoje o Caetano tem um patrimônio mais de dez vezes maior do que tinha. Vivemos bem. Somos ricos. Temos um apartamento maravilhoso na Vieira Souto, uma casa maravilhosa na Bahia e um apartamento incrível em Nova York. Minha ambição agora é manter isso que a gente já conseguiu”.
(Sentiu nojo? Eu também...)

Em 2015, O STF fez o que devia: liberou as biografias não autorizadas, para o coro dos descontentes. Por sorte, a grande parcela da sociedade brasileira já havia repudiado a atitude do bloqueio, de proibirem que algum anônimo escrevesse uma linha sobre suas vidas. O brasileiro está mudando e hoje não se deixa mais influenciar por entrevistas, lágrimas, ideias, campanhas, frases ditas por alguns desses artistas. O povo brasileiro não é mais o mesmo e já caminha por outros caminhos; se posiciona e opina. Tem procurado saber mais com aqueles que se portam como um farol em alto mar. E nossos ídolos não são mais os mesmos.

E por que eu digo isso de Roberto Carlos? O mesmo Paul McCartney, figura icônica, conhecida mundialmente, teve uma biografia publicada recentemente. Segundo um portal de notícias, o autor conta casos de um Paul humano: que se irrita, que briga, que xinga; e muito provavelmente deve lembrar também de suas experiências com drogas. O que fez o ex-beatle? Processou o sujeito, como Roberto Carlos? Não. Ele continua andando de metrô, a pé por aí, pelo primeiro mundo. Sem esconderijos e seguranças.

E Neymar? Também tem em si esse ar de soberba, de possuído por uma divindade. Faz seis anos (2011), o Santos foi jogar o torneio da final do mundial interclubes, no Japão. Neymar já era ídolo do Santos e nacional (sem ter ganhado nada lá fora). Uma semana antes do torneio, o time do Santos já havia desembarcado no Japão. Mas antes disso, caiu agora na lembrança outro fato. O menino Neymar, de férias em Santos, disputava uma partida de futevôlei na praia. A quadra desenhada por fitas na areia estava rodeada de fãs, de neymarzetes. Cada vez que a bola caia para fora da quadra, bem longe, elas entravam na quadra e agarravam o ídolo. Uma coisa bem rastaquera, digna de um país como o nosso.

Continuando. Na semana da chegada ao Japão, o Santos foi dar uma coletiva à imprensa, e um mundo de seguranças fazia um corredor para Neymar chegar e sair do local. O problema é que no Japão não havia ninguém querendo agarrá-lo. Achei aquilo brega, coisa de brasileiro que se sente superior. Dias mais tarde, depois de ter vencido o arquirrival Real Madrid por 3x2 (desculpa se errei o placar), o Barcelona chegava ao Japão, sem sirenes e alardes; e sem treino, os jogadores foram dispensados para sair com suas famílias e fazer um tour pela cidade. Também sem nenhum tipo de alarde e corredor de seguranças. Na final, entre Barcelona e Santos, o resultado foi o esperado: 4x0 para o time catalão, sem nenhum brilho do ídolo/herói brasileiro.

Em 2018, se o Brasil ganhar a Copa, com Neymar em campo, muito certo que a mídia irá dizer que ele foi o grande herói nacional. Mas ele nos livrará do quê? De uma invasão muçulmana? Acho que ele nunca leu um livro na vida; nunca se preocupou com nada, exceto os pés que lhe dão muito dinheiro. Ele não está errado; errado somos nós, que o colocamos num altar santificado, como bocós que somos.

Mas a possível vitória ainda não irá finalizar o ano de 2018. Ainda poderemos eleger um presidente da esquerda populista, como Lula (toc toc) e terminar o ano vendo Roberto Carlos, de terno branco, jogando rosas brancas às senhoras espevitadas, ao som de Jesus Cristo.

 © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O lixeiro, o escritor e a babá

Quando era um petiz, o compositor Francisco Buarque de Hollanda não aceitava o fato do lixeiro fazer um serviço tão pesado e não ganhar mais que seu pai, que sustentava 7 filhos escrevendo à máquina, dentro de um escritório, com conforto. (Ele não aceitava a vida burguesa, mas não pensava em divisão. Curioso.) Ele queria que sua babá — ele tinha uma — se casasse com o lixeiro, mas ele não ganhava o  suficiente para sustentar uma família, pagar aluguel, contas, etc. Foi o que ela se queixou.

Passados quase 70 anos, a sociedade não "evoluiu" a ponto de abolir o recolhimento de lixo de nossas vidas, tampouco fez o lixeiro ganhar mais que um escritor. O lixeiro continua tão útil quanto um escritor, um jornalista, um compositor de música, um professor, um dançarino, um operário da construção ou um filósofo. (A babá, ao contrário, é um luxo social mesmo.) Cotidianamente, o lixeiro continua a passar em frente do seu prédio na zona sul carioca, recolhendo suas garrafas vazias de vinho importado e latas de caviar — presunção.

Durante sua trajetória de vida, aquele menino, que achava o mundo injusto e desigual,  não quis saber do trabalho braçal; ele foi impelido a ser como seu pai: viver dentro do ar refrigerado, compondo músicas e sustentando seus bens e luxos (e tudo que pudesse manter seu público com o velho discurso socialista). Teve talento para criações e não para carregar peso nos ombros. Era um sonho, um desejo pueril, mas pesou em sua escolha de caminho (de mundo melhor e justo), o fato de ser pertencente a ele. Tudo muda (e faz sentido) quando o interessado e sacrificado somos nós. Não há pensamento socialista que renegue o berço.

A desvalorização, se nós podemos dizer assim, de uns em detrimento a outros é milenar e, consequentemente, lógica na escala social da história da humanidade; o que fez, por milênios, o mundo ter sido  mais escravista. O que também se diferencia as pessoas pelo intelecto, talento, expertise e não por injustiça social. A uns foi dado o talento da ideia do que fazer com as pedras; a outros foi dada a força para carregá-las, transformando as ideias do criador em algo para o sustento da vida de ambos. E assim sempre será.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Utopia e realidade

O leitor, alguma vez, nas redes sociais, já deve ter deparado com uma foto de uma antiga (antiga?)  fita cassete e uma caneta esferográfica (dessas sextavadas) lado a lado. E um texto em seguida: "se você sabe a relação desses dois objetos, posso calcular a sua idade". E é verdade. Hoje, um espermatozoide cabeçudo, de 15 anos, não saberia mesmo dizer o que tem a ver uma coisa com a outra. Teria que ter vivido os anos 80, 70.

Confesso, pois, a primeira vez que deparei com a postagem me veio memórias — muitas coisas me dão saudade — daquele tempo mecânico, manual e nada digital: o disco riscava, o cassete enrolava no aparelho e a música não tocava. Até então, achava que só eu havia descoberto a técnica. Vou voltar no final do texto sobre essa época, porque me veio outras coisas interessantes agora.

Outro dia, depois de eu ter escrito numa postagem que índio no Brasil é vagabundo, fui chamado atenção, logo em seguida, por um colega músico. Ele disse: "E o Amor de índio, o Beto Guedes, o Clube da Esquina?". Desertei para não gerar a chamada treta, muito comum hoje nas discussões pelas redes sociais. Na verdade, ele queria me provocar: — já que você gosta das músicas, não pode tratar mal as ideias e inspirações de quem as cria. Dei de ombros e fingi que não li.

No tempo da fita cassete, não haveria tal provocação, discussãozinha — diminutivo de uma palavra que já nasceu grande — boba. Todo mundo se alimentava da mesma fonte. Éramos mais ingênuos em pensar que havia mesmo amor de índio; e era mais bonito pensar assim, mais poético, porque na nossa cabeça havia muito mais amor de índio que amor de homem branco.

A realidade é: os povos indígenas não cabem no mundo moderno. Índios não têm civilidade, são pedófilos, praticam infanticídios, degradam o seu habitat com caças predatórias. Na sua realidade, não vivem só de amor. Isso só na cabeça dos poetas. O amor e a magia tem ambiente em mentalidades utópicas. O mundo precisa de um choque de realidade; a distopia, a desconstrução dos sonhos de nuvens de algodão; ou do poema concreto, que demonstre a fome, a miséria, a verdade da vida. Tudo que se revela, como toda ditadura que se esconde por trás de democracias.

Na era do Smartphone não temos direito à muitas licenças poéticas. Poucos são aqueles que hoje mandam poesias metrificadas pelo WhatsApp. Vai aquele "Bom dia" costumeiro às 7h e depois é um despejar de realidade. E eis aqui onde que quero pautar. O que ocorre ainda com algumas pessoas — depois irei falar desse grupo — é que elas vivem a doce ilusão de um mundo poético e utópico, quando a realidade nos sufoca diariamente.

Por que artistas, intelectuais, músicos de MPB insistem no apego à ideologias e pensamentos de esquerda? Por que ainda vivem como idólatras de ídolos sanguinários como Fidel, Guevara, Stalin, Mao? Por que vivem a pregar um mundo de iguais, sendo eles mesmo tão diferentes e arraigados às riquezas? Por que eles se escondem atrás da realidade de um país? Porque não querem enxergar que o "amor de índio" já não cabe no dia a dia de um país chafurdado em corrupção, com sistemas públicos não funcionando e com 14 milhões de desempregados? Não dá para fazer poesia. A realidade nos atropela. É só discurso, discurso. Nada mais.

O jornalista e cineasta Arnaldo Jabor escreveu em uma das suas crônicas, que a esquerda envelhecida de hoje, ainda se apoia nos seus discursos que polariza burguesia e proletariado, muito comum no anos de 1960, porque têm vergonha de mudar de opinião, lado ou simplesmente aceitar a chocante realidade. Se o fizerem, irão romper com seu passado. E como ficarão com o público que os elevou? Muitos deles fizeram sua carreira em cima desse mote: — a ditadura me perseguiu. Pouco tiveram coragem de romper com o passado e pensar no pais do presente. Este mesmo país sob uma corrupção da esquerda que eles ajudaram a chegar ao poder. Escreveu também Jabor:
"Que interstícios percorrem as ideias dentro de suas mentes, para negar tudo que está acontecendo hoje? Não conseguem fazer uma reles autocrítica de suas crenças. Mudar de ideia é considerado traição. É uma visão paranoica de que o país está tomado por “fascistas” que querem tirar o PT do poder."
A verdade — aqui pegando por onde Jabor disse —, a "intelectualidade" da esquerda (dos artistas ainda engajados em velhos pensamentos dos anos 1960) perdeu o timing; perdeu o momento de dizer "não" à água podre que corrói as entranhas do país. Eles não têm mais discursos e por isso cantam ainda, como Milton Nascimento, "Menestrel das Alagoas", lembrando aquela campanha de 1985 por Diretas Já. É hora de se recolher e contar suas memórias; ou virar um colunista atacando o câncer do PT, como fez Ferreira Gullar nos últimos anos de vida — ele já foi do PCB. Não pode ter vergonha do passado. Mas eles não têm coragem.

Agora, em pleno momento de torpor, da dramaturgia política, de um país que tenta encontrar seu rumo depois do impeachment de Dilma, eles (esses mesmos artistas) vêm pedir Diretas Já, como se o momento fosse só o de romper com um governo e reiniciar um outro. Mas esse outro, que eles propõem, é o mesmo que eles elegeram, corroendo os cofres da nação. Ou seja, nada pode mudar e, sim, continuar como antes.

Também é de penar, ver que, ao final de suas jornadas, com uma carreira artística vasta e rica, artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, terminem suas carreiras (todos na faixa dos 70 anos) de uma maneira melancólica e improdutiva. E tentam nos enfiar, como uma continuidade dos seus talentos, artistas como: Carlinhos e Mano Brown, Criolo, Emicida e Chico César. Todos da mesmo corrente utópica e ideológica. Muito diferente dos anos de 1960, as pessoas não os aceitam e nem consomem seus lixos musicais. Quem escuta é uma minoria.

A fita cassete enrolada por uma caneta esferográfica era a forma simplista de resolver um problema que a tecnologia da época não pensou. Tudo rudimentar, como apontar um lápis com a faca de cozinha. Mas tudo também de um tempo sem o policiamento do politicamente correto; quando as palavras eram soltas pelas bocas, sem uma patrulha por trás ou a vigília das redes sociais — ainda falam em censura durante o Regime Militar. Aqueles tempos, onde tais intelectuais ainda nos enganavam com seus discursos de mundo melhor, que hoje só demonstra que eles estavam mesmo atrás de dinheiro graúdo do Estado brasileiro.

A dor do brasileiro hoje é visceral; o país hoje clama é por justiça, segurança, educação, sobrevivência. Nada mais fisiológico. Acostumamos com tanta realidade, que as utopias, os amores de índio, as ideologias já não nos convencem mais como outrora.

Ninguém consome cultura sem antes ter comido o pão.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2017