BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O rio não tem retorno

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Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”. Todo mundo já leu inúmeras vezes esta frase por aí, dizendo ser um provérbio (adágio) chinês. Os provérbios não estão apensos a nenhuma publicação; são frases soltas, de feição popular, sem originalidade, mas como uma roupa que se veste justa. São sábios.

Dialético, o antigo provérbio nos converge a sermos purificados e precisos com a vida: onde e para quem apontamos nosso dedo indicador; pensar antes de se dirigir a alguém; e o caminho que escolhemos seguir seja oportuno. Não vá decepcionar a si ou aquele que você ama. Como se conseguíssemos dominar o animal indócil dentro de nós, assim dormir sem estar com sono. Quase sempre, somos bêbados tentando se equilibrar no balaústre de uma ponte sobre o Tâmisa. Somos imperfeitos, desajustados, imprecisos. Mas com bons livros de bolso e bons provérbios tentando nos vestir.

Eu acrescentaria mais uma coisa: as águas correntes, caudalosas, mansas, silenciosas e às vezes turbulentas de um rio. Não há como contradizer: todos os rios não têm volta. Da nascente à jusante eles seguem a se juntar com outros e se derramar onde imaginamos ser seu fim. Sail on by...

Há palavras, pessoas, imagens, cenários, lugares, paisagens, coisas que vão e não voltam. Quando lançadas ou deixadas se perdem em atalhos e becos da vida. Quando percebemos já passou, canalizou por um túnel no tempo e esvaziou aquele instante. A carruagem passou e não voltou; a juventude passou e não voltou; um amor passou e não voltou; a morte passou e não trouxe mais nada, não devolveu a vida. Passou.

Somos pessoas em lugares mutantes e evolutivos. Tantas vidas teriam que ser paralisadas ao mesmo tempo para que nada passasse e tudo ficasse num momento de só deleite e prazer. Isso não existe, porque a vida nos chama a escalar montanhas e buscar meios em subsistir. Há turbulências e desafios. Não vivemos num paraíso onde a felicidade é água jorrando em bicas. Há atividades corriqueiras que faz-nos mudar intimamente, sem percebermos.

Por vezes, somos invocados alcançar emprego, estudo e sucesso tendo que mudar de cidade e região. A vida irá mudar. Os convívios, paisagens e os cenários do cotidiano não serão mais o mesmo. Tudo, por fim, é efêmero e passageiro. A festa da noite eterna, por mais que a esperamos e ansiamos, chegará e acabará com a luz do dia. Hora de juntar tudo e voltar ao caminho.

Havia muitas pedras para carregar e as costas já não suportavam mais. O arrependimento de não poder ter sido melhor do que agora o presente ilumina; a dor e a impotência diante de algo agora distante e sem conserto. O tempo nos devolve memórias e consciências que, no instante que aconteceram, não tivemos — apertamos o gatilho. Os erros do passado, a vontade de retornar ao início e fazer tudo diferente. Arde como brasa quente.

Quando os erros são percebidos num tempo distante, a primeira sensação é querer voltar e consertar tudo. O brinquedo da infância deixado empoeirado numa caixa no porão. Querer encontrar as peças espalhadas, limpar e ver tudo montado, de novo lindo e funcionando. Poder brincar com um passado remontado. Retomar aquela história desde o inicio e contá-la de maneira diferente, mais madura, mais amorosa; sem mesquinharias, ressentimentos e discussões tolas.

Não! Não há como voltar. O rio não tem retorno. As águas de um rio são fatos consumados de uma vida já vivida e entregue. Em águas quentes mornas e frias nos rendemos, nos mergulhamos. Ele sempre seguirá o seu curso, seu destino, desbarrancando margens e tudo que ficou lá atrás; virá arrastando tudo, mesmo que solte dos remos. Às vezes lento, calmo e manso; às vezes turbulento e de árdua navegação. Entre meandros, pedras rasas e toras pelo estreito, mas sempre deslizando da nascente das montanhas. Em penetração de outras águas, ou na imensidão de um oceano (fim da jornada).

Como devolver lágrimas derramadas aos canais de suas glândulas? Não retornam, deixe-se chorar, então. Deixe-se desaguar.

As corredeiras, quedas d’água, por mais insuportáveis que possam ser suas passagens, elas nos conduzirão no percurso; elas existem e uma hora ou outra aparecerá à nossa frente. É hora de segurar firme nas extremidades da embarcação (sem remos) e deixar se levar. O máximo que poderá ocorrer é encontrarmos novamente com águas mansas do nosso caudaloso rio. É assim que ele te leva até o desaguar definitivo em águas oceânicas.

Se não podemos voltar, podemos mudar o sentido da proa. Quando se vai por outra rota, as águas também estão lá para levar para algum lugar no futuro. O foco, os assuntos, as mágoas devem ser dissipadas, mudadas e pisoteadas como uma erva-daninha.

As prisões do passado, longínquo ou recente, colocam em cofres nossos pecados, falhas, medos, covardias e faz-nos com que voltemos a ele, revelando segredos, para pôr ordem e fim naquela história mal terminada e reparar a pintura negra (escura) da alma. Obras pintadas não têm consertos, têm retoques.

No conto de Guimarães Rosa “A terceira margem do rio”, sucinta a vida dentro de uma canoa. Um pai que deixa a família para viver rio abaixo rio acima, remando: “nessa água que não para, de longas: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio adentro – o rio”. Deixe fluir o rio, como flecha, como palavras ao vento, como desfiladeiro; abrindo caminhos, trincheiras meandros e estreitos. Um rio interior e leviano; e a vida segue a sangue, ferro e profunda. Não há mais infância, não há mais tempo, não há mais resgate. Só são águas, só vejo rio. O meu rio sem pressa de lugar algum...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Julho de 2013.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O que a mídia não mostra


O que algumas pessoas próximas não sabem, mas eu tenho certa repulsa pela palavra americanizada “mídia”. Muito difundida no meio político e utilizada para exprimir a imprensa em geral. Sempre usada de forma negativa, quando se quer dizer de ausência, ou controle de tudo que se publica nos meios de comunicação. Prefiro então dizer “press”, ou simplesmente Imprensa. Apesar de gostar de citações em inglês, "mídia" deixa tudo solto, sem sentido, sem eixo.

Segundo os dicionários, “Mídia” vem do inglês “Media”, podendo resumir em meios de comunicação, ou conjunto de formas de comunicação. O que contempla todos: rádio, televisão, internet, jornais impressos, revistas, etc.

No Brasil, a imprensa cumpre hoje um papel bem atípico; longe do que se fazia anos atrás. Tudo hoje se resume em só levar e trazer informação. Deixou de ser um veículo de formação de uma ideia e investigativo. Virou uma redação de fofocas de tudo que se ouve e propaga por aí nas redes sociais. Ninguém depura nada. As formas vindas por redes sociais são instantâneas e de fácil digestão. Muitas notícias ficam na cabeça do leitor com pontos de interrogação, que poderá fazer dela o que quiser; assim como um angu de caroço.

O guia do politicamente correto tem determinado também o manual de redação das grandes empresas de comunicação do país. Na prática, seguem uma cartilha social e correta para estar bem com todos, sem gafes. Alguns aboliram ou trocaram o popular termo “favela”, por exemplo, pelo politicamente correto “comunidade”.

Fosse só isso, podíamos pensar que era só uma forma de chegar ao leitor de uma maneira mais formal, mas a coisa é mais pecaminosa. Grande parte da imprensa no Brasil, que deveria se unir ao seu leitor em forma de colher e apontar a verdade dos fatos, conta, muitas vezes, só meias-verdades, ou pior ainda, se omite e se ausenta sem dizer uma só palavra.

No surto de manifestações que tomaram conta do Brasil — ninguém sabe, de fato, os motivos, porque há muitos motivos —, a "mídia" se tornou, não aliada do movimento, mas vidraça para muitos. Alguns jornalistas têm escondido o microfone de suas emissoras e gravado matérias por telefone celular; passando como meros espectadores e partícipes dos manifestos. Isso é decadente, porque os manifestantes sabem que a imprensa tem agido conforme a cartilha dos seus patrões, neste caso o próprio governo.

Óbvio que, em meio a muitos, existem os que ainda se consideram imprensa livre, e dizem o que pensam, fazendo a leitura sobre todos os ângulos; mostrando sua cara e por isso sendo mais aceitos.

Nos tempos atuais, onde a internet tomou conta de tudo, a velha imprensa (typewriter) ficou velha mesmo, caduca, como no filme de diálogos confusos “Front Page”, do bom diretor Billie Wilder. As pessoas estão escolhendo o Facebook para se atualizar; ou publicando suas opiniões em vídeos pelo You tube. A imprensa virou espectador do leitor que agora é ativo no guia da informação. O restante vão fazer fofocas dos programas de reality show.

Nos últimos dias, o movimento “#MudaBrasil” se propagou como um rastilho de pólvora e pegou todos de surpresa. O governo, que sempre teve debaixo das asas do seu poder, diversos seguimentos da sociedade como sindicatos, centrais sindicais, movimentos sociais e ONGs, ficou atônito com os manifestos, pois era algo fora do controle. Se for quer buscar o fio do novelo, não chegará a lugar algum. A internet é o estopim, o fio desencapado, como sugeriu o ex-presidente Fernando Henrique. Com quem agora negociar? Não tem com quem e nem o quê.

Vira-e-mexe se lê nos murais das redes sociais o termo “o que a mídia não mostrou”. Virou um meme (outra palavra atual). Esse chamativo pode ser um vídeo feito por amador, ou fotos de quem esteve presente à cena. De fato, a “mídia” não noticia tudo. Há filtros técnicos, políticos, sociais e mesmo de autocensura. Por isso que muitos não estão mais interessados em TV, rádio e jornais impressos.

Agora uma confissão. Às vezes eu penso em fugir para outra profissão e uma que “me gusta mucho” é jornalismo. Quando me lembro de Joelmir Beting, e vejo como sua história o levou para o jornalismo, em específico o econômico, me dá vontade de seguir por aí também. Meu receio maior é ser censurado, ceifado, por meu texto ter um compromisso com a verdade. Mesmo que ela seja só a minha verdade.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Julho de 2013.

domingo, 16 de junho de 2013

Só os tolos são felizes

(publicado na minha página do Facebook em 15/jun/2013)


Se você é daquelas pessoas que dão gargalhadas vendo videocassetadas e não vê a hora de começar a dança dos famosos pra ver a namorada do Neymar, você é um tolo;

Se você é aquela pessoa que só vê bobagens na tv, passando bem longe dos livros, porque livro na sua casa só serve pra calçar monitor, você é um tolo;

Se você defende e trabalha por algum político corrupto ...na eleição e acredita que ele pode mudar uma cidade, um estado, uma nação e a si mesmo, você é um tolo;

Se mesmo depois da eleição, este político não fizer nada do prometido (só roubar) e você continuar acreditando nele, porque “não se muda nada em 4 anos”, você agora é um tolo²;

Se você acredita em toda campanha e cartaz que se produz no Facebook, porque tem gente distribuindo bondade por aí, você é um tolo;

Se você é daqueles que acham que temos que devolver o Brasil aos indígenas, e por isso agora você vai registrar seu sobrenome como “Kaiowá”, você é um tolo;

Se você é daquelas pessoas que acham que o Brasil é o melhor país do mundo, porque aqui não tem guerra (como se não tivesse), não tem terremoto, o clima é tropical, com gente solidária pra todos os lados, você é um tolo;

Se você acredita que somos os melhores do mundo porque somos os donos do futebol e temos Pelé, Ivete, Michel Teló nos representando lá fora, você é um tolo;

Se você é daquelas pessoas que discutem futebol com bravura e conhecimento, mas não sabe nada sobre a PEC-37 e outros projetos escusos que restringem os poderes daqueles que o defende, você é um tolo;

Se você é do tipo que diz não ligar pra política, e pra você o Mensalão é coisa de político e todos roubam mesmo e você não pode fazer nada, você é um tolo;

Se você acredita em manifestações contra o aumento da passagem de ônibus depredando o ônibus e destruindo bens públicos e privados, mesmo sabendo que muitos desses manifestantes não se importam em pagar R$2000,00 num smartphone, você é um tolo³ (ao cubo);

Por fim, já que você é um tolo mesmo, mas assim se sente bem, então por que reclamar? Pelo seu estado letárgico da felicidade perene, você está imune a tudo isso, porque SÓ OS TOLOS SÃO VERDADEIRAMENTE FELIZES.


© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Junho de 2013.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Como um trailer sem carro


Uma mulher sem um homem é como um trailer sem carro. Não vai a lugar algum”. Com razão, trailer não tem motor e a maioria dos modelos por aí, só tem duas rodas. Sozinho não sai do lugar. É preciso de um veículo motorizado com muitos cavalos para rebocá-lo. Bela analogia.

Nos dias de hoje, esta frase soaria um tanto machista, preconceituosa, pecaminosa, out-of-date, e totalmente reprovada por essa gente bronzeada que mostra seu valor, diariamente no Facebook. Campanhas seriam disseminadas reduzindo a reles o seu autor. Verme machista! — diriam.

Verdade mesmo, a frase foi dita por uma personagem feminina num filme de 1964, antes mesmo que alguma mulher queimasse seu sutiã em praça pública, pedindo emancipação, liberdade e igualdade. Mas posso garantir, o roteirista não errou no script; e o público acolheu com sutileza suas palavras. Ele estava em consoante com seu tempo.

Naquele início dos anos de 1960, as mulheres casadas ainda eram donas de casa, cuidando do marido e da prole. As que não alcançavam esse status invejavam as que tinham seu homem, sua casa, sua família. (Isso é o que nos mostra as películas hollywoodianas.) Com a proclamação da chamada revolução feminina (Women's Liberation Front) tudo tomou outro rumo, se perdeu e a feminilidade também. Um cordão umbilical familiar se rompeu daquele modelo familiar. Mulheres deixaram suas casas e afazeres; mulheres saíram do vestido para usar tailleur e substituir os homens nos negócios. Hoje, sindicatos feministas odiariam e poriam toda sua rede social em batalha, a odiar também a mulher que dissesse que precisa de um homem.

Depois que surgiu a denominação “feminista”, para aquela categoria de mulheres que resolveram dirigir suas próprias vidas, independentes de qualquer relação estável e necessidade, o mundo não foi mais o mesmo. O contrário do que se constata, se você disser que o oposto de feminista é machista, o termo cai num conceito pejorativo e como um mal a se combater. A sociedade não-machista irá sempre pensar em homem que bate em mulher e tão somente.

Chique é ser chamada de feminista e viver de suas mazelas sentimentais, porque homem nenhum suportaria conviver, por muito tempo, com uma assim: mulher que briga, que disputa, que discursa com os seios de fora, mas não sabe fritar um bife e nem ao menos andar sobre um salto. Como disse Luíz Felipe Pondé: “o puritanismo feminista, que não entende nada de mulher, faz da mulher uma ‘camarada’ vestida de homem em meio a um mundo brocha de tanta exigência de igualdade entre os sexos”.

Na verdade, a vida das relações conjugais e amorosas, tornou-se tediosa demais e por isso há tantas separações, descontroles e desarranjos familiares. E para complicar ainda mais, um novo modelo de casal resolveu entrar na disputa pela construção familiar. Exatamente assim: “deixem que nós cuidemos do seu filho”. É o que se vê pelas pregações nas redes sociais. Um cartaz, a princípio provocador, diz que “toda criança adotada por um casal gay, foi gerada e abandonada por um casal hétero”. Mesmo que a frase tenha duplo sentido, ela faz propaganda, oportunista, apontando para outros caminhos e saídas. Quando se imagina aquilo que chamam de família tradicional (abomino esse termo); porque todos nós viemos de uma relação hetero (até os homos); de um ato sexual hetero, mesmo que abandonados depois. A família ainda continua a existir a partir deste modelo. Por outro lado, nada contra as outras relações de uniões de pessoas do mesmo sexo. Mas não chamar de família, por favor.

O mundo piorou com essa conjunção atual e a feminilidade foi-se junto, dando espaço às mulheres de “luta” em busca do nada agora. Os direitos civis, uma de suas brigas, já estão conquistados; está na hora de voltar para casa e fazer um jantar para o marido.

Outro dia, conversando sobre este assunto com uma amiga (vivendo a sua fase trailer sem carro), ela me disse algo que poderia sintetizar tudo que se passou nesses anos, a partir dessa pseudo emancipação: “eu acho que para algumas mulheres faltou coragem para ser mãe; para outras faltou coragem para ser puta”. Bingo!

Ao homem não houve mudança de papel. Ele continuou sendo o provedor, o macho dominante e ciumento. Diante do que acontecia permaneceu estático assistindo a tudo, sem entender nada. E quando deparou com essa nova mulher, se assustou e recuou. Na verdade, ele só queria uma que fosse como sua mãe, caseira e cuidadora. Agora quem está perdido e procurando seu trailer para atracar é ele.

A frase do filme “Kiss me, stupid” (1964) do diretor Billy Wilder foi dita pela personagem de Kim Novak (Polly). Polly é uma garota de programa que mora e “trabalha” (atende à clientela) num trailer. Ao ser inquirida por Zelda, a mulher do homem que passara a noite, ela a reprime e diz à Zelda que seu marido é ótimo (no sentido do caráter), tentando convencê-la a voltar para casa. Convicta, ela assegura que a vida de Zelda é invejada por outras mulheres (inclusive as GP´s como ela): "acredite em mim, tem um marido ótimo"; um marido, uma casa e uma família. Tudo perfeito para o mundo de 1960, pós-revolução industrial, familiar e ainda muito romantizado. Uma mulher sem um homem para conduzi-la, não chegaria ao outro lado da rua, talvez à prostituição.

O mundo de hoje acha que não. Acha que podemos ir, sim, a muitos lugares separados; o mundo de hoje acha que podemos educar filhos estando ausentes; o mundo de hoje acha que podemos dividir tarefas dentro e fora de casa; o mundo de hoje acha que podemos viver muitas relações sem se perder; o mundo de hoje não prepara as relações para durarem, mas para serem efêmeras; o mundo de hoje não percebe também, como estamos perdidos por termos abandonados certos velhos costumes.

Por fim, um homem sem uma mulher e uma mulher sem um homem, continuarão a se cambalear por aí e ir a lugar algum. Assim, como um trailer sem carro.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril de 2013.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A paisagem da mulher



Quando subires o alto de uma montanha, podereis vislumbrar uma linda paisagem. Então, sentirás uma imagem real que se constrói perante teus olhos. Separadas, em fragmentos, não se representam, não terão todas as maravilhas; assim como as pétalas de uma flor desfigurada. Mas combinadas, elas revelam nuances. A beleza que não se toca está ao longe. Em tudo, jamais conseguirás tirá-la do lugar e levá-la para ti. Ela esta lá pra ser mirada, mas não alcançada e tocada. Estará lá para ser sempre contemplada, mas nunca penetrada. As fotografias guardadas e empoeiradas, mais tarde, revelarão por quê... Tereis saudade daquilo. Ela revelará e guardará em ti o signo do belo.

Assim, poderás dizer também dos retratos que ficaram de MARILYN MONROE (como um grito à beleza). Ela já se foi, dirão alguns. Ela agora virou a imagem que não pode ser tocada e nem retocada no tempo. Jaz com ela o projeto do arquiteto do corpo. Ela não diz nada, não reflete, não participa, não atua, mas ainda emana... Num álbum de retratos, ou na tela do artista. Ela é a imagem da paisagem que não podereis tocar. Tu somente contemplarás. Na busca da fórmula, do sentido pacificador do prazer, e como torpor da alma. Tudo aquilo que todos nós deveríamos admirar com seu dom infinito. Os gregos diriam Afrodite. Marilyn é hoje a luz que não se aplacou; Marilyn é hoje uma paisagem de mulher.




© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril de 2013.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

50 tons de pensamentos



A linguagem do mundo mudou. Nos dias atuais, se aceita tudo com tudo que se escreve por aí; até erros gramaticais em provas de redação se toleram. OMD! (Oh my dog). Não me oponho aos erros. Acho até que, a pessoa deveria ficar com a face rubra e correr ao dicionário, mas não vai. O problema é que por trás deles (erros) vêm as tolices, sandices e a falta de cultura, mesmo! Infelizmente poucos se preocupam com isso. No meu tempo, ficaria sem dormir, se soubesse que cometi alguma gafe com as palavras.
Já disse outras vezes, as ferramentas atuais de comunicação, são tão boas que estão empobrecendo o ser humano e preservando só os tolos.
Escrevo habitualmente na minha página do Facebook. Tenho minhas convicções, opiniões e penso que isso possa inquirir as pessoas a pensar; como também recorro de outras fontes para formar os meus pensamentos. Nisso, posso ser sério, irônico ou só contar uma piada (sem rir de mim mesmo).

Com ajuda dos leitores, resumi as 50 melhores - dependendo do ponto de vista pode ser “as piores” - frases já postadas na minha página do Facebook. Há os que me odeiam por elas; mas há – ainda acho que é a maioria – os que as curtem (polegar para cima) na forma como construo e explano certos pensamento. Sem medo do rídiculo e da exposição.
Quando encontro com algum virtual na rua e essa pessoa diz que gostou do que escrevi, fico feliz.
Então, com vocês minha coleção de pensamentos.

50 TONS DE PENSAMENTOS

1) Quando você tem noites boas de sono; quando você não se aborrece com nada; quando você não lembra como é um resfriado; quando suas finanças andam em dia; quando amigos de verdade frequentam sua casa; quando se está em paz com a família... Cuidado! Você pode estar sofrendo de FELICIDADE;

2) Quando encontrar alguém na sua vida, e por alguns segundos, sentir que seu coração parou de bater; sentir que suas pernas já não têm mais força; sentir uma sofreguidão e um aperto no peito... Preste atenção nesses sinais. Depois, torça pra que esse alguém seja seu cardiologista. Você pode estar tendo um enfarte!

3) Você percebe que está viciado em Facebook quando, faz 30 minutos que está com LISTERINE (álcool) na boca, na frente do computador e só agora lembrou que tem que cuspir e escovar os dentes.

4) Segundo a Agência de notícias Reuters, a pessoa que diz “MEU NEGÓCIO AGORA É BEIJAR NA BOCA E SER FELIZ”, 100% delas não está beijando na boca de ninguém e está muito infeliz;

5) A cor do esmalte das unhas sempre reflete a insatisfação do sexo feminino. A cada semana, não se contentando com o que pôs, ela muda a cor;

6) Stephen William Hawking, o maior físico contemporâneo. Já desvendou as galáxias, os planetas, a lua, marte, incas venusianos, seres abissais, todo o universo, disse: a única coisa que eu não consigo desvendar é a “cabeça de uma mulher”.... Para tudo!!

7) DAS TRIPAS CORAÇÃO - Para satisfazer sempre a insatisfeita da mulher, o “pobre” do homem tem que se desdobrar em vários. Um mero coadjuvante, mas com vários papéis dentro de casa: eletricista, pedreiro, encanador, enfermeiro, massagista, lixeiro, cozinheiro, faxineiro, ajudante geral. Tem que ser super-herói, Capitão América, Iron-man, Spider-man, Superman e Thor (todos os vingadores). Depois tem que ser Anderson Silva, Don Juan, Rodrigo Santoro, Brad Pitt (quando enjoa do moreno), George Clooney (quando querem um grisalho), Victor&Leó (os 2 em 1), Jorge&Mateus. E precisa ser inteligente, idiota, advogado, consultor de moda, psicólogo (em caso mais graves psicanalista), surdo, mudo e palhaço... E além de todos esses papéis tem que ser FIEL!

8) Diga a verdade sobre você; não propague e considere pra si o que é do outro. Tudo do outro pode ser mentira;

9) Toda vitima social é antes de tudo um objeto de manipulação dos maus-caracteres. Como quer que a sociedade se sinta culpada pelo comportamento e escolha de um único indivíduo?

10) O FACEBOOK parece um grande livro de autoajuda virtual. Se todo mundo fizesse 10% o que propagam nos cartazes, que se resume em amar, amar, perdoar... Teríamos um mundo melhor e convertido pelo Face;

11) O pior desastre da vida humana é quando o médico (ou alguém) corta o cordão umbilical. Aí começa toda tragédia humana; numa trajetória de luta por buscas em razão da incompletude;

12) É FODA QUANDO... Você posta uma foto antiga (10 years ago), no mural de uma amiga, achando que ela vai gostar de lembrar aquele dia... Ai ela escreve assim: CREDO! TIRA ESTA FOTO DAÍ... EU TO GORDA!!!

13) Dúvida loirística: Contagem regressiva eu já sei (10, 9, 8...). Agora, “contagem progressiva” é o número de vezes que vou ao salão fazer escova no cabelo?

14) Quando estou dormindo desejo que a chuva caia a noite toda sobre meu telhado – o barulhinho. Quando eu desperto, desejo que o sol esteja me esperando lá fora. Acho que sou normal, nada além;

15) CONSELHO DE STO ANTONIO - Casamento não é brincar de casinha com o Ken, fazendo comidinha de mentirinha, no fogãozinho da Barbie. E depois juntar tudo e guardar no quarto de brinquedo;

16) Tem coisas que são mais velhas que mouse com bolinha embaixo?

17) A humildade também pode ser um entorpecente. Não há nenhum mal em ser viciado nela.

18) Tem tanta gente se orgulhando de tantas outras coisas por ai: de ser ateu, ser católico, ser evangélico, ser pobre, ser petista, ser ativista, ser ambientalista, ser corinthiano, ser flamenguista... Ninguém se orgulhando de ser somente humano;

19) Hoje quando despertei, meu pescoço fez treck; virei pro lado e meu braço fez creck; quando espreguicei minha coluna fez também crack. Foi por os pés na sandália ao lado da cama, eu senti o CROCS;

20) O mundo é um grande tabuleiro, com 32 quadrinhos pretos e 32 quadrinhos brancos. A pequena minoria inteligente, perspicaz, ousada, corajosa, trabalhadora joga XADREZ; a grande maioria joga DAMA (no mesmo tabuleiro). Por que se faz de vítima e é covarde, fraca, preguiçosa, medíocre e incapaz de ser melhor. No mundo, poucos carregam muitos. O tabuleiro é o mesmo, o que muda é o jogo que se joga;

21) Em suma, as relações modernas são assim: Quero minha individualidade, mas com compromisso em nós.

22) Toda mocinha adora ser acadêmica – ficar horas na academia –, pra ficar bem saradona, pra conquistar aquele homem gordo, que não vai à academia, porque está correndo atrás do dinheiro, que atrai aquela mocinha que fica horas na academia por causa dele, do dinheiro do homem gordo. Não necessariamente nessa ordem;

23) Brasileiro é movido a sentimentalismo. Fôssemos movidos pela razão e pela justiça, seríamos um povo melhor;

24) O bom da vida é encontrar uma verdade, qualquer que seja, e mudar o caminho seguindo agora por ela; o pior é encontrá-la, estancar o caminho sem enfrentá-la e continuar vivendo a mentira;

25) Mulher bonita é aquela que, quando está parada em frente a uma vitrine de uma loja de shopping, tem sempre um homem atento (babando) catando a poesia que entornas no chão;

26) O que eu tenho mais saudade da minha juventude é da inocência. Quando a perdemos, deixamos de ser puros; deixamos de ser plenos de amor;

27) Pode parecer que não, mas eu adoro quando você me odeia;

28) A maturidade pode significar aquelas palavras sublinhada há anos atrás, e agora você nem lembra mais porque comprou aquele livro;

29) O verdadeiro AGRONEGOCIO é ir sábado à tarde ao Bar do Xuxu (Chuchu), comer Mandioca frita, tomando Cevada aos litros e falando um monte de Abobrinhas... Tudo o que impulsiona a máquina econômica do país;

30) MENTIRAS SINCERAS ME INTERESSAM - Toda vez que o Apedeuta disser que uma coisa é mentira, tenha certeza que é verdade. A verdade não acredita nele e a mentira também está começando a se convencer disso: é mentira tudo que empenha em afirmar ser verdade. Ele só conheceu a mentira na vida; namorou, noivou e casou-se com ela; e agora acha que ela tem que ser repetida até virar... verdade. Por que a verdade é que traça todos os caminhos, mesmo quando é mentirosa. A bem da verdade, a verdade nunca lhe convenceu; sim a mentira, que tem por ele muito apreço, como a recíproca sempre é verdadeira;

31) Antigamente (old days) às 07h30min da manhã, toda mulher estava na cozinha, silenciosa, passando um café bem gostoso para o marido que estava indo trabalhar na fábrica. Hoje, nessa mesma hora, essa mulher abre a janela pra gritar VAI CURINTIA! Acordando toda a vizinhança. E o marido? Ele que vá tomar café na padaria!!

32) 03 coisas que só quem acredita em Papai Noel, duende e saci Pererê consegue ver na política brasileira: 1] a mídia golpista; 2] a direita reacionária 3] as elites dominantes. E só os militontos acreditam que elas, juntas, querem derrubar o governo. Então eu explico. O que faz cair a máscara governamental são os FATOS por eles mesmos construídos e protagonizados nos porões do poder, e que nunca imaginavam vir a publico;

33) MODINHAS DO MOMENTO – [1] Sempre quando alguém posta alguma coisa que começa “Com o tempo aprendi...”, na verdade não aprendeu nada ainda, volte 03 casas e reinicie o jogo... [2] Depois do “ficadica”, agora a crise é escrever no final (ou no início) de qualquer bobagem que se posta “Simples assim”, com ou sem reticências. É isso aí meus caros ouvintes, somente algumas reflexões para o dia. Difícil? Não. Simples assim... #ficadica;

34) BOLSA VADIA – Nosso glorioso Senado Federal acabou de aprovar um projeto de Lei, que atribui a toda mulher, que se separou do marido por causa da violência do parceiro, uma ajuda do governo de R$622,00, durante um ano... Pois sim, o homem que vai estar na moda daqui em diante é exatamente o tipo Stalone (com músculos no cérebro). Lutadores de UFC e coisas do gênero serão disputados por elas... O que vai haver de mulher sendo espancada com consciência e gosto. E aquelas que, além do marido, apanham do amante? Vão receber R$1.244,00... limpinho, todo mês. Pode isso Arnaldo? Pode sim. É o famoso Bolsa Vadia;

35) 140 CARACTERES – É difícil hoje em dia as pessoas terem paciência com aquele objeto que nossos antepassados chamavam de “livro”. Dá preguiça ter que ler tudo aquilo, que só serve pra saber como será o filme quando passar no cinema, ou pra se instruir, né? Ler pra quê, se posso ver o filme? Outro dia emprestei um livrinho (250 páginas) para uma pessoa que estava precisando de algumas palavras que pudessem orientar seu caminho naquele momento. Não, não era um “autoajuda”, mas um livro cientifico, de autoconhecimento e transformação. Ela não leu o livro porque achou longo e se ateve somente a ler as frases que eu sublinhei. Pois é, frases sublinhadas são aquelas que vão parar no twitter. Os 140 caracteres; ou: os 140 tons da preguiça;

36) COISA DE POBRE- Ir ao caixa eletrônico e demorar mais que o habitual, só pra parecer que aplica, transfere, deposita porque tem muito dinheiro. Quando sai, leva uma nota de R$10,00 pra passar o resto do mês;

37) Gosto daquele tempo em que a geladeira era branca, o telefone era preto e o mar era azul...;

38) PASSAPORTE CURANDEIRO – Pensando bem, tem tudo a ver com o Brasil dar passaporte diplomático aos pastores curandeiros. É o retrato dessa nação medíocre e pobre de espírito; aonde pessoas simples e sem esperança vão atrás da cura (do milagre) para suas vidas. Assim, entregam seu mísero salário para esses charlatões. Ou seja, pagam para ter o que Deus lhes daria de graça, se fé tivessem. E depois de lesadas, descobrem que nunca foram curadas. Mas e o dinheiro? Ah, este o pastor não devolve mesmo, sob a alegação de “não orou com fé”;

39) A VIDA É BELA - Não sou bom em economia, mas toda vez que leio algum artigo da área, com especialistas assustados com as manobras governamentais para esconder os números reais, me vem à cabeça aquele filme do Roberto Benigni, "A VIDA É BELA" (Oscar de melhor filme estrangeiro - 1998). Em plena 2ª guerra - e até na hora de morrer - ele tentava passar a ideia para o filho que estavam num jogo de guerra e que tudo não passava de uma brincadeira, tudo estava bem. Pura ilusão. Morreu;

40) FEBEAPÁ - Dentro do festival-de-besteiras-que-assolam-o-país (FEAPÁ), tem os especialistas da porta arrebentada. Depois que tudo ocorreu e não tem mais o que remediar, aparece aquele pra dizer “o que deveria ter sido feito era...”. Especialista em fogos de artifício; especialista em fuga; especialista em multidão de jovens; especialista em porta de boate; especialista em banda gaúcha... Mas o melhor de todos eles é o especialista em porranenhuma! Por que ninguém ouve este cara???

41) O SILÊNCIO DOS BONS – Há uma peleja oculta neste Brasil corrupto pela politica da ‘cumpanheirada’. A luta é desanimada (mas existe), da classe que está atenta aos desmandos governamentais, contra os militontos esquerdopatas, que aliciam o povo desinformado. Essa maioria desinformada (sem educação e sem nada) é quem elege o corrupto, por orientação dos militontos. Como se processa tudo isso? O cidadão de bem, atento às linhas dos jornais, não produz barulho. O máximo que vão dizer nos comentários das matérias é “O PT é o câncer do Brasil...”. Na eleição, votam contra o corrupto e ficam por aí, porque pensamentos não fazem eco... Por outro lado, a parcela mínima da petralha militonto, se multiplica, se espalha pra fazer chegar até os desinformados, pobres do sertão afora, que tudo está bem, e dando como exemplo as “bolsas” distribuídas pelo governo. Você não tem saneamento básico, mas é feliz, cara! – argumentam. O silêncio dos atentos não incomoda, mas é tudo que não faz o Brasil berrar por justiça, para o bem de todos;

42) OPINIÕES FEMIMINAS - Toda vez que um homem quer saber mais de uma mulher de seu interesse, ele não deve ouvir a opinião de outra mulher. Simples. Porque, embora sejam da mesma linhagem, vindas do mesmo planeta, mulher não entende de mulher; não entende numa mulher o que atrai a um homem. Porque o homem quase sempre irá pensar com uma cabeça que não tem cérebro. Cabeça essa que a mulher conselheira não tem;

43) BOOK EIGHT – A frase “Eu te amo” pode ser explicada pelos verbos “to want” e “to need” (defective or special verb). O verbo “to need” exprime necessidade; o verbo “to want” exprime só um desejo. Bob cantava nos anos 60 “I want you”; Paul cantava na mesma época “I need you, I need you...”. Paul estava amando alguém; já Bob só queria dar uns pegas;

44) O povo brasileiro – no atacado – não está preparado, intelectualmente, nem pra ver “Branca de Neve e os Sete Anões” (Disney – 1937) – filme de mais de 70 anos. Não tem compreensão para uma história de difícil linguagem (?). É mais fácil ver “vídeo cacetada”, que não precisa pensar e nem ler legendas. Só rir, como tolos. Por isso, os políticos deitam e rolam; mandam e desmandam aqui. Com todo mundo em profundo sono, como se mordesse uma maça envenenada. Cadê o príncipe para acordar esta gente?

45) SINDROME DE SCARLETT – Há uma sindrome que afeta algumas mulheres. A Sindorme de Scarlett. Sabe aquela que acha que todo homem deve se rastejar, até os que a amam de verdade? Por que, no fundo, ela não gosta de nenhum e não vê ninguém, exceto a si mesma. Pois é, um dia ouvirá esta frase – pra mim a melhor - do filme “E o vento levou...”: Minha querida, você é tão infantil. Você pensa que dizendo “me desculpe”, todo passado pode ser corrigido. (Capitan Rhett Butler).

46) No livro “COMO AGARRAR SEU HOMEM SEM ABRIR A BOCA” tem o capítulo “Cuidado com as mãos” (pág. 256). É importante que suas mãos alvas não tenha calos. Calo brocha. Você pode até justificar que puxa ferro na academia sem luvas, mas no fundo, ele sempre vai pensar que você passa o dia todo pegando no cabo da vassoura, do escovão ou da enxada; ou em grau menor de colosidade, irá imaginar que lava louça sem luvas e com detergente tabajara. Ah! Esmaltes alternando em tons (cinquenta) de vermelho ou base simples com ou sem francesinha; nunca essas cores da moda, como cinza, verde e azul; ou pior, sem nenhum esmalte. Brochante total. Aguarde mais dicas do livro. I wanna hold your hands;

47) PET-SHOP-MUNDO-CÃO – A explicação de estarmos vivendo a Era das causas animais, não está, exclusivamente, só nos descuidos e maus tratos que sofrem nossos pobres domésticos. Maior que isso, a questão está na carência humana por afeto. Os domésticos têm de sobra o que está faltando aos homens. Pessoas sem afeto vão cuidar dos animais, pra terem suas almas cuidadas por eles. Isso não ocorria no século passado (faz pouco tempo). Depois que o homem se perdeu de si (e da família), foi buscar nos animais o que agora não encontra mais no seu semelhante; justificando que eles (animais), e só eles, precisam de cuidado. Incondicional e em nada em troca? Ah tá!

48) THE SHACK - Notem, nos dias atuais, as obras literárias que viram best-seller (as mais vendidas), depois de um tempo ganham ramificações de suas histórias. Ou alguém resolve contar mais do que o livro já disse, só com obejtivo da especulação da obra alheia. Uma gente sem criatividade, mas esperta e com vontade de ganhar uma graninha com a ideia do outro. Por exemplo, um dos livros mais lidos e vendidos nos últimos anos ‘A CABANA’, ganhou várias vertentes. Você pode escolher: “De votla à Cabana”, “Encontre Deus na Cabana”, “Encontre a si mesmo na Cabana”, “Em busca da Cabana”, “50 tons da Cabana” e para os mais antenados em redes sociais tem o “A Cabana, #partiu”;

49) RUNNING – Já dizia o poeta “a vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim...”. Como é assim a vida, tem sempre alguém correndo atrás de alguém, que está correndo atrás de alguém, que está correndo atrás de alguém, que está correndo atrás de outro alguém que está... E pra seu desespero, ninguém correndo atrás de você. Então, pare no próximo ponto e reflita!

50) EXPLICANDO O FACE – Na última aula, fiz a seguinte explanação aos alunos. Na maioria dos casos, esta coisa do Face (mudar o status), não quer dizer que ambos foram algum cartório, que entraram numa igreja, trocaram alianças; depois fizeram festa com convidados e padrinhos, filmagens, fotos e foram em lua-de-mel pra Porto Seguro... Nada disso. É só aquela rotina, do cara que vai toda noite filar janta (bóia) na casa dela, e depois de muitas gargalhadas e cerveja na cabeça, acaba dormindo por lá. Dois, três meses nessa batida, no Face, isso é status de "Casado". Entendeu???
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril de 2013.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O veículo do futuro


Até pelo status da profissão, gosto de debater, e rebater, certos temas que surgem dentro da área em que atuo. Quando as conversas são sadias vêm boas ideias. Mas tem aqueles que pegam carona, na matéria da qual não dominam, e vão propagando por aí como a única verdade, a única saída, um soro para vida. A cada dia surge uma nova ordem para o guia do politicamente correto.

Durante o regime militar, a classe artística, jornalistas e intelectuais eram coagidos ao engajamento de algum movimento antiregime, antimilitarismo. Quem não se manifestava, simplesmente era colocado à margem e tachado de dedo duro; um excluído de qualquer convívio. Foi o que aconteceu com o cantor Wilson Simonal, que teve a carreira despencada, por acusação, sem nenhum direito de defesa, de ser um traidor da esquerda e suas lutas. A verdade é que nunca aderiu à nada. Ele era só um cantor negro de sucesso, talvez o maior da época.

Hoje em dia, não existem mais os engajamentos políticos exacerbados; o que há são alguns grupos de patrulhamento, polícias de pensamento, na forma mais ruminante de querer nos empurrar um cardápio social, como forma de reparo, de exclusão de qualquer minoria. Ser um ativista, um cycler é chique, é a última moda. Como o cantor Chico César, que apareceu num programa de entrevista sobre uma bike desmontável e dizendo que até nas viagens internacionais carrega sua magrela.

E resvalando nesse assunto, na questão da mobilidade urbana, a moda agora são as bikes, apelido dado às bicicletas. E para muitos discursistas, ativistas, bandeiristas, não há veículo melhor para os deslocamentos das cidades do presente e do futuro: não polui, é saudável, tem tráfego livre, não atropela pedestre e é menos perigoso que os motorizados. Só há vantagens. Vamos ver.

Sou saudosista para muitas coisas: discos velhos, móveis, automóveis, livros, filmes, séries de TV, lugares. Gosto de visitar o passado com as mulheres bonitas, seus costumes e comportamentos. Creio que, no passado, o convívio social era mais próximo. Hoje, com mais gente habitando o planeta (sete bilhões), ficamos longe um dos outros; ficamos mais individualistas, quando deveria ser o contrário.

Nessa retórica, cada um está puxando a sardinha para o seu lado. E alguns discursos são longos e chatos. Tem o discurso da legalidade e discriminação das drogas; tem o discurso dos excluídos sociais; dos racistas; e também tem o discurso daqueles que quererem fazer a bicicleta o veículo do futuro. Ou seja, voltar ao passado saudosista e romântico, sem o olhar analítico às outras implicações que desafiam a cidade do presente e o modo de vida das pessoas de hoje. Também gostaria que fosse assim, mas não é. Quem sabe, nessas ondas e tendências, apareçam também os partidários e adeptos das carruagens. Guardarei isso.

Nada disso! As cidades de hoje e do futuro precisam de tecnologia. De transportes mais ágeis, confortáveis, silenciosos, protegendo-nos das intempéries; transportando mais pessoas (somos muitos mais que no século XVIII) e que não poluam o ar das metrópoles. E também em transportes que possamos conviver e criar amizades; ler um livro durante o percurso, ou ouvir música até cochilar.

Não sei dizer se o melhor meio de transporte de massa é sobre rodas, ou sobre trilhos. Depende da demanda da população que irá atender. Mas não importa a tecnologia, o desejo é que transporte mais pessoas, em menor tempo; assim acabará com os congestionamentos e desestimulará o uso do automóvel. Se quiser uma cidade mais respirável e boa para morar, os deslocamentos por transporte de massa tem que vir em primeiro que os outros.

Bicicletas no trânsito de Londres - Setembro 2012

E as bicicletas? Elas vão nessa sequência. Vão aproveitar os espaços deixados pelo melhor uso do transporte de massa. Sendo adotada para pequenos trajetos e ligações aos terminais rodoviários. Nem todos andarão de bicicletas, por mais que elas sejam incluídas no sistema. Nos dias chuvosos, por exemplo, a maioria irá de trem ou ônibus. Transporte bom e para o futuro é aquele que carrega o maior número de pessoas possível, ligando os quatro cantos de uma cidade.

O que não é cabível — esta é a briga dos ativistas — é fazer a bicicleta disputar espaço com o automóvel, sem se apresentarem um ao outro. A briga estimulada é essa. Os ativistas pela bike não são pela cidade e pela mobilidade, mas pelo direito de poder pedalar. Vai ser difícil, nas cidades brasileiras, um motorista entender que uma bicicleta também faz parte do sistema. Ele sempre achará que ela só atrapalha. Por isso é necessário desestimular o uso dos automóveis pelos ônibus.

Durante os oito dias que fiquei em Londres, pude perceber muito de perto a convivência das bicicletas com o trânsito de uma cidade de mais de dois mil anos, medieval na sua infra-estrutura. Londres é linda, de arquitetura nobre, milenar, tranquila, de gente educada na convivência do trânsito, seja na pista ou na calçada. Linhas de metrô cruzam a cidade de ponta a ponta, Under ou Overground.

Mapa do metrô de Londres
Os ônibus two floors circulam a 30 km/h; não há cobradores gritando para o motorista quando deve fechar a porta; os condutores ficam em cabines protegidas do “converse com o motorista somente o necessário”. Viagens tranquilas e lugares para sentar, sempre. Todo o sistema é integrado, ônibus e metrô. Num mesmo cartão semanal você pode fazer quantas viagens quiser em qualquer um dos meios públicos. Durante as viagens nenhum automóvel se atreve a entrar nas faixas exclusivas. Os ônibus deslizam no asfalto e junto com as bikes vão partilhando, sem buzinadas e atropelamentos.

E mais que tudo isso, o transporte público é o encontro de todas as classes sociais. Andar de automóvel não é status, porque a cultura britânica não tem espaço para essa tolice, de parecer ser o que não é; de carros tocando sertanejo e funk num volume insuportável. Eles circulam de transporte público porque é seguro, confiável, rápido e confortável. Felicidade não se ostenta.

Mas o que me instigou a escrever estas linhas? Outro dia deparei com o cartaz acima “o veículo do futuro chegou faz tempo” — possivelmente criado por algum ativista e não urbanista. Não comentei e não compartilhei na minha página do Facebook. Achei demagogo e vazio de argumentação. Pensei, mais uma modinha vem por aí... Haverá bicicletadas com gente nua montada — já houve — reivindicando mais espaços para bicicletas nas ruas. Tenho afirmado, não sou adepto a nenhuma corrente, ou ativista de qualquer moda. Eu tenho muito apreço e afinidade com a lógica, e com ela eu tento lidar com a vida.

Quando se pensa em urbanização e planos diretores, traça-se um caminho de metas e diretrizes que apontarão o melhor horizonte da cidade; um modo de vida com qualidade. E por isso, acredito que a ordem das coisas deva ser respeitada. Assim, como nas cidades europeias, o transporte público eficiente e por excelência, veio antes da ressurreição dos não motorizados, as bikes. Antes veio a cultura: deslocar de transporte público não torna ninguém mais pobre; e o contrário, dentro de um automóvel não torna ninguém mais poderoso. Antes veio a cultura do respeito às leis e ao próximo, com confiança aos poderes constituídos; veio o respeito ao direito de ir e vir por todos os meios. A bicicleta só pegou carona nessa cultura.

Concluo. A bicicleta não é o veículo do futuro. Como às vezes imagino, o veículo ideal e futurista será o tele transporte; em cabines dentro de casa, através do acionamento de um botão, você viajará (fisicamente) para onde quiser instantaneamente; como na série antiga Star Trek. Viajei...

Claro que não precisa tanto, e pensar tão longe. Mas se as cidades brasileiras chegarem a ter meios de transportes de massa com a cultura europeia, ai sim podemos voltar a pensar em bicicletas, e como outro meio de ver melhor a paisagem da cidade.

Eu odeio as modinhas.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Fevereiro de 2013.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Um homem pra chamar de seu

Nunca houve tantos divórcios como estamos tendo atualmente no Brasil. O que há nisso de relevante a se justificar ou pautar? Intolerância na vida a dois; emancipação feminina; mulheres muito mais no mercado de trabalho já são mais independentes; o casamento tornou-se meramente um contrato...

Em consequências desses apontamentos, temos lares desfeitos e filhos em jogo também, vivendo como ioiô. Há tanto o que se falar sobre essa nova era que vivemos. Ou: é melhor não pensar, porque a vida foi feita para ser vivida e não questionada.

Nesta nova era, pressupõe que haja mais pessoas solteiras dando sopa por aí. O solteiro que ainda não se casou, por opção; e o novo solteiro, aquele se tornou depois de uma separação. Na noite, como caça e caçador, é a nova mercadoria exposta na vitrine.

É de se pensar, àqueles que já passaram por uma, que a nova relação, abruptamente, irá criar um embaraço sentimental, misturando o novo com o velho, a mágoa antiga com a nova paixão; e por isso, muitos optam por um tempo de vida a sós. O que é extremamente necessário e saudável, dizem alguns especialistas em comportamento. Não se pode compensar uma coisa com a outra.

Viver sozinho e se suportar, eis a melhor forma de se auto-analisar; a melhor forma de se restabelecer um ponto de partida para uma nova situação e colocar a casa em ordem. Deixar a vida correr solta, permitir aquelas manias que eram abortadas por conta de ter que dividir um teto com alguém.

Falo sobre a ótica masculina, claro, pois os homens não têm medo da solteirice e muitos até preferem hoje em dia, a se arriscar numa relação sequencial. E pensando assim, só irá abrir novamente as portas de casa para alguém que, de fato, valha a pena investir; alguém, sob os aspectos de convivência e sentimentais, irá dar-lhe frutos e segurança no futuro. Sem medo de ter que recomeçar do zero e viver de misérias emocionais; maltrapilho e maltratado, no portão, com as malas na mão.

Para a mulher não vale esta regra. Na maioria, elas necessitam da companhia de alguém do sexo oposto. Digo que é companhia, pois não há importância para algumas que seja o amor da vida delas. Pode ser um homem, só para chamar de seu para as amigas e assim ficar em paz com o status do Facebook. Decerto, há que se parecer feliz perante a sociedade e as amigas mais próximas, depois é só esperar os comentários que massageiam o ego, “que lindo casal!”.

Já toquei nesse assunto, mas não custa voltar. Vivemos, sim, também a era do parecer. Não é ser nem ter, mas parecer. Você não precisa ser feliz nem ter dinheiro, mas se você parecer as duas coisas será bem quisto (pensam) por muitos e assim, não ficará à margem dos “felizes para sempre”, como uma solteirona mal-amada e desiludida com os homens. É o que muitas tentam passar nas redes sociais, “eu estou feliz e se você não está problema o seu...”.

Quanta estupidez! Mas, por que ter que mudar o status do Facebook a cada comprometimento, a cada troca de parceiro? Simples. Por que assim, se parecerá feliz, mesmo que seja momentâneo e que este homem não seja aquele da canção do Roberto. Mas e o amor? Isso é outra coisa mais para frente. Não importa o amor, ele virá com o tempo (ou não virá). O que importa é que nesse momento eu tenho alguém para dizer que sou proprietária e não estou sozinha. Eu tenho um homem para chamar de meu. Às amigas invejosas e solteironas, o desprezo.

Na maioria dos casos, paga-se o maior mico (gíria atual e perpétua). Passados alguns dias, aquele já não é mais o príncipe que imaginava ser. Ele, na verdade, é um sapo bem grande com coroa na cabeça, um sabre pendurado na cintura, em seu cavalo branco; a todo tempo fingindo-se príncipe. Ela só avistou a coroa, o sabre, o cavalo e não enxergou o sapo. Meu Deus! Ela vai trocar o status de novo.

Algumas mulheres, por mera carência, resolveram entrar no jogo da sedução masculina, assim vão fazendo e jogando para tentar prender algum pelo lado que mais o desperta, o sexo. A solteirice virou jogo de sedução, sem penetração no íntimo, com todo mundo comendo pelas beiradas...

Já nos casamentos, enquanto os homens se reúnem nos happy hours com os amigos, com permissão do olhar de esguelho; a mulher vai ao shopping com amigas, também se permitindo. Em casa, uma babá cuida do filho que eles irão ver só depois das nove da noite.

Um dia, alguém deixou um recado no seu mural do Facebook, “depois que o sexo ficou fácil, o amor ficou difícil”. Pode ser isso também. Há mais liberdade nas relações, ou muita abertura e concessões. E o amor será sempre um projeto adiado.

Juro que tento, mas não entendo mais nada. Socorro!

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2013.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sou brasileiro, mas não tenho orgulho

Desculpe. Mas eu não faço parte do coro daqueles que vão a ginásios e estádios esportivos gritar “SOU BRASILEIRO COM MUITO ORGULHO”. Como posso ter orgulho de um país, cuja educação é uma das piores do mundo, em 88º lugar; onde a saúde, que deveria vir de graça a nós, pelos impostos altos que pagamos, obriga-nos pagar mais pelo particular, para ter um atendimento melhor. E achamos que é isso mesmo e tudo está bem. Não está! Como posso ter orgulho de um país, onde os meios de transporte públicos estão sucateados e não funcionam, fazendo cada um de nós um refém do automóvel, que depois temos que pagá-lo em dolorosas prestações; e com anciãos e deficientes físicos amargando uma vida entre quatro paredes, porque as ruas, com suas calçadas esburacadas, não lhes permitem se locomover com segurança. Como posso ter orgulho de um país, onde há mendicância pelas cidades onde passamos, e não é de imigrantes tentando se estabelecer no país, mas de brasileiros mesmos, sem emprego, sem moradia e sem ter o que comer. Onde se criam leis de cotas raciais para pôr fim a tal “desigualdade social”, onde deveria, sim, era investir em educação básica para todos, sem distinção de cor de pele e credo religioso.  Como posso ter orgulho de um país, onde a lei que mais impera é a “Lei de Gerson”, porque brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. Certo? Errado, Sr. Gerson! Como posso ter orgulho de um país, onde o traficante de droga ostenta, empunha armas de grosso calibre e tem mais autoridade que o poder constituído pelo voto que demos nas urnas; onde as pessoas acham graça e votam pela alegria do palhaço que diz “pior não fica”. E achamos que é isso mesmo e tudo está bem. Não está! Como posso ter orgulho de um país, onde as pessoas se emocionam e opinam sobre novelas, mas são incapazes de ler as páginas políticas de um jornal e se indignar com tudo. Como posso ter orgulho de um país, onde a maioria dos postulantes almeja um cargo político, porque no fundo, pretendem se enriquecer com a política, como muitos que já estão lá. Como posso ter orgulho de um país, onde as obras públicas são superfaturadas e dinheiros desviados para abastecer campanhas políticas; onde carros-fortes saem dos bancos com milhões de reais, também para abastecer esquemas de corrupção, como o mensalão; onde há desonestidade em todos os níveis sociais, desde o mais pobre ao mais rico. Como posso ter orgulho de um país, onde um partido político quer se estabelecer único e soberano em todas as esferas de poder, nem que pra isso tenha que mentir, enganar, roubar, extorquir, infringir, aniquilar e eliminar quem estiver pelo caminho. Pela simples razão de poder. Como posso ter orgulho deste país, de gente intelectualmente e culturalmente miserável. Como posso ter orgulho de um país, que empobrece seu povo a cada dia, sugando-lhe até última gota de seu sangue. Aceitamos e achamos que é isso mesmo e tudo está bem. Não está! Agora, diga com sinceridade, você teria orgulho?
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2012.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Provou do próprio veneno


Outro dia, uma pessoa quis chamar-me atenção através de uma rede social. Tem isso agora, a exposição de nossos comentários e opiniões reserva às pessoas o direito — sem dar o direito — de invadirem o nosso espaço para tecer comentário, não sobre o assunto que se expõe, mas sobre nossa pessoa. Por uma simples observação.

Como já afirmei em outra crônica, a melhor descoberta da liberdade — e aqui se fala também da expressão — é dissociar ideias, pensamentos, informações e pessoas. Assim como, o sujeito do verbo. A coisa mais fácil é comentar a lógica. É o que procuro fazer. Hoje, faço isso e assim convivo com todos em todos os ambientes, até nos virtuais.

Mas o sujeito do comentário foi petulante e insistiu em querer me rotular, afirmando que, por eu não gostar do comportamento — não da arte — de alguns artistas, que, por suas atitudes têm pensamentos e ideologia esquerdista, eu seria então de direita. Oh my God!

Especificamente, eu dizia da atitude hipócrita de John Lennon (pessoa pública), que após a dissolução do grupo (faz-nos felizes até hoje), começou a erguer bandeiras pela paz e aparecer sem roupa à frente das câmeras de TV (sempre a exposição). Um indivíduo que vivia em guerras internas e individuais, lutando pela paz, parece-me um tanto desvio de personalidade. Isso se chama hoje de marketing pessoal. Outros também fazem o mesmo por aí, como Bono Vox, por quem não tenho nenhuma admiração, exceto por algumas de suas canções.

Cito um trecho de um livro que li sobre Lennon e de como ele viveu a tratar mal seus antigos parceiros, em especial Paul McCartney. Quando Paul foi visitá-lo em Nova Iorque, no Edifício Dakota (o mesmo onde foi assassinado), Lennon o tratou mal já pelo interfone e quase o mandou embora. Ou, o que você está fazendo aqui rapaz? São as guerras internas de um “pacifista”.

A diferença de Paul para John é que o primeiro sempre foi um líder nato. Nos ensaios era quem dava as cartadas e dizia como deveria ser os arranjos. Nas entrevistas, no palco, também era quem falava com o público. Depois da banda, continuou a fazer aquilo que sabia fazer melhor que é sua música, com qualidade. Ninguém, nas redes sociais, irá ver um cartaz com alguma citação de Paul, ele nunca foi de frases. Ele continua atuante aos 70 anos, porque continua a fazer canções como na década de 1960. Sua fala é sua música.

Vejo nesses seres, um tanto de desvio da formação de caráter. Ao mesmo tempo em que pedem a paz no coletivo, vivem guerreando no individual; brigando com o vizinho do andar de cima, ou jogando cadeiras de cima do quarto do hotel, porque excederam nas drogas. Quando vão dar entrevista às câmeras de TV ficam mansos e pedem a paz ao mundo. O lobo em pele de cordeiro é, na essência, um mau-caráter.

Algumas personalidades nacionais, por exemplo, não se deve tocar ou mal dizer. Logo você será tachado disso ou daquilo. Há o que chamo de santíssima trindade da música brasileira. Velhas e novas gerações aprenderam que não se pode comentar nada que desconstrua a biografia de Gil, Caetano e Chico. Por que, antes de tudo, eles enfrentaram bravamente a ditadura militar com sua arte. E hoje?

Observo que, eu não comentaria nas redes sociais sobre Lennon, ou qualquer outro se não fossem públicos, se não estivessem em exposição nos noticiários. E com relação a ele, até hoje se fala. Enfim, a coisa não é de conotação pessoal, mas da figura pública que ele representou e representa até hoje.
O mundo do politicamente correto é patrulheiro. Se você não gosta de Bono Vox, no que diz, fala e se comporta então você é a favor da fome no mundo; você é a favor da opressão que os ricos têm sobre os pobres; você é contra a humanidade e o meio ambiente. Tudo bobagem.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, numa de suas crônicas semanais, citou uma frase que vai de encontro com o comportamento desses “pacifistas”: “fighting for peace is like fucking for virginity" (lutar pela paz é como trepar pela virgindade)”. Bem oportuno, e isso estava escrito na porta de um banheiro em Israel na década de 80. Quem "luta" pela paz e vive em guerras internas e individuais é um oportunista, antes de tudo.

Hoje somos refém dessa praga, como chama Pondé. O politicamente correto tenta corrigir os termos, colocações, comportamentos, direções para que lado devemos seguir, porque toda a humanidade deve caminhar para lá, mesmo sem saber o que irá encontrar. Associa e posiciona o cidadão no mundo sob sua ótica. Se você não está nem aí para as causas ambientais, você não ama seu planeta — tentam lhe pregar. Como se fôssemos robôs e o único teto sobre nossas cabeças é do apartamento onde dormimos; sem olhar para o céu lá fora e por onde andarmos pelo mundo, será sempre o nosso teto. O mundo é minha casa. Deus me livre da prisão desse apê!

Zilda Arns — médica sanitarista morreu no terremoto no Haiti em 2010, quando estava numa missão humanitária. Nem eu, nem ninguém soubemos através dos noticiários que, esta verdadeira pacifista, estava lá, por uma causa. Ela não deu notícia ao mundo. O que fazia, não precisava ter reverência, não precisava aparecer.

A melhor revolução do mundo é aquela interna, de dentro para fora. Cuidar da casa, dos filhos e dar o melhor para suas formações; é o caminho individual que podemos fazer para plantar a semente do mundo, nossa pequena e sadia revolução.

Recentemente, por conclusão da peça de acusação aos réus do Mensalão do governo Lula, o Procurador-Geral da República Roberto Gurgel citou Chico Buarque “Dormia a nossa Pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações” — Vai Passar (1984). Em tudo que deferiu na sua fala, talvez não coubesse melhor citação. Enquanto a Pátria dormia, carros-fortes saiam dos bancos para pagar e manter um esquema de corrupção – o maior já visto, segundo Roberto Gurgel. Com certeza, alguém (esses que andaram dormindo), deva ter pensado, como pode ele citar isso? Chico Buarque não serve à direita. Esta música foi feita para a ditadura e não para os tempos de democracia que vivemos!

Concluo. Em democracia ou em regime de ditadura, a corrupção tem a mesma feição. O compositor escreveu para um e acabou acertando o outro. Como ele sempre se posicionou à esquerda acabou provando do próprio veneno. Esta é outra página infeliz da nossa história, que ainda não desbotou da memória. Estamos passando.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / agosto de 2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Batman - a crônica


Em 1989, enquanto ansiava pela estreia nos cinemas do novo filme de Batman, um colega da FAU me apresentou o gibi “O Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller. Devorei o gibi e tirei toda a impressão trocista que tinha de um herói quase morto dentro de mim. A história era de uma figura envelhecida e séria, bem diferente das lembranças do Batman, da série de 1966, com Adam West e Burt Ward. Aquele pastelão que arrancava gargalhadas e a gente ficava pensando de um dia para o outro: como Batman vai se escapar dessa? Ele escapava sempre, até usando a magia e forças de Superman - herói em escala maior de poder que a sua. Mesmo assim, Batman sempre foi um pouco mais humanizado, e por ele ser falível, eu o adorava.

Fui ao cinema e me apaixonei pelo filme de Tim Burton. Primeiro porque retratou uma Gotham City como vi no gibi: escura, de arquitetura inóspita, mas pungente com grandes construções, num cenário esfumaçado. Depois as atuações de Michael Keaton como Batman e Jack Nicholson no papel de Coringa. Batman era astuto, viril, pegador de mulher (tentou Vicki Vale). Ele não deixou dúvida do seu propósito. A justiça de Batman era só encontrar seu alter-ego, o bandido que matou seus pais na porta de um teatro, Jack Napier (o Coringa). Ele o encontra, o transforma em Coringa e o destrói como todos desejavam que fosse feita sua justiça. Depois disso, ele se refugia em sua Bat-caverna e a vida parece voltar ao normal. Mas não na sua ânsia por fazer justiça. Pegou gosto pela coisa e pela máscara.

Em “Batman - Retorno”, o mesmo diretor, o mesmo ator para Batman e um vilão que veio do esgoto e tenta ser político para se vingar da família e do mundo que o abandonou por causa de sua monstruosidade. Um político que sai do esgoto para emergir no asfalto? Parece coisa bem atual e verdadeira... Eles saem dos esgotos, mas não se esquecem de onde vieram, com suas atitudes vis voltam sempre às origens. Danny DeVito foi o Piguim desse filme de 1992, com Michelle Pffeifer como mulher-gato. Nesse filme fica evidente a corrupção, e o povo quase comprando Pinguim com ar de bonzinho, até ser desmascarado por Batman. Ele volta ao esgoto, mas Batman continua sem os aplausos do povo de Gotham.

Como no antecessor “Batman Begins”, no filme “Cavaleiro das Trevas” de 2008 vi um herói sem muita afirmação, failed. Talvez porque não quisesse vê-lo terminar a trama fugindo da polícia. Quem tem que fugir é Coringa, pensei. Disse que Batman parecia um medroso e talvez fosse mesmo. Um anti-herói escondendo atrás de uma máscara.

Voltando à Gotham, a impressão que fica aqui também é que as pessoas têm mais afirmação e aceitação pelos bandidos. Ou não veem neles tanta maldade assim. Fosse o contrário, não deixaria que Batman fosse perseguido. Perceberia nele o defensor da lei, da ordem e da justiça. Não sabemos se é assim que pensam em coletivo, ou se não pensam, mas tudo transparece que pouco importam se ele prende ou não os bandidos. Sendo povo, não nos colocamos no lugar de ninguém, exceto se esse alguém for muito próximo. No resto, iremos confundir sempre Batman com Coringa.

Por que Batman não agrada a população de Gotham City? Pelo mesmo motivo que toda população de qualquer cidade (imaginária ou real), não presta atenção em quem é vilão e quem é mocinho; quem verdadeiramente faz o bem à sociedade e quem é contraventor. O povo não se interessa por Lei; ele só quer saber se sua zona de conforto continua confortável. Batman nunca distribuiu cesta básica a ninguém ou fez campanha pelo seu nome na política. Ele só quis que a população, que ele defende, tivesse mais consciência política e colocasse os atores de sua sociedade nos seus devidos lugares.

Na condição de milionário, Bruce Wayne poderia distribuir parte da sua fortuna e transformar a sua fundação em uma ONG, ajudando os pobres indefesos e excluídos de Gotham; depois equipar a polícia para prender os bandidos, sem parecer Batman. Seria mais bem visto por todos. No fundo, ele escolheu ser Batman, uma figura mascarada, obscura e pouco política; tentando mostrar, quem são os verdadeiros inimigos da sociedade. Mas o povo pouco importa e só quer praia, fazer festa, churrasco e com muito circo para dar risada.

Toda população tende à mediocridade quando só espera acontecer e ser servido. Ninguém quer saber de justiça e ter que pensar; todos querem é que alguém (mais poderoso) dê alguma coisa que não precise se esforçar para ter. Quem clama por Batman como herói somos nós, público, que vamos ao cinema para vê-lo esmagando seus inimigos. Poucos, ou quase ninguém, iria ao cinema se o filme mostrasse a vitória de um bandido. Já a população de Gotham, está acostumada com o bandidismo e pouco importa de que lado ele está.

Saindo do cinema e voltando para nossa vidinha social é o mesmo comportamento, também não enxergamos nossos "Batmans", ou quem simplesmente quer mostrar-nos o lado justo e injusto da sociedade. Queremos os perversos, os corruptos, pelo brilhantismo de serem maus-caracteres e rirem da nossa cara. Gostamos de quem riem de nós - como uma risada mortal.

Na minha infância, os heróis usavam capas, espadas, pistolas a laser, máscaras e voavam. Eram defensores da humanidade, do bem e da paz no planeta terra. Hoje não tenho mais nenhum. Eu não tenho mais heróis. Eles se apagaram da minha memória por anos e não mais voltaram. Sinto saudades dessa pureza. Enquanto podia acreditar eu os adorava, me davam guarita, segurança e confiança. Tudo acabava bem com eles.

Quando ficamos mais maduros deixamos de admirar o imaginário e passamos a admirar-nos em seu lugar. Ou, exercitar a fé em lutar pela vida individual. A espiritualidade voltada cria em nós esperanças. Cada qual vira herói de si.

Gostei quando um sacerdote disse que o mundo cristão precisava passar uma imagem mais humana do Cristo. Caindo por terra a sua infinita santidade e luz – um herói. Para nos servir mais de exemplo é preciso que tivesse mais semelhança conosco na proximidade humana.

Meu pai não foi herói e muito menos bandido. Ele era comum e tinha só o vicio o cigarro, o que lhe acelerou a morte. E nem por isso deixei de me espelhar, ou captei dele alguma coisa que ainda não sei. Foi instantâneo e inofensivo a sua imagem projetada em mim. Os outros meus heróis infantis morreram de overdose ou continuam sendo perseguidos pela polícia. Assim, a história nunca terá um final feliz mesmo.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2012.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Batman, again

Entusiasmei e decidi escrever uma nova crônica sobre Batman. Nova porque em 2008, fiz uma resenha do filme que tinha acabado de ver na época, o Cavaleiro das Trevas (leia abaixo). Nesse novo texto pretendo  deixar de lado o que vi em o Cavaleiro das Trevas e sua falta de afirmação como herói, para tocar no seu lado político; ou por que Gotham precisa tanto dele, mesmo que o tenha achado um tanto covarde e o povo não tenha feito dele um herói como ele é? Para falar a verdade, o povo sente-se pouco atraído por heróis, preferindo os vilões. O texto deve abordar sua realção com sua forma de fazer justiça, com seus violões, Gotham City, Comissário Gordon e os políticos. Aguardem!

Batman x Coringa

Fui ver Batman – O Cavaleiro das Trevas. No final do texto darei a nota para o filme. Antes gostaria de comentar as impressões que tive. Desde o primeiro longa das séries de Batman (Tim Burton -1989) com Michael Keaton ficou sempre aquela sensação de descontinuidade. Cada diretor tirou o seu Batman da cartola. Esse inclusive foi idealizado, ou como diriam, foi levado para as telas por que na ocasião havia saído a HQ de Frank Miller título homônimo “O Cavaleiro das Trevas”. Li o gibi, mas não me lembro bem da história. Era um Batman velho, meio deprê e aposentado. Descoberto pelo seu arqui-inimigo Coringa volta a lutar contra o mal e livrar Gotham City do crime. Nada diferente. Todas as versões posteriores sem Michael Keaton pouco me empolgaram. Achei muito grosseiro. Os dois primeiros foram os melhores, pois mostrava um super-heroi lúcido e viril.

O Cavaleiro das Trevas engana quem pensa que irá encontrar um super-herói que vai lavar nossa alma com suor e justiça, derrotando o inimigo e ainda beijando a mocinha no final. O Batman, de O Cavaleiro das Trevas é pouco eloquente. Nega sua existente, foge de si mesmo, quase um anti-herói. Talvez tenha sido realmente a sua verdadeira identidade. Ele usa a máscara para se esconder, já disse o próprio Coringa. Numa cena desse novo filme Bruce Wayne deixa o promotor Harvey assumir que é o Batman e sai quietinho. Numa outra sequência diz ao promotor que ele é essencial para Gotham pois conseguiu colocar a máfia na cadeia. Este é o Batman de O Cavaleiro das Trevas. Heath Ledger esteve genial no papel do Coringa, por sinal a figura mais centrada, mais firme e transparente da trama. Coringa foi genial, foi melhor que o próprio Batman. O conhecia mais que ele a si mesmo. Numa cena dispara para Batman que precisa dele e ele de Batman; e que Batman o completa. Sabe o que Batman disse? Nada. Calou-se como se dissesse: Você tem razão. No fim, Batman não consegue derrotar Coringa como deveria e é perseguido pela polícia. Os sobrinhos que nos acompanharam no cinema tiveram momentos de bocejos entre uma cena de ação e uns diálogos longos e incompreensíveis. É, deu para bocejar um pouco sim. No melhor de o Cavaleiro das Trevas, Coringa sabia o que queria. Queria o caos, anarquia. tragédia, a ponto de queimar uma pilha de dinheiro que havia roubado. Para Coringa o importante era causar, sem regras. Para Batman ficou a sensação de que não sabia a quem vencer: ao Coringa ou a si mesmo. "Why so serious?" (por que você está tão sério?), disse o Coringa.

Na vida real Heath Ledger (o Coringa) morreu em janeiro desse ano por overdose de remédios. No filme, Batman quase morre em si mesmo. Não foi dessa vez, quem sabe na próxima. Por enquanto está fugindo da polícia de Gotham City. A nota do filme? Seis. (2008).

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um bom lugar pra ler um livro

Em 2010, postei aqui uma crônica sobre atendimento público, suas invenções e particularidades em consonância com o mundo moderno, ou o “aguarde para ser atendido”.

Depois de uma maratona de telefonemas, consultas, cafezinho (com e sem leite), revistas “Caras”, salas de esperas, descobri o óbvio das adversidades cotidianas: unir o útil ao desagradável (tirando do caos o prazer); ou como poder desfrutar de um bom livro, para o infortúnio momento da espera, e sem ninguém para puxar conversa.

Fui ao médico para uma consulta de diagnóstico precoce ou preventivo, nada alarmante. Como de praxe, ele me solicitou exames. Fui atrás das autorizações (tem isso ainda),  para tirar qualquer suspeitas dos problemas ortopédicos, que a idade insiste em me dar de presente. O laboratório refutou a guia médica, disse que faltou um relatório mais minucioso... Bem, aí começou meu drama de um mês. Sai atrás, mas sem pressa de chegar; e depois de alguns telefonemas e retornos, me informaram que o médico havia tirado férias em lua de mel (em Paris, talvez) e só voltaria atender no final do mês – mais trinta dias. Minha impaciência e meu sangue começaram a emergir e ser percebida, quando sua secretária, para se livrar de um paciente chato, me apresentou como sugestão outro especialista, que ela também secretariava. Aceitei prontamente a sugestão, mesmo porque – pasmem! – a consulta era um “encaixe” na manhã seguinte.

Na sexta-feira pela manhã, passei no trabalho e segui para consulta. Detesto ser pontual, em meus compromissos costumo ser adiantado. Então, cheguei ao consultório trinta minutos antes, isso também, porque a chance de encontrar uma vaga na rua antes das oito da manhã era bem maior. E foi verdade, achei uma vaga 20 metros do edifício.

Cheguei à sala de espera (quase vazia) e num silêncio doentio (sem trocadilho). O único barulho era das atendentes que conversavam baixinho, assuntos particulares e riam uma com a outra — baixo para não chamar atenção. A TV ligada (sem som) parecia um outdoor de mensagens e nem o closed caption para ler o que dizia o noticiário. Sentei e esperei. Como senti que aquilo pudesse demorar, me angustiei, por esquecer dos óculos que carrego há um ano quando comecei a não ver mais de perto; por consequência, do livro que chegou pelo correio no dia anterior. Que falta me fez ali. Um bom lugar para ler um livro.

Folhei revistas vendo fotos nubladas, quando uma senhora apontou no elevador. Ouvia sua voz mesmo antes do elevador abrir as portas. “A felicidade é barulhenta”, li do autor do livro que deixei no carro. A mulher arrastava uma perna, e por isso era guiada por sua filha — presunção. Quando ela chegou ao balcão disparou a justificar do seu atraso, porque um carro havia incendiado nas imediações do shopping e ela teve que desviar o caminho; e a atendente com aquela cara e olhar de “e eu com isso...”. Por fim, sentaram-se as duas e a conversa prosseguiu em vozes altas, de irritar as moscas que já dormiam no teto.

Durante aquela longa espera, a mulher acompanhante, tirou o celular da bolsa umas três vezes. Pensei: àquela hora da manhã, deve estar acordando alguém... Na segunda vez foi para acordar alguém mesmo; ela ligou para avisar a pessoa que deveria ligar a TV, pois Luan Santana estava no programa da Ana Maria Braga... A velha senhora ao lado ainda comentou: “agora que ela pula da cama, mesmo!”. Mais alguns minutos de espera, ainda iria descobrir seus signos, o que comem, onde moram e mais coisas sobre a dupla barulhenta, mas fui chamado à consulta.

Voltei ao trabalho e peguei o telefone para marcar um dos exames que o médico — que não estava em lua de mel — me solicitou. Fiquei feliz que o exame poderia ser naquele dia, algumas horas. A atendente me indicou um laboratório dentro de um shopping da cidade, justificando que na matriz não havia vaga para estacionar — coisas da vida moderna.

Com a manhã já perdida por conta disso tudo, dirigi-me ao laboratório, sempre na minha impontualidade e agora com meus óculos e o livro.

Chegando lá, uma situação análoga: ar-condicionado, cafezinho de sachê (três tipos), poltronas confortáveis, senhas e espera (longa espera). Durante a demora pressentida, adiantei boa parte do livro. O exame de radiografia dos pés que caminho, durou menos de 05 minutos. Seria como esperar 50 minutos no embarque do aeroporto para um voo de 30 minutos de São Paulo à Curitiba. Peguei o protocolo da retirada dos exames e fui. Só notei as horas depois, já passava da 01 da tarde.

No caminho até o restaurante, veio à memória outra cena do dia anterior. Precisei ir à agência bancária onde tenho conta. Uma vez por mês me dirijo até lá. Para um atendimento “diferenciado”, subo ao setor “VIP”, das contas especiais. O mesmo ambiente: climatizado, cafezinho de três sabores, mulheres lindas, poltronas confortáveis, TV a cabo e muitos aposentados (supostamente com muito dinheiro em conta). Sentei confortavelmente numa das poltronas com a senha no colo e os olhos no painel. Um senhor “aposentado”, sentado ao meu lado, se virou para mim e disse: conforto, cafezinho, ar-condicionado, TV a cabo, mas o atendimento que é bom, nada! Faz 40 minutos que estou esperando para conversar com um gerente...”. Está aí outra dica. Agência bancária, outro bom lugar para ler um livro.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2012.