BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Causa humana




Talvez eu entenda um pouco — bem pouco — do excessivo zelo, trato, cuidado, nos nossos dias, aos animais domésticos: festas de aniversario, colos, carinhos, banho, tosa, perfumaria, lugar na cama, presentes. E gente cada vez mais, e vorazmente, se empenhando em chamar atenção do mundo a essa causa.

Isso que pode se chamar também, sim!, de amor; o qual, sem sombra de dúvida, vem ocupando o lugar dos seres humanos no coração dos...seres humanos (será mais um problema da falta de interesse de um pelo outro, por famílias, ter filhos e sexo? Sei lá...)

Num mesmo dia, separado só por uns três minutos de intervalo, a TV local da minha cidade divulgou duas matérias jornalísticas, no mínimo, antagônicas. A primeira de grupos de familiares que faziam uma pequena passeata (para chamar atenção) sobre a importância da adoção de crianças. Eram umas 40 pessoas somente. Havia até um casal que esperava um filho na barriga e estava na fila da adoção. Gesto humano e difícil de ver. Do outro lado, na matéria seguinte, uma feira e desfile de pets num shopping da cidade. Aí sim, com milhares de pessoas felizes exibindo seus animaizinhos bibelôs. Pensei comigo: estamos mesmo vivendo outros tempos. O interesse por cães e gatos já superou o de seres humanos.

Estou esperando até agora alguma manifestação. No dia 09 de Setembro último, uma garota de 13 anos foi espancada numa escola em Sorocaba, interior de São Paulo, por outra garota, só pelo fato dela ser... bonita. Isso mesmo, o crime dela é ser mais bela que a bruxa malvada, a inveja em pessoa; e o conto de fadas (sem príncipe) é que a maçã da bruxa de Branca de Neve virou um socão na boca. 

Resultado: arrancou-lhe os dois incisivos centrais de sua boca. Ninguém veio nas redes sociais (Facebook) dizer uma palavra, se indignar com tamanha  estupidez e covardia (a outra que atacou era três anos mais velha). Mas fosse ela pertencente algum grupo de minoria, ou uma gatinha maltratada, isso teria comovido o mundo, e autoridades seriam cobradas por justiça.

Vivemos, de fato, a Era do antagonismo com perda dos valores humanos. A cada dia perdemos, também mais, o poder de se indignar com esse solapamento de vidas, ou simplesmente aquilo que é inerente ao ser humano; contudo, os canalhas autoritários avançam sobre nós com mais vigor e poder — tudo que lhes demos. Até virarmos pó e refém por completo.

Há algo de errado no mundo de hoje. Onde os animais são enterrados com honras de grandes homens; e homens são mortos, sem nenhum remorso, como se fossem pequenos animais.

Mas eu só vou entender mesmo essa inversão (sentimental), essa carência, essa afetuosidade, o dia que ouvir um gato num bar mentindo vergonhosamente para o garçom; e depois ver um cão traído, cabisbaixo se matando melancólico, enforcado com sua própria coleira.

Haverá compreensão, estarão mais humanizados; aí sim, dá pra amar, conviver, gargalhar, sofrer, acolher como seres humanos. De outro modo, fica fácil ser só animal doméstico abanando o rabicó. Afinal, eles são encarnações de anjos do céu: bonzinhos e sem maldade alguma — dirão.

Desde onde o homem conhece o outro, ele é suscetível a ser irritante, falho, hipócrita, mentiroso, covarde, desleal; mas também carinhoso, leal e amável: o livre arbítrio divino. E de poder amar no outro o que também tem de pecaminoso e pior em si. Esta coisa de amar só o bem é abjeção com cianeto. Homem nenhum abana o rabo quando vê um canalha.

Penso, assim, se outra vida tivessem, muitos desses gostariam de nascer gato de madame, porque todos querem ser gatos e cães de pedigree. Se gato não faz nada, só come, bebe, espreguiça e se lambe, imagina o de madame. Que inveja felina! Tive cachorros em casa, mas eles viveram como devem viver animais domésticos: nos fazendo felizes no quintal.

Aqui não é céu e não dá pra brincar disso: agora eu quero ser animal, porque eles não traem, não mentem; e por essas e outras merecem o lugar do ser humano nos banquetes. Ainda temos muito que falhar e pecar; e eu só entendo amar quando os defeitos também são evidentes, como os nossos. Amar o bem perfeito e quem só late ou mia é fácil e confortável. Quero ver amar quem tem defeitos como os nossos.

Sei, por fim, que contrario muitos amigos queridos que se dedicam a essas causas (até com exagero). Eu, porém, não entro nessa turba da causa animal, porque ainda estou tentando entender e aprender a causa humana. 

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Outubro de 2014.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Barro bom


Ocorreu-me agora a analogia do barro bom. Aquele que, em mistura com a água, dá liga, servindo para moldar e transformar matéria prima em esculturas e obras de arte de peças rígidas, que servirão de adorno à vida toda, se cuidado tivermos. E quem não terá cuidado com peças valiosas? Porque esculturas de areia, à beira-mar, só duram até a maré subir. Areia e água são ligas ruins, difícil composição, e ao menor toque tudo se desmorona. Assim, como também, as esculturas de neve e gelo. Sob o sol forte irão derreter. Fotografe logo, para registrar suas silhuetas tão fugazes, porque seu instante é aquele.

Faz pouco tempo visitei um ateliê de um escultor de obras com argila — o barro, a argila é o mais antigo material orgânico, utilizado para fazer vasos e utensílios domésticos. (Talhas de pedra trabalhadas foram utilizadas por Jesus para a transformação da água em vinho). Enquanto apreciava suas obras, ele modelava com uma das mãos, um rosto anônimo — um artista nato. Depois, me assegurou que tudo depende do barro; o segredo, além das mãos habilidosas, é a argila; e seu barro não era ali da região de São Antonio do Pinhal - SP. Ele ia buscar longe. O barro bom é aquele que vira massa pastosa, fácil de modelar e sem esfarelar. Basta adicionar água, esculpir com habilidade e levar ao forno com temperatura e timer adequado.

Essas conversas de domingo, antes do almoço, são boas para descontração e dizer: "E aí como vai a vida?". Enquanto o almoço ainda é só uma promessa (cheirinho bom) e a cerveja vai e vem, surgem assuntos. Nessa, falávamos de pessoas distintas, das comparações dessa e daquela pessoa. (Não falávamos mal, mas constatávamos). E essa foi a alusão que minha amiga fez da pessoa que é barro bom em relação às de barro ruim e podre. (O barro é a fórmula bíblica que Deus usou para esculpir o homem — Gênesis).

Quem é barro bom? É toda pessoa que temos convivência fácil e sadia; são pessoas que perduram na sua vida, porque já vieram moldadas (só quebrarão se forem lançadas com violência ao chão). A pessoa está alicerçada e sua personalidade é rígida, sem deformação; e tudo depois de moldado não volta ao estado natural, à matéria prima.  Por outro lado, o barro ruim irá esfarelar e não dará boas esculturas (vaso ruim também quebra); vai se partir, antes mesmo, das altas temperaturas do forno. Não durará por muito tempo. Por isso, o escultor justificou que não é fácil sua matéria prima, mesmo morando perto de um rio.

DA FRUTA VERDE

Da fruta verde que caiu do pé, não há o que faça, por meios naturais, que a amadureça. A chance disso acontecer, já se foi. Ela não está mais pendurada pelo caule que a alimentava. Foi-se o tempo que a produzia. Teve tempo para isso e agora sua árvore "livrou-se" do incômodo, dando-lhe como fruta perdida. Tão perdida quando as que apodrecem. Não há como amadurecer estando no chão. Não será colhida por ninguém e seu destino é adubação do solo a sua volta. E com esse tempo longo ainda para virar adubo bom. Bem diferente das frutas podres — também caem do pé —, essas, facilmente, viram adubo. Os insetos e passarinhos irão comer o seu sumo e o que restar, a terra irá absorver.

Frutas verdes no chão são tristes passagens de um pomar. Não há como devolvê-las ao caule da sua árvore mãe.  Nunca irá amadurecer sozinha, sem ajuda da seiva que a alimentava. Ela já não pertence mais àquela vida; hoje está só cercada de folhas secas e formigas. Sua vida agora é solitária e sem ninguém; é o chão do pomar e sem nenhum olhar de brandura.

Barro bom e fruta verde: eis um mundo de gente por aí. Uns fácil de ligar, moldar, esculpir, adaptar, embelezar e temperar. Adornos, estátuas, vasos em estantes, com vidas e relações longínquas. E outros, como a fruta verde no chão, que já não temos mais o que fazer. Irão morrer (virar esterco) sem nunca conhecer o estágio do amadurecimento; ser reconhecida, apreciada e colhida por sua coloração, maciez, sabor e doçura. Resta-lhe, então, a aridez, a rugosidade, a amargura, o acre, o azedume. Quem vai encarar?

Como ser barro bom e fruta madura para a vida? Matéria prima, tempo, aprendizado, sabedoria, discernimento, amadurecimento, liga, permeabilidade a tudo que possa nutrir sua vida e lhe fazer bem; e depois, aguentar as altas temperaturas dos fornos e as tempestades que alvoroçam os galhos da copa da árvore. Tudo que suporta e que dá rigidez ao caráter e à alma.

De sorte, essa é a vida, com seus acres, mas também com muita doçura e suculência. Belas obras, nos pedestais dos nobres palácios, foram esculpidas pelos melhores artesãos, usando o melhor cinzel e escolhendo a melhor matéria prima. Com paciência e sem pressa da modelagem; sem pressa nenhuma para tornar-se fruta doce. Aquela que se apanha no tempo certo da colheita.

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Setembro de 2014.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A doutrinação e a revolução do bem



Enquanto era velado o corpo de meu primo, que morrera de câncer em múltiplos órgãos, eu conversava na outra calçada com seu irmão, meu primo mais velho. Gosto da sua conversa, mesmo num momento de muita dor, ele sempre é um bom papo, familiar, que nos remete a lembrar de coisas boas da vida.

O tom de sua conversa naquela tarde não era como das outras vezes, quando contava causos de um passado feliz, com uma memória de elefante (quem tem memória de elefante lembra até dos tons das cores do uniforme escolar). Naquela tarde, ele estava triste e desenxabido, como se tudo se juntasse ali, na sua perda recente.

O que se queixava era da vida de hoje. Mas não da falta de dinheiro ou de prestações em atraso; o que lamentava era a falta de amor, caráter, ética, moral, educação, gentileza, cidadania, respeito, princípios, esperança, fé; e tudo mais que ficou no seu passado de memórias. Da família que fomos e agora não somos mais. Dessa regressão humana aos tempos pré-civilização (homem fisiológico); do elo perdido da família tradicional (como se houvesse outro modelo); e aqui faço um parêntese para citar aquela professora marxista: “A família tradicional acabou” — justificando que em sua escola não se comemora mais o dia do pai e da mãe. Ela é professora discípulo de um mal que se impregnou. Falarei mais adiante.

E tudo que vivemos dessa degradação social e familiar, não é mero fruto do acaso. Isso foi calculado, medido, planejado para que fosse assim: o rebaixamento das instituições. Uma ordem mundial, uma liderança, uma superioridade, uma entidade, uma doutrinação organizada — algo sem rosto, sem presença — tratou de aliciar militantes a esse reino, e esses como fios condutores desse futuro que cá confrontamos.

Há mais de cinco décadas isso vem sendo disseminado (nas escolas, nas ruas, campos, construções). Os temas polêmicos e distorcidos das novelas que vemos hoje, foram encaminhados há mais de 50 anos: segregação e luta de classes. Você não sabe, mas a todo tempo estamos sendo manipulados e conduzidos. A revolução mental, que não pega em armas, mas dilacera mentes, como assim disse Luiz Felipe Pondé:

"Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas 'sua casa'. Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da "justiça social" ela silenciará todos."

Meu primo sofre com a família que formou. Um filho temporão com problemas de comportamento, desobediência, rebeldia e um sobrinho delinquente preso por assalto com arma de fogo. Tudo que nunca imaginávamos que pudesse ser nossa família, nosso futuro, quando ainda jogávamos bolinha de gude nas ruas de terra da nossa infância.

Ao lembrar-se de seu pai, veio um olhar marejado. Disse que, seu pai, assim como os meus, não tinha escolaridade, mas tinha uma coisa que falta muito ao mundo de hoje: SABEDORIA. E por isso, reconhece o merecimento, sem trauma nenhum, dos bofetões que levou dele, um alemão alto de mãos enormes e pesadas. No dia seguinte do bofetão — recorda —, seu pai ia trabalhar, sem nenhum remorso, mas nele ainda estavam as marcas dos dedos como sinal do aprendizado.

Aprendizado do quê? Aprendizado que não devemos subtrair o que não nos pertence; aprendizado que devemos respeitar pai e mãe; aprendizado que não há vida sem labuta, sacrifício e suor; aprendizado de respeito ao próximo, às regras, leis e instituições; aprendizado que há sinais de perigo na vida e, portanto, não devemos atravessar tais fronteiras; aprendizado de fé e amor a Deus.

A palavra é doutrinação. Durante décadas fomos doutrinados a muitos comportamentos, ordens, conceitos, catequeses e crenças sem percebermos. Conduzidos como gados. Ajustando a sociedade para uma conversão, no sentido mais inglório, pragmático, ideológico possível. 

Acreditamos por anos que, a igreja católica é retrógrada, ultrapassada e rica; acreditamos por anos que, a "polícia para quem precisa de polícia" e por isso é um óbice social; acreditamos por anos que, Oscar Niemeyer é o maior de todos, sem conhecer os outros; acreditamos por anos que, Che Guevara era o novo Cristo a se seguir; acreditamos por anos que, o capitalismo oprime, sem entender o que isso significa; acreditamos por anos que, pobres são vítimas da sociedade, sem reconhecer que são também agentes dela; acreditamos que, se existe pobreza é porque alguém ficou rico a sua custa; aprendemos por anos a enaltecer às esquerdas e ridicularizar tudo ao contrário à elas; aprendemos por anos que. o regime militar foi um atraso ao país; acreditamos por anos que, só inocentes e heróis foram torturados e mortos pelas mãos desse regime de governo; acreditamos que, esses "heróis" queriam democratizar o país. Factoides e mentiras que viraram verdades. A doutrinação é a revolução silenciosa, proposta pelo italiano Antonio Gramsci e seguida ipsis litteris.


Numa das conversas (hangout) com o cantor Lobão, o professor e filósofo Olavo de Carvalho afirmou que, o erro do regime militar, nos 20 anos de governo, foi ter combatido os comunistas e não o seu mal: o comunismo. Esse foi o vacilo, a porta entreaberta descuidada, que se escancarou para uma invasão de pragas ideológicas nos lares, escolas, igrejas e todo meio social que pudesse embrenhar.

As universidades, as redações de jornais e revistas, editoras, todos os meios culturais foram tomados e serviram de canais disseminadores de uma doutrina marxista. De “pensadores” e vendedores de sonho do mundo melhor; na visão mais arcaica, cínica de pregação de um paraíso comunista. Em consequência, o rebaixamento das instituições ao pó, aos pés de um grande irmão (The big brother).

Foi por aí, por esse caminho, que se pavimentou a via para a chegada de Lula (o operário) ao poder. Ou você acha que seria fácil aceitar um apedeuta como ele? Ele chegou como a semente de um sonho (bad dream), o maná, a  boa nova que levaria seu povo à terra prometida, onde jorra o leite e o mel. Mentiram (e muito) para mim e para você.

Se formos buscar o fio desse emaranhado, que se tornou a família, iremos chegar na política, claro. Falsos moralistas, os donos das leis agora estão dentro de nossas casas, ditando regras para uma família "melhor", como Olavo de Carvalho publicou na sua página do Facebook: "Moral petista: não dê palmadas no seu filho. Mate-o no nascimento". Ele se referia a duas leis absurdas: da palmada e a que está em curso, do aborto.

Não me lembro de meu pai (com 11 filhos sob sua criação) reclamar do governo militar, se sentir perseguido e injustiçado por ele. Não, ele só olhava para sua prole, trabalhava dobrado em turnos alternados (desses que mexem com o metabolismo) na fábrica, para sustentar uma família e dar o mínimo de educação. Ele se foi aos 59 anos, cansado da vida muito labutada e tendo o cigarro como parceiro de solidão e morte. Meu pai não deixou em mim nenhuma semente comunista.

Procuro não desviar o foco: a humildade, a religião e fé em Deus foi seu maior trunfo em mim. Indiretamente, ele enxergava a família: pilar mestre dessa fé (judaico/cristã). E as vezes que arrisquei sair, lembrei-me e voltei. E assim eu sigo, cambaleante, mas arraigado... Depois minha mãe, que também foi um exemplo de pessoa. Dona de casa cuidadosa, zelosa, de caráter, brio, fé e responsabilidade.

Esses foram meus tesouros, minhas doutrinas, que essa geração de agora desconhece, porque ninguém lhe passou. Por isso, se perde demente com seu tempo, e sem projeto nenhum de futuro.

Depois, e antes que eu fosse embora, meu primo ainda me disse da sua esperança. Disse sobre uma revolução do bem. Exatamente aquela que esperamos num futuro breve acontecer. (Há sinais no horizonte) O bem que vence o mal. Sem liderança, e também silenciosa, ela virá resgatar nossos sonhos sufocados. O fundo do poço é próximo, e quando chegarmos lá, só existirá um caminho: da volta. Emergir, subir, subir... E de volta ao seio familiar como imaginamos: célula social, mãe protetora e condutora da vida. E que nenhum Estado, governo ou poder possa substituí-la. Jamais.  

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Setembro de 2014.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Pacto de amor



Tenho pensado muito no amor. Durmo amor, acordo amor, resmungo e respiro amor. Tomo café sentindo aroma de amor. As canções no carro, na vitrola são de amor. Meus filmes antigos — Oh my God! — são histórias de amor... Incomoda-me não o amor nesses dias, mas o que resultará do mundo se rarear pelo espaço e tempo. Mas que amor é esse que as pessoas clamam, buscam, rastejam por querer?

Outro dia, numa conversa sobre política, sem querer, soltei a frase: "Este mundo não está legal...". Sem dizer precisamente o quê. Fazia referência a tudo que nos cerca, dos caminhos tortos que a vida, no conjunto da raça, tem tomado. Com valores distorcidos, moralidade ética baixa, corrupção alta e muita gente não se indignando com nada. Simplesmente assistindo tudo, passivamente, comendo pipoca, ouvindo música pelo iPhone, numa fria arquibancada de cimento.

Não sei dizer se já foi pior — guerras mundiais que não vi, com muito ódio espalhado por aí —, mas o amor não vai bem no mundo, senão não estaríamos reclamando tanto sua ausência, ouvindo queixas das pessoas de todas as idades. Reproduzo, no anonimato, um pequeno texto que recebi pelo WhatsApp (modernidade do desabafo): "...O que há com o mundo? Será esse o nosso destino permanecer só? Quem muito deseja tem seus sonhos traídos, mas aqueles que não esperam são surpreendidos. E eu me pergunto: onde está o amor?". Desabafou minha nova amiga, que já confessou o sonho do casamento e da maternidade. Ela, apesar de nova, tem desejos antigos: quer ser mãe de muitos filhos e ter um amor para vida toda.

Não dá para responder de súbito, ou tentar campear palavras, quando de quem se queixa não é um indivíduo único; aquele que dia desses abria a porta do carro para ela entrar, e dizia coisas lindas no seu ouvido. Mas de uma legião de outros semelhantes, gananciosos por ostentar e preocupados, e tão somente, com seu umbigo, sua cerveja, sua academia, seus bíceps, suas festinhas, happy hours sem compromisso e por levar um número maior de moças para cama.

Dizer o quê? Há esperança de o grande amor acontecer um dia? Sim!, ela é nova, bonita e ainda é possível que um desses por aí, seja diferente dos demais (despertado do seu egocentrismo), e sua alma o encontre na fila do supermercado. Muitos tropeços acontecerão até aquele eterno namorado venha sufocar seu vazio e dor.

Há muitas frases que Nelson Rodrigues deixou. Estou lendo agora o livro de Luiz Felipe Pondé "A filosofia da Adúltera", onde ele disseca o íntimo rodriguiano. Nelson filosofou muito sobre o amor, mas a que separei para este singelo texto é: "Este mundo não é a casa do amor". Havia um contexto, é claro, mas fiz minha interpretação: "casa" é moradia e o amor não encontra morada nessa casa (Terra), ele mora em algum lugar, mas não aqui. Não nega sua existência, ele só diz que não mora aqui. Ele perambula mendigo por ai, batendo de porta em porta, mas seu presente e futuro é o chão da rua, sem lar e sem comida. Não tem morada o amor neste mundo. E quem quiser visitá-lo, na essência, terá que se aventurar rompendo fronteiras cósmicas — galáxias (?). A morte, talvez, seja o alcance da plenitude desse amor, na divindade. Quiçá quisesse dizer Nelson: sendo o amor flutuante, inconstante neste mundo, ele não pode encontrar morada onde o trata tão mal e em segundo plano.

Em outros tempos vivi confusões sentimentais. Com elas havia pessoas envolvidas e a psicanálise para desatar tantos nós... Não, hoje eu não sou um ser totalmente "limpo" da sofreguidão pela maturidade; de coisas postas no lugar, organização, sem pecados e um tanto blasé. Erro, mas teimando em acertar mais com a vida.

Fiz amor, quando na verdade fazia sexo. Depois aprendi que não era amor, porque mulheres gostam de dizer que é, talvez porque procuram em tudo o amor. Até no sexo. "O sexo suja o amor. O homem deve possuir todas as mulheres, menos a bem-amada" — disse Nelson Rodrigues. Fingi amor, quando tinha só desejo pelas pernas, pelas coxas, pela bunda, pelos seios e pela boca da mulher na cama. Elas sabem nos enfeitiçar e fui dominado muitas vezes por magia, aflição, loucura e desejo febril. Não senti o amor acontecer depois de tudo consumado. Na manhã seguinte, ele não estava ali entre nós. Era só um gosto amargo de ressaca; uma mistura de gozo com altas doses de whisky, sem Engov.

No sexo, os corpos se trepam; no amor eles se aconchegam.

Agora veio à mente um texto que recebi, na época que ainda se encaminhavam e-mails (começa já fazer tempo...). Dizia o monge da história, que o amor não era um sentimento (separando-o da paixão), mas uma decisão que se toma juntos. Se decide amor, não se sente amor. Desprezei-o e mandei-o para lixeira virtual... Passados esses anos, sinto aquelas palavras me penetrarem como água. O que sentimos, muitas vezes, são sentimentos efêmeros (tesão, atração, ânsia, ciúme); de pouca duração, de horas e dias finitos. O que não conversamos antes, para que tudo dure, é sobre pacto, compromisso, acordos, tarefas, cumplicidade, comprometimento, na presença e na distância dos olhos. Cumprir um acordo, como se negocia um contrato comercial registrado em cartório.

O leitor pode perguntar: "Você está dizendo que o amor é um negócio?". Sim!, exemplifiquei como negócio de objetos, mas o amor é parceria; o amor é negócio de alma; tem profundidade em regiões inatingíveis, onde os objetos não fazem diferença, parte e não penetram. O mais que tudo que precisamos. Aquilo que o psicanalista Flávio Gikovate chama de "mais amor".

Afirmo que o amor é pacto, decisão, trato. Quando duas pessoas têm firmado entre si uma relação cúmplice, e mesmo estando longe de suas vistas, a palavra será mantida, porque tem peso e valor; a fidelidade do trato daquele negócio que se serviram e selaram entre elas — olhos nos olhos. Nas discussões, brigas, o pacto do amor é o pêndulo do equilíbrio que traz a serenidade, acima de qualquer grito mais alto que se ouse, e que supera todas as palavras duras. Pacto de amor, de sangue, de vida e morte, porque não se quebra um trato certificado na alma.

Antes de iniciar o caminhar, vejo aqueles que pactuam o amor na confidência; mas há aqueles que os olhares se cumpliciam já à primeira vista, sem palavras, como se as almas falassem por si. Na palavra ou no olhar, tudo é um pacto que torna as vidas agora transpassadas, entrelaçadas, fundidas numa só; um resgate do amor mendigo (ainda que neste mundo, seja possível existir e morar).

E ao raiar de todos os dias, depois do desfrute dos desejos entre pernas, coxas, seios, boca e sexo bom, que o amor seja devolvido ao corpo sagrado, descoberto do colo e útero da mesma mulher. O meu afã é pela alma feminina. Onde reina meu amor. Onde mora o amor perfeito. 

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Agosto de 2014.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Da Sessão da Tarde

Minha peregrinação em busca do elo perdido continua. Onde deixei meus tesouros guardados? Que cofre ou montanha do meu passado abandonei o que me preenche? Desprezo ao presente? Falta de anseios na vida por lacunas no coração? (O vazio sempre será ocupado por algo). São tantos assuntos para filosofar que renderiam muitas crônicas. Vamos ao que interessa.

Muita gente que me conhece não sabe, mas a maioria dos meus filmes vejo pesquisando sempre pelo diretor e pelos atores que atuam. Nessa seleção, consigo separar o que vale mesmo a pena ver do que é uma incógnita surpresa e do trash

No ambiente da comédia, não consigo classificar nenhum ator contemporâneo que mereça destaque, talvez Adam Sandler. Tornei-me míope para o que há no presente e os ditos filmes "blockbusters". Mas quando olho para o passado, vejo com nitidez: Jack Lemmon, Peter Sellers e o impagável Jerry Lewis (hoje com 88 anos, os outros dois já morreram).

Adquiri recentemente três filmes dublados de Jerry. Os mesmos filmes que via na minha sessão da tarde, que parece que estou lá ainda: antes da pelada no campinho, sentado no sofá de napa vinho da minha sala, vendo num televisor Colorado RQ, em P&B. O Jerry imortal e dos tipos e caras, criados por ele, ainda são impressionantes, atuais, fazendo rir gerações, mesmo essas que não o alcançaram nas sessões da tarde do sofá duro de napa vinho.

Então, revi recentemente, pelo Netflix do meu iPad, "O Professor Aloprado", de 1963, e dei muitas risadas com as trapalhadas do professor Kelp e sua dupla personalidade, o seu alter ego (macho fodão), que criou para impressionar e conquistar sua musa. Com a belíssima Stella Stevens - com carinha e sensualidade congênita da época, como era outra musa Marilyn Monroe.

Jerry ainda me conquista a cada filme, como aquele amor que se renova a cada dia. Não conseguiria citar um filme favorito, porque cada qual tem sua peculiaridade e graça. Mas deixo aqui este vídeo extraído do YouTube, do filme "The Nutty Professor" (O Professor Aloprado).  Aliás, me fez lembrar outro professor destrambelhado, mas vilão: professor Fate. Mas isso é outro assunto para recordar da sessão da tarde...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Agosto de 2014.