BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Além das montanhas

(Comecei um novo texto sobre o bem e o mal, mas como aquele comediante Costinha, parei o causo no meio para contar outro que me pegou mais inspirado. Depois eu volto.)

Eu ainda subia em árvores quando estreou nos cinemas o filme Horizonte Perdido” (muitos anos já se passaram), e, como muitos outros, só fui ver tempos depois, quando adquiri grandeza, entendimento e gosto apurado. O filme é homônimo do livro de 1933, do britânico James Hilton. Acabei de ler o livro, mas o filme já  havia me trazido antes perguntas (algumas sem respostas); tudo que me levou numa viagem enigmática a um lugar distante e perdido nas montanhas, ao tempero de belas canções de Burt Bacharach. Lua azul (Karakal).

(O livro tem uma narrativa mais detalhada e um final diferente do filme. As minhas questões, porém, são as que o filme me deixou.)

Três anos atrás, quando vasculhava uns filmes completos no YouTube (esses de domínio público), deparei com o Horizonte Perdido. Vi as primeiras cenas, sem saber do que se tratava, e de cara já gostei da música. Baixei o filme, com uma qualidade ruim, diga-se de passagem, mas assisti atento e emocionado com sua mensagem sutil; depois a contribuição das belezas de Olivia Hussey (Romeu e Julieta) e Liv Ullmann. Há algo surpreendente. E uma pergunta incomoda ao espectador: foi sonho ou realidade?

Depois da queda do avião, um grupo de cinco pessoas (no livro são quatro) fica perdido nas montanhas nevadas do Himalaia. Ali, longe da civilização, Conway e seus companheiros estão entregues à sorte. Mas, antes que pudesse bater o desespero, são surpreendidos por uma expedição que passava (ocasionalmente?) por ali. Depois de lhes darem alento, aqueles andarilhos oferecem agasalhos e sapatos adequados para a neve. Mais do que isso, aquele guia, num gesto acolhedor, também lhes oferece abrigo num mosteiro, muito além das montanhas. (Eles não sabiam o que encontrariam.) 

Horas e horas de longas caminhadas e vento forte, eles chegam. Ao avistarem aquela paisagem de floresta muito verde e construções como uma vila medieval — ao avesso de tudo do outro lado da montanha —, percebem que estão num lugar paradisíaco, onde a água cristalina jorra das colinas, o clima é ameno e a vida é lenta como será longa.

Shangri-la era um paraíso, de fato. Naquele mosteiro, num canto esquecido do planeta, iriam perceber uma comunidade apaziguada sem tristeza, roubos, mentiras, perseguições, corrupção, fortunas e muito menos comunicação com a velha civilização — como depois descreveu o monge Tchang. Seria possível aquela vida isolada de tudo?

Mas eu enxerguei mais do que isso no filme. Aquela descrição de paraíso, incrustado no meio das colinas nevadas, remeteu à um vácuo, um fio atando a vida terrena à morte — um universo paralelo. Aquele instante que a vida se esfacela, com o desvendar do outro lado (da montanha) e a opção de viver o eterno ou o risco de voltar e morrer (definitivamente) nas avalanches das cordilheiras e de outras doenças. Shangri-la parece um caminho sem volta.

Richard Conway (Peter Finch), como os demais, ia percebendo aos poucos como Shangri-la era agora sua última fronteira. A dúvida que atormenta, do desejo de voltar à civilização, só revela a vida viciada de mentiras, violência e de abandono que não conseguimos nos libertar. (Para onde vamos não há volta.) Parece que não  fomos programados e não suportamos uma vida em paz, sem desejos, exuberância e o poder do dinheiro. Aquela vida sem desafios, guerras diárias num tempo que não passa de Shangri-la, anunciava uma tediosa jornada. Cadê as notícias ruins?

Assim penso que seja o outro lado da vida (da montanha) — parece o que se propõe o romance. Quando atravessamos, não olhamos para frente e diante de quem estamos, mas olhamos para trás e tudo que deixamos na vida interrompida; achando que podíamos ter vivido mais, ter tido mais, ter viajado mais, sonhado mais. A angústia da não aceitação, que não se tem mais aquele corpo, do outro lado, mesmo sabendo que lá o tempo não passa e não precisamos juntar riquezas como forma de sobreviver. Demoramos a entender que a alma se alimenta de outras coisas.

Já caminhando para o final, Conway é pressionado por seu irmão (ele se apaixonou pela "jovem" Maria) a deixar Shangri-la. Entre a cruz e a espada, ele decide, por fim, partir, deixando aquele sonho que  nunca imaginou ser tão real; e depois esquecer sua paixão por Catherine, a professora que conheceu em Shangri-la. Ele estava mesmo decidido a voltar à realidade da civilização, talvez porque duvidava que tudo o que vivia ali era mesmo verdade. Ao vê-lo partir, o velho Tchang, num ar de passividade e confiança, diz assertivo: "ele vai voltar".

Na caminhada, a neve, o vento varrendo e a avalanche vêm com crueldade, e aquele pequeno grupo se vê em risco. A perder toda pureza do ar e de todas as maravilhas de Shangri-la, Maria envelhece no caminho e morre de fraqueza. Ao vê-la morrer, seu irmão se joga num desfiladeiro e Conway, dias depois, é resgatado, despertando numa cama de um hospital de campanha. Ele teve alucinações falando de um lugar chamado Shangri-la, disse o médico. 

A morte talvez seja mesmo essa passagem, como acreditam algumas pessoas. Uma travessia desse para o outro lado da montanha, como um mundo em paralelo no meio, onde o tempo não passa e a volta é quase impossível. Mas a pergunta que fica sobre o final, quando Conway desperta do seu coma: foi realidade ou sonho? Não tem como saber o que se passou. Conway, então, foge do hospital e sobe as montanhas de neve novamente tentando encontrar o caminho que o leve à Shangri-la, onde está a vida que ele agora quer viver, eterna e com a mulher que amou.

Depois desse "the end", fiquei entalado me perguntando sobre aquele desfecho e até onde nossos sonhos podem nos levar. Toda vez que ouço notícia que um avião desapareceu na sua rota, penso que foi resgatado a um horizonte perdido; num mundo paralelo, onde a vida é calma e sob uma lua azul. Não houve morte, mas resgate. Uma verdadeira Shangri-la, onde o que menos importa é o tempo passar.
 

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2016
   

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os mesmos, os mesmos...

Os mesmos que impõem ciclovias nas cidades, sem nunca ter havido necessidade, são os mesmos que impõem cotas nas universidades. 

Os mesmos que impõem cotas nas universidades, sem ninguém ser consultado, são os mesmos que dizem haver racismo nos olhos das pessoas. 

Os mesmos que dizem haver intolerância aos montes, sem ninguém muito se queixar, são os mesmos que dizem haver cultura do estupro. 

Os mesmos que dizem haver cultura do estupro, sem ninguém nunca provar, são os mesmos que são a favor do desarmamento. 

Os mesmos que são contra a população armada, quando todos pedem ao contrário, são os mesmo que querem menos polícia. 

Os mesmos que pedem menos polícia, enquanto a maioria pede mais, são os mesmos que reivindicam leis que protegem bandidos. 

Os mesmos que acolhem bandidos e marginais, enquanto todos pedem mais punição, são os mesmos que pedem a liberação das drogas. 

Os mesmos que pedem a liberação das drogas, quando todos pedem mais rigor ao tráfico, são os mesmos que querem derrubar toda estrutura da família. 

Os mesmos que são contra a família como está e foi concebida, enquanto a maioria quer preservar suas raízes, são os mesmos que aplaudem transa gay em novela. 

Os mesmos que apoiam e aplaudem transa gay em novela, quando ninguém quer ver isso, são os mesmos que apoiam marcha, sem causa, das vadias. 

Os mesmos que apoiam as marchas feministas, quando a maioria não quer ver mulher de peito de fora e defecando na rua, são os mesmos que dizem: "precisamos falar de aborto". 

Os mesmos que se dizem a favor do aborto, enquanto a maioria é a favor da vida, são os mesmos que são contra a maioridade penal aos 16 anos. 

Os mesmos que não querem incriminar ninguém aos 16 anos, enquanto a maioria acha que bandido não tem idade, são os mesmos a favor da mudança de sexo aos 12 anos. 

São os mesmos, os mesmos sempre, agindo em cadeia, diuturnamente, numa forma de coação e imposição do convencimento coletivo. 

E DEPOIS NÃO VENHA DIZER QUE ISSO NÃO É DOUTRINAÇÃO.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2016

domingo, 19 de junho de 2016

A riqueza que me atrai


Ainda na Era Lula (toc toc), o ex-milionário Eike Batista era reverenciado e tapetes eram estendidos por onde passava. Nas redes sociais, também era grande o número de seguidores e admiradores da sua riqueza e sucesso. Por suas empresas "X", pelos carrões que possuía e por ter sido ele o homem que comeu e embarrigou a mulher mais deliciosa do Brasil. Eike, jovem empresário, milionário, amigo de políticos, era digno de admiração. Até que seu castelo de areia se desfez.

(Numa das raras aparições de Eike na TV, no programa Manhattan Connection, o jornalista Diogo Mainardi o desconstruiu, quando questionou a existência real de suas empresas, ou se era tudo obra de ficção de um especulador na bolsa de valores. A verdade veio mais tarde.)

Tenho um amigo que, costumeiramente, baba na gravata — expressão rodriguiana — ao falar que conhece com intimidade gente graúda, de importância por suas posses e altas cifras em bancos — os endinheirados. Sempre com a língua salivando, ele fala com admiração dos carros, mansões como se tudo fosse dele e que fosse me admirar como ele. Ouço atentamente, mas desconverso e tento mudar de assunto. Depois saio me perguntando: O que me interessa conhecer gente assim? Irá me dar uma grana quando eu lhe recorrer? Depois terei que reverenciar e beijar sua mão quando o encontrar, como um Godfather? Não me atrai gente pelo que carrega fora de si.

Penso, ainda, sempre na arrogância nos olhos e na voz alta e impostada.  Como se as espinhas do mundo tivessem que se dobrar aos seus pés e por cima dele nada existirá. A trilogia de O poderoso chefão dá a dimensão do poder que algumas pessoas conquistam e se impõem às demais. O beija-mão é frequente e a subserviência latente. Ninguém o pisará; ninguém o enganará; ninguém o trapaçará. Ninguém. Ele é o poderoso dono do mundo.

Não tenho nada contra os ricos e nem quero saber se o dinheiro veio de herança ou veio de assalto à Petrobras. O dinheiro nunca me atraiu com o propósito de poder e sucesso. Exceto se for para servir às coisas que me fazem ser um pouco melhor. Ser melhor, não na condição de ser respeitado por ele existir; mas ser respeitado pelo que me transformei com ele. Gosto de gente de inteligência rara e  humildade que afronta; que tem compromisso com a verdade e sem o dinheiro para se proteger.

Não sou também daqueles que acham que não deva haver riquezas no mundo nas mãos de alguns. Sem as riquezas muitas coisas não evoluiriam, como também se destroem. (Pesos e medidas.) O mundo sempre foi dominado por gente capaz. Uns sempre serão mais capazes que outros. E aqueles que têm mais capacidade para agir e crescer vão, sim, dominar os outros. Esses, por fim, se deixarão dominar, como uma forma de sobrevivência e proteção da sua própria miséria e ignorância. Longe de pensar que se você der riqueza a um pobre ele irá transformar aquilo em mais riqueza. É possível que faça, mas é mais fácil que volte a ser pobre rapidamente. Ele não tem discernimento (e inteligência) para fazer multiplicar sua fortuna.

A riqueza fácil é atraente. Essas correntes de sucesso espalhadas por aí têm como mote e chamariz o dinheiro. As pessoas são levadas a entrar e investir num negócio promissor, com o sonho dos carros, mansões, cruzeiros marítimos, iates, mulheres e a uma vida de pobreza ficando para trás. As pessoas mais interessadas nesse negócio, normalmente, são aquelas de pouca instrução, que não estão interessadas no conhecimento e no aprendizado da vida para construir a si mesmo, mas, tirar do mundo, só o que tem para usufruir. Como se a vida fosse uma laranja doce que se chupa até o bagaço.

Mas por que esse colóquio? No Brasil, especialmente, não basta você ser um expert, uma mente brilhante, um grande filósofo, catedrático e bom caráter. Ninguém irá olhar, admirar e reconhecer você na rua. Mas se você for um jogador de futebol famoso (sem estudo e vindo da pobreza), será aclamado e portas se abrirão por onde passar. As pessoas gostam do sucesso, mesmo que atrás dele exista um ser medíocre, sem alma e sem algo a mais a dar.

Essa subserviência ao dinheiro e seus possuidores é digno de uma nação como a nossa: pobre sob todos os aspectos; pobre de intelecto. O coronelismo e outras formas de dominação política e social nos fez muito admirar quem nos dominava. Nos EUA, ser rico não é uma condição para estar, por exemplo, acima da lei e pisar naquele que está abaixo do seu status social. Uma sociedade mais evoluída, não faz ninguém se curvar a ninguém pelo poder do dinheiro. Todos têm participação dentro da sociedade e gozam dos mesmos direitos e são cobrados pelos seus deveres. Já foi conversa e debate essa história "o que move o mundo é o dinheiro". Acho que o que move o mundo mesmo é poder.

Lula, para dar um exemplo, não é aquele milionário invejado por suas posses. (Mesmo por que ele esconde as que tem). Ele é aclamado (ou era), por seu poder. Sendo ele um grande articulador político, e ter tido, por alguns longos anos, posse da chave do cofre do país, passou a ser respeitado e aclamado. Ninguém é amigo de Lula; as pessoas só são interessadas no seu poder. A sua miséria intelectual é evidenciada nos mimos que lhes deram alguns empresários: um apartamento tríplex e um sitio em Atibaia. Isso foi até motivo de esculacho pelo prefeito do Rio Eduardo Paes, num dos telefonemas interceptados. Depois que essas gravações vieram a público, ficou claro que alguns dos seus interlocutores "amigos" se portavam como vassalos, por chamarem ele ainda de "presidente", como se tivessem diante de um Godfather. E assim ele se sentia.

Eis o que eu queria dizer. Numa relação, quando o dinheiro é o centro dela, as pessoas irão viver para o único intuito: conservá-lo ou torná-lo maior. E isso, é claro, não há lealdade alguma de sentimento, porque nas separações o que mais se discute é sobre a partilha dos bens e danem-se os filhos, o sentimento. Dinheiro por si só para o prazer e deleite.

Nas telas de cinema ou na vida real, o chamado golpe do baú, ainda é muito corriqueiro. As pessoas — e aqui não se distingue o sexo — se aproximam umas das outras por interesse no que a outra possui, e nunca pelo que sente. Naquela história dos arrependimentos no leito de morte parecerá para aquele que se vai, o quão pobre foi sua vida de mentira. Mentiu pra si o que sentia, mentiu quem amava, mentiu o que vivia. Mentiu a vida toda em troca de algo que não irá levar.

A riqueza que me atrai é a dos olhos; que vem da compaixão, da amizade, do amor. O jeito de receber com a alma o olhar da mulher amada, sem enleios ou interceptação — direto. Sem esperar em porvir e garantias, sem especulações em bolsas de valores, sem vazios de dor e preocupações vãs. O que me atrai é a riqueza que eleva o ser. E tudo que não se eleva é exatamente o desnecessário para a vida que se deixa para trás. Tudo que não compramos com dinheiro nenhum.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Junho de 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A crise de espiritualidade


Faz alguns meses, o Tribunal Constitucional da Alemanha (uma espécie de STF de lá) negou a um casal o direito de ter relação sexual com animais. Aquilo que já podemos nos acostumar a dizer (e chamar) por aqui de zoofilia. Eles afirmaram que se sentiam, sim, atraídos por bichos. 

O cineasta Woody Allen já retratou uma fantasia sexual humana/animal no filme "Tudo que você sempre quis saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar" (1972). As comédias disfarçam as realidades, supondo que aquele comportamento não existe, é tudo ficção. E, apesar de parecer bizarro, rimos por algo tão absurdo. Mas, nesse caso, infelizmente, existe. Na mente de algumas pessoas, o sexo é um poço escuro, um abismo profundo e inesgotável de fantasias e permissividade.

Mas voltando ao caso do casal alemão. Ao leitor leigo pode parecer um absurdo, uma violência, algo fora do propósito uma reivindicação dessas, mas na Alemanha já havia uma lei irrestrita até 2013. Direitos que pensaríamos não ver num mundo ocidental, ainda sob o olhar reticente de moral e ética que nos guia e nos move, e depois sob crenças e leis civis e religiosas. Alguns países, como a Finlândia e a Romênia, ditos "avançados", ainda permitem esse tipo de relação sexual.  Outros têm abolido. Ainda bem. 

Agora, recentemente, o papa Francisco foi alvejado por críticas de várias partes do mundo por ter dito: “Quantas vezes vemos pessoas que cuidam de gatos e cães e depois deixam sem ajuda o vizinho que passa fome?”. E ainda acrescentou: “Não se pode confundir com a compaixão pelos animais, que exagera no interesse para com eles, enquanto fica indiferente perante o sofrimento do próximo”.  

Esse posicionamento, bem colocado, por sinal, põe o mundo católico (e cristão) contra a parede e de volta à sua realidade: Quem vale mais aos olhos de Deus? As coisas têm extrapolado o razoável, sim. A Terra, ao qual o papa crê, foi dada por Deus ao homem; dela ele se nutre e é soberano sobre as demais criaturas (Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra - Gênesis 1-28). Francisco é o papa da sua igreja, dos homens e não de cães e gatos. Quem não gostou, se sentiu ultrajado e no direito de inquirir o Sumo Pontífice, porque abnega sua existência e não vê problema nenhum em colocar o homem e as demais criaturas na mesma escala de valores. O papa e eu não pensamos assim. 

A verdade é: vivemos uma crise de religiosidade (de crença) no mundo. Enquanto o Oriente nos assusta com seu fanatismo religioso atroz, o Ocidente abole Deus da sociedade e de suas decisões. Sem Deus, perdemos as fronteiras das zonas limítrofes da vida humana. Lembrando que, na sociedade ocidental, que nos trouxe até o século XXI, Deus, por muitas decisões tomadas, foi o pêndulo que pôs nossas estruturas morais e condutas na retidão da justiça; assim também, no caminho de uma vida regida por uma moral e ética sem abusos e ambiguidades. Fora dessa moral e ética (sem o olhar de um criador), poderemos fazer as maiores atrocidades sem medo do nada, porque nada nos impede e nada nos punirá de fazer tudo. Assim, como agem os loucos, os revolucionários, os criminosos e psicopatas.

A partir do iluminismo (século XVIII), a Europa rompeu as bases e poder da igreja inserida e reinante, e se guiou só sob a luz da razão, do pensamento humano. Robespierre, depois de decapitar a monarquia francesa, ousou alterar o calendário e criar seu próprio deus: a razão. Acabou condenado à guilhotina, pelo mesmo tribunal onde discursava eloquente em nome do povo. Poder demais leva o homem a delírios e a criar novos deuses ou se sentir ele próprio. 

O homem contemporâneo tem encontrado na ciência e em outras crenças — de espiritualidade rasa — um modo de substituir Deus (sagrado das escrituras) da sua vida, e assim tem feito. Quanto mais poder e controle obtêm da vida, mais distante ele ficou do sagrado, do sobre-humano. O notório homem, que hoje tem domínio e mais conhecimento do mundo (distâncias, tecnologia, astronomia, medicina e a longevidade para desfrutar) vai tornando Deus como algo cada vez mais sem sentido na sua vida. — Eu já tenho a vida que me permito com o tempo que eu quero ter — pensa. Longe de Deus, o mundo estará também distante da própria raiz humana. Está aí a similaridade que nos coloca igual a outros animais.

Essa pseudo soberania humana, tem sabotado e nos empurrado cada vez mais para dentro de um egoísmo sem trégua. Apartado da sociedade, o homem caminha só com seu Smartphone por ruas sem norte. Nossos antepassados têm mais a nos ensinar que esse fraco e egoísta homem de hoje, já nos disse o filósofo Luiz Felipe Pondé. Mas deles [pré-históricos] perdemos o pouco do contato; e cada vez mais longe das origens e matrizes o mundo se encurrala. 

Enquanto a Europa perde esse foco do mundo, os fundamentalistas religiosos do islamismo avançam sobre o Ocidente, tomando seus espaços, procriando, afrontando suas leis e costumes em imposição dos seus. Eles têm a ânsia de vingar suas crenças com a desculpa que seu deus os quer assim: aniquilando os infiéis. (Uma guerra já milenar.) O mundo Ocidental se aquieta, se acovarda  e se curva por não saber lidar com um tipo de moral e ética que eles não dominam. A vida é morte e vice e versa. Como confrontar com quem não tem medo de nada?

Observe, por exemplo, como a taxa de natalidade no Ocidente é decrescente, não só na Europa, mas também nas Américas. É mais fácil criar cães e gatos do que ter filhos que dão trabalho, precisam ir à escola; depois a escola é cara; os jogos de vídeo games e celulares, nem se falam. Além disso, há outras preocupações de insegurança e futuro. Cães e gatos são só dar banhos em pet-shops e receber carinho. Não precisa de sermão e educação. 

(Não falo aqui daqueles que, por circunstâncias da vida, não formaram suas famílias com filhos).

Menos natalidade desencadeia outros costumes e formas de convívio. É alarmante o número de pet shops que hoje temos por aí; mais que clínicas pediátricas. Contudo, a indústria do cuidado animal se agiganta e fortalece com esses mimos. A cegueira coletiva, que compara o homem ao bicho, toma grandes proporções. (Não que devemos desprezar e maltratar os domésticos, óbvio. Longe disso. O tempo da carrocinha e do sabão já passou). 

O que falo é da humanização insana, desenfreada, descabida e substituída. Por carência e espiritualidade fraca ou ausente, nos afugentamos do olhar divino, desencontrando o homem da sua existência; um desligamento de céu e terra, de corpo e alma. O homem já não tem importância e dele nada se espera mais; somos todas criaturas iguais de mesma germinação. Olhe para você e veja se não está nesse pensamento.

Uma amiga, que trabalha num desses pets shops, me relatou que, há uma quantidade grande de animais (cães e gatos), que chegam à sua loja, abusados sexualmente. Como no relato inicial, por uma atração doentia ou pelo direito de transar com bichos, não se trata tão somente de um amor por troca de carinho e companheirismo, mas do que vai além disso. O animal virou propriedade e desfrute, e com ele pode-se fazer tudo, até sexo. Algo que já se tornou uma doença. 

Às vezes, assusto algumas pessoas, quando digo que, daqui alguns anos, iremos ver em nossas novelas a figura do pedófilo como um doente oprimido, e com todo mundo comovido de dor e lágrimas nos olhos na frente da TV. As pessoas praguejam, mas isso caminha para uma realidade. Na década de 1970 também os beijos em novelas eram um absurdo (quando era para ser técnico e ele se tornava verdadeiro, com línguas). Fato esse totalmente comprovado por mim, quando acessei o acervo da revista Veja da década de 1970. Uma matéria relata de um abaixo-assinado de donas de casa paulistana, repudiando e achando os beijos em novela um absurdo. O que pensariam essas senhoras de outrora se soubessem que hoje as novelas têm beijo gay?

Você pode chamar isso de tudo, mas não de avanço e progresso da humanidade. (Pode me chamar também de retrógrado e piegas). Não há progresso em nada disso. Falo isso, porque se a sociedade continuar cada vez mais se afundando em doenças de espírito (regredindo para esse lado), nós veremos, um dia, a zoofilia com bons olhos no horário nobre da TV. Aplaudiremos o bizarro, o inimaginável. Em nome de um direito sem o freio moral. 

Vivemos uma crise espiritual e religiosa não diagnosticada. Quando o homem perde o sentido do sagrado, perde também o sentido em si mesmo, da sua existência. Tudo fica parecendo igual se colocado no mesmo prisma; numa visão horizontal, como se tudo aquilo que respira sobre a Terra tivesse a mesma significância. Sem privilégios, escolhas, domínio, força, valores e sem Deus.

Se você julga que a vida do Aedes aegypti, de um cãozinho, de um leão do Zimbábue e de um feto humano tem o mesmo valor, desculpa, mas sua doença não se cura no consultório médico. 

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Maio de 2016

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O dinheiro compra felicidade, sim. E daí?


Estou em janeiro de 2016, mas 2015 parece um ano rastejante, que não se desgruda feito uma gosma; um ano que acho que não terminou mesmo (dentro de nós). De soslaio, vi naquelas matérias tolas de esperanças e promessas de novo ano, uma reportagem dizendo que a cor amarela dominou a noite de réveillon por aí. Por que o amarelo? O país está numa crise e as pessoas desejam dinheiro mais que a paz em 2016; por simpatia, a cor amarela representa o dinheiro. A crise, no entanto, é mais que financeira e falta de dinheiro; ela é política, existencial, moral, cívica. Mas isso é outro assunto...

Introduzindo a conversa aqui, lembrei agora da frase de um amigo microempresário: "não precisamos de muito dinheiro para viver". Ele é dono de uma pequena empresa metalúrgica que tenta se estabelecer no mercado, como qualquer um que paga impostos altíssimos ao governo; este, por sua vez, só quer destruí-lo, não quer vê-lo triunfar, porque isso fomenta o capitalismo selvagem (?). Modestamente, ele não quer ser grande, mas também não despreza o pouco conforto, com algum dinheiro. E por isso luta todos os dias.

O dinheiro move o mundo, as pessoas, os aviões, o poder. (Só não move ainda montanhas.) Sem o dinheiro não haveria negócios, razões e meios de viver, relacionamentos, compromissos, metas, famílias e amor. O capitalismo, pecado desse "mal", não é antagonismo do socialismo (do anti-dinheiro), mesmo porque um é política econômica e o outro é uma forma política de governo baseado em igualdade, sem lucros. Onde? Em que planeta é possível isso? Outro assunto a se debater. Por ora, o capitalismo triunfa, até por que sustenta o falso socialismo.

Minha lista de filmes no Netflix está gigante. Mas, por ordem, vi recentemente uma comédia de 2000 muito boa: "Trapaceiros" (Small Time Crooks) de Woody Allen. A história de Ray, um ex-vigarista (existe?) que amargou dois anos de prisão, e lá ficou conhecido como "Brain" (o cérebro), por suas ideias fantásticas. Agora, livre, mas cansado da sua infame vida nova-iorquina, ele tem um plano diabólico para se tornar rico e viver em Miami (tudo que sonha). Ray descobre que a poucos metros de uma agência bancária em Nova York há um ponto comercial para aluguel. Ele planeja alugar aquela loja, como fachada, e a partir dali cavar um túnel até o cofre do banco. O problema é convencer sua mulher Frenchy, a bancar os seis mil dólares de investimento inicial. Depois de reunir alguns comparsas, ele consegue convencê-la do plano. Mas o que ele vai usar como fachada? Pensou, pensou... Já que sua mulher faz biscoitos muito bem, eles decidem abrir a "Sunset Cookies", uma loja especializada em biscoitos caseiros. Tudo fachada. O problema (ou a sorte) é que o negócio dos biscoitos começa a prosperar mais que seu plano diabólico.

Bem, um ano depois de sua tentativa frustrada de entrar no cofre do banco, eles ficam milionários com os biscoitos de Frenchy. Aí, aquela vida que Ray sonhava (viver modestamente em Miami, com o dinheiro roubado) começa a perturbá-lo. Frenchy vicia na arte da riqueza e começa a querer entrar para a high society, que eles nunca frequentaram, por terem sido pobres. O contraponto é que eles não têm gosto apurado, são bregas no modo de se vestir e decorar a casa. Então, ela contrata David, um estilista rico que vai conduzi-la a esse mundo de glamour, sem dar vexame: frequentar óperas, bons restaurantes, conhecer vinhos são umas de suas aulas. Até o dia que Ray se cansa daquela vida (ele queria roubar para ser modesto com grana) e resolve se separar dela, deixando-a com a fortuna. Assim, ele volta a pensar em outro plano para ser rico a sua maneira. A história atrapalhada e hilariante não termina aí, mas já dá para perceber como eles se reencontram novamente. Exatamente: pobres.

O ditado bocó, consolador e anticapitalista é que "o dinheiro não traz (compra) felicidade". E assim vamos nos sustentando num mundo consolado por esse discurso, que a felicidade está em outro ponto. Com pouco, e como Ray, pensar em uma vida modesta com algum dinheiro. A verdade é: o dinheiro abre portas e caminhos, até mesmos aqueles que você não planejou. O ponto é saber se você quer seguir por ele ou permanecer no seu mundo, sem precisar ter aulas de etiquetas e frequentar jantares inteligentes com gente chata. Ou seja, você só precisa de dinheiro para a felicidade não ir embora fácil.

De todo modo, Ray não estava errado no seu modo de pensar (viver modestamente em Miami, com o dinheiro roubado). Mas ter dinheiro sem usar para além da simples felicidade, também fará cair numa depressão existencial. E quem se importa com a felicidade? Exatamente, todo mundo que pensa que o dinheiro não a compra. Quem tem dinheiro, não se preocupa com aquilo que já tem, porque vem de graça. Sua vida tem outras coisas mais interessantes e compensadoras a buscar com o dinheiro. Conhecimento, por exemplo.

A civilização do espetáculo, descrita por Mário Vargas Llosa, no seu livro homônimo, aborda esse mundo que agora habitamos. Sob a tutela da ostentação como um modo de vida. Tudo tem que parecer importante e espetacular aos olhos dos espectadores. Não basta ter, você tem que parecer que tem. Você é um fingido o tempo todo. Ostenta que está em Paris (quando está no Aeroporto de Guarulhos), ostenta um carro novo, ostenta seu Iphone última geração. Você finge felicidade o tempo todo. Não, eu não tenho inveja de quem ostenta sua vida nas redes sociais. Aquilo que me causa inveja não tem ostentação, porque não se inveja sabedoria, conhecimento, aprendizado, alta cultura. Ninguém ostenta amigos verdadeiros. Porque ser sábio e ter amigos verdadeiros é banal para essa civilização. Não existe casal perfeito só porque existe dinheiro partilhado entre eles. A relação se sustenta por algo maior que vem com o crescimento do intelecto.

O filósofo, muitas vezes citados aqui por mim, Luiz Felipe Pondé, dedica um capítulo do seu livro "Contra o mundo melhor", ao dinheiro. E o que diz Pondé? Que o dinheiro compra felicidade:
"A triste verdade é que dinheiro compra sim felicidade. De modo mais banal, compra férias, qualidade de cotidiano, bons médicos, segurança, casas em ruas com árvores, escolas decentes, conversas mais doces, filhos mais saudáveis, momentos de sensibilidade sofisticada. Dinheiro deixa as mães dos seus filhos sorridentes e generosas no sexo."
O dinheiro compra felicidade. E daí? De que adianta o dinheiro e a felicidade sem o conhecimento? De que adianta ter dinheiro e ir para Miami pensando no dólar baixo para compras, sem se resvalar na cultura do país? O dinheiro serve para muita coisa e muito mais quando é administrado para ter conhecimento. A felicidade para quem não tem dinheiro é lampejo e se esfacela, mas o conhecimento adquirido irá consigo por toda vida. Posso ter conhecimento sem ter muito dinheiro, tampouco posso ter momentos felizes sem muito dinheiro.

O que não se obtém mesmo é conhecimento quando se tem miséria de dinheiro e intelectual. A falta de conhecimento faz de pessoas tolas seres subjugados, apreendidos intelectualmente por ditaduras e gente que sabe mais dele do que ele mesmo. O que importa, então, é ter conhecimento, porque com isso desbravaremos horizontes, derrubando ditaduras e entenderemos as ausências dos dias festivos de felicidade. Entenderemos que é hora de lutar por uma vida melhor, e de atravessar o deserto, sem descuidar do caminho, na esperança (com conhecimento da vida) que haverá dias de sol a brilhar. O desprezo pelo conhecimento só serve ao autoritarismo.

Concluo. Com pouco dinheiro você compra algo melhor que a felicidade; com pouco dinheiro você obtém conhecimento e sabedoria. De posse, você irá entender melhor os caminhos e descaminhos da vida; irá aprender as culturas, se ver nos ambientes e, por que não, como se comportar em jantares de gente chique também. O melhor de tudo é que, depois de toda aspiração desse saber, nem mesmo a tristeza irá impedir você de prosseguir. O casal do filme não pensou nisso. Um queria se servir do dinheiro e o outro queria ser servido ao dinheiro. Mas se pensassem em aprendizado com dinheiro, que graça teria em assistir, né?

Como disse Nelson Rodrigues: "dinheiro compra até amor verdadeiro".

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Sobrevivente




Sou sobrevivente de um mundo que não usava cinto de segurança;
De um mundo que tinha medo de misturar manga com leite (e Deus com o pecado);
De um mundo que tomava café com açúcar e leite com nata;
De um mundo que bebia água da moringa e da mangueira do jardim;
Sou sobrevivente de um mundo de pés descalços em ruas descalças;
De uma infância de carrinho de rolimã e joelhos ralados com merthiolate;
Ah... quantos aniversários sem bolo e parabéns. De Natal sem presente. Sobrevivi;
Sou sobrevivente do futebol de rua e da “queimada” com bola de meia pesada, na orelha;
Das linhas de cerol lambendo os fios da rede elétrica;
Sou sobrevivente da zoação no pátio da escola. Aquilo que hoje chamam de bullying;
Sou sobrevivente da porrada no portão da escola, das cusparadas na cara;
Sou sobrevivente de um mundo onde ninguém se importava com a fumaça do cigarro;
De um mundo onde, nas quermesses de igreja se soltavam rojões e os cães latiam, porque os cães latem, porra!;
Sou sobrevivente de uma adolescência sem Playstation e Smartphone;
De muitos verões debaixo do sol escaldante, sem filtro solar e com muito "rayito de sol";
De um mundo onde se criava muitos filhos, sem esperar nada do governo;
Sou sobrevivente de um tipo de educação acompanhada de muitas surras de pai e mãe;
De um modelo de disciplina, de aguentar reguadas na cabeça e puxões de orelha da professora;
Sou sobrevivente desse mundo austero, improvisado, sem muitos cuidados e perigoso;
Sobrevivi, sim, a uma noite de bebedeira ao volante, por uma paixão impossível, que o tempo depois curou;
Sobrevivi a todos os riscos que o mundo de hoje não suporta correr, porque acreditam que não há anjos da guarda;
Sobrevivi (por Deus e esses anjos), porque os sobreviventes contarão as histórias da vida de outrora e suas batalhas como lições;
Sobrevivi esses anos e a tudo isso para dizer a esse mundo babaca de agora, de uma gente vitimizada, infantilizada, mimizenta, ranhenta;
Para dizer a essa geração de covardes insanos, à essa geração “sete a um”, nutella, snowflake:

VOCÊS SÃO CHATOS PRA CARALHO!

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2016