Anttonio Oliveira, arquiteto, urbanista e um aprendiz das palavras.
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BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.
Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempo – Carlos Drummond de Andrade)
Aguçam-me as provocações. É claro, com humor, e sem aquela de dedo em riste, apelativo ou coisa parecida. E provocar mulheres e seus instintos é mais prazeroso ainda. Não sou machista, mas não há melhor maneira para provocar uma mulher que se vestindo como tal. Assim, extraio delas as melhores respostas. Descubro o que mais lhes desagradam e agradam. Numa dessas minhas provocações, quando falávamos de homens e mulheres, suas relações e metáforas com objetos e animais marinhos (moluscos): homem sofá, mulher vuvuzela e mulher polvo, dei minha alfinetada por e-mail:
Boa lembrança amiga: a mulher polvo. É aquela mulher que vive num aquário adivinhando quem vai ganhar alguma competição, ou qual homem é mais lindo: Johnny Depp ou Pierce Brosnan. O problema (ou a felicidade) é que esta mulher morre muito rápida, tem vida curta em seu aquário. Vide o polvo Paul, morreu cedo. Coitado.
Agora, essa mulher polvo (de verdade) é aquela que não tem dois braços, tem oito... Depois de um árduo dia de trabalho - ela é arrimo de família -, ainda chega em casa, põe roupa pra bater, as panelas no fogão; depois dá banho e troca o filho, passa algumas peças de roupa, vê novela, põe lixo na lixeira e reclama do marido que sai para jogar futebol com os amigos e volta duas horas depois, bêbado. Esparrama-se no sofá, se apossa do controle remoto da TV e dorme roncando - sem tomar banho.
Aliás, este é o homem-bomba, ele pode explodir a qualquer momento, basta você deixar de lhe dar comida na boca e de trazer cerveja gelada. Ah! E nada de passar na frente da TV enquanto ele vê futebol. E não importa se é o time dele ou não, futebol é sagrado no universo masculino.
Eu já experimentei vários modelos de mulheres... Diziam que a melhor tinha de ser submissa; sabe aquela caixa de supermercado e com neutrox no cabelo (sem preconceito às duas coisas...) - Katy Milene Suelen -, assim você manda e desmanda e ela faz tudo. Bem, não deu certo, ela não sabe a diferença de pátena e decapê e jamais irá dar palpite no seu projeto arquitetônico. Aí você procura uma arquiteta (mesma profissão), que sabe a diferença de patena e decapê, e é linda, maravilhosa... Meses depois, ela começa a dar palpite demais no projeto da casa que você está fazendo e na tua vida também; controla tua roupa, teu apetite e o pior: a tua conta bancária. Por fim – quase já desistindo -, você arruma uma mulher de profissão oposta: advogada. PERIGO!! Muito cuidado com esta. Ela finge que te dá carinho e tudo mais, mas por trás está tramando algo contra você, vai lhe tirar o que não tem. Ferrou-se cara. Sai fora!
Desistência? Jamais!
Há salvação. Ou: uma luz se acende. Cara! Você encontrou a felicidade. Você descobriu, como eu, aos 45 minutos do segundo tempo - pra não dizer a idade - que não existe perfeição. E a melhor de todas as mulheres é a de BUNDA, PEITOS FARTOS E SÓ LHE DÁ AMOR. Ah, e não fala muito, só ouve e obedece (de cabeça baixa). Para chamá-la, é só balançar o sininho (blem-blem), ou gritar: FULANA! Ela vem correndo. Aí você chega à constatação: esta é a mulher da minha vida, estou no paraíso. Felicidade perene e sexo em abundância. Viva a bunda e o peito! Chega de mulher-polvo. Encontrei a mulher da minha vida: A mulher-bunda-peito. Antonio.
Bem, não queiram saber a resposta. Ela veio ao melhor estilo feminista, com alfinetadas também; elas detestam o machismo, embora a maioria delas se casa com seres dessa espécie. Aprendo muito mais com provocações ao universo feminino do que já aprendi em muitas conversas de botequim com meu melhor amigo homem.
Brincadeiras à parte, a melhor mesma é a mulher polvo; e acredito também, que na relação, se dará melhor com um homem de linhagem igual – polvo. Com oito braços para cada sexo, eles se entrelaçam e não há o que os desunam; sendo assim, os abraços serão afáveis, cálidos, apertados, multi, eternos, para sempre...
A arquitetura, como toda arte, sempre caminhou pelo tempo, de um extremo a outro, do passado ao futuro mais remoto que o homem pode vislumbrar; tecendo formas, espaços, dando movimento e definindo períodos. Das nossas casas de taipa de pilão às construções high-tech, vem permeando o universo e contando a história da humanidade. Na volta ao passado, ela encontra os seus simbolismos perdidos, numa releitura de si; como os valores módicos da vida e o que nela havia de melhor. Contraponto assim, à sofisticação, aos modismos e tudo mais que tornou a vida mais turbulenta nos nossos dias. Hoje, a vida se resume e se permite ser mais prática, acelerada, racional, individualizada; tudo num invólucro e mais longe da felicidade perene, sem fragmentos, sem barreiras. E longe de ser o dono da verdade — não discordarei dos quem pensam o contrário — coloco aqui uma visão analítica de quem observa e vive este mundo maluco e agora globalizado. Nessa síntese, talvez valesse aquela máxima: “naquele tempo era melhor...”.
Os tempos são outros e o conceito de moradia também mudou. Dos bairros predominantemente residenciais, o pouco restou; com suas ruas de paralelepípedo quase sem automóvel e de gente simples morando. Hoje não nos damos mais ao luxo e o prazer de termos casa com muro baixo e portão de madeira, onde na infância brincávamos de andar sobre os muros; e de muro em muro íamos equilibrando e pulando os portões até se espatifar na calçada — já vivi essa cena. (Sempre era divertida a aventura e dolorosa a queda.) Da calçada, sobre o muro baixo podíamos ver a casa; dos janelões: a sala, a mobília, os ornamentos, os apetrechos, os enfeites, os retratos, os quadros, as pessoas e o modo de vida daquela família. E elas? Viam a nós, que passávamos pela rua, sozinhos no nosso caminhar ou em procissões da sexta-feira da paixão. Como se nada tivéssemos que esconder um do outro. Víamos nossos interiores, assim como ver a alma da alma.
Da casa, era do seu alpendre que avistávamos a rua e quem quer que por ali passasse. No alpendre sempre havia um lugar para uma cadeira de balanço e uma gaiola de passarinho pendurada; com muretas que circundavam, é lá que ficava o “relógio” que registrava o consumo da luz. Em alguns, havia um mosaico de azulejos portugueses na parede frontal ou um pequeno oratório no nicho lateral. Sem nos esquecer dos vasos de avencas e samambaias e o piso gelado de cimento queimado ou ladrilhos vitrificados, este, nas casas dos mais abastados.
Vamos à literatura. Alpendre é o espaço coberto, reentrante, e aberto na fachada de uma casa, que dá acesso ao interior. Pois sim, o alpendre é o próprio convite à casa: adentre-se. Diferente da varanda, que é balcão, sacada, terraço. Gradeamento de sacadas ou de janelas rasgadas ao nível do pavimento. Ou: espaço saliente à casa e fora do seu corpo — desalinhado. Em sua crônica, o escritor Mário Prata define: “Mas a diferença básica é a seguinte: você vai ficar na varanda do 16º andar para ver quem? Quem é que você acha que vai passar por ali? Você acha que vai ver alguma pinta-brava? Pessoa suspeita; cafajeste” Mais adiante ele conclui: “Agora achei a palavra certa: os alpendres foram feitos para a cobiça também”.
Nos casarões coloniais, era o alpendre que fazia a divisão da parte da casa com a área social. Os alpendres centrados dividiam de um lado a capela e do outro o quarto de hóspedes, depois a porta de acesso, por fim, a casa. Por muito tempo, eram também nos alpendres que namoravam as moças de família, as recatadas. Cujo namoro tinha que ficar às vistas do pai austero e com hora marcada para pisar porta dentro. No alpendre “batíamos figurinhas” e reuníamos os moleques da rua para brincar. Dava para jogar futebol de botão e fabricar pipas também.
E os quintais? Quanto tempo eu não ouço ninguém dizer que gostaria de uma casa com um quintal grande e de terra; sem nada, solitárias árvores e a criatividade dos olhares pequeninos. Trocaram os quintais por jogos de vídeo game e internet; e as casas térreas, por conjuntos verticais — sem quintal.
Faz dois anos fiquei surpreso com uma história: quando foi indagado o que gostaria de dar a seu filho pelo seu aniversário, o ator Lázaro Ramos disse sem pestanejar: “um quintal”. Achei diferente, tudo muito simples e talvez fosse tudo o que tenha presenciado de valor na sua infância feliz. Um quintal para brincar e um alpendre para olhar a vida passar, quiçá.
No próximo projeto de casa quero ser simplista e darei a ela um alpendre. Inserida numa paisagem, um ambiente urbano ainda preservado pela vida parca do lugar, sem agredi-lo. Uma Casa para morar, para viver e guardar os dias melhores de nossas vidas. Gosto dessa viagem ao tempo que a arquitetura me proporciona, principalmente quando ela vai ao meu interior, onde me permito encontrar uma bela paisagem e com tudo aquilo que vale à pena viver de novo: uma casa com alpendre e quintal de terra.
Para ficar de bem com o mal — já que ontem foi dia das bruxas — fui presenteado pelo canal telecine com o filme “Bastardos Inglórios” (2009) — Quentin Tarantino. Já perdi a conta de quantas vezes vi este filme, mas acredito que seja a quinta vez. A cada repetição uma emoção, uma descoberta. Quando vi pela primeira vez, fiquei tão fascinado que considerei o melhor filme do ano, sem o ano ter terminado e sem ver os outros. A academia deverá dar o Oscar de melhor filme, constatei. Depois lembrei que a Academy Awards não daria um prêmio de melhor filme a um filme aos moldes de Bastardos — uma ficção sobre o terceiro reich e sanguinário.
Tarantino é um consagrado diretor pelos filmes sangrias. Há quem não goste do seu estilo, mas em Bastardos ele se superou. Fez um dos seus melhores filmes. Sorte e competência teve o ator Christoph Waltz; ainda no projeto do filme, Tarantino quase desistiu de rodar o filme, pois não conseguia encontrar um ator que falasse fluentemente Inglês, Alemão, Francês e Italiano. Encontrou, por fim, Waltz. E não poderia dar outra: ele brilhou e ainda levou o Oscar de ator coadjuvante. Antes já havia ganhado o prêmio de melhor ator no festival de Cannes. Waltz fez um vilão vibrante, ácido, repugnante, eloqüente, às vezes engraçado; roubou as melhores cenas do filme. Só posso comparar a Heath Ledger como Coringa em Batman – o cavaleiro das trevas.
Quem brilhou também foi Brad Pitt no papel do caricato tenente Aldo Raine. Suas caras e falas são de dar gargalhadas e sua atuação foge completamente do seu estilo: herói e belo. Há quem pense que ele ficará com a mocinha do filme — como sempre acontece. Embora Aldo e Shosanna tivessem os mesmos objetivos: matar nazistas, mas eles não se encontram em cena nenhuma.
O filme tem como pano de fundo a segunda guerra mundial numa França tomada pelos nazistas. O Coronel da SS Hans Landa (Waltz) é condecorado pelas suas proezas de caçador de judeus. Já no inicio da trama deixa escapar das suas mãos a jovem judia Shosanna (Mélanie Laurent). Do outro lado, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt) lidera o grupo dos bastardos, que tinha como missão eliminar nazistas.
A trilha sonora é outra genialidade do filme. Tarantino trás músicas do compositor italiano Ennio Morricone. Quem começa ver o filme, já nos caracteres, tem a impressão que verá um filme bangue-bangue à italiana dos anos sessenta.
A melhor cena — entre tantas — é a do encontro do Coronel Hans Landa com a moça judia Shosanna num restaurante. Quando todos se levantam para sair, ele a convida para continuar sentada, com o propósito de conhecê-la melhor e saber o que faz em Paris. Como verdadeiro oficial nazista e machista, não lhe dá o direito nem de escolher o que comer e beber na sobremesa daquele final de jantar. Ele mesmo diz ao garçom o que ela vai comer. Quando o garçom esquece-se de trazer creme, ele pede que traga e quando ela vai garfando o seu pedaço de torta, ele bate-lhe a mão e diz: espere o creme. Depois de muitos interrogatórios e gargalhadas de cinismo igual, ele apaga o cigarro sobre o resto de torta no prato e sai deixando a pobre Shosanna em pânico. Genial.
Para ficar de bem com o mal — dito no começo da conversa —, o filme tem um final apoteótico. Como ninguém até hoje deu Hitler como morto, ou tenha certeza de que modo ele morreu, Tarantino lhe deu uma morte digna de um ditador, populista e que, reconhecidamente, mudou os caminhos da humanidade. Ele e Goebbels morrem junto com todo o primeiro escalão do comando nazista dentro de um cinema em chamas. O cinema da mocinha judia Shosanna (Mélanie Laurent). O filme termina com a “suástica” marcada na testa do Coronel Hans pelo intrépido Tenente Aldo, dizendo: "Acho que essa pode ser minha obra-prima". Tarantino lavou a minha alma no dia das bruxas. Que seja o fim de todos os ditadores.
Nenhuma outra década colocou tantas beldades francesas no mundo pop, como a década de sessenta. No cinema, era o auge de Jeanne Moreau e Brigitte Bardot. Vi recentemente a comédia “Viva Maria!” — 1965. As duas atrizes estão lindas, interpretando papéis cômicos e sensuais, é claro. Moreau com 37 e Bardot com 31 anos. Balzaquianas, com as suas siluetas bem definidas, faziam duas “Marias” que viviam enfiadas em seus corpetes, arrancando suspiros dos homens em shows de strep tease, que atuavam seguindo um grupo mambembe de atores circenses. Imperdível.
Na música, a década de sessenta também trouxe a cantora Françoise Hardy. Minha memória foi despertava quando lia o livro “A Era dos festivais” e vi citado o nome de Françoise Hardy. Imediatamente veio à lembrança uma canção que fez sucesso no Brasil no início da década de setenta. Em 1968 — com 24 anos — ela veio ao Brasil participar do FIC — Festival Internacional da Canção — defendendo uma das suas belíssimas obras: “À quoi ça sert”. Sua identificação com a música brasileira foi tão contagiante, que logo depois gravou em francês a música que ganhou aquele festival, “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque. Na sua versão, a música ganhou o nome de “La ménsage”. Em 1971, ela faz novamente sucesso no Brasil depois de ter gravado o disco “La Question”, agora ao som do violão da brasileira Tuca.
O que encantava em Françoise Hardy não era somente a sua bela voz, mas a sua beleza vestida de eloquência. Sempre linda, elegante, magra e tímida; dava-se a impressão que ela não sabia que era tão bonita assim. Disfarçava sua beleza cantando. Naqueles anos, ela foi capa de muitas revistas famosas e foi, com certeza, um dos rostos mais fotografados naqueles anos.
Para o Blog, escollhi a canção “La Question”, que foi o que me fez lembrar-se de Hardy e trouxe muitas outras boas lembranças. Lá em casa havia um compacto simples “som livre”, um dos lados do disco era ela. Esta música era tema de uma novela de 1971. No site oficial de Françoise Hardy, está registrado que a letra é dela (Hardy) e a música é da violonista e compositora brasileira Tuca.
La Question A questão
(Françoise Hardy)
Je ne sais pas qui tu peux être Eu não sei o que você pode ser
Je ne sais pas qui tu espères Eu não sei o que você espera
Je cherche toujours à te connaître Procuro sempre te conhecer
Et ton silence trouble mon silence E seu silêncio perturba meu silêncio
Je ne sais pas d'où vient le mensonge Eu não sei da onde vem a mentira
Est-ce de ta voix qui se tait É de tua voz que se cala
Les mondes où malgré moi je plonge Os mundos onde, contudo eu mergulho
Sont comme un tunnel qui m'effraie São como um túnel que me assusta
De ta distance à la mienne De sua distância em relação à mim
On se perd bien trop souvent Se perde sempre
Et chercher à te comprendre E procurar te entender
C'est courir après le vent É como correr depois do vento
Je ne sais pas pourquoi je reste Eu não sei por que eu fico
Dans une mer où je me noie Em um mar onde eu me afogo
Je ne sais pas pourquoi je reste Eu não sei por que eu fico
Dans un air qui m'étouffera em um ar que me sufoca
Tu es le sang de ma blessure Você é o sangue da minha ferida
Tu es le feu de ma brûlure Você é o fogo da minha queimadura
Tu es ma question sans réponse Você é minha pergunta sem resposta
Mon cri muet et mon silence. Meu grito mudo e meu silêncio.
Começo escrevendo estas linhas ouvindo na minha vitrola virtual um dos meus álbuns favoritos. O disco “Meus caros amigos” de Chico Buarque, era obrigatoriamente tocado todos os dias lá em casa. Ainda fervilha na memória o som da agulha chiando (xii...) antes de entrar - sem introdução – a voz de Chico: “O que será que será / Que andam suspirando pelas alcovas...”. Em 1976, Chico ainda compunha suas canções de protesto sob metáforas. Muitas dessas músicas, hoje conhecidas, não existiriam se não houvesse a censura. A censura, ao contrário que muita gente imagina, o estimulava a criar.
Naquela época, o fedelho cronista aqui, queria ser Chico Buarque. Fiz alguns versos, mas nunca chegaram nem perto da sua genialidade, é claro. Então fui me ter com o violão e desse disco só saiu “Mulheres de Atenas”, cujos acordes e dedilhados sei décor até hoje. Só não me peçam para interpretá-la, pois sua letra é complexa e tem seis estrofes longas. Nem Chico sabia décor e por isso gravou o especial da TV Bandeirantes, com a letra ao lado. Essa vergonha de tocar violão em publico já me rubrou a face muitas vezes. Não toco.
Poucas pessoas sabem, mas sou assíduo freqüentador do Blog do jornalista político Reinaldo Azevedo. Petistas o detestam, e por eles o detestarem é que ele deve ser bom mesmo e deve ser lido. É uma lógica fácil de compreender, Reinaldo gosta de tratar a verdade como verdade e a mentira como mentira. Num de seus textos recentes, ao ser questionado por um dos leitores sobre a ausência da citação do nome de Chico Buarque, num tal manifesto da “esquerda intelectual” – se é que existem as duas coisas juntas ou separadas – em favor da candidata petista Dilma Rousseff, Reinaldo escreveu: “Há até quem diga que ele é o articulador [do manifesto]. Poder ser. Faria sentido. Chico é um ótimo letrista de MPB, um romancista medíocre e um idiota político. Não é de hoje”. Engoli seco. Ainda no embargo, refleti e depois disse a mim mesmo em voz baixa: ele tem razão... Talvez, eu nunca quisesse admitir, afinal é um ídolo sendo insultado e posto no banco dos réus, onde jamais imaginaria vê-lo. Podemos ser ótimos, medíocres e idiotas na mesma oração da vida. Por que não? Iremos brilhar no lado onde temos mais luz. Reinaldo e sua verdade desta vez me apunhalaram.
Tentei ler algumas das obras literárias que Chico escreveu e parei no meio do caminho, por falta de fôlego e emoção. Sua leitura é cansativa e não tem o lirismo e o capricho de suas canções. Seria como pedir a Machado de Assis escrever letras de músicas. Talvez, o encontrasse no mesmo ponto da mediocridade. Cada um na sua. Por isso, me considero um urbanista aprendiz de palavras e talvez fique no aprendizado a vida toda. Assim, me conservo longe do limite da mediocridade ou da idiotice e serei melhor naquilo que sei fazer bem. Minhas palavras são curtas e não têm a ânsia de romper fronteiras. Por muitas vezes é só um desafogo.
Em 1981, quando uma bomba explodiu no colo de um militar na porta do Riocentro, Chico era o anfitrião daquele show primeiro de maio. Aquela noite ficou marcada como um dos últimos capítulos de um enfretamento ao regime, que perdurou por longos 20 anos no país. Parte da arrecadação do show foi para o MR-8 – um movimento comunista clandestino que resistia àquela ditadura. Chico nunca se declarou engajado a partidos, mas já no período democrático começou a flertar com o PT e continua como um soldado, quando é convocado, ele está lá. Não me lembro também de declarações onde Chico tenha dito que é de “esquerda” ou que é um ateu convicto. Sempre fugiu desses assuntos polêmicos, embora parecesse ser ambos. Naquela época era muito comum comparar Chico a Caetano. Nas questões políticas, hoje fico com Caetano. Ele sempre se posicionou claramente, dizia o que pensava e continua dizendo - sem medo do patrulhamento.
Pô cara! Você é “chicólatra”, não vai com ele nessa? Não vou, e explico por que. Vou com Chico só na música e nas suas letras, onde ele é de fato ótimo. Outro dia parei para pensar no verdadeiro emprego da palavra dissociar e acho que ela seja talvez até mais importante que seu antônimo. Cérebros porosos e mentes ventiladas sabem dissociar informações, como um filtro da construção do nosso intelecto. Assim, como manga com leite, dois e dois são quatro e outras equações de obviedade igual. Sábio é o individuo que dissocia e filtra sob a luz da razão, do discernimento, da justiça e da verdade. Sem cabresto ideológico. Senão, fosse eu um sociólogo/escritor e não urbanista, naturalmente teria que ser de “esquerda”, ateu e andaria com Karl Marx embaixo do braço? Não! Desconstruo. Sou livre e penso como quero, carregado de princípios da minha formação e dissociando o que deve ser. Não pactuo e não dou meu voto de confiança a quem diz e desdiz antes de concluir o parágrafo (Eu odeio, eu adoro numa mesma oração – Chico Buarque). Quem - na política - usa da mentira como método. De certo, Chico, por seus princípios ideológicos, gosta disso. Eu não.
Não mudo uma vírgula de lugar quando trato de valores morais, de ética e de crenças. Já desisti de muitos políticos por isso. Na minha infância, quando me deitava para dormir, era minha mãe quem segurava minha mãozinha e junto comigo fazia “Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos, Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos”, depois a Ave Maria e o Pai nosso. Ela era pouco instruída e foi alfabetizada já adulta; nunca foi intelectual nenhuma, nem de esquerda nem de direita, mas ensinou tudo que precisava aprender. Não troco isso por qualquer pensamento idiota, rasteiro e bocó. Uma questão de princípio.
Quando leio crônicas políticas em que começa com polarização de esquerdas e direitas, paro logo de ler. Sempre a mesma ladainha. No cenário atual, não cabe mais isso, como ainda insistem alguns saudosistas. Não há divisão por raças, crenças, credos e posições políticas. Acredito que a melhor divisão - para posicionar o ser humano no mundo - está entre quem é do bem e quem não é. O que de fato faz todo o sentido do equilíbrio das forças do universo. Toda luz só se propaga onde há o breu, o escuro. Um não existe sem o outro. A escuridão só é percebida pela ausência de luz. Com o bem e o mal é assim também. No campo das relações humanas – onde a política atua – seria melhor se colocássemos todos os seus personagens juntos e separássemos os que são do bem e o que não são. O joio do trigo. O resto é balela, propagadas por ideais que os partidos mesmos não mais carregam em si. Hipocrisia pura e ingenuidade dos que adulam e douram a pílula em troca do encalço da verdade. Procuro olhar para dentro, para biografia de quem quer que seja o postulante. Sob ética, decência e competência.
Talvez, Chico esteja ainda fugindo do seu rótulo de “unanimidade nacional”. Se estiver, contribuo me dissociando da sua mediocridade e da sua idiotice, mas continuo preferindo os seus ótimos versos em canções: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade arrancada de mim / Leva o vulto teu / Que a saudade é o revés de um parto...”. Saudade do Chico, aquele das canções.
Muitas histórias de amor já foram contadas por romancistas mundo a fora. E quem já não leu um desse folhetins na vida, uma história curta que fosse? Na maioria delas, descrevem lugares lindos, com encontro e desencontros; citam poemas e cartas; cavalheiros e damas, mocinhos e suas heroínas; buquês de flores com promessas de amor eterno e, porque não, contam também os dramas, as tragédias.
Devo confessar, sou um romântico tentando se corrigir. E se ninguém mais levantar a mão vou dizer que sou o “o último romântico” — como já escreveu um poeta do cancioneiro popular. Quando vivo esse feitiço, me deixo levar pelas palavras e gestos de carinho quando me dirijo à mulher amada. Meus devaneios passionais vêm como brisas de outono, em sons de conchas de mar, com recheios de doçuras, de estrelas que se ouvem; e lições, que procuro me valer, como um bom vinho ao paladar.
Não receio em olhar para trás e colher da vida os melhores parágrafos, separando do passado as suas mágoas. Procuro ficar com o que foi bom. No final, resta aquela sensação: aprendi muito com isso. Não duvido, mesmo depois da dor, que se cicatrizou, podemos viver outro amor. Que graça tem a vida se nos matarmos de amor? Haverá sempre um novo a caminho, numa esquina do tempo. Tudo depende do comando da vida o quanto damos de colher de chá para que ela aconteça. Sem desesperanças e com muita inspiração.
Tenho saudades de tudo que foi bom — é claro —, da simplicidade da vida de outrora; da leniência do tempo, nas mudanças e tudo mais que me trouxe até aqui. Tempo em que as paixões nos corações arrebatavam; no cinema, namorávamos; nos olhos, olhávamos; nas bocas, beijávamos. Fazia parte do cotidiano encontrar poesias e versos pelos cantos da casa, receber e dar flores; simplesmente porque era delicioso sentir o coração mais efervescente.
Ah, o primeiro amor, como foi bom viver. Era belo quando a moça respondia à carta com uma boca de batom vermelho estampada num papel de carta. Havia aquelas que colecionavam esses papéis; eu mesmo recebi algumas cartas escritas nesses papéis especiais. E quanto aos recadinhos escritos em guardanapo, era o garçom quem entregava à mesa. Nas minhas declarações, “catava milho” tentando escrever numa “Olivetti”; e no final havia aquela frase em letras maiúsculas ou em CAPS-LOCK, como se diz hoje: P.S EU TE AMO! Era bom, quando dispúnhamos de uma caneta, um papel e um amor para pensar e sonhar — mesmo que fosse só platônico. Meus olhares eram tragados pelas atrizes de cinema e as dançarinas da TV; e as tratava como musas das minhas fantasias. Criava os meus romances particulares. Minhas cartas de amor não foram jogadas em garrafas ao mar. Mas por muito tempo elevaram e pairaram meu coração em colos de nuvens.
O mundo do século 21 tornou as pessoas mais individualistas e distantes; pôs asas na comunicação e como tudo também ficou mais sem emoção e inspiração; pôs até macarrão instantâneo na nossa mesa — que mau gosto! O amor agora é virtual, os beijos são “carinhas” com bocas vermelhas que vão anexas aos correios eletrônicos. Rosas em arquivos formatos PPS, poemas em formas diversas de apresentação espalhadas na blogosfera. Tudo virou Ctrl “C” / Ctrl “V” e colocou para debaixo do tapete o bom e velho cortejo com criatividade; aquele que vem do coração, explícito em forma de um buquê de rosas vermelhas ou numa caixa de bombom.
No fim das relações a coisa também enveredou por este caminho, diga-se, mais ligeiro. Segundo a agência Reuters, levar um fora digital é um fenômeno que vem crescendo. Pesquisas feitas na Inglaterra apontam que muitas pessoas hoje preferem as redes sociais e e-mails para terminar seus relacionamentos. Mais de um terço dos pesquisados disse que havia terminado seu relacionamento por e-mail, 13% mudou o status no Facebook sem avisar o parceiro e 6% divulgou a má notícia primeiramente no Twitter. Como se pode ver, a modernidade chegou aqui também e como tenho dito: ser solteiro hoje não é mais estado civil, virou status.
Tudo agora gira a milhões de gigabytes por segundo. Difícil mesmo é ser avesso a essa tecnologia. Não vou mentir, é difícil para mim — e acredito que para muitas pessoas também — resistir a tudo isso; agora, por exemplo, estou escrevendo estas linhas diante de uma engenhoca que meus antepassados jamais imaginariam existir. Necessitamos das ferramentas do mundo moderno, precisamos nos comunicar e entrar neste imbróglio informatizado, virtual e globalizado, mas não façamos virtuais também nossas emoções e sentimentos.
Para piorar, a palavra da moda agora é workaholic. Esses jovens viciados preferem como companhia à mesa do restaurante, não mais a namorada ou o velho amigo para falar de futebol; é comum vermos pessoas com seus computadores ultima geração ao lado do prato de comida. Navegando, navegando onde não há água.
Na minha cidade, percebo uma frequência cada vez menor de pessoas comprando flores. Uma floricultura que ficava aberta 24 horas fechou as portas. As flores agora vão por endereço eletrônico — aquela coisa fria e sem fragrância. As poucas visitas às floriculturas são em dias de finados, pois ainda não descobriram os endereços eletrônicos do “além”.
Em 1980, Roberto Carlos compôs a sua Amante à moda antiga: “Eu sou aquele amante à moda antiga / Do tipo que ainda manda flores...”. Exatos há 30 anos, já era antigo mandar flores. Imagina hoje. Ficou antiquado, démodé, cafona, brega demais. Quando as flores eram de verdade, havia o perfume e a alegria denunciada nos olhos de quem recebia; e não tinha como negar: era mesmo uma prova de amor despida por um gesto simples. Naqueles dias das flores, o ambiente se revigorava, se transportava, era outro. Um dia alguém me disse: "Por que mandar flores, se o final delas é o lixo?" Não quis lembrar que, durante aquele período da sobrevida no vaso, aquelas flores renovaram e aguçaram nos corações o amor, deixou os corações mais próximos, atados por um laço de ternura e carinho.
Outro dia fui buscar uns versos e encontrei esses: “as melhores flores são aquelas colhidas à luz das estrelas e entregues na surpresa da primeira luz da manhã”. Se existe a saudade alheia — como romântico ainda — sinto das flores de verdade. As rosas não falam — cantava Cartola —, agora elas também não exalam mais. Deixo-os com esta reflexão: se um dia Deus criou as flores, hoje o Google criou a forma mais rápida de encontrá-las.
Só para esclarecimento. Muitos leitores (as) vêm visitar o blog procurando novidades - textos inéditos todos os dias. O fato, é que este escriba não tem hábito de escrever todos os dias. Não que não queira. Desculpa, às vezes sou tragado por outros compromissos e pouco tempo resta para escrever. É claro, tenho outros hobbies, que não é só escrever, outro é ler. Quem escreve tem que ler. Nas letras como na arquitetura sobrevivemos à base de inspiração. Tem dias que olho para o papel virtual do Word e não vem nada, nadinha. Gostaria de ser uma máquina de escrever (Olivetti). Minha atividade principal é urbanista (agora convicto) e por isso escrevo nas horas que me sobram.
Para o próximo texto do Blog, fui buscar inspiração onde não havia. A ideia já existia, mas faltava um empurrão no “ócio criativo”. Saiu. Acredito que hoje à noite já esteja pronto para postar aqui. Dei o nome de “Quando as flores eram de verdade”, mas poderia se chamar “Pra não dizer que não falei das flores também”.
Como podem perceber não conto com colaboradores. O blog é só meu e não tenho mais ninguém mexendo aqui, mas aceito sugestões dos leitores. Por enquanto, faço dele meu cantinho, meu esconderijo da vida. Quem sustenta e me dá alento são vocês. Obrigado e vamos em frente. (Antonio)
Alguns de vocês já conhecem, mas gostaria de compartilhar com os demais também, uma canção que compus em parceria com meu amigo Eduardo Borges. Digo amigo, pois além de parceiros na música, somos amigos nos momentos de alegrias e tristezas — já há 10 anos. Como em toda relação, às vezes nos debatemos em alguns pontos de vistas — o que é natural —, mas de volta à música tudo nos une de novo. Sei que ele anda preguiçoso para “mexer” com música, mas é inegável o talento que sempre teve, e isso não vai perder nunca. Espero.
Desde o início da amizade, fizemos umas 05 músicas, mas a última canção ficou marcada. E posso dizer que foi nossa melhor parceria: “Amor da Vida”.
Em setembro de 2007, mandei por e-mail um esboço (na arquitetura se diz “croqui”) de uma letra. Algumas horas depois, minha impaciência me tomou e peguei no telefone. Quando perguntei se ele havia recebido o e-mail, ele pegou o violão e cantou a música pra mim. Não acreditei, me aprontei logo para ira a sua casa e terminar de fazer o resto.
A canção faz bem aquele estilo “sertanejo romântico”, talvez se eu soubesse “mexer” bem no violão e fosse também o autor da música, saísse mais com cara de Chico Buarque. Mas, ficou como teria que ser. Ele acertou.
Faz 01 mês eu registrei a música e agora já podemos divulgá-la, e depois quem sabe receber uma proposta de gravação. Já temos alguns contatos.
O vídeo acima está postado agora no youtube, e vocês podem ver clicando aqui (Amor da Vida).
A música, com arranjo e como foi registrada, está no sítio “músicas registradas” e se vocês quiserem ouvir também podem clicar aqui (Músicas registradas).
Escolhi para o Blog esta gravação acústica (violão e voz), sem os arranjos, pois está como a música foi feita. A voz, é claro, não é minha. O cantor é Eduardo Borges.
Em tempo, um agradecimento ao meu outro amigo palmeirense João Pedro pelos créditos do vídeo, que ficou muito bom.
Só para não haver dúvidas, “Anttonio Buarque” sou eu. Com qual intenção?
Espero que gostem.
AMOR DA VIDA
(Eduardo Borges/Anttônio Buarque) 27/09/2007
Amor da vida
Flor da primavera
O tempo fez em mim.
Sua longa espera
Amor da vida
Sol do meu caminho
Vem morar comigo
E aquecer o meu ninho
Poeiras e pedras
Passei para estar aqui
Antes de você chegar
Meu destino um deserto
Meu futuro incerto
Foi Deus que mandou você pra mim.
|Quantas noites vazias
|Em meu quarto
|Eu te chamo
|No meu sonho
|Nele você vem
|Há tantos motivos
|Pra dizer que
|Eu te amo
|Você é minha razão
|E me faz tão bem
|E me faz tão bem...
Canção pra vida
Hoje tocou em nós
Tatuou nossos corpos
Marcou nossos lençóis
Amor da vida
Será pra sempre assim
Eu em você
Você dentro de mim.
O cristianismo prega que encontraremos a felicidade plena no Reino de Deus. E onde está o Reino dos Deus? Fui lá conferir: O Reino de Deus não virá de modo ostensivo. Nem dirá: Ei-lo aqui; ou Ei-lo ali; Pois o Reino de Deus está dentro de vós. (Lc 17, 20-30). Aqueles fariseus não entenderam nada e muitos de nós (cristãos) ainda continuamos a não entender patavina do que disse o Cristo. Depois dessa inferência secular, poderia parar de escrever por aqui. Perdeu a graça em dizer que encontrei a receita da felicidade e ela está no livro dos livros; ou para outras crenças: nas alquimias, nos chás, na bula do prozac, no horóscopo, num pergaminho escondido no críptex, ou num baú secreto cuja chave foi lançada ao mar. Nada! Não há chave, não há baú, nem segredo. Há sim, nossas vidas e o modo de como queremos que ela prossiga daqui em diante, com ou sem amor. Continuemos a olhar para fora, ou vamos ao encontro da nossa espiritualidade?
A busca do externo, do exibicionismo, do materialismo, do consumismo, da satisfação nas coisas que o mundo oferece, faz muitos de nós sentirmos este vazio interior. O que falta para sermos felizes plenamente, se já provamos de tudo? Partindo desse engodo, já numa forma de desespero, acreditamos então que só seremos felizes quando alguém nos trouxer a felicidade a nossa porta. Como se tudo fosse uma mercadoria a delivery. Esta é nossa última cartada. Exigimos e aguardamos. Traga-nos uma porção. Não! Queremos uma quantidade farta que é para durar a vida toda. Ok?!
Pode ser que eu não esteja falando com você, mas isso é o que a maioria das pessoas busca. Anseiam nas suas relações interpessoais, que a outra pessoa a faça feliz. Esperam do outro e nada fazem por si, e para si. Faz parte do requinte que a pessoa escolhida, além de todos os outros atributos (ser príncipe ou princesa), traga ainda a felicidade no seu caminhão de mudanças. Depois do beijo no altar eles irão agora requerer seus direitos num casamento: a felicidade do outro. E se houver falhas nas suas atribuições um irá cobrar o outro e tudo caminhará para um divórcio bem rápido; e somente mais tarde, depois de algumas visitas ao analista, irão perceber que não há dívida de felicidade com ninguém. Querer sugar a felicidade alheia, é exigir além das fronteiras das relações humanas, mas muitas pessoas pensam, vivem e agem assim.
“É impossível ser feliz sozinho”, na música de Tom Jobim este é o verso mais comentado e propagado por aí. Tem outro de Vinícius de Moraes também: “mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”. A música, a poesia tem a licença para dizer o que vier e tudo fica permitido, mesmo que seja uma receita que não se aplica na vida real. Assim, quem quiser acreditar nessas frases poderá concluir que a solidão é sinônimo de infelicidade. Entretanto, a solidão quando sofrida — e não sentida —, poderá trazer a infelicidade sim, mas ela não é determinante. Vou mais fundo.O que de fato é estar sozinho? Estar sozinho é ausência de companhia, de abandono e não falta de felicidade. Vasculhei nos dicionários de sinônimos e não há menção da ausência de felicidade para a palavra solidão. O pior abandono que causamos a nós é o abandono da alma; e uma vez instalado esse vírus, ali começará brotar a infelicidade — a erva daninha. É quando perdemos o foco e a referência, num sinal fatídico de se olhar no espelho e não se ver – nossa alma e tudo esvaecem.
Pode ser lugar comum o que vou dizer, mas não existe a vida totalmente feliz, e aqui, aonde viemos aprender, não existe felicidade plena. Por isso, necessitamos aprender a exercitar e expelir nossas emoções: as boas e as más; mais cedo ou mais tarde iremos precisar desprendê-las quando tivermos que encarar a realidade dos fatos. Não há vida sem luta e para isso há que se ter coragem para viver. O sofrimento, a dor são imputáveis à vida, assim como a felicidade. Não poderemos evitar nunca o sofrimento e a dor, as noites tempestuosas virão, com certeza, mas poderemos ansiar e permitir a felicidade sempre. Isto sim. Quando vivemos algum drama na nossa vida, somos aconselhados a fugir, fazer as malas numa viagem para esquecer. Sem notar que todas as nossas dores vão junto com as malas. Quem sofre com alguma dor, deve viver isso como se vive o amor na sua plenitude. Nunca devemos fugir dos nossos sentimentos.
Para saber até que ponto o dinheiro compra a felicidade, uma pesquisa recente nos EUA, com mais de 450 mil pessoas, constatou que para ser feliz o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre. A verdade, é que as dificuldades de acesso aos bens de primeira necessidade desencadeiam fatores de ordem física, psíquica e emocional — trazendo a infelicidade. Respondendo à pesquisa, a grande maioria que está feliz ou vivendo momentos felizes encontrou na religião (qualquer delas) a sua maior causa; já a infelicidade, está mais atrelada à solidão, e esta, com certeza, já numa forma de sofrimento, de abandono da alma.
O ser humano é uma máquina de queixumes. Não bastasse o corpo, que com o tempo dará sinais de cansaço e dores, as pessoas se queixam também das dores da alma — ainda na juventude. Gostaria que essas pessoas que vivem a reclamar da vida, olhassem para dentro dela e enxergassem os tantos motivos que têm para dar felicidade a si. Quiçá, uma visita à ala de pediatria de um hospital de câncer mudasse seu comportamento, com mais resignação. Iriam se queixar menos e amar a vida que tem. O melhor remédio para dor é o amor. Por outro lado, encontraremos poucas pessoas que irão dizer: EU ENCONTREI A FELICIDADE. A felicidade dá medo até de dizer que se tem, ficamos com a sensação que irá fugir a qualquer momento e não encontraremos mais o fio da meada. Dá medo de ser feliz. Ou, por um instante, nos perguntamos: mas isso que é a felicidade? Duvidamos dela. E como numa frase que li: “o medo da felicidade está na raiz de todo pensamento supersticioso: estando bem, nos sentimos ameaçados e nos protegemos batendo na madeira”.
O filme “O Divã” — 2009 traduz bem esta conversa aqui. A personagem vivida por Lilia Cabral é daquelas mulheres mais do que comum: casou, criou filhos, vida modesta e em paz. Durante uma sessão de psicanálise percebe que sua vida falta algo, um sentimento de incompletude a toma conta. Então, ela resolve viver aventuras amorosas e perigosas. Em consequência, rompe o casamento de anos e cai na vida. O fato, é que a terapia a traz para a realidade, e ela se descobre ao olhar para dentro da sua vida — vivida e escolhida. A frase final dita por ela sintetiza tudo: “Se tive problemas um dia, não foi por falta de felicidade. Ah, não foi mesmo”.
Acender um fósforo numa noite fria irá aquecer somente o minúsculo inseto ao redor da chama, e tão logo se apagará; mas acender uma lareira no canto da sala irá aquecer a casa e as pessoas que ali moram. O amor é o fogo duradouro da lareira, que devemos manter aceso para encontrarmos o caminho da felicidade. Os que acendem a fogueira do amor, irão se aquecer ao seu redor e viver mais felizes. Há aquelas pessoas que passaram a vida toda buscando a felicidade sem encontrar, mas na verdade, viveram nela a “não felicidade”: a negação da sua presença em muitos momentos da vida. Essas pessoas amarguradas, birrentas e de mal com o mundo são puramente ocas, incompletas e terminam sozinhas — o tempo já se foi. Quem não quiser chegar ao final de sua jornada assim, ainda há tempo para abrir as portas do coração e deixar forjar o amor na espiritualidade e por fim a felicidade — tudo na mesma fornalha. E quando a vida um dia lhe questionar, poderá dizer: se tive felicidade um dia, foi porque vivi muito o amor.
O novo texto para o blog está quase pronto. Como o texto "Nesta manhã de primavera..."(leia) ainda está "bombando" com muitos acessos, vou adiar por uns dias a postagem do novo texto. Já fins uns ensaios com alguns leitores e a resposta foi muito boa. Acho que irão gostar.
Enquanto isso, assistam o video da canção "Como se fosse a primavera" de Pablo Milanés/Nicolas Guillén. Chico Buarque gravou está música - 1984. Esta música é uma das belas coleções de compositores cubanos. Deles, gosto muito desse: Pablo Milanés, e de Silvio Rodriguez. Na política, Cuba é um atraso, mas seus compositores são muito bons. Por sinal, esses dois não se alinham mais com a forma governamental e regimentar da ilha.
Enquanto aguardam o próximo texto, leiam os antigos. A primavera começou hoje, vamos mudar o foco e o rumo da prosa.
Como Se Fosse a Primavera
Composição: Pablo Milanés/Nicolas Guillén
De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril
Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal
De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
Eu morrendo
Quando fui dar nome ao blog, veio a lembrança de uma música chamada “Bicicletas, etc...” (Eduardo Souto Neto e Geraldo Carneiro). Esta belíssima música esta no LP de Taiguara de 1971, na última faixa do lado A. Este disco foi uma das grandes inspirações musicais do meu aprendizado. O título era “Carne e Osso” e na capa aparecia uma boca enorme (provavelmente a de Taiguara). Ouvi este disco até furar, literalmente falando. “Bicicletas, etc...” tinha num trecho da letra: “todas as manhãs eu entro no cinema/ numa imagem de luzes coloridas...” e um arranjo com base em piano, como quase tudo que Taiguara fazia. Neste mesmo disco havia outra canção que se chamava “Momento de amor”, era a 3ª faixa do lado A. Sempre interpretei esta música como uma resposta do amor. Do amor que se dá e recebe na mesma proporção. Sua letra e melodia vão da carícia, do afago ao ápice, ao orgasmo e depois o repouso, o descanso. Tudo dentro de uma sutileza de versos e harmonia. Ao fundo se ouvia uníssono uma voz feminina falando ao seu amante palavras de amor.
Momento de Amor (Taiguara)
Neném, eu percebi quando te amei
Teu medo foi maior que o teu amor, neném
Neném, abre o teu peito e diz pra mim
Tudo que te faz temer assim
Neném, dor que se guarda fere mais
Faz medo, desespera e esfria o amor, neném
Meu bem, faz no leito um sol pra nós
Faz da tua treva o amanhecer
Vida é só uma estrada e vai levar
Aonde o teu amor puder
Vida é teu momento de entregar
É dentro de você, mulher
Neném, agora sim num corpo só
Os nossos corpos sós vão se encontrar no amor
Amor, agora sim eu vou te amar
Mais do que te amar vou te saber
Assim, meu colo acolhe a tua mão
E colhe em tua mão o tato bom do amor
Assim, meu braço estreita o nosso amor
Deita sobre o teu o meu viver
Quero, e esse é o momento de alcançar
Vir junto e mergulhar no amor
Quero, deixar no mundo do teu ser
No fundo do teu ser, o amor
Comigo agora, vem, vem, vem neném
"Yesterday" é uma canção originalmente gravada pelos Beatles para o seu álbum Help 1965!. De acordo com o Guinness World Records, "Yesterday" tem mais covers de qualquer canção já escrita. A música continua a ser há mais popular até hoje com mais de 3.000 regravações, a bater o primeiro top 10 do Reino Unido, três meses após o lançamento de Help!.A Broadcast Music Incorporated (BMI), afirma que foi tocada ao longo de sete milhões de vezes no século 20. A canção não foi lançada como single no Reino Unido no momento do lançamento americano e, portanto, nunca ganhou um status de número 1 no país. No entanto, "Yesterday" foi eleita a melhor canção do século 20 em 1999 pela BBC Radio 2 na pesquisa de especialistas em música e ouvintes. Em 2000, "Yesterday" foi votada a canção pop nº 1 de todos os tempos pela MTV e Rolling Stone Magazine. Em 1997, a canção foi introduzida no Hall da Fama do Grammy.Embora creditada a Lennon / McCartney ", a canção foi escrita exclusivamente por McCartney. Em 2002, McCartney pediu a Yoko Ono se ela consideraria reverter os créditos de composição na música para ler "McCartney / Lennon." Ono recusou.
Origem
Segundo os biógrafos de McCartney e os Beatles, McCartney compôs a melodia inteira em um sonho de uma noite em seu quarto na casa em Wimpole Street de sua então namorada Jane Asher e sua família.Ao acordar, ele correu para o piano e tocou a música para evitar de esquecê-la.Ainda não tinha letra e ele a chamou de Scrambled eggs. Mas Paul ficou encucado, achando que já tinha ouvido aquela melodia em algum lugar. Então passou vários dias mostrando para os amigos e perguntando se eles já não a conheciam. Não, ninguém nunca tinha escutado aquilo antes.
Após ser convencido de que ele não havia roubado de alguém a melodia, McCartney começou a escrever letras para adequá-la.O verso inicial de trabalho foi "Ovos mexidos / Oh, meu amor como eu amo seus pés" (Scrambled Eggs/Oh, my baby how I love your legs), foi utilizado para a música, até algo mais apropriado foi escrito. Em sua biografia, Paul McCartney: Many Years From Now, McCartney lembrou: "Então, primeiro de tudo eu verifiquei a melodia, e as pessoas me diziam: 'Não, ele é lindo, e eu tenho certeza que ele é todo seu." Demorei um pouco para me permitir afirmar isso, mas então, como um garimpeiro eu finalmente aceitei e disse: "Ok, ela é minha!" Ela não tinha palavras. Costumava chamá-lo de "ovos mexidos".
Durante as filmagens de Help!, Um piano foi colocado em um dos lugares em que a filmagem estava sendo realizada e McCartney queria aproveitar esta oportunidade para mexer com a música. Richard Lester, o realizador, acabou por ser extremamente irritante com isso e perdeu a paciência, dizendo para McCartney
terminar de escrever a música ou que teria o piano removido.Paciência dos outros Beatles, também foi testado por um trabalho de McCartney em andamento, George Harrison somando isso quando ele disse: "Caramba, ele está sempre falando sobre essa música. Você acha que ele foi Beethoven ou alguém!"
McCartney disse que a descoberta com a letra surgiu durante uma viagem a Portugal em Maio de 1965 quando esteve em Algarve:
"Lembro-me remoendo a canção" Yesterday ", e de repente começou com uma palavra para o verso. Comecei a desenvolver a ideia ..." da-da da, yes-ter-day, sud-den-ly, fun-il-ly, mer-il-ly and Yes-ter-day, that's good. All my troubles seemed so far away". É fácil para rimar os A's: dizer, ou melhor, hoje, fora, jogar, ficar, há uma muitas rimas e aqueles em queda com bastante facilidade, por isso gradualmente coloquei as partes juntos daquela viagem. Sud-den-ly, e 'b', novamente, outra rima fácil: e, me, tree, flea, we, e eu tive a base nele. "
Em 27 de Maio de 1965, McCartney e Asher voaram para Lisboa para passar férias em Albufeira, Algarve, e pediu um violão de Bruce Welch, em cuja casa eles estavam hospedados, e completou o trabalho em "Yesterday"
A canção foi oferecido como uma demonstração de Chris Farlowe antes da gravação dos Beatles, mas ele a recusou por considerá-lo "muito brando".
Gravação
A faixa foi gravada no Abbey Road Studios (imediatamente a seguir na gravação de "I'm Down"), em 14 de Junho de 1965. Há relatos conflitantes sobre a forma como a canção foi gravada, o mais citado é que McCartney gravou a música por si próprio, sem se preocupar em envolver os outros membros da banda. Fontes alternativas, no entanto, afirma que McCartney e os outros Beatles tentaram uma variedade de instrumentos, incluindo bateria e um órgão, e que George Martin mais tarde convenceu-os a permitir que McCartney a tocar a sua Epiphone Texan cordas de aço da guitarra acústica, mais tarde, na edição de um quarteto de cordas para backup.Nenhum dos outros membros da banda foram incluídas na gravação final.No entanto, a música foi tocada com os outros membros da banda em concerto em 1966, em Sol maior, em vez de Fá maior.
McCartney gravou dois takes de "Yesterday", em 14 de junho de 1965.Take 2 foi considerado o melhor e usado como o take master. Um quarteto de cordas foi adicionada no take 2 e essa versão foi lançada.Take 1, sem o overdub seqüência, foi lançado posteriormente no Anthology 2.Em um teste, McCartney pode ser ouvido dando mudança de acordes para George Harrison antes de começar, mas George não parece realmente para tocar.Take 2 tinha duas linhas transpostas a partir do primeiro exame: "There's a shadow hanging over me"/"I'm not half the man I used to be,"",embora pareça claro que a sua ordem no take 2 foi correta, porque McCartney pode ser ouvida, em ter um, contendo o riso em seu erro.
George Martin disse mais tarde:
"Ele [Yesterday] não era realmente um disco dos Beatles e eu discuti isso com Brian Epstein:" Você sabe que esta é a canção de Paul... vamos chamá-lo de Paul McCartney? Ele disse 'Não, tudo o que fazemos, não estamos na divisão do Beatles.''
Lançamento
A influência dos Beatle sobre sua gravadora americana., Capitol, não era tão forte como era na Parlophone da EMI na Grã-Bretanha. Um single foi lançado em nos Estados Unidos.,a "Yesterday" com o "Act Naturally", uma faixa com vocais por Starr.O single foi desenhando até 29 de Setembro de 1965, e liderou as paradas por todo o mês, com início em 9 de outubro. A canção passou um total impressionante de 11 semanas nas paradas americanas, vendendo um milhão de cópias em cinco semanas. "Yesterday" foi a canção mais tocada nas rádios americanas por oito anos consecutivos, a sua popularidade se recusa a diminuir.
"Yesterday" foi o terceiro de seis singles número um nas paradas americanas, um recorde na época.Os singles foram "I Feel Fine", "Eight Days a Week", "Ticket to Ride "," Help! "," Yesterday "e" We Can Work It Out ". "Yesterday " também marcou uma viragem no que escreveu uma série de singles para o grupo. Lennon escreveu cinco através de "Help!", Ao passo que depois McCartney escreveu oito começando com "Yesterday".
Em 4 de março de 1966, "Yesterday" foi lançada como um EP no Reino Unido, juntamente com "Act Naturally" no lado A com "You Like Me Too Much" e "It's Only Love" no lado-B. Até 12 de Março, tinha começado a sua execução nas paradas. Em 26 de março de 1966, o EP foi o número um, a posição que ocupava há dois meses.Mais tarde naquele mesmo ano, "Yesterday" foi incluída como faixa-título do Yesterday and Today album nos EUA.
Dez anos depois, em 8 de março de 1976, "Yesterday" foi lançado pela Parlophone como single no Reino Unido, apresentando "I Should Have Known Better", no lado-B. Entrando nas paradas em 13 de Março, o single permaneceu lá por sete semanas, mas nunca subiu mais do que o número 8 (no entanto, por esta altura a canção tinha sido apresentado em pelo menos três top 5 álbuns e um EP, que liderou as paradas) . O lançamento aconteceu devido à expiração do contrato dos Beatles com a EMI, Parlophone.EMI lançou singles como muitos dos Beatles como poderiam no mesmo dia, levando a 23 deles acertando o top 100 nas paradas do Reino Unido, incluindo seis no top 50.
Em 2006, uma versão da canção foi incluída no álbum Love. A versão começa com a introdução da guitarra acústica da canção "Blackbird".
Comentário:O site da Globo nessa semana numa reportagem falou que a música Yesterday tinha sido escrita na Espanha,o que NUNCA aconteceu!Ela foi escrita em Portugal com as palavras declaradas por Paul
Se eu pudesse intervir no tempo e mudar as estações do ano, eu faria tudo começar com a primavera. Tem tudo a ver com o início da vida: os dias, suas flores e cores sem fim; onde tudo parece se realizar e transformar. Nos dias da criação, não tenho dúvida que era primavera. Deus criou tudo a partir dali. Toda a beleza do mundo foi criada primeira e depois veio o resto. Esta estação encanta, dá alento e esperança; e o sentimento é de renovação e mudanças, com dias claros de contemplação. Eu sempre escolho a primavera para arrumar as gavetas da alma e dar o próximo passo adiante.
Na vida sempre iremos recomeçar algo, do marco zero. Ninguém está livre disso. Há momentos — e aqui eu falo da vida de todos nós — em que haverá um divisor de águas, um barco à deriva que muda sua rota, um novo rumo onde mudanças ocorrerão: um casamento (ou divórcio), o nascimento de um filho, um novo emprego, uma nova moradia, outro lugar ou um novo amor... Também não nos esqueceremos das passagens tristes por acidentes e desastres — esses nunca planejados. Essas fases ficarão perpetuadas nas nossas memórias. É a primavera mudando nossas vidas.
Faz alguns anos vi um filme nacional cujo enredo se baseava em: “a vida tem sempre o lado B” — fazendo uma alusão aos discos “long-playing” —, e na minha modesta tradução, sintetizei: na dificuldade, alterne, vire o disco! Termo este que muitos jovens já ouviram, mas não sabem de onde vem. Vem daí. Em 2000, a revista americana MTV elegeu a música “Yesterday”, a melhor música pop de todos os tempos — o que concordo. No álbum “Help!” dos Beatles — 1965 , “Yesterday” é a penúltima música do lado B, a 13ª música do disco. Às vezes, as melhores músicas estão tocando no lado B de nossas vidas. É preciso virar o disco para desvendá-las e deixá-las entrar.
Nessa toada, nos apontam todos os caminhos, quando a vida diz não para um lado, abrirão outras portas para um novo sentido: vire o disco. Agora a deixo assim, seguir seu norte. Onde vai dar? São minhas escolhas, que apontarão as setas do caminho, iluminado por uma luz espiritual, que me permito a todo o momento. Tenho falado: à vida fazemos as escolhas e ela se posicionará para o lado que está o leme que remamos. Quem insiste e perde tempo com as pessoas erradas, não obstante, terá tempo depois para encontrar e amar a pessoa certa.
É fato, viemos a esta vida fadados a fazer escolhas; e isso começa desde quando nossos pais nos soltam das mãos e então damos os primeiros passos sozinhos. Assim, esticamos nossos bracinhos para o colo de quem queremos ir. Como um filhote de águia que despenca do ninho e aprende a dar seus primeiros rasantes: voamos, voamos por aí buscando alimentos para corpo e para alma. A partir daí nos sentimos livres para fazer o que bem queremos dela; e por ela fazemos muitas opções. Malgrado, para outros é optar até pela morte em detrimento à vida, como muitas tragédias têm mostrado. É claro, a cartilha da boa educação e moral nos é dada também já no engatinhar, tendo também a opção de seguir ou não na fase da consciência.
Depois de sofrer muita resistência e dor, hoje uma amiga aceita a condição de vida de seu pai e sua relação com ele. Aprendeu a amá-lo como ele é; com seus defeitos e qualidades. Ela me disse: “ele escolheu esta vida para ele, isto mesmo antes de eu nascer. Não posso mudar, ele fez suas escolhas. Aprendi agora a amá-lo assim”. Todos os dias nós acordamos já fazendo tais escolhas: banho frio ou quente? Com que roupa eu vou? O quê comer? E no nosso estado de espírito também: como iremos encarar o primeiro que depararmos no elevador ou na rua, com sorriso ou cabisbaixo?
“Sempre achei que estivesse escondida numa concha no fundo do mar”. Quando ouvi esta frase me trouxe uma sensação de que vivemos buscar alguém que está longe dos nossos olhos e do alcance das mãos. Sonhamos com o impossível, a perfeição — talvez, até porque não somos. Achando que só iremos encontrar nossas pérolas, em conchas nos reinos abissais mais profundos. E assim, corremos em busca da perfeição. Haverá uns que brilharão em suas manhãs mais singelas de primavera; há outros que se ofuscarão até ao maior brilho do sol. Esta é vida e o tom que cada um dará a ela. Algo de errado está nos nossos olhos que vivem a buscar o mar com suas riquezas infinitas e inatingíveis, e cegam para outras tão perto e possíveis.
Fazer opção pela sua vida é dar sentido a ela própria. Parece ser conversa fiada, mas nem sempre é assim, muitos castram seus projetos para fazer outras escolhas, viverem a vida que não é sua, e se perdem por aí. Por volúpia ou paixão, às vezes nos confrontamos com lampejos de sentimentos do qual não dominamos e por eles deixamos tudo, e trocamos a nossa pela vida do outro. Isto ocorre com a maioria das mulheres, que, em busca de uma relação perfeita, obedecem a seus cônjuges e se abdicam de seus projetos de vida em prol de um casamento, pensando na sua eternidade. Um dia, acordarão no tédio, já maltrapilhas, sem espelho e sem identidade. A tarefa árdua agora é juntar os cacos, colocar no lugar tudo que espalhou pelos cômodos — a casa agora precisa de uma boa faxina. Mas ainda haverá tempo de se buscar a nova primavera.
Agora escolho esta manhã de primavera (quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos...) e tudo que me renova. Vou abrir todas as janelas da alma e contemplar as cores do dia; vou dar o perdão, vou partilhar o bem, vou tomar meu café sem tempo para sair da mesa, vou despedir da tristeza, vou encontrar com o amor. Nesta manhã de primavera vou andar descalço, vou rir de tudo, vou cumprimentar meu vizinho, vou abrir o coração, vou fechar um livro com lágrimas de emoção, vou começar outro com devoção; vou orar mais um pouquinho, vou trocar de leme e continuar remando.
Nesta manhã de primavera, vou escolher a minha melhor roupa, vou pintar uma tela, vou acreditar no amor, vou fazer nova amizade, vou transgredir, vou ver o mar... Nesta manhã de primavera vou pôr na vitrola e ouvir “Yesterday”, a penúltima música do lado B da trilha sonora da minha vida.
A cada primavera eu renasço, como um réveillon em fogos de artifício e em pétalas de flores. Leva-me daqui, desse inverno, desta dor. Se tiver que escolher, escolho agora esta manhã para renascer. Das estações, eu escolhi a primavera. E você?
A tarde já se ia quando cheguei naquela praia deserta. Meus passos lentos traçavam um caminho incerto na areia. Queria chegar até as pedras, encontrar meu prumo, minha vida. Os povos do oriente nunca me fizeram compreender. As ondas apagavam tudo em que pensava. O inverno que havia em mim era árido e deserto. A brisa gelada fazia minha pele sentir o frescor sob minhas vestes brancas. Sem forças, estirei meu corpo ao chão com minhas mãos espalmadas sobre a rocha ainda quente. Minhas veias saltadas supuravam um suor amargo. A boca seca desencontrava em murmúrios e palavras que brotavam sem direção no espaço. O mar revirava, agitava e lançava suas ondas nas pedras, como um convite para o mistério das suas profundezas. Quero ser como o mar, dizia dentro de mim. Voltarei um dia como mar... Lembrei-me do sonho em que vi um anjo que saltava do penhasco e sumia entre as nuvens. Era bom presságio sonhar com anjos, diziam meus antigos. Mas meus olhos ali amorteciam no firmamento. A cortina do dia fechava num espetáculo que as minhas pupilas teimavam em não espiar e minhas mãos reticentes em não aplaudir. Fiz de mim um vinho entornado, uma palha seca de sentimentos vãos, migalhas de um coração partido em mil pedaços. Um raio de sol quisera que penetrasse inteiro em minha alma, mas não pude represar minhas lágrimas no mesmo instante. Abaixei o queixo, fechei os olhos e com nitidez veio a cena daquele dia na biblioteca. Num livro antigo empoeirado, desvendava o mistério dos meus tormentos e pesadelos: a mulher árabe não pode amar. Convencido que já havia lido e sabia tudo sobre o amor, de como se dissemina entre os povos, na chama do coração e pelo tempo. Que o amor não tem raça, nem credo. Que o amor liberta. Que amar é uma dádiva. Nunca imaginava saber a verdade sobre quem eu amava. Desfolhei outros livros, contos, manuscritos, histórias reais. Nada. Quebraram meus braços, cravaram em meu peito uma lança. Chorei, cuspi nas folhas, disse injúrias e teimei com Deus. Não pode ser assim! Como somos tão desiguais. Meu coração agora arde de amor, eu preciso entregar este amor à minha amada. Minhas teses se concluíam, fechavam como peças de um quebra-cabeça. Das nossas conversas e encontros. Senti que ela sofria e eu por ela mais ainda, mas nada podia fazer. Manifestei aos céus, ceifaram a liberdade dela amar mesmo antes de vir ao mundo. Pensei nas pedras e na água fria que poderia encontrar lá embaixo. Nossos poemas, as canções que compus no mel dos seus olhos. Reli a última mensagem do celular. Mas em tudo voltava como um trem desgovernado: a mulher árabe não pode amar nem aqui, nem em lugar algum. Chorei por nós, pois agora não podia mais lutar por aquele amor que já deveria partir de mim sem tempo. A mulher árabe não serve para o amor. Indaguei o destino que nos cruzou, o evangelho, as escrituras. Por quê? Quero este amor! Em vão, tudo se esmaeceu como uma centelha que se dissipa no ar.
Levantei a cabeça. A noite caia fria e as embarcações eram tragadas no nevoeiro. Pássaros partiam para o repouso noturno. Agora eu era só, as estrelas primeiras surgiam como pontos no pano do céu. Traçava a bel prazer desenhos de geometria incompreensível. Lia sobre elas o nome que me vinha e não era outro senão o nome dela. Músicas entoavam ao longe um hino de amor que guardei para lembrar de nós. Cadernos, poemas, bombardeios, fronteiras, caravanas, desertos tudo se misturava com meu sangue quente. Como compreender? Bêbadas manhãs que acordei pra sonhar com este amor. Para qualquer lugar distante, queria fugir sem deixar vestígios.
Já era tarde e chovia ao norte. Pus-me em pé e fiz um crucifixo do oriente ao ocidente dos meus braços. Gritei - sem eco. Um vento forte soprou em meus olhos e secou minhas lágrimas. Por fim, era verdade como em meu sonho. Senti então meu anjo suspirar ao redor; túnica longa e branca, com a mão estendida sobre meus ombros e na sua plenitude transfigurava: "vai, volte à vida, leve este teu amor para guardar no coração e para sempre na eternidade juntar-se a ela; quanto à mulher árabe, saiba que a ela foi dado somente o prazer de chorar". Parti.