Anttonio Oliveira, arquiteto, urbanista e um aprendiz das palavras.
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BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.
Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempo – Carlos Drummond de Andrade)
Cronistas leem outros cronistas para poder se inspirar, ou tirar água da pedra, quando a fonte seca – dar ânimo. Não dá para viver de inspiração a todo o momento; muitas vezes vamos buscar no cotidiano, nos livros, nos filmes e na vida alheia; ou simplesmente nos deparamos com algo em nosso caminho que nos faz pensar mais profundamente na vida. Os objetos, os retratos, as lembranças, em tudo podemos encontrar almas desgarradas e assim desfragmentar as palavras ocultas. Aquelas que só o coração sabe entender.
Perdi um irmão recentemente. Foi dolorido, da lembrança da convivência e agora sem sua presença abriu-se um vazio. Algo que não se preenche com mais nada, só a saudade, ainda doída. Aquela pessoa que nos dávamos e por muitas vezes conversámos tolices cotidianas, agora partiu. Não haverá mais a conversa dos olhos; tudo virou oração.
Minha diferença de idade para ele era 08 anos. Quando era eu criança ele me levava para todos os lados que podia. Lembro-me de uma cena quando ele pediu para minha mãe deixar andar com ele num brinquedo em um parque de diversões; o brinquedo não era para minha idade, mas ele me colocaria no colo, me protegeria. Acho que minha mãe não deixou, pois não me vem a cena dele me segurando. Era caridoso, tinha alma boa, alternando entre o semblante fechado e o riso fácil quando queria.
Tive a primeira experiência de trabalho por intermédio dele. Era ele quem me pagava um pequeno salário, para manter nosso quarto de dormir arrumado e limpo - para mesada não sair de graça. Eu fazia isso todos os dias quando chegava da escola, e quando terminava ia ouvir os discos que tínhamos em casa. Todo final de mês ele me pagava uma quantia, que dava para o lanche na padaria.
Foi nesta época que ele comprou um chevette azul – outro dia me confundi e disse que era verde. Ele vivia lustrando o carro, lavando e encerando - seu primeiro patrimônio. Não sei por que, mas o carro era apelidado carinhosamente por ele de “avião”. Presumo que seja, porque não havia limites em seus rumos e viagens. Com ele íamos para roça pescar, íamos ao estádio ver jogo de futebol e para onde quisesse. Tenho uma lembrança nítida, dele lavando o carro todo final de semana em frente ao nosso portão. A lembrança desse carro me veio nesses dias após sua partida e trouxe-me aqui a saudade que descrevo nessas curtas palavras que lhe rendo. Estas que brotam do coração.
Nesses dias, ainda tragado pela dor, entre muitos abraços que recebi, veio uma frase que guardei, e de certa forma, abreviou um pouco meu sofrimento e de todos os seus queridos que ficaram: “As pessoas não morrem, elas apenas vão à nossa frente, abrindo o caminho”. O avião azul, agora encontrou o seu dono, num voo infinito, no mais longínquo céu...
Enquanto ateava fogo à lareira, o bondoso corretor de imóveis narrava uma pequena história à Frances:
“Senhora, entre a Áustria e a Itália há uma parte nos Alpes chamada Semmering. É uma região de montanhas muito íngreme e alta. Assentaram os trilhos nessa parte dos Alpes para ligar Viena e Veneza. Assentaram os trilhos antes mesmo que houvesse trem para percorrer o trajeto. Construíram porque sabiam que um dia o trem chegaria”.
De Viena à Veneza são 420 quilômetros, Semmering está no meio do caminho, com suas montanhas quase intransponíveis e belas paisagens – uma estância turística. O tramo ferroviário de Semmering possui 41 quilômetros de longitude e foi declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO, em 1998. De fato, era ousado desbravar esta região montanhosa. Aquele corretor sabia o que estava dizendo ou ele tinha boas razões para afirmar que não devemos nos preocupar com a vida e seus “porquês”; tenham sonhos e assentem os trilhos, o trem um dia vai chegar.
O universo conspira com nossos pensamentos, aspirações e ações; abrindo trincheiras, construindo pontes e caminhos. Chegará o dia em que iremos atravessar por eles e perceber que nada foi em vão, valeu ter lutado. Perguntas sem respostas, distâncias percorridas, vidas doadas — tenhamos paciência e deixemo-nos seguir. Pode ser que tudo mude no meio do caminho, mas haverá sempre uma vida a nos esperar. Apontemos o horizonte como uma seta; conheçamos bem a região, as matas e as montanhas que iremos desbravar; carreguemos chulipas nos ombros e as assentemos; depois sobre elas, os trilhos — bem fixos. Um dia chegará a hora de o trem passar.
Na minha profissão, sou encarregado em planejar. Poucos administradores públicos dão importância a essa questão; não há resultado imediato em curto prazo, há que se debruçar sobre os mapas, sonhar e acreditar. Vivemos a planejar a cidade que queremos no futuro. Aqui haverá uma ponte, um viaduto, uma estrada, uma estação, uma praça para descansar... Não sei quando, mas terá. Talvez não viva o suficiente para ver, mas gosto de imaginar as coisas longínquas, futuras. A quem servirá minhas ideias? Difícil dizer. Eu também me beneficio de um mundo onde meus antepassados também traçaram. Eles também pensaram em mim.
Vasculhando minha infância, no caminho da escola, eu avistava todos os dias uma casa exótica de três andares. Cada metro de fachada era uma miscelânea de peças estampadas — sem arquitetura. Meus coleguinhas da época, diziam que o proprietário, construía essa casa há mais de 20 anos, sozinho. Ficava curioso com o que deveria haver lá dentro; ao mesmo tempo, entender da sua paciência em assentar tijolo por tijolo. Ele não teve pressa, sabia esperar a hora, um dia entraria na casa.
No meu primeiro dia, pela janela do ônibus, via a luz do dia ser sugada pela noite que caía naquela serra de luar. Algo me sufocou, era outra cidade, era um desafio nos meus 20 e poucos anos. Pensei: hoje é só o primeiro dia de cinco anos que tenho que cumprir; viajar, aprender, recomeçar, fazer novas amizades, me relacionar; um sacrifício, como se toda a vida findasse ali. E depois? Será que vou suportar? Será compensador? É isso que quero para minha vida? Perguntas e perguntas, enquanto olhava a estrada. Na primeira aula de introdução à arquitetura, o professor também nos encurralou: Vocês querem mesmo a arquitetura, sabendo que terão que ralar muito osso para serem bem remunerados? Houve um silêncio sepulcral na sala de aula. Não me abati e enfrentei. Os cinco anos se passaram como um vendaval que se aplacou; e já faz 20 anos da minha graduação na faculdade de arquitetura. Amizades construídas, obras projetadas. Tudo passou como tudo também ficou guardado.
Há dias em que acordamos inquirindo à vida. O que estou fazendo aqui? Como vim parar nessa cidade? O que me trouxe aqui? O que farei daqui em diante? Onde me levará essa estrada? Por não encontrarmos a resposta imediata (is blowing in the wind), achamos que estamos diante de um abismo e o fim será a sua queda; e viver será a angústia pelo desconhecido, ou sua grande aventura. E com isso vem o medo de viver, de pisar. Ou devemos voltar ao ponto inicial? Não dá mais.
Há mistérios demais na vida e quase todas as respostas estão pairando no vento, como já disse Bob Dylan. Vale, então, o olhar da paciência, da esperança e da fé; compreender e aceitar os caminhos que iremos percorrer e viver sem ter muitos questionamentos quando as portas se abrem (ou se fecham). Há momentos únicos e de encontros; onde os sonhos se concretizam; onde as vidas se juntam e ruas se cruzam; a noite vira dia, o mar encontra a terra; onde os enigmas se decifram (sentem) de uma forma ou outra. Faz-se luz, onde parecia haver só o breu. Ou, como disse a mulher árabe: maktub — está tudo escrito; está tudo traçado na palma da mão, ou nas estrelas...
O que buscamos? Por que caminhamos? Se for felicidade o que ansiamos, não tenhamos dúvidas quando encontrar. Se for o amor, saibamos reconhecer suas nuances, feições e sinais. Pode ser que ele já esteja ao nosso lado, e o desprezemos. Se não soubermos o que almejamos, quando encontrar, também não reconheceremos. Não há busca sem razão. Se não soubermos o que buscamos, poderemos nos deparar também com o que deveríamos desprezar.
Semmering era um obstáculo natural e o trecho dos trilhos tinha muitas razões para existir: ligar duas cidades, dois países, duas culturas, dois povos. Não havia um sentido qualquer, desprezível. Era justificável, que se fizesse os trilhos antes da chegada dos trens. Quem planejou, foi alvissareiro, um visionário, sem medo do erro e do futuro. Na hora certa, o trem chegou e tornou aquela paisagem à vista dos olhares e contemplativa por muitos turistas. Viena se ligou à Veneza pelos trilhos das montanhas quase intransponíveis. Isso é louvável.
Ah, a história inicial do corretor de imóveis é do livro/filme “Sob o sol da Toscana” (Under the Tuscan Sun) — 2003. No filme, dá para fazer uma viagem pela Toscana, com toda sua exuberância; ainda há a graciosidade de Diane Lane. Mas, agora eu fiquei com vontade mesmo de deslizar pelos trilhos de Semmering — as montanhas. A que horas passará o trem?
A encomenda não chegou, mas o gostoso, o mais doce é a espera, quanto tudo nos surpreende. O lado bom da surpresa é nos despertar do mal-estar e nos pôr de volta à vida — em forma de resgate. Hoje o mundo virtual — das compras online — nos dá esta satisfação. Compras pela internet são assim: você compra e paga, depois espera chegar, até exaurir a paciência do porteiro do seu prédio de tanto perguntar: chegou algo para mim? Antes, quando um disco novo saia, íamos à loja e comprávamos; a curiosidade e a surpresa acabavam até chegarmos em casa abrirmos a embalagem e pôr na agulha para tocar. Foi assim quando adquiri meus discos, nos tempos dos long playing. Hoje, atormentamos ao porteiro tarde da noite, até ele, impaciente, dizer: "Senhor, nesta hora não entrega mais SEDEX...". Vamos dormir na incompletude, e botando a culpa no pobre.
Gosto de surpreender com coisas e notícias boas (quem dá notícia ruim é o Zé velório). Quem tem esta prática, se delicia com os olhos de quem recebe. Não precisa haver troca; tudo já foi retribuído no olhar que brilhou ao ver a caixa de presente, ou a faixa de pano estirada na esquina da casa dela, ou por ler um simples e-mail. E o melhor do mundo é quando tudo vem, aparentemente, do nada; digo, sem data de aniversário, ou nenhuma data comemorativa; simplesmente pelo gesto, ou porque precisava dizer aquelas doces palavras. Conheço pessoas que gostam mais de dar do que receber presentes.
Cesta de café da manhã é algo que já recebi. Gostei muito. Primeiro, porque estava apaixonado e depois porque curto uma mesa com café, sem hora para levantar dali. Mas, já tive outra surpresa que recebi mal. Uma vez recebi um buquê de flores. Quem deu fez com boa intenção e paixão, mas minha cara não negou que não gostei. Ela até se irritou e com razão. Eu era imaturo, por não saber que seu gesto foi grandioso; e ela não era obrigada a saber que muitos homens se sentem desconfortáveis, ou diminuídos na sua masculinidade, quando recebem flores. Homens nem têm jeito com flores. Mas, para mim, naquele momento, era: homens não recebem flores. Fui grosseiro na cara, depois me arrependi. Se ela me desse uma bola de futebol, iria gostar mais, com certeza. Depois, pensei: acho que gosto mais de surpreender do que ser surpreendido.
Para os consumistas, vai uma dica: é melhor fugir das compras online e principalmente das compras coletivas. Ponha tais e-mails para cair diretamente na lixeira. Surpreender a si mesmo, às vezes vicia. Surpreenda, então, quem você ama. Assim, poderá fazer nas vezes quando o amor te sufocar.
Era tarde de um domingo ensolarado de outono, 01 de junho de 1980, o Flamengo e Atlético-MG se encontravam para decidir o título do campeonato brasileiro daquele ano. Mesmo sendo torcedor do Palestra, minha torcida naquela final era para o Atlético, ou melhor, eu era ReinaldoFC. Reinaldo era meu ídolo, incontestável. Nas peladas de rua, eu sempre usava seu nome (em vão) para as minhas jogadas de mestre; imitando seu gesto a cada gol que marcava. “Rei” era o Tostão do Atlético e quando parava com o punho fechado para cima, não dava outra, o goleiro estava estirado na grama — era mais um gol de Reinaldo. Mais tarde, descobri que esse gesto comunista, era na verdade um protesto contra o regime militar, que o Brasil vivia seus últimos capítulos. O Atlético perdeu o título ou o Flamengo ganhou por 3 a 2, pouco importava, pois para mim, Reinaldo tinha dado seu show, até o árbitro tê-lo expulso de campo.
Três anos mais tarde, em 1983, o Flamengo decidia novamente o título, agora contra o Santos. A final foi dia 29 de maio e novamente vitória do Mengão de Zico e Cia. Nesse domingo, quiçá, fosse mais um dia de futebol, macarronada com frango, casa cheia e com as torcidas para os dois lados. Naquele dia, a movimentação à tarde em nossa casa, tinha outro motivo e sabor; tínhamos a missão de ensaiar a música para a final do festival, e compensar o fracasso da nossa torcida na primeira noite do V FECAP — Festival da Canção Peregrina. Mesmo intuindo, que os jurados ficaram comovidos com nossa música na sexta-feira, nossa torcida foi um fiasco; muito dispersa, um tanto atrapalhada e desorganizada para os moldes daquele festival, que premiava também a melhor torcida. A família, os amigos, todos se somavam na sala, no corredor a picar papéis e enchendo sacos de plástico – tudo para a noite da grande final. Havia uma sensação no ar que os deuses da música olhavam para aquela casa naquela tarde. Eu sentia isso.
Quando a noite chegou, seguimos para o ginásio, uns de carro, mas a maioria num ônibus fretado. Um tremor acometeu em meu peito — quase incontido. Atônito, aceitava todos os drinques que me ofereciam. Era preciso relaxar, para não errar nenhuma nota da flauta doce que introduzia a música. No sorteio, para ordem das apresentações, nossa música era a última das dez classificadas. Isso era bom sinal, já com o público aquecido e esfuziante. Em compensação, a espera era pungente.
Após assistir impaciente as nove concorrentes, chegava, por fim, nossa vez. De camisetas vermelhas com estampas brancas, subimos ao palco em dez para defendê-la. O Plantador da Paz (de Claudinho e Gajão) tinha uma letra com tema social: ”Fazer valer a força da paz, que eu pensei nunca ser capaz de alcançar/e refleti como se fosse um farol/ no seio do povo/como um brilho do sol”. Era uma música de festival, daquelas, cujo refrão, evocava o público a cantar junto. Contagiou o ginásio todo. Quando descemos do palco, tivemos a certeza que demos o melhor de nós; agora, isso se concretizaria em vitória? Era uma fantasia, não dependia de nossos esforços mais.
Com os jurados reunidos, ficamos apreensivos, imaginando que poderíamos ficar pelo menos entre as três primeiras, era justo. Quando, finalmente, as músicas começaram a ser anunciadas uma a uma, eu murmurava baixinho ao lado do palco: “agora somos nós”, e não era. Minha sofreguidão se desmilinguiu, quando o apresentador nos anunciou como vencedores daquela noite; aquele festival, onde entramos como meros coadjuvantes, sem intenção nenhuma em vencer. Foi a glória.
Saímos de lá consagrados e mais amigos do que nunca. Após os abraços da vitória, lembrei-me, naquele instante, de meu ídolo do futebol e repeti novamente o gesto de Reinaldo. Levantei o punho fechado para gritar aquele que seria o melhor gol da minha linda juventude. Foi um salto para o céu, daquela juventude que cantava e plantava a paz com suas músicas recheadas de amor e intimismo. Nossa linda juventude viveu naquela noite o seu êxtase. Para mim, o dia mais feliz daqueles vinte anos. Se comparada, uma sensação como as vividas, na década de 60, por Edu Lobo, Chico, Vandré e outros no palco do Teatro Paramount. Nossa canção não vinha de encontro aos padrões daquele festival, mas era, sim, a melhor.
Formamos ali uma família, na música, na amizade e demos o nome de Clube da Esquina nº3. Passados 28 anos, ainda tenho aquele domingo guardado na minha memória, e uma frase que o meu irmão escreveu, parece ainda grafitada no muro da esquina da rua, onde nos encontrávamos para tocar violão: “Enquanto existir neste mundo qualquer tipo de violência, sempre haverá em qualquer esquina do mundo, uma juventude cantando todo tipo de paz”. Nunca me esquecerei da nossa linda juventude, agora marcada e grafitada para sempre no muro branco da minha alma. Daquela noite, ficou o registro de uma fotografia, que alguém cuidou em guardar, o resto são memórias de uma noite em 83.
Abri meu baú de memórias e revivi - tirando o pó - um dia dos meus 20 anos. Uma noite de alegria, que passei ao lado de meus amigos da época. Gosto de abrir baús, mas lamento pelas cartas de amor que rasguei ou devolvi à emissária, nos meus momentos de fúria. Lembro-me de uma que recebi nessa época dos 20 anos, veio de Minas. Depois do fim, levei-a até o quintal e pus fogo. Hoje, lamento não ter guardado, faz parte da minha história; agora não sei mais com que palavras eu fui tratado; se era tinta azul ou preta; qual a data; que cheiro tinha (cartas de amor tem cheiro); nem se havia um beijo com batom no final; e se terminava com P.S I love you.
Mas meu baú de memórias, anda cheio de coisas, boas e ruins. Enquanto tomo meu chocolate quente (ouvindo Samba em Prelúdio), olho a neblina dessa manhã de sábado e vem muito das lembranças da vida, do trem da minha história. A propósito, um trem será tema de uma próxima crônica, que já pincelei. Acho que não se deve olhar para o passado com tristeza, mas como lições. Sou contrário ao emprego daquela frase "era feliz e não sabia". Na verdade, sabia sim! Todos os momentos da vida que vivemos felizes, nós sabemos, não temos é coragem de assumir a felicidade presente. Medo de dizer e acabar.
O próximo texto aqui do Blog, falarei de "Uma noite em 83". De fato, eu já havia feito essa minuta de crônica , com algumas palavras lançadas no papel em branco - nada conclusivo. Agora, retomei a conversa e pus as mãos na poeira do meu baú. Saiu uma cronicazinha boa. O título é alusivo ao filme "Uma noite em 67" - a noite que mudou a nossa música popular. Quem quiser ver o filme documentário, assista. Só faço uma ressalva, pois o DVD, deixou Elis Regina, Nara Leão e Sidney Miller nos extras. Uma pena.
Bem, meu chocolate está esfriando e a neblina se dissipando. Hoje será um dia feliz e com sol para uma caminhada no parque, e com coragem para dizer: EU SOU FELIZ HOJE!
Durante uma noite, quando navegava pela rede, descobri – sem querer - um texto escrito três dias depois da morte de Marilyn Monroe (a pronuncia certa é “monrôu”). Essa crônica, intitulada apenas “MARILYN”, foi publicada no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 08 de Agosto de 1962 (ela morreu dia 5). Seu autor é o cronista José Carlos Oliveira. Desconheço seus textos, mas este vem bem de encontro ao que escrevi sobre ela. O mito, a mulher, a sensual Marilyn Monroe.
MARILYN
Antes de mais nada era um corpo, não há dúvida. Um corpo tremendamente perturbador. Um corpo de formas opulentas, sempre na fronteira da obesidade: corpo de mulher-fêmea, acrescido de um defeito particularmente feliz nos joelhos: quando ela andava, só pensava em sexo, sexo, sexo. A pele clara e roliça descia vertiginosamente pelos decotes, deixando entrever a totalidade do corpo envolto em roupas colantes, e então ninguém mais pensava em outra coisa que não fosse sexo. Mas era, além disso, um sorriso maravilhoso, ao mais belo sorriso que jamais houve. Quando Marilyn sorria, a perturbação do espectador aumentava. Ela sorria com a língua entre os dentes – dengosa, maliciosa, pura dádiva. Era a feminilidade em pessoa. A alegria em pessoa.
Ela não teve infância. Nem pai, nem mãe, nem família. Cresceu como enjeitada em sucessivos lares. Não há motivo para atribuir à publicidade a informação obtida no momento supremo da glória: - violaram-na aos sei anos de idade. Há um detalhe praticamente infalível na biografia dessas deusas da beleza, sejam atrizes ou call-girls, de acordo com o inquérito e com os depoimentos de psiquiatras: - nos Estados Unidos, a violação de meninas bonitas ocorre com a assustadora frequência. Humbert Humbert, atormentado pelo encanto da nymphets, não é apenas um momento privilegiado do romance moderno, mas a revelação de um desejo que está presente na aventura íntima do cidadão norte-americano, desejo ara o qual Lolyta provavelmente representa um veículo liberatório eficaz.
Marilyn encontrou na história do cinema pela porta do menor esforço, isto é, tão logo descobriram que tinha corpo. E tão logo decidiu revelar-se na totalidade sua pessoa, isto é, corpo e espírito, sensualidade e tormento, ânsia de felicidade e desconforto no pináculo da fama – humana, frágil, sedenta de afeto, incompreendida e solitária – então, foi deixada em paz. Naquela paz desconfortável, naquela pobreza profunda da vida rodeada de riqueza e mentira. Mas eu pensei muitas vezes que o ser humano é indestrutível, porque toda a vergonha daquela infância e, mais tarde, o selvagem mecanismo que cria e devora os ídolos modernos, nada disso conseguira destruir o maravilhoso e inesquecível sorriso de Marilyn. Agora vejo que estava enganado.
Por José Carlos Oliveira
Jornal do Brasil – 08 de agosto de 1962
Sobre o autor:
José Carlos Oliveira (Vitória, 18 de agosto de 1934 - Vitória, 13 de abril de 1986) foi um escritor brasileiro. Celebrizando-se por suas colaborações diárias no Jornal do Brasil para onde escreveu por mais de duas décadas, tornou-se um dos grandes cronistas brasileiros do século XX, mas praticou também o romance e o memorialismo.
Quando pensei em escrever essas linhas, era
pretenso que o texto fosse jocoso, cômico; pinçadas textuais como referência às
comédias dos anos de 1950, protagonizadas e estreladas por Marilyn Monroe. Aos
poucos, enquanto mergulhava em sua vida, aparecia mais e mais a sua verdadeira
silhueta: medos, perturbações, insegurança, frustrações, vozes, dualidade e as
buscas (sem remédio) para uma mente doentia. Percebi a seriedade que
deveria tratar a pessoa, e, consequentemente, o mito que desejava descrever.
Já faz alguns meses ganhei de uma amiga o livro
“1001 filmes para ver antes de morrer”. Para cinéfilos, um belo presente, um
livro de consulta e profícuo. Se conseguir ver a metade dos filmes ali
recomendados, já estarei satisfeito. O livro seria perfeito — minha amiga vai
brigar comigo —, se não faltasse um filme. Cadê, senhor editor, “O pecado
mora ao lado”? Você esqueceu! Você não gosta de Marilyn? Já sei! Como todas
as outras mulheres feias e desprovidas de “sex appeal”, sua mulher o
proibiu da recomendação do filme. Despeito, Marilyn ainda vive e continua
causando com ou sem a inveja de sua mulher. Mas, pode dizer que não há
mais nada além de Marilyn naquela comediazinha sem tempero; aceito, afinal o
que mais precisaria aparecer naquele filme do que a figura de um mito. E
maravilhosamente linda.
Verdade mesmo, ele não se esqueceu dela, esqueceu só
do filme. No livro, cita o filme “Quanto Mais Quente Melhor” — 1959, também
estrelado por Marilyn, mas a cena ali foi roubada pela interpretação de Tony
Curtis e Jack Lemmon fazendo papéis femininos. Mas, em “O pecado mora ao
lado” (The seven year Itch) é todo de Marilyn. O título do filme é
justificado pelo que ela representa: a encarnação do próprio pecado.
Frequentemente flertamos com o pecado em nossa vida, mas abolimos a sua
pregação e juramos não mais cometer (eu juro!). “O pecado é que dá
tesão e não a liberdade sexual” — disse Luiz Felipe Pondé. Marilyn é sua
própria encarnação na Terra. Olhar, desejar, pensar em Marilyn é pecar
mortalmente.
Revendo o filme — sempre com os olhos mais atiçados
—, como se esquecer daquela cena imortal do vestido que se levanta ao vento da
grelha do metrô? (Sente a brisa do metrô. Não é uma delícia?) Qual
meninão (ou homem feito) não tenha tocado o chão com suas babas naquelas pernas
torneadas e a inocência da personagem tentando segurar a barra do vestido
plissado? Ela nem precisou tirar a roupa, aquela cena bastou todas as outras
provocantes já feitas no cinema. Seu marido na época, Joe DiMaggio, quase teve um
ataque quando acompanhou-a no set de filmagem; com a cena sendo repetida
mais de 15 vezes — mesmo sabendo que ela usava duas calcinhas, bem comportadas.
O casamento se ruiu após esse dia, ela pediu o divórcio por não aceitar
mais viver com um marido ciumento que a batia covardemente.
A cada repetição — e não me canso — de “O pecado
mora ao lado”, um centímetro a mais de seu vestido se levanta naquela cena;
Marilyn Monroe está cada vez melhor... Os argentinos dizem o mesmo
de Gardel: “está cantando como nunca”; Marilyn está cintilante, também,
como nunca. É a figura do mito, vivo, presente, imortalizado em nossas
memórias. No poema “Ulisses”, o poeta português Fernando Pessoa
descreve: “O mito é o nada que é tudo / O mesmo sol que abre os céus / É um
mito brilhante e mudo / O corpo de Deus, / vivo e desnudo”.
Os mitos atravessam os tempos, não morrem jamais.
Eternizam como águas nas fontes, jorrando sem parar. Ela é daquelas mulheres
que vieram ao mundo não para ser uma dona de casa, criar filhos, amar um só
homem e viver anônima. Aterrissou aqui para ser estrela, deusa, bela, blonde,
sensual, provocante, fonte infinita e inquieta de beleza... Suas curvas e
silhuetas são injustas às demais obras humanas já desenhadas, provocando um sentimento
ambíguo: se ama Marilyn, se odeia Marilyn — na mesma frase. Uma mulher arguta,
que faz qualquer ser humano sair de sua compostura, até os sem pecados... E vão
dizer que não precisa de talento para isso? A natureza a esculpiu como suas
melhores obras de arte, na forma mais perfeita e generosa. Assim, como nas
palavras que trago de Rubem Alves: “a alma não se cansa da beleza. A beleza
é aquilo que faz o corpo tremer”. Em outro trecho completa: “tive
vontade de chorar por causa da beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que
ficou arrepiado: a beleza se fez carne”
Marilyn é tudo que se pode se dizer de beleza na
inquietude do ser. Um altar contemplativo. Desculpem-me as magras (modelo de
beleza atual), mas ser Marilyn Monroe é essencial. Não há nela, a silhueta
retocada com foto shop, com lipoaspiração e plásticas antes dos clicks e
filmes — truques muitos utilizados hoje em dia. É possível notar, em algumas
cenas, que ela tem até uma barriguinha, bem sutil. É beleza mesmo, pura, sem as
máscaras tecnológicas de hoje, que escondem até o umbigo.
Marilyn nasceu Norma Jeane. Ainda bebê, nos
primeiros dias de vida, sua mãe Gladys Baker — sem condições psicológicas de
criá-la — entregou-a a um casal de desconhecidos. Mãe e avó sofriam dos mesmos
problemas. Contam que, sua avó fazia da gaveta da cômoda o seu berço. Infância
sofrida por muitas perdas e lares arruinados. Depois da morte da avó, a vida da
pequena Norma Jeane foi de casa em casa, até parar num orfanato. Durante um
curto tempo, foi obrigada a viver com sua mãe; uma mulher esquizofrênica,
psicótica e desequilibrada; tão doida — talvez mais — quanto o pai que nunca a
conheceu. Certa vez na infância, num momento raro de lucidez, sua mãe lhe
disse: morra na hora certa! (no auge). Ela obedeceu. Após ter vivido o seu
último romance, com John Kennedy, o presidente dos EUA, Marilyn morreu em
agosto de 1962, aos 36 anos de idade, de causa mortis ainda suspeita.
Ele também morreu um ano depois em Dallas-Texas, por tiros disparados por Lee
Oswald. Algum roteirista sádico poderia ter escrito que ele teve inveja do
presidente garanhão. Eu também teria.
No verdadeiro roteiro da vida, que a levou do
estrelato à morte, ela não soube lidar como os traumas da infância, com o
sucesso galopante, a fama, o sexo, os calmantes para dormir e não dormir, o
desejo dos homens por ela, seus casamentos e com a personagem que criaram para
Norma Jeane; se vendo escravizada por ela até sua última gota de sangue. “Os
homens não me veem, eles me olham” — disse ao seu psicanalista. Faltou-lhe
o quê? O berço necessário da infância, a estrutura familiar, o preparo
para uma carreira de sucesso, o amor das pessoas ao redor? Tudo, talvez, numa
vida curta, onde a única coisa que lhe sobrou, foi beleza em torrente. Ela até
tentou ser normal, mas sem sucesso, ela era Marilyn Monroe.
Depois do fim do casamento com Arthur Miller,
desabafou: “tentei melhorar um pouco, e quando consigo, descubro que estou
imitando eu mesma”. Pobre menina, ela só queria ter uma vida normal, casar,
ser mãe, ter família... Tudo que não teve. Por muitas vezes, dizia invejar as
pessoas de vida comum — se queixava à sua meia-irmã Berniece. Mas, foi tragada
pela fama, levada pelo glamour; subjugada pela personagem que mais soube
representar em sua vida: Marilyn Monroe. Nunca mais voltou a ser Norma
Jeane. Longe das teorias conspiratórias, foi roubo de vida mesmo; digo,
Marilyn Monroe, sequestrou, aniquilou, manteve em cativeiro e viciou Norma
Jeane até sua morte. Ela tentou matar Marilyn da sua vida; quem morreu foi Norma
Jeane, a vida real. Não há outro fato histórico que prove o contrário.
Nesse ensaio com Marilyn, descobri, com seu
hipnotizo que imanta meus olhares, o mais doce pecado. O que podemos fazer
mais com uma taça de champanhe e um saco de batata chips? Pecar com Marilyn, é
claro. (Não se preocupe. Está tudo bem. Um homem casado, ar-condicionado,
champanhe e batata chips. É uma festa maravilhosa...). Descobri depois, na
pele que cobria Norma Jeane, havia Marylin Monroe; e na sua tez todo pecado,
que convida a maltratar e açoitar quem se deixa levar por sua beleza
inquieta. Descobri, por fim — já numa forma de rendição —, que o pecado não
mora mais ao lado; o pecado, agora mora dentro de mim.
Muitas vezes sou chamado a explicar da minha não paternidade. Sim, as pessoas vivem a cobrar você disso e daquilo (já toquei no tema em outra crônica). Mulheres são cobradas e os homens também. Enfim, convivemos com isso. Neste assunto, não me importo em entrar (sem explicações Divinas...) e deixo que tudo se expire e se esvazie. Sinto-me como um ator que foi chamado para atuar num filme; estava no elenco, sabia o roteiro, decorei o script, mas na estreia, o projeto do filme foi cancelado. Continuo sabendo tudo do filme, mas não fui o ator que todos esperavam ver nas telas. Ser pai é, sem dúvida, uma das tarefas (papéis) mais difíceis; saber o script é obrigação, há que se ter preparação e dedicação. Principalmente no mundo em que vivemos, com suas fórmulas instantâneas para tudo e efêmero nas suas particularidades. É muito difícil educar, eu sei.
Içama Itiba é mestre em falar de assuntos de educação. Suas palestras começaram a brotar aqui e ali, e seus livros foram devorados por muitos pais, depois do caso Isabella Nardoni. Já foi o tempo, educar filhos era instintivo, como vestir um calçado ou andar para frente; passava de geração para geração, avós para pais, pais para filhos e filhos para filhos. Sem literatura ou fórmulas. Todo mundo respeitava todo mundo; e o mundo, creio, era bem melhor. Quando Oprah Winfrey perguntou à primeira dama dos EUA, Michelle Obama, como era a educação das filhas Sasha e Malia, ela foi imediata: “Não há nada de especial. Crio como meus pais me criaram: hora para desligar a tv, fazer as tarefas de casa e quando acordam, elas arrumam suas camas...”.Vindo de uma família que, pela posição de poder, teria todas as regalias do mundo para criar filhos, eis um belo exemplo. Michelle foi simplista ao lembrar-se da educação que obteve dos pais e quis resgatar. Quando ela palestrou aqui no Brasil, eu fiquei admirado com sua inteligência e carisma, agora mais ainda.
Não existe ditado mais antigo: a família é a célula (do lat. Cellula – estrutura básica que forma todos os indivíduos) da sociedade. As novas famílias estão perdendo a didática e a raiz; assim, mandam os filhos para escola, não para serem alfabetizados, mas pensando serem educados pelos professores. Delegam os primeiros passos de um indivíduo, na sua formação — onde tudo pode ser mudado ainda —, aos mestres. Esses, porém, não se veem obrigados a educar filhos dos outros. E aí veremos, tanto no ensino público como no particular, professores sendo ameaçados em sala de aula. Na minha formação, ninguém mandava filhos para escola, com o intuito que a pobre professorinha educasse o comportamento do fedelho. Tudo iniciava em casa.
Um jornalista me chamou atenção, para outra regra, que anda em moda nos dias de hoje: “seja o melhor amigo do seu filho”. Errado! Amigos passam a mão na cabeça, compartilham coisas erradas, muitas vezes estimulam o mal e são corporativos com suas vontades e vícios. Pais devem educar, se impor, dar e exigir o respeito; situar o indivíduo (filho) no mundo, para que ele não atravesse o sinal vermelho e invada além dos seus limites. Amizades, boas ou más, ele irá fazer na sua vida. E por elas fará suas escolhas. Nenhum pai deve ser o melhor amigo do filho; ele deve ser, sim, o melhor pai para o seu filho.
De um palestrante, ouvi a maior desculpa dos pais quando descobrem que seus filhos estão caminhando à margem da sociedade: “eu não tenho tempo...” Caso detalhado de um casal de médicos, que trabalhava 12 horas por dia, e não sabia que seu filho de 16 anos, tinha um pé de maconha plantado num vaso dentro do armário do quarto. Quando o garoto procurou ajuda externa e os pais foram chamados, a resposta foi essa: “não temos tempo...” Creio, ao passar dos 40 anos, já posso considerar que escapei dessa cilada da vida, as drogas. Sem vícios, me considero um privilegiado de um mundo que se construiu a minha volta, onde fui chamado a praticar o mal, mas lembrava de meus pais dentro de casa e tudo fez com que mudasse o leme do meu barco para águas calmas e limpas. Eles tiveram tempo e eu os mirei.
Para a colunista Bárbara Gancia, a palavra em português de mais aproximação para a tradução de bullying é “intimidação”. Não sei por que até hoje não há tradução; quem sabe, haveria mais compreensão na sociedade brasileira para este mal. Na verdade, a coisa começa dentro de casa também, na educação. Aceitar o outro como é, torna-se princípio básico para esta questão, que tanto nos atormenta e já motivou muitos crimes bárbaros, inclusive no Brasil. O filme “Um sonho possível” — 2010, retrata uma família que vive sem preconceitos, sem fronteiras racistas, com tolerância e amor ao próximo. Onde um jovem negro sem teto é adotado por essa família branca. A conquista pelo jovem Michael começa dentro da high school, com os filhos bem educados da família que o adotou depois. As crianças, em nenhum momento, viram o pobre Michael como os demais, com preconceito. Desde o princípio o trataram como um ser humano, sem distinção. Imperdível.
Ainda sobre o bullying, a coisa não é atual, como se supõe. Conheço uma mulher que, aos 13 anos em 1981, sofreu discriminação e intimidação num colégio na minha cidade, inclusive por suas próprias educadoras. Sistematicamente, era corrigida a falar “escola” e não “iscola”; a falar “Ê” ou invés de “É”, como assim se pronunciava, de onde veio no Rio de Janeiro. Para piorar, um aluno que sentava atrás da sua cadeira, cortou o seu cabelo com uma tesoura, aos olhos da educadora. Imediatamente seu pai a retirou daquele lugar, que chamavam de escola. O episódio desencadeou uns meses de depressão na menina. Foi bullying por preconceito.
Entre criar filhos e educar filhos há um abismo a ser vencido. Muitos pais abastecem seus filhos das necessidades básicas: alimentação, vestuário, play station, computador e por aí ficam. E mal sabem que, a educação realmente está na ponta, na raiz, na célula. Quem está de fora percebe isso melhor. Os dias de hoje são cruéis nas formações familiares. Perdeu-se o controle, perderam-se os princípios morais e religiosos. Meus pais eram poucos instruídos, mas o baú com heranças morais e religiosas estão guardados em mim. Eu pedia a bênção aos meus pais e avós a cada encontro, a cada dia. Dou graças a eles por ter errado menos na vida.
Como já disse não sou um especialista em educação de filhos, mesmo porque o universo me privou dessa dádiva — não lamento por isso. Mas vejo muitos pais, sem o cuidado necessário para preparar o indivíduo para um mundo desconhecido, o futuro. Isso está em todos os ambientes sociais, na plebe e na aristocracia. Em tudo vale a regra desses princípios: não roubar, respeitar e amar o próximo, não invejar, não trair, não corromper, não matar... Criar não é o mesmo que educar. Educação requer dedicação e não é um prato de comida sobre a mesa.
QUE SE passa contigo, Brasil? Leio e pasmo: o país da alegria está afundado em tristeza. O periódico médico "Lancet" investigou. Sentença: as doenças mentais são as principais responsáveis pelos anos de vida perdidos no país devido a maleitas crônicas.
Depressão. Psicoses. Dependência de álcool. Em São Paulo, um em cada dez adultos está na fossa. Será que Nelson Rodrigues tinha razão quando dizia que a maior forma de solidão é a companhia de um paulista?
Os especialistas avançam com explicações científicas para apaziguar o abismo. Existem causas bioquímicas, que antigamente eram difíceis de diagnosticar ou tratar. Existe uma longevidade humana que aprofunda os problemas mentais.
Certo, tudo certo. Mas posso sugerir ao leitor deprimido um dos mais importantes livros sobre a nossa desgraçada condição?
Pascal Bruckner escreveu-o, e o título diz tudo: "A Euforia Perpétua - Ensaio sobre o Dever de Felicidade" (ed. Bertrand).
Não, não é um livro sobre o Brasil e a imagem solar e carnavalesca para consumo turístico. É um livro sobre a natureza da felicidade no Ocidente pós-moderno, o que implica uma comparação com o Ocidente pré-moderno.
Regressemos à Idade Média. E perguntemos aos nossos antepassados o que significava a felicidade para eles. A resposta oscilaria entre o riso e a estupefação. Felicidade? Para homens que transportam o pecado sobre o lombo e se arrastam por um vale de lágrimas?
A vida é passagem. Se felicidade existe, ela existe do outro lado: esse momento redentor em que, pesadas as virtudes e os vícios, somos contemplados com o paraíso perdido.
Explica Bruckner que o iluminismo alterou profundamente essa concepção ao remeter o divino para o seu diminuto, ou nulo, papel. A construção da felicidade passou a ser terrena, dependendo de mãos terrenas e não dos caprichos de uma divindade julgadora.
O problema é que essa "secularização" da felicidade não terminou com as nossas infelicidades. Aumentou-as significativamente ao transformar a felicidade em direito e, de forma crescente, em dever.
Hoje, não queremos apenas ser felizes. Sentimos a obrigação esmagadora de o ser: de acumular os objetos, as experiências e as aparências de uma utopia pessoal tão devastadora como as utopias coletivas do passado.
Nós e apenas nós somos os autores do nosso próprio roteiro. Falhar é falhar sem desculpa: "O paraíso terreno é onde eu estou", dizia Voltaire. O inferno também, digo eu. Mas como lidar com as chamas da infelicidade quando me prometeram tudo e um pouco mais?
Não é por acaso, explica Pascal Bruckner, que somos a primeira civilização que se sente infeliz por não ser feliz; no fundo, a primeira civilização para a qual a tristeza e a dor, a doença e a decadência, a velhice e a morte são vistas como aberrações que não estavam no programa.
E essas aberrações são tratadas como aberrações: proscritas por uma sociedade de euforia perpétua.
Infelizmente, uma sociedade de euforia perpétua só pode gerar perpétuos hipocondríacos, avisa Bruckner: gente obcecada com o estado do corpo e da alma, e que vai ao tapete ao mínimo sinal de alarme. Quem vive para um único fim perfeito não pode tolerar uma multidão de momentos imperfeitos.
Ilusões. Agônicas ilusões. Porque nem todo o poder dos homens foi capaz de extirpar as misérias humanas; perversamente, o que a modernidade fez foi abolir a sua expressão pública, uma forma de as remeter para canais esconsos, silenciosos, invisíveis. Como um vulcão em atividade dormente que explode no dia em que o sorriso petrifica.
O ensaio de Pascal Bruckner, ao analisar os descontentamentos das sociedades afluentes, de que o Brasil é agora um representante excelso, não é uma apologia da tristeza; muito menos de um regresso à medievalidade cristã, como se isso fosse razoável ou desejável. "O fato de nem tudo ser possível", escreve o autor, "não significa que nada é permitido".
Na verdade, muito é permitido. Mas a única forma de domar a "euforia perpétua" passa por entender que a felicidade não é um direito nem um dever; a felicidade é, quando muito, a decorrência contingente de uma ambição mais modesta e que, à falta de melhor palavra, se designa simplesmente por viver.
Com o avanço tecnológico, novas profissões estão surgindo no mercado de trabalho; outras vão desaparecendo, se tornando obsoletas; e outras são esquisitas mesmo. Nunca mais veremos telegrafista, datilógrafo, engraxate, bedel, sacristão, leiteiro, barbeiro (de navalha), vendedor de enciclopédia, pianista de filme mudo e fotógrafo lambe-lambe. Por outro lado, o que anda em moda é o personal:trainer, computer, designer, fashion, style e tem até a bizarrice do “marido de aluguel”. Coisas da vida moderna. O que falar de treinador de baleias? Como seria um anúncio da Sea World para contratar tal profissional? Há no mercado?
Na minha cidade, há um homem franzino e pequeno que tem uma profissão excêntrica. Faz anos, desde que o único cinema da cidade era no centro, as opções de lazer eram escassas e não havia mais nada a se fazer, todo mundo baixava lá. A coisa piorava quando eram os grandes filmes da época, os campeões de bilheteria: ET- O extraterrestre, Exterminador do futuro, Grease – Nos tempos da brilhantina... Havia filas intermináveis, dobrando quarteirões. Bem, aí entrava o homem franzino. Ele era quem organizava as filas. Sim, sua profissão era essa: organizador de filas em locais de eventos. Como eu adoro criar siglas, diria que ele era um profissional OFLE. Quando não estava na porta do cinema, estava nos eventos esportivos e até em portas de igrejas, sempre como seu uniforme marrom e um apito pendurado no peito. Uma vez, estava num desses eventos e ouvi alguém gritar: ô linguiça, sai daí! Pensei, depois, será por uma frustração, por nunca ter sido um policial ou um segurança? Bem recente, vi que ele ainda não se aposentou; passava perto de uma igreja e ele estava lá – já de cabelos grisalhos – organizando a saída do estacionamento. Creio nunca ter sido remunerado por isso, faz tudo por prazer mesmo e em troca de algumas gorjetas para sobreviver.
Numa dessas conversas fiadas de fim de tarde, um amigo me contou que em sua cidade, em Minas Gerais, havia um homem que tinha também uma profissão, no mínimo, esquisita. Ele anunciava o obituário e organizava toda logística dos velórios da cidade. Quando Zé Teodoro (Zé velório) ligava para alguém, a pessoa do outro lado tremia e arrepiava até o último fio de cabelo: lá vem notícia ruim... Não havia velório sem ele. Deveria ser um prazer dar a notícia em primeira mão. Imagino também que, tivesse por zelo, o cadastro de todos os velhinhos da cidade, como assim dizer: para adiantar seu trabalho...
Zé velório era um obituário ambulante — o senhor morte. Divertia-se com a dor das pessoas, ou lhe sobrava compaixão num momento de tristeza? Sabe lá. Não importa, ele figurava presente em todos. Afinal, quem iria se preocupar com que roupa o finado seria enterrado? Quem iria preparar a logística (café, bolinho de chuva, pão de queijo e assentos) para os velantes? E os arranjos de flores? Quem haveria de colar o cartaz anunciando a hora do enterro? E o padre, quem iria chamar para fazer a reza? E o choro — quando necessário —, quem iria puxar o choro? Seu trabalho era árduo, mas proficiente.
Revirando seu lado psíquico, talvez ele tivesse outra compreensão que os demais não tinham pela morte. Em conformação, ele já a esperasse num canto qualquer da vida e por isso a tratava com intimidade e blasé, mas com os olhos zelosos para os que ficavam. Era a coisa mais certa que poderia acreditar; pois sim, enterrem os mortos; é o que nos resta, pois a vida é uma viagem sem volta — pensava.
Hoje nos grandes centros, os serviços funerários, já cuidam de grande parte de tudo isso. Até velório acompanhado pela internet é possível; o que se justifica, quando os parentes estão distantes e o finado precisa ser enterrado logo. Na dor pela perda de um ente, é difícil encontrar quem temha cabeça, no momento, para pensar nessas preocupações todas. Numa cidade pequena, onde o serviço funerário, só existe para vender urnas, não é de se surpreender que existam pessoas com o perfil profissional de Zé velório. Ele inventou o personal death.
Depois dessa conversa, não tive mais notícias de Zé velório, se já faleceu ou se continua ainda gozando de boa saúde e “trabalhando”. Se já partiu, fica a dúvida: quem organizou seu próprio funeral? Será que foi anunciado no serviço de som da praça central? Será que teve café com pão de queijo e bolinho de chuva? Será que deixou em testamento como desejaria que fosse? Vai saber. Ele deve ter deixado seu legado, presumo. Filhos costumam seguir as profissões dos pais. Algumas cidades, Brasil adentro, ainda conservam certas tradições regionais; o progresso ainda não chegou por lá.
Mas, não quero nunca imaginar, se um dia meu telefone tocar e do outro lado da linha ouvir uma voz lúgubre: Alô, aqui é o Zé Teodoro! Eu caio duro no chão.
Já virou vício, ouço alguma música dos Beatles e tento decifrar quem está cantando, se é Paul ou John; ainda há algumas confusões em suas vozes. Quando é George e Ringo, já é mais fácil; eles pouco contribuíram com suas vozes nas gravações. É um exercício, ou eu já passei da fase de dançar na minha cabeça com elas; já estou no estágio máximo de suas canções, tirando o sumo? Eu cansei de ouvir Beatles? Em hipótese alguma, eles continuam cantando na minha vida, no meu carro, no meu quarto, nos meus sonhos; e às vezes na minha cabeça. Sempre tem uma que não sai do dial da minha mente.
Na minha adolescência, eu não era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, como dizia aquela canção italiana. Quem ama Beatles não tem o mesmo sentimento pela música dos “Stones”; é o que penso e falo por mim. São sons diferentes de se ouvir. Eu sou beatlemaníaco. Jamais imaginaria, por exemplo, ver Paul vestido de beatle (naquele terno justinho) correndo no palco com seu contrabaixo Hofner e mostrando a língua para o publico. Era outra proposta. No mundo “Stones”, isso é o que faz seu público delirar. O fato que a história registrou - e ninguém poderá negar – foi a música que nasceu num canto do estúdio de gravação em 1963; Lennon e McCartney compuseram “I wanna be your man” e deram para Mick Jagger e sua banda gravarem seu primeiro sucesso. Foi a partir dessa contribuição dos Beatles que os Stones surgiram. De resto, já tentei ouvir, mas foi em vão, paro na primeira música, as outras parecem uma repetição, como bem lembrou uma vez um amigo.
Outro dia fui chamado atenção – sem nenhum peso de crítica, não me leve a mal – de ouvir “música de velho”. Como se me propusessem: largue mão disso e junte-se a nós, os contemporâneos e “jovens”, que ouvimos Lady Gaga, Amy Winehouse, João Bosco e Vinícius e Ivete Sangalo! Não me rendi, não desci o nível, mas justifiquei. Depois de um tempo, com o ouvido depurado por ouvir o som da guitarra do Pink Floyd, o teclado do Supertramp, o baixo de Paul, o violão folk de Simon, a harmônica de Bob Dylan e a batida “bossa nova” de João Gilberto, fica difícil me render ao modismo musical. Esses, que tentam me empurrar, sequer serão lembrados daqui a 10 anos. É tudo modismo mesmo e muitas vezes ruim!
Na minha infância, não fugi desse rótulo – de ouvir coisas do momento -, afinal, ouvíamos o que as rádios tocavam. Na minha época, era Sidney Magal, Odair José, Fernando Mendes e Perla. Não havia como não se contagiar com aquilo, vinha em enxurradas aos nossos ouvidos. E saia cantarolando por aí, até sem querer.
Descobri, porém, que poderia escolher minhas músicas (santa vitrola!), e na minha casa havia um bom acervo musical para isso. O disco Abbey Road dos Beatles (1970) quase furou. Ouvi muito Chico Buarque e já nos meus 18 anos fui apresentado à MPB mineira, ao som do violão folk de Paul Simon, Supertramp, Pink Floyd e James Taylor. Meus amigos da época, eram como eu, gostavam das mesmas músicas. Eu os ensinei a gostar de Chico; eles a gostar desses outros. Eram noites sem fim na esquina tocando violão e tomando vinho.
Naquela época, lembro-me de nos reunirmos em casa para ver um show que a tv exibiria numa noite de 1983. Era o memorável show do Central Park, com a volta da dupla Simon and Garfunkel (eles haviam parado?). Fiquei apaixonado pela música de Simon e a voz afinadíssima de seu parceiro. Eram 500mil vozes cantando junto com eles no Central Park. Nas rodas de violão era obrigatório tocar suas canções. Preferência? Acho que fiquei com “The bridge over troubled water”; era romântica e uma letra linda, falando de otimismo, amizade e amor. Foi também nesse tempo que meu amigo foi convidado a tocar violão num casamento. A música escolhida pelos noivos foi “Love of my life” do Queen, com direito a todos solos que Brian May fazia no seu violão ovation. Fiquei emocionado também naquele dia.
Das montanhas de Minas Gerais vinha um som maravilhoso também. Comecei ouvindo Milton e o disco Clube da Esquina, aquele que fez junto com o “menino” Lô Borges. “Por que se chamava moço também se chamava estrada / viagem de ventania /... e lá se vai mais um dia”. Nunca mais me esqueci de como se tocava esta música ao violão. Coinscidência ou não, os mineiros sempre foram apaixonados pelos Beatles.
Neste breve roteiro musical, tudo que ouvi e continuo ouvindo são canções contextualizadas na minha trilha sonora, com passagens memoráveis; de canções que ainda perpetuam em meus ouvidos, e como se fosse a primeira vez. Aos amigos próximos digo sempre, se Paul pudesse tocar piano na cerimônia do meu casamento, pediria que tocasse “The long and winding road”, é a mais apaixonante composição que dividiu com John.
Voltando àqueles que me julgam ultrapassado, não se preocupem com o que ouço. Quando ouço minhas músicas, não convido ninguém para ouvir comigo – é íntimo. Mas, não queira me tirar nunca da cabeça o solo inicial de “Day Dripper”; com a guitarra de George tocando só nos bordões, ao fundo a percussão do pandeiro de Ringo. Não sai mais de mim. Todo mundo na minha adolescência queria fazer igual, em qualquer violão na esquina, era Beatles. Como vou esquecer? Como vou mudar? Como gostar de Stones e do modismo? É a minha música, é música de velho sim, e com muito orgulho!
Na década de oitenta, e até meados dos anos noventa - assim como hoje -, aos domingos não havia muita opção de lazer na cidade. Ou quase nada. No domingo, era um cinema aqui, uma sorveteria ali e os clubes com seus parques aquáticos lotados no verão. De resto, mais nada.
Na extrema carência do que fazer, a juventude de São José freqüentava todos os domingos a Avenida pôr-do-sol – a praia joseense. Não havia um cidadão que conhecesse as avenidas Anchieta e Borba Gato, todos conheciam todo aquele trecho de frente para o Banhado, como Avenida pôr-do-sol. Os passeios, os encontros, as paqueras, os risos, desfiles, os shows eram ao pôr-do-sol do Banhado. Nossa aventura de domingo à tarde, era reunir os amigos, pegar a bike, o buzão e ir para lá encontrar com outras tribos e ficar contemplando o descortinar do dia, vendo o sol se apagar atrás da serra da mantiqueira.
Os shows da cidade aconteciam por lá também. No palco desfilavam: Marcos Flexa, Grupo revoada, Margareth Machado e outros artistas locais. O palco era sempre montado na Av. Borba Gato (a debaixo), e nós ficávamos sentados no gramado do talude que dividia as vias. Tempo bom.
Por que acabou, eu não sei. Será que crescemos e a geração seguinte trocou o pôr-do-sol do Banhado pelo messenger? Acredito que não. A verdade é que, nada acontecerá se não houver o estímulo. Esta geração – chamada de Y - vive em shoppings entupindo seus corredores e fazendo barulho, com seus celulares e notebooks. Poderia ir para lá, e ver o lindo pôr-do-sol que temos ainda.
Certa vez, ouvi de um colega de trabalho que, São José cresceu de costas para o Rio Paraíba. Não tinha me atentado a isso. Ninguém quis evocar a cidade a se voltar e contemplar o rio que corta todo seu tecido urbano. Que falta de atenção! Digo isso, agora como urbanista. Poucos são aqueles que têm memória em lembrar que o rio era navegável; suas águas caudalosas e mais limpas. Hoje, é quase uma paisagem morta, coberta por aguapés. Estamos deixando de contemplar e preservar nossas riquezas naturais. O Banhado corre o risco de ir junto nesse bojo.
Assim, como muitas cidades no mundo todo, no Rio de Janeiro, a Praia de Copacabana e o Aterro do Flamengo têm uma das pistas fechadas todos os domingos, e não pense que é para dar melhor fluidez do transito. São fechadas para virar lazer da população. E olha, estamos falando de uma cidade cujas opções de lazer são inúmeras, inclusive praias em abundância.
A pergunta é: Por que não voltar a Avenida pôr-do-sol? Naquela época a avenida tinha predominância de residências e poderia até causar mais incômodo; hoje tem mais comércio e serviços e muitos deles nem abrem aos domingos. Os eventos, como ação juventude, ruas de lazer, shows poderiam ser levados para lá, com a paisagem do banhado ao fundo, cheios de notebooks e celulares nos ouvidos.
Espero que a Avenida o pôr-do-sol volte logo; e esta juventude de hoje, possa viver aquela bela paisagem do banhado como nos dias felizes da minha juventude. Minha geração a respeitou e deixou lá, incólume.
Muitas leitoras me perguntam se sou contra a emancipação feminina. Como alguém pode ser contra uma mulher fazer o que quiser da vida e se desenvolver livremente? Ser contra a emancipação feminina é como ser contra aviões ou computadores.
O que leva muitas leitoras a pensarem que sou contra a emancipação feminina é porque não poupo o feminismo de seus excessos teóricos e de sua desmedida negação ideológica dos sofrimentos que a emancipação causou.
Não acredito na afirmação de que a sexualidade seja mero fenômeno social (teoria de gênero na sua versão "hard"), sou darwinista até a última gota de sangue: acho que nossas fêmeas (não apenas elas) carregam sobre suas almas o peso de milhares de anos de adaptação a condições específicas de cada sexo.
Por exemplo, para que serviria um macho chorão e covarde, em meio à savana africana, se escondendo atrás de "sua" fêmea grávida, no momento em que um predador fosse comê-los como janta? Para nada. Provavelmente as mais inteligentes se recusaram a reproduzir com tais frouxos. E elas legaram às suas filhas essa percepção aguda contra o macho fracassado.
Resultado, as fêmeas da espécie não suportam homens pobres, fracassados e deprimidos, mesmo que mintam por aí dizendo o contrário, porque ficou bonitinho mentir para deixar todo mundo feliz.
O pensamento público hoje em dia flerta com o jardim da infância. A mentalidade de classe média (covarde e mesquinha) devora a inteligência viril.
Lembro quando estava na sétima série do então "ensino fundamental", por volta de 1974. Estudava num colégio da elite branca de Salvador. Colégio jesuíta, que só tinha meninos. Naquele ano, os padres colocaram quatro meninas em cada classe. No ano seguinte, mais quatro. No seguinte, a sala estava cheia de meninas, todas lindas, pelo que me lembro. Com seus cabelos longos e cacheados.
Foi uma mudança cósmica. Novas hierarquias foram criadas. Os hábitos mudaram, passamos a brigar menos no recreio, não só o futebol contava, mas também com quem as meninas falavam. Quem comia o lanche com uma delas estava no paraíso.
Quem ganhava um sorriso de uma delas virava celebridade. Grande parte dos meninos morria de medo de falar com elas. Chegar perto era um ato heroico porque a indiferença era como a morte.
Os grupos de trabalho em classe disputavam cada uma delas. Grupos só de meninos eram a assinatura do fracasso.
É assim que vejo a emancipação feminina: um presente para nosso cotidiano, na escola, no trabalho, nos aeroportos, nos congressos, nas ruas. Com suas saias, calças justas, saltos altos, batons vermelhos, elas pintam nosso cotidiano com o desejo. E, com o desejo, o clássico inferno da insegurança de cada um de nós.
Imagino o horror que era trabalhar numa universidade onde todo o corpo docente fosse apenas de homens e as classes fossem cheias de rapazes. Que tédio.
Ou uma empresa onde apenas homens trabalhassem. Como seria uma reunião sem uma colega de pernas lindas resolvendo problemas sérios com um toque de charme inigualável?
Claro, as mais chatinhas me acusarão de machista quando pareço "defender" a emancipação feminina porque gosto de ver o mundo do trabalho cheio de saias curtas e batons vermelhos. Podem achar, não ligo para o que elas pensam. Dirão que sou um egoísta. Será culpa da minha mãe?
O erro das mais chatinhas está em supor que a percepção da beleza feminina implica em exclusão da percepção da capacidade feminina. Não, a beleza feminina torna a parceria com as mulheres no trabalho um oásis em meio ao deserto da violência profissional cotidiana.
Outro erro é não perceber o escopo da beleza feminina no cotidiano do trabalho. A beleza feminina inclui uma série de fatores que vai do corpo à voz doce ao dizer "bom dia", das ancas à forma sutil com que elas enxergam coisas para as quais os homens são cegos, surdos e mudos, da "intuição feminina" ao erótico de ter "um chefe" mulher.
A vida sem Eros é uma vida menor. Um mundo só de homens é em branco e preto. Prefiro o batom vermelho na boca à burca no corpo.