BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

domingo, 12 de setembro de 2010

Nesta manhã de primavera...

Se eu pudesse intervir no tempo e mudar as estações do ano, eu faria tudo começar com a primavera. Tem tudo a ver com o início da vida: os dias, suas flores e cores sem fim; onde tudo parece se realizar e transformar. Nos dias da criação, não tenho dúvida que era primavera. Deus criou tudo a partir dali. Toda a beleza do mundo foi criada primeira e depois veio o resto. Esta estação encanta, dá alento e esperança; e o sentimento é de renovação e mudanças, com dias claros de contemplação. Eu sempre escolho a primavera para arrumar as gavetas da alma e dar o próximo passo adiante.

Na vida sempre iremos recomeçar algo, do marco zero. Ninguém está livre disso. Há momentos — e aqui eu falo da vida de todos nós — em que haverá um divisor de águas, um barco à deriva que muda sua rota, um novo rumo onde mudanças ocorrerão: um casamento (ou divórcio), o nascimento de um filho, um novo emprego, uma nova moradia, outro lugar ou um novo amor... Também não nos esqueceremos das passagens tristes por acidentes e desastres — esses nunca planejados. Essas fases ficarão perpetuadas nas nossas memórias. É a primavera mudando nossas vidas.

Faz alguns anos vi um filme nacional cujo enredo se baseava em: “a vida tem sempre o lado B” — fazendo uma alusão aos discos “long-playing” —, e na minha modesta tradução, sintetizei: na dificuldade, alterne, vire o disco! Termo este que muitos jovens já ouviram, mas não sabem de onde vem. Vem daí. Em 2000, a revista americana MTV elegeu a música “Yesterday”, a melhor música pop de todos os tempos — o que concordo. No álbum “Help!” dos Beatles — 1965 , “Yesterday” é a penúltima música do lado B, a 13ª música do disco. Às vezes, as melhores músicas estão tocando no lado B de nossas vidas. É preciso virar o disco para desvendá-las e deixá-las entrar.

Nessa toada, nos apontam todos os caminhos, quando a vida diz não para um lado, abrirão outras portas para um novo sentido: vire o disco. Agora a deixo assim, seguir seu norte. Onde vai dar? São minhas escolhas, que apontarão as setas do caminho, iluminado por uma luz espiritual, que me permito a todo o momento. Tenho falado: à vida fazemos as escolhas e ela se posicionará para o lado que está o leme que remamos. Quem insiste e perde tempo com as pessoas erradas, não obstante, terá tempo depois para encontrar e amar a pessoa certa.

É fato, viemos a esta vida fadados a fazer escolhas; e isso começa desde quando nossos pais nos soltam das mãos e então damos os primeiros passos sozinhos. Assim, esticamos nossos bracinhos para o colo de quem queremos ir. Como um filhote de águia que despenca do ninho e aprende a dar seus primeiros rasantes: voamos, voamos por aí buscando alimentos para corpo e para alma. A partir daí nos sentimos livres para fazer o que bem queremos dela; e por ela fazemos muitas opções. Malgrado, para outros é optar até pela morte em detrimento à vida, como muitas tragédias têm mostrado. É claro, a cartilha da boa educação e moral nos é dada também já no engatinhar, tendo também a opção de seguir ou não na fase da consciência.

Depois de sofrer muita resistência e dor, hoje uma amiga aceita a condição de vida de seu pai e sua relação com ele. Aprendeu a amá-lo como ele é; com seus defeitos e qualidades. Ela me disse: “ele escolheu esta vida para ele, isto mesmo antes de eu nascer. Não posso mudar, ele fez suas escolhas. Aprendi agora a amá-lo assim”. Todos os dias nós acordamos já fazendo tais escolhas: banho frio ou quente? Com que roupa eu vou? O quê comer? E no nosso estado de espírito também: como iremos encarar o primeiro que depararmos no elevador ou na rua, com sorriso ou cabisbaixo?

Sempre achei que estivesse escondida numa concha no fundo do mar”. Quando ouvi esta frase me trouxe uma sensação de que vivemos buscar alguém que está longe dos nossos olhos e do alcance das mãos. Sonhamos com o impossível, a perfeição — talvez, até porque não somos. Achando que só iremos encontrar nossas pérolas, em conchas nos reinos abissais mais profundos. E assim, corremos em busca da perfeição. Haverá uns que brilharão em suas manhãs mais singelas de primavera; há outros que se ofuscarão até ao maior brilho do sol. Esta é vida e o tom que cada um dará a ela. Algo de errado está nos nossos olhos que vivem a buscar o mar com suas riquezas infinitas e inatingíveis, e cegam para outras tão perto e possíveis.

Fazer opção pela sua vida é dar sentido a ela própria. Parece ser conversa fiada, mas nem sempre é assim, muitos castram seus projetos para fazer outras escolhas, viverem a vida que não é sua, e se perdem por aí. Por volúpia ou paixão, às vezes nos confrontamos com lampejos de sentimentos do qual não dominamos e por eles deixamos tudo, e trocamos a nossa pela vida do outro. Isto ocorre com a maioria das mulheres, que, em busca de uma relação perfeita, obedecem a seus cônjuges e se abdicam de seus projetos de vida em prol de um casamento, pensando na sua eternidade. Um dia, acordarão no tédio, já maltrapilhas, sem espelho e sem identidade. A tarefa árdua agora é juntar os cacos, colocar no lugar tudo que espalhou pelos cômodos — a casa agora precisa de uma boa faxina. Mas ainda haverá tempo de se buscar a nova primavera.

Agora escolho esta manhã de primavera (quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos...) e tudo que me renova. Vou abrir todas as janelas da alma e contemplar as cores do dia; vou dar o perdão, vou partilhar o bem, vou tomar meu café sem tempo para sair da mesa, vou despedir da tristeza, vou encontrar com o amor. Nesta manhã de primavera vou andar descalço, vou rir de tudo, vou cumprimentar meu vizinho, vou abrir o coração, vou fechar um livro com lágrimas de emoção, vou começar outro com devoção; vou orar mais um pouquinho, vou trocar de leme e continuar remando.

Nesta manhã de primavera, vou escolher a minha melhor roupa, vou pintar uma tela, vou acreditar no amor, vou fazer nova amizade, vou transgredir, vou ver o mar... Nesta manhã de primavera vou pôr na vitrola e ouvir “Yesterday”, a penúltima música do lado B da trilha sonora da minha vida.

A cada primavera eu renasço, como um réveillon em fogos de artifício e em pétalas de flores. Leva-me daqui, desse inverno, desta dor. Se tiver que escolher, escolho agora esta manhã para renascer. Das estações, eu escolhi a primavera. E você?

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / setembro de 2010.



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A mullher árabe

A tarde já se ia quando cheguei naquela praia deserta. Meus passos lentos traçavam um caminho incerto na areia. Queria chegar até as pedras, encontrar meu prumo, minha vida. Os povos do oriente nunca me fizeram compreender. As ondas apagavam tudo em que pensava. O inverno que havia em mim era árido e deserto. A brisa gelada fazia minha pele sentir o frescor sob minhas vestes brancas. Sem forças, estirei meu corpo ao chão com minhas mãos espalmadas sobre a rocha ainda quente. Minhas veias saltadas supuravam um suor amargo. A boca seca desencontrava em murmúrios e palavras que brotavam sem direção no espaço. O mar revirava, agitava e lançava suas ondas nas pedras, como um convite para o mistério das suas profundezas. Quero ser como o mar, dizia dentro de mim. Voltarei um dia como mar... Lembrei-me do sonho em que vi um anjo que saltava do penhasco e sumia entre as nuvens. Era bom presságio sonhar com anjos, diziam meus antigos. Mas meus olhos ali amorteciam no firmamento. A cortina do dia fechava num espetáculo que as minhas pupilas teimavam em não espiar e minhas mãos reticentes em não aplaudir. Fiz de mim um vinho entornado, uma palha seca de sentimentos vãos, migalhas de um coração partido em mil pedaços. Um raio de sol quisera que penetrasse inteiro em minha alma, mas não pude represar minhas lágrimas no mesmo instante. Abaixei o queixo, fechei os olhos e com nitidez veio a cena daquele dia na biblioteca. Num livro antigo empoeirado, desvendava o mistério dos meus tormentos e pesadelos: a mulher árabe não pode amar. Convencido que já havia lido e sabia tudo sobre o amor, de como se dissemina entre os povos, na chama do coração e pelo tempo. Que o amor não tem raça, nem credo. Que o amor liberta. Que amar é uma dádiva. Nunca imaginava saber a verdade sobre quem eu amava. Desfolhei outros livros, contos, manuscritos, histórias reais. Nada. Quebraram meus braços, cravaram em meu peito uma lança. Chorei, cuspi nas folhas, disse injúrias e teimei com Deus. Não pode ser assim! Como somos tão desiguais. Meu coração agora arde de amor, eu preciso entregar este amor à minha amada. Minhas teses se concluíam, fechavam como peças de um quebra-cabeça. Das nossas conversas e encontros. Senti que ela sofria e eu por ela mais ainda, mas nada podia fazer. Manifestei aos céus, ceifaram a liberdade dela amar mesmo antes de vir ao mundo. Pensei nas pedras e na água fria que poderia encontrar lá embaixo. Nossos poemas, as canções que compus no mel dos seus olhos. Reli a última mensagem do celular. Mas em tudo voltava como um trem desgovernado: a mulher árabe não pode amar nem aqui, nem em lugar algum. Chorei por nós, pois agora não podia mais lutar por aquele amor que já deveria partir de mim sem tempo. A mulher árabe não serve para o amor. Indaguei o destino que nos cruzou, o evangelho, as escrituras. Por quê? Quero este amor! Em vão, tudo se esmaeceu como uma centelha que se dissipa no ar.

Levantei a cabeça. A noite caia fria e as embarcações eram tragadas no nevoeiro. Pássaros partiam para o repouso noturno. Agora eu era só, as estrelas primeiras surgiam como pontos no pano do céu. Traçava a bel prazer desenhos de geometria incompreensível. Lia sobre elas o nome que me vinha e não era outro senão o nome dela. Músicas entoavam ao longe um hino de amor que guardei para lembrar de nós. Cadernos, poemas, bombardeios, fronteiras, caravanas, desertos tudo se misturava com meu sangue quente. Como compreender? Bêbadas manhãs que acordei pra sonhar com este amor. Para qualquer lugar distante, queria fugir sem deixar vestígios.

Já era tarde e chovia ao norte. Pus-me em pé e fiz um crucifixo do oriente ao ocidente dos meus braços. Gritei - sem eco. Um vento forte soprou em meus olhos e secou minhas lágrimas. Por fim, era verdade como em meu sonho. Senti então meu anjo suspirar ao redor; túnica longa e branca, com a mão estendida sobre meus ombros e na sua plenitude transfigurava: "vai, volte à vida, leve este teu amor para guardar no coração e para sempre na eternidade juntar-se a ela; quanto à mulher árabe, saiba que a ela foi dado somente o prazer de chorar". Parti.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril 2007

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Eu quero uma casa no campo



Foi Zé Rodrix quem compôs “Casa no Campo”. Ele faleceu em 2009 aos 61 anos de idade. Durante sua carreira, cheia de altos e baixos, foi: cantor, compositor, produtor, arranjador, saxofonista, publicitário e escritor. E no final da vida, ainda lhe sobrou tempo para por os pés na estrada, e junto com velhos parceiros, Sá e Guarabyra, reviver alguns dos seus rocks rurais fazendo shows pelo país.

A canção que marcou sua carreira foi composta em parceria com Tavito e ganhou o Festival de Música de Juiz de Fora — 1971, pouco depois Elis Regina deu alma e tornou-a conhecida nacionalmente. Faz algum tempo fiquei sabendo que “Casa no Campo” era o hit da juventude daquele início de anos setenta, pós Woodstock; o hino da galera hippie — um movimento de contracultura que propunha viver em uma sociedade alternativa e comunitária; em comunhão com a natureza, desapegada de tudo e longe do convívio urbano. Aquela geração queria esse refúgio, esse retiro espiritual para o avesso do mundo. Justificando a asserção de plantar amigos, discos, livros e nada mais. Nada mais e ponto final.

Naqueles idos, do outro lado do mundo a Guerra do Vietnã ainda corria em trincheiras abertas; o Brasil vivia debaixo de um governo de regime militar; ensaiava-se uma nova ordem na música com o fim dos Beatles. Enfim, havia tantos mais motivos para se refugiar numa casinha de pau a pique e sapé. Acredito que, Rodrix morreu sem viver o sonho daquela casa, ou melhor, precisou pelejar para ganhar o seu pão, sobrevivendo à metrópole com seus arranha-céus; e pouco lhe restou para viver num lugar onde pudesse ficar como queria: do tamanho da sua paz.

Todas as manhãs eu abro meu jornal virtual — não saio de casa sem pelo menos ler algumas notícias —, há muitas desgraças e poucas coisas boas para lhes contar. É corriqueiro, não muda. Às vezes me pego pensando como virar este mundo ao avesso, digo, como chamar atenção das pessoas que, pelo jeito, não se sentem responsáveis por nada. Ainda não aprendemos a viver, lutamos contra nós mesmos; e não há outra raça para competir conosco em igualdade. Por que então? Precisamos de um homem novo, um arquétipo novo da raça? O mundo de 2010 ainda continua a fabricar suas guerras estranhas e sem propósito; o Brasil — agora da democracia — vive sob o estigma da corrupção, das torturas ideológicas e das desigualdades sociais; por fim, ninguém mais veio substituir os Beatles na música. Como naqueles anos, temos tantos outros ou mais motivos para se refugiar e querer a paz, a nossa paz interior. Ou então — já que não conseguimos vencer o mal do mundo —, de maneira radical, nos retiramos daqui, como sugeriu o físico Stephen Hawking em declaração recente.

Os hippies, da mesma forma que se espalharam também sumiram do planeta, e ninguém apareceu de novo organizando festivais de rock sob a batuta do lema “paz e amor”. Nada mudou, ou tudo mudou e agora para pior; muito perdemos em moralidade e no sentido do respeito à vida e ao próximo. Agora querem também incendiar a casinha que desenho para um dia morar. Não deixarei. Quero minha casa no campo: aconchegante, sem infiltrações, sem goteiras, de forte alicerce sobre rocha, e no extremo norte da minha paz.

Em alguns hectares do meu pensamento ela se constrói. Eu também quero uma casa no campo. Ela será modesta com poucas divisões e volumetria singular: um alpendre generoso para acomodar cadeiras de balanço, ganchos para redes e ladeado por samambaias e avencas. A sala com pé-direito duplo e lareira; a cozinha com fogão à lenha; aposentos com esquadrias com vista para um gramado e montanhas como seu pano de fundo. Um ambiente para “jogos radicais” como sinuca e futebol de botão. Um lago para pescaria de final de tarde; uma horta para colher folhas tão necessárias à saúde; um pomar de frutas cítricas; um rio raso de águas cristalinas e de três margens correndo no quintal. Por fim, uma lua colada no céu (cancerianos não vivem sem). Ah! Também terei a companhia de um casal de cães labradores e um jipe “Willis” para um “off road”, em busca de cachoeiras e paraísos exóticos. Uma vida simples com meus amigos, discos, livros e nada mais.

São inúmeras as histórias de pessoas que largaram tudo, ou quase tudo, e foram em busca do seu refúgio. É o caso do ator Walmor Chagas que há anos mora num sítio em Guaratinguetá e de lá só sai para um trabalho que vale a pena. Imagino que muita gente já tenha vivido a fase de querer uma casinha no campo. Eu tenho sempre esta vontade, vivo tendo. Esconder-me do mundo, de tudo e de todos. Sem vizinhos, sem trânsito, sem reuniões de trabalho. Não porque não gosto das pessoas; não porque quero ser um hippie e odeio o mundo onde vivo, mas porque às vezes há que se desistir para recomeçar num outro ponto qualquer da vida; é o melhor para a sobrevivência, um trem que chegou ao fim da linha, precisa agora mudar de trilhos. Irei mudar o que há em mim, fora do meu corpo fica difícil competir.

A casa agora em meu peito é um abrigo de sonhos, um sol que desponta com suas janelas abertas para a alma, e vem com a aurora; e o coração meu quarto refúgio — de segredo, mistérios e amores guardados. Do lado de lá passo a vida e o tempo que me resta, que me cabe. Vivida e longe das mãos dos que torturam e esmigalham o amor em troca de rancores e riquezas fúteis — eu quero minha casa no campo. Não quero mais carregar o mundo sobre os ombros, como já teimei. Agora estou a caminho, a minha estrada é de luz, de exuberantes flores, mas com pesada cruz, a minha. Serei efêmero? Não importa, a casinha no campo é um sonho. Caminho até ela. A face rubra do sol, os pés empoeirados e as pedras que me atormentam. Logo chegarei até ela — há tempo. Renunciarei orgulhos, tristezas, decepções e mágoas pelo caminho. Regarei os jardins dos corações insensatos com sorrisos e esperança. Colhendo frutos e seguindo os passos justos. Um andarilho dentro de mim caminha sem parar. Que inveja fará ao peregrino de Santiago? Haverá dias que virão tristezas, eu sei, mas resistirei em seu propósito. Quero encontrar minha casa antes do arrebol, antes da minha morte, antes da minha próxima dor.

Plantarei comigo todos os amores que vivi. Do baú, os retratos que guardei de histórias passadas. De nossas risadas e beijos ao luar. Da brisa da infância tão distraída. O presépio da noite de natal. A bola de futebol. As laranjas do quintal e o primeiro uniforme escolar. Quero levar você, nesga saudade, com suas cartas de amor e as canções que nos fez chorar. Sua doçura e tudo que ficou no meu paladar. Não serão objetos de adornos as iras e mágoas. Tenha certeza, sob minha guarida não haverá revoltas. Nas paredes, quero afrescos dos seus olhos para as tardes que tiver que suspirar de amor. Do nascer ao pôr-do-sol irei pensar que o amor nunca morreu, o tempo adiou para ser eterno como será a vida na minha casa no campo. Deixa-me construir agora...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Agosto de 2010.

sábado, 21 de agosto de 2010

Teletema


Hoje acordei com esta música na cabeça. Ela é uma das jóias raras do final da década de 60. Fui me ater aos seus autores, Antônio Adolfo e o letrista Tibério Gaspar, descobri que andaram pelos festivais daquela época. Em 1969 colocaram a canção "Juliana" em segundo lugar no IV FIC - Festival Interancional da Canção, perdendo só para "Cantiga por Luciana" de Paulinho Tapajós e Edmundo Souto. No ano seguinte eles ganhariam o festival com BR-3. Eu só não entendo porque "Teletema" não tenha feito parte daqueles festivais. Depois a canção foi parar na trilha de uma novela. "Teletema" teve várias gravações na voz de Regininha, Evinha, Paula Toller, Luiza Possi e Ivo Pessoa.
Uma grande sacada da letra de Tibério está no fim de três frases musicais, onde ele interrompe a palavra - junto com a frase musical - para continuar na frase seguinte: Só + Corro = Socorro; Fim + Dando = Findando e; Além + Brando = Lembrando. Este recurso já foi utilizado por Caetano Veloso também. Genial!
Segundo os créditos do video abaixo, a voz é de Regininha e ao piano Marcos Valle.



Teletema
(Antônio Adolfo e Tibério Gaspar)

Rumo
Estrada turva
Sou despedida
Por entre
Lenços brancos
De partida
Em cada curva
Sem ter você
Vou mais só
Corro
Rompendo laços
Abraços, beijos
Em cada passo
É você quem vejo
No tele-espaço
Pousado
Em cores no além
Brando
Corpo celeste
Meta-metade
Meu santuário
Minha eternidade
Iluminando
O meu caminho
E findando a incerteza
Tão passageira
Nós viveremos
Uma vida inteira
Eternamente
Somente os dois
Mais ninguém
Eu vou de sol a sol
Desfeito em cor
Refeito em som
Perfeito em tanto amor

Postado por Antônio - Agosto/2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ufa!

A expressão não seria melhor: "Ufa!". Estou terminando o próximo texto que ficou engavetado pelo menos uns três meses. Tirava, olhava, escrevia e guardava. Comecei e terminei outros e este não ia adiante. Agora creio que a ideia já esteja totalmente formada, as palavras condensadas e o recado passado. Nem sempre os temas fluem, às vezes eles precisam de um empurrão quem vem de dentro ou de fora. Este teve vários empurrões.
Parti do tema de uma canção para  me aprofundar em "Eu quero uma casa no campo". Trata-se de uma resenha do nosso cancioneiro, com uma pitada de lirismo. Por ter alguns leitores que estão gostando das escritas - alguns revelados de maneira pessoal - aí você começa a ficar meio chato consigo mesmo. Por vezes fica o receio que o recado não seja dado,  falte conteúdo ou que ninguém se interesse pelo assunto.
Não obstante, também não uso da força da memória, faço porque curto fazer isso. É um exercício diário que também contribui para colocar os pensamentos e a vida nos trilhos. Quando as palavras vêm, são avalanches, que chegam até me tirar o sono; como ocorreu em "Balões Cristalizados", que nasceu da noite para o dia. Em outros, elas já não brotam com tanta facilidade. Há que se provocar.
Mais uns dias e deixarei postado aqui este texto inédito. Será o mês de Agosto? Então, venha logo Setembro com sua primavera e seus brotos de flores.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Frio e a inteligência emocional

Aproveitei o fim de semana frio para pôr alguns pensamentos em dia. O cobertor, o café, o aconchego, e as boas palavras fizeram meu corpo e minha alma mais quente, como há muito não havia sentido. Bem, as previsões já haviam avisado que a temperatura no sudeste iria cair, até por isso cancelei o jogo do Palmeiras com os sobrinhos. É muito amor ao time sentar numa arquibancada gelada e ver a noite chegar e esfriar mais ainda. Pena, pois o time finalmente ganhou.

Também aproveitei para rever e refletir um pouco mais sobre uma palestra do psicanalista Flávio Gikovate. Como falei, não sou psicólogo e não quero ficar pautando este ou aquele psicanalista pela corrente que dominam ou seguem: junguiana ou freudiana. Sei lá eu. Só sei que o que fala me interessa e recomendo que lêem mais sobre suas obras e publicações. Gikovate tem uma linguagem fácil e seus assuntos são contemporâneos, pois dizem respeito ao convívio das pessoas nas relações e elas com suas vidas.

Muito do que disse nesta palestra sobre inteligência emocional — ou maturidade — vai de encontro com ao mundo que nós vivemos e pessoas que deparamos pela vida. Quando assisti pela primeira vez esta palestra, a pessoa ao meu lado não lhe deu muita importância; talvez se prestasse atenção teria sido melhor nas suas escolhas. O analfabeto emocional é aquele que se esvaziou dos sentimentos e não evoluiu o dom de amadurecer para as emoções. Não quero me prolongar, pois isto vai ser conteúdo de outra conversa aqui no blog. Vou me arriscar a falar sobre educação.

domingo, 8 de agosto de 2010

Maestro Soberano

Astrud Gilberto e Tom Jobim
Os meninos e meninas de hoje não sabem, mas o artista da música brasileira mais consagrado e respeitado no cenário internacional não é Ivete Sangalo. Bem, devo ter frustrado alguns leitores e outros deixarão de ler até o final. Lamento, mas ainda é — e continuará sendo por muito tempo — Antonio Carlos Jobim, ou simplesmente Tom Jobim. Seu prestígio no cenário musical rompeu fronteiras e não há lugar no mundo onde não se conheça uma de suas composições. Poderia falar muito dele, passar horas escrevendo sobre suas obras e passagens da sua vida que conheço, mas tentarei ser preciso nas boas lembranças que deixou.

Há um episódio que vivi num aniversário de um menino de 10 anos — presumo a idade — quando veio sua mãe toda entusiasmada me dizer que o garoto sabia cantar muitas canções da moda (estas que tocam no rádio); depois dele ter cantado algumas, eu perguntei se sabia cantar algo de Tom Jobim, ele me disse que não conhecia, nem sabia quem era. Quando cantarolei um trecho de “Garota de Ipanema”, ele me disse sorrindo: “conheço, esta eu conheço”.

Tom faleceu em dezembro de 1994 aos 67 anos, poderia ter ficado mais um pouquinho por aqui, feito mais músicas e gravado outros discos, mas sua lira fechou a partitura sobre o piano e partiu. Ele ainda nos deixou um acervo de músicas belíssimas que já ficaram para a eternidade. Junto com seu principal parceiro Vinícius de Moraes, Tom compôs suas melhores obras e talvez as mais conhecidas do grande público. Cito duas: “Chega de Saudade” — 1958 — foi o marco do início da Bossa Nova quando João Gilberto inventou ao violão a tal batida “bossa nova”, a primeira gravação foi na voz de Elizeth Cardoso no disco “Canção do amor demais”; depois veio “Garota de Ipanema” — 1962, esta canção o tornou de fato conhecido internacionalmente, com gravações em vários idiomas. Tal qual o menino citado acima, quem nunca ouviu esta canção, mesmo desconhecendo seus autores?

Na sua trajetória nos EUA, quando tentaram associar a Bossa Nova ao jazz, a cantora baiana Astrud Gilberto gravou quase tudo de Tom em inglês. Naquele início da década de sessenta, uma de suas canções foi parar também nas paradas britânicas, era “Desafinado” parceria com Newton Mendonça. Pude comprovar isso quando assistia um dos filmes da Antologia do Beatles, uma das cenas mostra a música “Love me do” chegando às paradas em 17º lugar e logo acima — em 11º lugar — aparece “Desafinado”. Até congelei a imagem para me certificar, era verdade. Em meados de 1964, no auge dos seus 24 anos, Astrud Gilberto, naquela época casada com João Gilberto, colocou “ The Girl from in Ipanema” em 5º lugar na Billboard — a parada da música americana: “Tall and tanned and young and lovely / the girl from Ipanema goes walking / and when she passes / he smiles / but she doesn't see / no she doesn't see /she just doesn't see...”. Ao mesmo tempo, seu álbum gravado com o saxofonista Stan Getz era o álbum de jazz mais vendido nos EUA. Astrud caiu no gosto americano com a aquela voz suave e seu rostinho hollywoodiano bem ao estilo Audrey Hepburn. Depois do fim do casamento, sua carreira seguiu por lá gravando outros discos em inglês e de puríssima Bossa Nova e Tom Jobim.

Uma das passagens da carreira de Tom que merece registrar é o encontro com Frank Sinatra. Em 1967 ele recebeu um telefonema de Frank Sinatra dizendo que queria gravar algumas de suas canções. O disco “Albert Francis Sinatra & Antonio Carlos Jobim” foi gravando naquele ano. O curioso é que este disco só perdeu em vendas nos EUA para “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Hoje só consegui encontrar pelo site de vendas Amazon.com. É triste ter que imaginar que no Brasil não se encontre um disco como este: uma preciosidade. Depois da gravação, Sinatra e Tom se tornaram amigos, e naquele mesmo ano Sinatra o convidou para participar de um especial que estava gravando para a rede de televisão NBC. Aquele encontro foi memorável. A organização não deixou que Tom tocasse piano (seu instrumento preferido), pois achava que músico latino só tocava violão, mesmo assim Tom não hesitou e empunhou seu violão para acompanhar Sinatra, inclusive num dueto em “Garota de Ipanema”. Antes, Tom já havia se apresentando nos EUA no Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova York em 1962. O sucesso internacional não parou por aí, a cantora americana Ella Fitzgerald gravou suas músicas; o parceiro de Paul Simon, Art Garfunkel também gravou “Corcovado” e “Águas de março”.

Depois de sua morte lhe quiseram render muitas homenagens, como uma forma de não deixá-lo cair no esquecimento, mas a melhor homenagem seria se as rádios tocassem Tom Jobim diariamente. Hoje Tom virou nome do aeroporto internacional do Rio, antes Galeão. Um dia ouvi de um amigo coronel da aeronáutica que o aeroporto merecia o nome de um oficial da aeronáutica e não de Tom Jobim. Calei-me , mas fiquei pensando se algum desses oficiais já havia feito uma canção para o Rio como “Samba do Avião”- 1962: “Minha alma canta / Vejo o Rio de Janeiro / Estou morrendo de Saudade...”. Acertou quem deu o nome: Aeroporto internacional Tom Jobim. Tom merecia esta e muitas outras homenagens. Reconhecedor, bem que o carioca tentou outra homenagem ao mudar o nome da Av. Vieira Souto para Av. Antonio Carlos Jobim, assim seria encontrada pela Rua Vinicius de Moraes no bairro de Ipanema — onde tudo começou. Eu estava no Rio à época quando o caso virou polêmica. A família Vieira Souto questionou na justiça e a Prefeitura teve de recuar, retirar a placa e voltar a Vieira Souto ao seu lugar. A cidade de São Paulo não soube homenageá-lo, colocou seu nome em um túnel. Quanta insensatez — fazendo alusão a uma de suas músicas —, Tom era contemplador e defensor da natureza, conhecedor do canto dos pássaros e não havia nada de concreto armado na sua alma. Mas pior foi na minha cidade quando soube que um loteamento popular virou “conjunto habitacional Tom Jobim”. Tenho certeza que quem deu este nome só conheceu sua carreira até a faculdade de arquitetura e urbanismo.

Chico Buarque tinha por ele mais que admiração e isso foi antes mesmo da primeira parceria em “Retrato em Branco e Preto” — 1967. Eles foram compadres, parceiros musicais e amigos de muitos drinks. Nesta época, Chico ainda deu uma contribuição na construção de “Wave”, é dele o primeiro verso: “Vou te contar...”; depois Tom fez o resto: “os olhos já não podem ver...” No ano seguinte, Tom & Chico selaram de vez a parceria ao concorrer e ganhar o III Festival Internacional da Canção – FIC com a belíssima “Sabiá”. Antes de morrer ou partir, Tom foi bem homenageado, aí sim, por Chico Buarque em uma de suas canções. Chico havia acabado de compor “Paratodos” – 1993. Num dos versos dedicados a ele, diz: “Meu maestro soberano foi Antonio Brasileiro / Foi Antonio Brasileiro que soprou esta toada / Que cobri de redondilhas...”. Chico chamou Tom para ouvir, mas ele já estava cansado e já sem paciência de tanta música na sua cabeça que pouco lhe deu atenção, revelou Chico.

Promessa cumprida. As reverências a Tom Jobim que faço nesta modesta crônica, esmiúçam em partes o carinho e outras em forma de agradecimento: obrigado ao maestro soberano. Agora, chega de saudade.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / agosto de 2010.


Comento: Este video não é um clipe, acredito que tenha sido extraído de um longa - não tenho esta informação -, mas o rostinho de Astrud é ou não de Audrey Hepburn?

sábado, 7 de agosto de 2010

O filho que quero ter


O filho que quero ter
(Toquinho e Vinícius de Moraes)

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem
De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem
Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter

Postado por Antônio - Agosto/2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sonho Real

A década de 80 foi marcada por várias descobertas na minha vida. Foi a época da efervescência na música pop no Brasil, com o surgimento de várias bandas nacionais que até hoje estão na estrada, e agora fazendo a cabeça desta geração. Foi naqueles anos, que também deixei cair nos meus ouvidos belas canções que, por descuido, depois ficaram marcadas para sempre em mim.

Quando Lô Borges lançou o disco “Sonho Real”- 1984, eu já conhecia sua obra pelos violões que eram tocados no nosso Clube da Esquina – bem pertinho de casa. Foi lá que ouvi pela primeira vez “Vento de Maio”, “Girassol da cor dos seus cabelos” entre outras. Quanto foi lançado o disco, fui à loja Multison na Rua Sete de Setembro e gastei alguns cruzeiros para ter meu primeiro disco de Lô. Depois que pus a primeira vez na agulha , não saiu mais da vitrola.

Lembro que de manhã, antes de sair para o trabalho – naquela época eu era caixa de banco - eu tomava café ouvindo “Sonho Real”. Tenho o CD remasterizado junto com outros de Lô, mas guardo com carinho o vinil de "Sonho Real" até hoje, quase sem arranhões.

O disco trás obras lindas como “Tempestade”, “Nenhum Mistério” – esta também gravada por Simone – e “Sonho Real”, a minha preferida. Esta composição de Lô e Ronaldo Bastos foi gravada com arranjo e regência de Toninho Horta. No arranjo, além da orquestra de cordas, há arpejos de harpa e gaita; sem contar de um solo inconfundível da guitarra do próprio Toninho Horta. Esta canção entrou definitivamente para minha vida. Não cabem outras recordações, não retiro lembranças de nenhuma paixão que vivi naqueles anos. Ela por si só já me faz suspirar. Hoje reparto com vocês um sonho verdadeiramente real.


SONHO REAL

(Lô Borges / Ronaldo Bastos)
A primeira vista
A paixão não tem defesa
Tem de ser um grande artista
Pra querer se segurar
Faz tremer a perna
Faz a bela virar fera
Quando alguém que a gente espera
Quer se chegar
Só de pensar
Já me faz mais feliz
Nem bem o amor começa
Eu já quero bis
Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .
Ilusão tão boa
Quanto o astral de uma pessoa
Chega junto, roça a pele
E já quer se enroscar
Lê seu pensamento
Paralisa seu momento
Ao se encostar
Sonho real
Faz surpresa pra mim
E trança o meu destino com alguem assim
Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .
Vem andar comigo
Numa beira de estrada
Desse lado ensolarado
Que eu achei pra caminhar
Vem meu anjo torto
Abusar do meu conforto
Ser meu bem em cada porto
Que eu ancorar
Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do seu lado
Tem alguém afins
Chega e instala a beleza
Momento de sonho real...


Publicado por Antônio - Agosto/2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A noite que não terminou

Ao lado do grupo MPB-4, Chico Buarque defende "Roda Viva" na final do festival de 1967, exibido pela TV Record; a canção ficou em terceiro lugar

Estreia amanhã (30/07) em circuito nacional - menos nas cidades interioranas como a minha - o filme "Uma noite em 67". Reproduzo abaixo trecho da matéria que o jornal Folha de São Paulo trás hoje em seu Caderno Ilustrada, com comentários sobre o filme. De fato, é um filme para ver, rever e ter em DVD; para guardar como documentário. Vale a pena. Este Festival foi o divisor de águas e marcou o início de uma nova era na nossa música popular. De lá para cá não fizemos mais tantos artistas de alto nível assim. Uma pena.

(Folha de São Paulo 29/07/2010)
Longa refaz história da MPB a partir da grande final do festival de 1967; arquivos e entrevistas revelam bastidores e acertam contas com o passado.
ANA PAULA SOUSA
MARCUS PRETO
DE SÃO PAULO

É impossível esquecer aquela noite. Ao mesmo tempo, como é difícil recordá-la.
A final do 3º Festival da Música Popular Brasileira, exibida pela Record em 21 de outubro de 1967, ficou congelada na memória do público como um momento único.
Para seus protagonistas, porém, se foi alegria, foi também perturbação. É isso que revela, quatro décadas mais tarde, "Uma Noite em 67", documentário de Renato Terra e Ricardo Calil, crítico de cinema da Folha.
Por meio dos arquivos da TV Record e de depoimentos de quem estava lá, o filme revê um momento que iria se provar fundamental para a forma que assumiria, a partir dali, a música brasileira.
Há Chico Buarque ("Roda Viva"), Caetano Veloso ("Alegria, Alegria"), Gilberto Gil ("Domingo no Parque") e Roberto Carlos ("Maria, Carnaval e Cinzas") a defender suas canções. E há todos eles a rememorar aquela noite.
"Eu era um fantasma no palco", diz Gil, que caiu de cama, em pânico, horas antes da apresentação.

INTIMIDADE
É desses reencontros profundos com o passado que se constitui o filme. Fica claro que os diretores sabiam que muitos, como Caetano e Gil, tiveram suas falas sobre aquela noite banalizadas, tamanha a quantidade de entrevistas dadas a respeito.
Tinham também em mente que outros, como Chico e Roberto, dificilmente baixariam a guarda. "Era fundamental criar uma cumplicidade. Nós nos preparamos muitos e tentamos ser delicados, respeitosos", diz Calil.
Com isso, arrancaram de cada um momentos de graça, emoção e intimidade, como raras vezes se veem na tela.
"Ao ver o filme, assustei-me mais com suas revelações do que em me ver naquela agonia de não poder mostrar uma música", diz Sergio Ricardo que, impedido pelo público de cantar "Beto Bom de Bola", atirou a viola à plateia. O filme traz à luz a cena inteira, e não apenas a explosão. "Me sinto de alma lavada."
Há também um quê de acerto de contas no que sente Marília Medalha, que cantou, com Edu Lobo, "Ponteio", a grande vencedora da disputa de jovens gigantes.
"Fui espoliada após o festival, não só por pessoas da música, mas também por artistas do universo teatral", diz. "Com o AI-5 [1968], o negócio piorou muito. Num show com Vinicius [de Moraes], fui proibida de cantar "Ponteio". Não descobri se era por causa da música ou por saberem que tinha vínculos com presos políticos", diz.
A entrevista com Medalha, como dezenas de outras - entre elas as de Ferreira Gullar, Chico Anysio, Arnaldo Batista, Martinho da Vila-, ficou fora do corte final do filme. Estarão todos no DVD.
A opção de concentrar-se nas cinco primeiras classificadas faz com que cada canção seja vista de ponta a ponta. Por meio dessas imagens, o espectador não só conhece os maiores artistas da MPB quando jovens, como também visita os primórdios da TV. Ali, o cigarro em cena era tão natural quanto o jovem Chico, com 23 anos, apresentar-se de smoking.

Chico revela mágoa com fama de "velho"

Em depoimentos para o documentário "Uma Noite em 67", ícones da MPB revivem as marcas deixadas pelo festival
Edu Lobo liga Tropicália a "roupas diferentes"; Gil diz ter sido levado ao movimento por insistência de Caetano.
De imediato, o maior impacto do documentário "Uma Noite em 67" está nas imagens de acervo da TV Record -as sequências completas de Chico, Caetano, Gil, Mutantes, Roberto, Sérgio, Edu e Marília defendendo suas canções.
Mas, colocadas em contraponto ao material histórico, são as entrevistas feitas especialmente para o filme -recentes, portanto- as responsáveis pelas grandes revelações sobre os personagens.
"O tropicalismo foi a fase agônica da minha vida musical", conta Gil. Para fazer todos os rompimentos -musicais e até pessoais- necessários à criação do movimento precisou que Caetano o puxasse pelas mãos, ele diz.
Edu Lobo, por sua vez, deixa claro que, 43 anos depois, não mudou muito o modo como entende o tropicalismo. Para ele, toda a revolução liderada por Caetano e Gil a partir daquela noite "girou mais em torno da atitude no palco e das roupas diferentes do que da música".
As tais roupas que Edu cita, usadas sobretudo pelos Mutantes e pelos Beat Boys -as bandas de rock que acompanharam Gil e Caetano em seus números-, foram introduzidas nos festivais a partir daquele ano.
Era praxe, até ali, que artistas se apresentassem na TV vestindo smoking.
Revendo sua aparição naquela noite -de smoking-, Chico Buarque diz que, então, não sabia que aquelas mudanças nos figurinos aconteceriam. Ou melhor: sabia, mas tinha esquecido.
Entre risadas, conta que estava sob efeito de álcool quando Caetano lhe falara, tempos antes da primeira eliminatória, sobre a ideia das roupas. Por isso, não chegou a registrar a informação.
Mas o clima da entrevista sai da anedota quando o autor de "Roda Viva" revela ter se sentido "muito sozinho" naquele período.
Pelo contraste com a estética pop tropicalista, percebeu estar imediatamente identificado como "o velho", "o conservador" -tanto em música quanto em atitude.
"É duro ser chamado de velho, ainda mais quando você tem 23 anos", afirma Chico no filme.
Provocado pelos diretores, Caetano concorda. "Era natural que ele se sentisse assim." Até aquela noite, Chico mantinha o posto de unanimidade nacional e nunca havia encontrado qualquer restrição. Foi a primeira vez.
Na manhã do dia seguinte, nenhum deles seria o mesmo. Nem ele, nem o Brasil. (APS E MP)

Militante revê no filme sua "atuação" como fã

NINA LEMOS
COLUNISTA DA FOLHA
"Quando as pessoas vaiavam, estavam vaiando a ditadura, e não as músicas."
A jornalista e militante Rose Nogueira, 65, explica isso enquanto assiste a "Uma Noite em 67" pela primeira vez. Quer dizer, pela segunda, já que ela estava presente no festival onde foi lançado o Tropicalismo, Chico cantou "Roda Viva" e Sérgio Ricardo quebrou um violão.
Ela era uma das moças "de tiara no cabelo, que já vinha com uma peruca" que adoravam Sérgio Ricardo e, claro, achavam Chico Buarque lindo. Rose tinha 20 anos na época. E continua achando Chico "lindo e com uma capacidade de construir poesia como ninguém".
Na tal noite de 67, ela ficou na parte de trás do auditório. E, ao ver o filme, relembra de tudo. "Olha o Sérgio Ricardo pedindo calma. Lembro exatamente disso. E nessa hora em que ele jogou o violão, nossa, fiquei em choque."
Apesar de achar Sérgio Ricardo "um charme", Rose torcia para "Roda Viva". "Está vendo ali? Eu era uma daquelas moças cantando "roda mundo, roda pião"."
A jornalista torcia para Chico em todos os festivais. Mas até hoje se emociona com "Alegria, Alegria".
"Que coisa maravilhosa. Essa hora em que todo mundo grita "eu vou" é emocionante. As pessoas estavam dizendo que não iam desistir. E o Caetano estava lutando com a poesia."
Ela acha que nem Caetano (e nem ninguém no Brasil) fez músicas tão bonitas depois "porque a ditadura veio e acabou com tudo".
As músicas podem não ter melhorado na opinião de Rose. Mas a aparência... "O Caetano era horroroso. Foi melhorando com o tempo. Desculpe, Caetano, mas você hoje é mais bonito."
"O Caetano também foi preso?", pergunta a cozinheira da casa. "Todo mundo foi preso." Até Rose, que um ano depois foi detida e torturada no presídio Tiradentes, onde permaneceu por oito meses. "Depois desse festival tudo mudou."

Brasil se revela por inteiro nos bastidores do festival

Diretores captam um país entre as marcas da província e as antenas da metrópole
JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

A última noite do Festival de Música Popular Brasileira de 1967 foi um desses raros momentos que condensam e catalisam as forças vivas de toda uma cultura.
Estavam ali não apenas artistas extraordinários em seu apogeu criativo, mas um caldeirão de elementos díspares numa rara e irrepetível sinergia: o berimbau e a guitarra elétrica, a poesia de vanguarda e o ti-ti-ti das revistas de fofoca, as marcas da província e as antenas da metrópole, o pop e a roça.
Diante desse evento singular, a virtude maior dos diretores Renato Terra e Ricardo Calil foi a de preservar uma certa modéstia e um escrupuloso respeito a todos os protagonistas e coadjuvantes da noite memorável.
O documentário busca transportar o espectador de hoje àquele ambiente sem intervir esteticamente, sem interpor interpretações políticas ou sociológicas, sem, em suma, "perfumar a flor", como diria o poeta João Cabral de Melo Neto.
Todos os depoentes são testemunhas presenciais e todos têm o que dizer. Por vezes ligeiramente contraditórios entre si, esses depoimentos ajudam a iluminar o acontecimento por vários ângulos e a construir os seus sentidos.
PROVÍNCIA X MUNDO
Mas o ponto mais forte do filme são as cenas de bastidores do festival, as entrevistas antes e depois das apresentações, em que transparece, nas perguntas dos repórteres e nas respostas dos artistas Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mutantes, um alegre descompasso entre uma televisão familiar, provinciana, herdeira do rádio, e uma música revolucionária, sintonizada com o mundo.
Tudo ali diz muito sobre uma época: as roupas, os penteados, a gíria, o humor. O país se revela inteiro em cada fotograma.
Lamentou-se já a ausência de uma fala da cantora Marília Medalha, intérprete da vencedora "Ponteio". Outros testemunhos poderiam ser enriquecedores: de Nana Caymmi, Hermeto Pascoal, Rita Lee. A lista seria interminável, e o filme também.
Material não falta para outros documentários, para extras de DVD ou para uma série de TV, que talvez seja o destino mais adequado para esse tipo de documentário mais jornalístico do que propriamente cinematográfico.
Mas o filme "Uma Noite em 67", por sua força compacta e seu caráter de celebração, vai bem, muito bem na tela grande.

UMA NOITE EM 67
DIREÇÃO Ricardo Calil e Renato Terra
ONDE estreia amanhã no Frei Caneca Unibanco Arteplex, Espaço Unibanco Augusta e circuito
CLASSIFICAÇÃO livre
AVALIAÇÃO bom

Antonio - julho / 2010.

sábado, 24 de julho de 2010

Vem cá Luiza

Sou um ouvinte de música resistente a coisas novas. Vira e mexe minha vitrola toca sempre os mesmos clássicos, os meus escolhidos. Conservador no gosto musical, temo também pela minha fidelidade posta à prova. Temo perder a minha identidade musical e sair do tom ou do Tom. Desculpa, mas sou assim. Bem, como nunca há unanimidade em tudo, às vezes acontece de aparecer alguém que me faz parar para ouvir e apreciar. Não que procure, mas surge do nada. Você vai resistindo aí acaba se envolvendo.
Em 1978, naquele programa de fim de ano pela Tv Bandeirante, Chico Buarque anunciou que uma cantora nova estava surgindo na MPB. Era Zizi Possi. Naquela apresentação ela cantou em dueto com Chico sua nova canção “Pedaço de mim”; aquela canção que tem uma das frases mais fortes de Chico: “A saudade é o revez de um parto / A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.” É só pesquisar para ver que a gravação tem arranjo, solo de voz de Milton Nascimento e um bandolim tocado por Beto Guedes. Zizi não poderia ter começado melhor. Sua carreira depois dali, só decolou. Faz pouco tempo descobri que teve uma filha, que cresceu e hoje segue os mesmos passos.
A filha de Zizi, Luiza, tem algo encantador. Sua voz é doce, ela também compõe e tem um repertório vasto com músicas lindas como “Paisagem”. Influência ou não da mãe, ela - diferente de Maria Rita -,  tem voz própria. Não se preocupou em parecer ou cantar como a mãe – criou o seu público com sua voz.
Neste vídeo, extraído do DVD de Flávio Venturini “Não se apague esta noite”, além de soltar a  voz precisa que tem, espalha também graciosidade. A canção “Beija-flor” uma das mais lindas do repertório de Venturini, ganhou nova roupagem neste dueto com ela. Quando ouvi/assisti, fiquei repetindo várias vezes depois.
Tenho visto Luiza também pelas redes sociais na internet. Suas inserções no twitter são de uma artista que parece muito próxima, tem carinho e respeita o seu público. Sucesso, talento e vida longa na nossa nova MPB, esta é Luiza Possi.
Prometo que falarei de Tom Jobim também outro dia, eu ainda continuo fiel.

Antonio / julho 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Julho

Queridos leitores (as):
Segue um poeminha novo pra aquecer este inverno. E falando nisso, pena que Roberto não canta mais uma das suas melhores canções: "...quero que você me aqueça neste inverno / e que tudo mais vá pro inferno". Li num livro que ele fez esta música pra uma namorada que o pai mandou morar no EUA, com o objetivo afastá-la dele (Roberto), pois não queria aquele namoro. Aí veio a canção.

Julho

Ainda que tardio
Julho, ela veio
Guardei palavras
Em meu coração
Corro atrás da lua
Vejo o tempo da janela
Ela veio me aquecer
Corro atrás do sol
Guardei canções
Julho, ela veio cantar
Na tua pele nua
Na cortina do tempo
Julho, ela me segue
Com seus olhos
Neblina de manhã
Rogo-te amor
Rogo-te paz
Remendo estes versos
E deixo este julho
Adormecer na espera
Um álbum de recordações
Até a nossa primavera

© Antônio / julho de 2010.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Passione


Em 2008, um crime chocou o país. Durante 04 dias um rapaz de classe média de 22 anos manteve em cativeiro e sobre a mira de um revolver outra jovem, Eloá Pimentel de 15 anos. Depois de várias tentativas de negociações, numa operação frustrada, a polícia resolveu estourar o cativeiro — sem querer julgar o modus operandi da ação —, no mesmo instante Lindemberg deu dois disparos em direção à Eloá; a quem tinha uma paixão platônica e por quem foi negada tal reciprocidade. Eloá faleceu depois no hospital e ele foi parar numa penitenciária onde ainda aguarda por julgamento.

O que havia de mal na vida e no passado daquele jovem atirador? Nada, ele era uma pessoa comum, descobrindo a vida, com seus sonhos, seus desafios e prazeres; mas, por trás daquele cenário de horror, havia sim um sentimento envolvido, algo maior que tudo que ele podia dominar dentro de si e por isso se deixou entorpecer. Quando cair em si, irá perceber que pôs fim também à sua própria vida.

Faz alguns dias outro crime aconteceu na minha cidade, pelos mesmos motivos: paixão. Um jovem de 25 anos matou e esfacelou a ex-namorada e seu algoz; dias depois, ao se entregar numa delegacia confessou friamente que primeiro havia matado o rapaz e depois a matou porque ela foi testemunha ocular e o motivo era ciúmes dela, de quem foi namorado. Tudo friamente.

Em ambos os casos, não havia motivo para tanta crueldade: tirar a vida de alguém. Ou havia? Difícil dizer não estando na pele, mas o desprezo foi determinante nestes casos; e depois a intolerância e não aceitação por derrotas. A justiça interpreta estes crimes como sendo passionais, hediondo, por motivação fútil. Não sou jurista para analisar os meandros que seguirão até o desfecho, mesmo porque a justiça dever ser fria e cautelosa.

Contudo, quero por em questão esse sentimento, muitas vezes doente, que é a paixão; e que para muitos há uma confusão com outro chamado Amor. Lindemberg não tinha amor por Eloá, senão não a teria matado. O que fez praticar aquele crime foi sua paixão obcecada e naquele momento não correspondida. A paixão muitas vezes é possessiva, não concede tréguas e não aceita o “não” como resposta. Aquilo que se sente não pode ser desprezado e pisoteado pelo outro. Penso que, o ato de matar o ser “amado” é um desejo (obscuro) também que junto com ele se vá o sentimento que o aprisiona.

Se procurarmos, iremos encontrar inúmeros casos análogos, de consequência também trágica. Na literatura e na dramaturgia essas histórias tidas como histórias de amor já foram contadas, como em Tristão e Isolda ou na celebre obra shakespeariana de Romeu e Julieta (1591/1595). Aquele drama, sugere que a morte daquele jovem casal foi porque o sentimento de um pelo outro era maior que todas as intrigas e diferenças familiares, e nem a morte os iria separar. Se houvesse o aceite das famílias e se casassem, criassem filhos, talvez compreendessem mais as condições do mundo e não iriam se matar quando um ou outro morresse por morte natural. Na verdade, eles responderam com a própria vida os “nãos” que ela os impôs. Quem de nós um dia já não pôs a ponta da língua em algum veneno da paixão? Eles beberam.

O que me chama atenção nessas tragédias passionais são seus personagens: sempre jovens. Na imaturidade não sabem lidar com as derrotas e decepções. Como já havia dito em outro texto, essa fase da vida é onde mais nos atiramos nos precipícios e mais nos permitimos arriscar. Numa outra tese, asseguro também que, quando ficamos mais velhos e maduros, nos voltamos mais para nosso interior: tomamos remédios para doenças invisíveis, nos precavemos mais por sair à noite ao relento, procuramos alimentos mais saudáveis para o corpo e deixamos outros vícios. Assim, também cuidamos mais dos nossos sentimentos e por isso nos apaixonamos menos, sofremos menos desse “mal” ou aprendemos mais com a vida, como queira. Procuramos viver relações mais maduras, onde o bem partilhado é um sentimento livre, sem pressa e sem cobrança; onde a maior discussão com quem nos relacionamos é sobre qual o melhor filme de Almodóvar ou o melhor poema de Drummond. Nada mais a se preocupar ou se questionar.

Amor e paixão — muitos escritores, filósofos, pensadores já deram suas explicações colocando cada coisa no seu lugar. Serei simplista no meu modo de ver, direi que um é água e outro vinho, e transformar uma coisa na outra é o grande mistério. Transformar a água da paixão no vinho bom do amor é o passo seguro que iremos dar para uma relação com caminhar feliz. Na verdade, a maioria das relações fica somente na água da paixão e seca por aí. Há um escritor que disse que a paixão é mistura de um amor de intensidade máxima com um enorme medo. Possessão, obsessão, ciúmes, descontrole, medo são ingredientes que não cabem na receita do amor; esses são os piores temperos de quem se apaixona; e por tudo isto irá sofrer. Ninguém sofre por amor; sofremos por medo. O amor nos quer seguro, confortável e aconchegante no seu colo; ele também requer paz e harmonia para se permitir.

No poema do português Fernando Pessoa, anotado agora na minha agenda, diz: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?” Os poetas falam melhor por nós.

Um exemplo concreto do que ouvi sobre o amor veio também numa forma simples de um homem casado que um dia me contou algo que guardei comigo. De maneira natural e sem qualquer problema conjugal ou familiar, disse: “... o único amor que acredito é do de um pai para um filho e vice-versa”. Explicou: “Quando um filho morre, jamais iremos a um orfanato adotar outro, ou vamos procurar nossa esposa para 'encomendar' outro em substituição aquele. Quando um filho morre nosso amor vai junto, ele vira saudade eterna...”. Fiquei com essa analogia por anos e aqui partilho com todos. De fato, essa é uma bela explicação de amor. Simples, mas verdadeira.

Na relação que se acaba, o difícil é “virar esta página” — como sugere quem está de fora. Nesta hora a palavra é serenidade. Este é o segredo para sairmos sem arranhões. Sempre quando alguém vem me pedir socorro, a primeira coisa que me vem é: serenidade. Só quem não tem não sabe a importância dessa palavra nos dias de hoje. Quem tem serenidade tem paz, esperança, paciência, e espera o amor... Tudo que precisamos para passar as tormentas. Temei, apanhei, cai e me ergui, por fim aprendi a contar até dez e ser sereno. Já contei até mil também, é bom ser assim, pois não brigamos mais com o mundo e com ninguém. As pessoas serenas são mais fáceis de você lidar e decidem melhor. São boas ouvintes e quando falam colocam as palavras no seu devido lugar. Aprenderam por terem o coração e a mente decidindo juntos; ele agora apaziguado bate no seu ritmo, no ritmo de Deus.

Da paixão, como conhecemos e como muitas vezes fomos tomados, nos reservamos agora o direito de viver e deixar viver; respirar seus aromas sem o entorpecimento da insensatez. E dela, somente as palavras doces sejam guardadas como numa linda história de amor: “Direis que aquela luz não é da manhã... ainda não amanheceu. Foi o rouxinol e não a cotovia que vos gritou no ouvido. De noite, canta pousado naquela romãzeira. Acredita meu amor, foi o rouxinol...” (*).

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2010.
(*) William Shakespeare – Romeo and Juliet – Ato III - Cena V

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Benvinda




O que mais me agrada nas músicas de Chico Buarque de Hollanda? Difícil dizer, poderia falar de várias, mas hoje vou compartilhar esta música do início de sua carreira (ele tinha 24 anos). Faz algum tempo descobri a grande sacada de “Benvinda”, sim, exatamente como ele escreveu: “Benvinda”, não é “Bem-vinda” (adj. saudação). Chico escreveu esta música para uma de suas mulheres, e não falou nada disso para ninguém. Até meu corretor de texto do Word quis corrigi-la. Imagina! Chico brincou com as palavras mais uma vez. A letra permite que você use as palavras nos dois contextos. Qualquer uma que se usar dará sentido: a saudação e a musa.
Esta apresentação, das mais memoráveis do acervo da nossa MPB, foi no IV Festival da Record de 1968. Chico de paletó listrado ladeado pelos competentes “meninos” do MPB-4, quem toca violão ao lado é Toquinho. Chico faturou o terceiro lugar. Ahhhhhh, infelizmente eu não pude estar lá.

BENVINDA
(Chico Buarque de Hollanda - 1968)

Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente
Que há lugar na minha mesa
Pode ser que você venha
Por mero favor
Ou venha coberta de amor
Seja lá como for
Venha sorrindo, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que o luar está chamando
Que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho

Cheio de anseios e esperança
Comunico a toda a gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha
Morar por aqui
Ou venha pra se despedir
Não faz mal
Pode vir até mentindo, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que o meu pinho está chorando
Que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho

Venha iluminar meu quarto escuro
Venha entrando como o ar puro
Todo novo da manhã
Venha minha estrela madrugada
Venha minha namorada
Venha amada
Venha urgente
Venha irmã
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que essa aurora está custando
Que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho

Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha
Um carinho para dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar
Que é tempo ainda, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Ah, que bom que você veio
Que você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Benvinda
No meu coração.


@publicado por Antonio

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Era Felipe Melo - o silêncio das vuvuzelas



Pronto, acabou mais uma Copa para nós. Recolham as bandeiras, guardem as camisas no armário, calem as vuvuzelas e voltem à rotina e só daqui a 04 anos. Como em de 2006, saímos nas quartas de final. Desta vez o nosso judas e culpado foi Felipe Melo; ele é o Roberto Carlos de 2010, embora não tenha “ajeitado o meião” na hora do gol, mas foi incompetente em “ajeitar” uma bola para dentro das nossas redes, ou como se diz em Portugal: fez um auto-gol. Para completar entrou covardemente com as travas da chuteira na coxa do holandês Robben e foi expulso. Depois na entrevista, com os olhos secos, disse que não foi maldoso – havia mais de 30 câmeras para registrarem a cena. Durante o jogo, se salvou quando teve um lampejo de Gerson ao dar o passe para Robinho marcar o único gol do Brasil, mas no minuto seguinte voltou a ser o que é: Felipe Melo.

Sempre assim, depois dos fracassos procuramos os culpados. Depois de tantos elogios durante a Copa de 1982 e com o gol que marcou contra os Argentinos, Junior foi o culpado por não marcar Rossi no último gol da Itália; antes Cerezo havia sido culpado por cruzar uma bola na nossa defesa na presença do próprio. Mesmo quando jogamos como verdadeiros artistas, como em 1982, também deixamos cair um pouco de tinta no quadro e manchamos a tela, estragamos tudo. Futebol é feito dos seus detalhes e um erro pode custar anos de preparação.

Foi lembrado por um cronista que, futebol de Copa é atípico, jogamos uma competição onde temos que provar que somos os melhores naquele mês, talvez no mês seguinte não consigamos praticar o mesmo futebol e não alcançamos o mesmo êxito. Não há como dizer que houve progressão de um time ou outro e muitas vezes nem sempre os melhores ganham; muito diferente de um campeonato brasileiro, por exemplo. Os alemães sabem muito bem disso. Salvo esta Copa, sempre tiveram um futebol sem brilho, mas com eficiência para jogar sete jogos.

As lições dessa Copa ficaram patentes e lembraremos no futuro como o fim da Era Felipe Melo, creio. Não querendo crucificá-lo pela derrota, mas seu nome será lembrado, pois o mais desinformado torcedor sabia do mal que ele poderia nos causar pelo seu futebol de pouco talento e seu destempero emocional. Somente seu treinador não via isso. Dessas lições tiro algumas.

Não adianta aquartelar jogadores e colocarem debaixo das Leis Dunguianas. Isso não resolveu e nunca irá fazer ganharmos títulos, pelo contrário, preservando e restringindo demais o ambiente deixa o jogador inseguro e depois não tem reação nos momentos de adversidades, com o placar adverso. Faltou passar aos jogadores na concentração o filme “Desafiando gigantes” - 2006, uma bela obra e com bons exemplos de como ganhar uma competição.

A segunda lição importante a lembrar para 2014 é que a Copa sendo uma competição curta de sete jogos, há que se convocarem quem está melhor no momento e não que é nosso amigo, digo, amigo do treinador, fiel a ele. Balela. A Alemanha levou os seus “meninos da vila”: Özil e Müller, ambos com 20 anos de idade e nunca jogaram uma Copa. Müller foi convocado na partida do time para a África do Sul, ele veio para substituir o maestro do time Ballack. Tem sido um dos melhores da Copa. Portanto, para 2014 rasguem esta regra.
Outra lição é que ao se trabalhar um time para uma competição deve-se também entender como está o estado psicológico de cada jogador e tentar colocar todos num mesmo padrão de autocontrole. Na partida contra a Holanda houve um momento em que Robinho é flagrado aos berros com um jogador holandês. O quê fez o holandês ao receber os gritos de Robinho? Manteve-se na sua posição, calmo, não entrou no clima do brasileiro. Assim ajudou o seu time a virar o placar. Após o segundo gol era nítida a frustração dos jogadores, pareciam sem reação.

Por ultimo, nós precisamos deixar de pensar que somos ainda os melhores do mundo, e que não devemos nos preocupar com quem enverga a camisa adversária. Do outro lado também há bons jogadores e por isso devem ser respeitados e marcados, assim como eles marcam os nossos jogadores principais. No jogo contra a Holanda era premissa ter que marcar o Robben (11) e o Sneijder (10). A tática dunguiana ignorou os dois jogadores e eles decidiram.

Em 1968, quando o Maracanãzinho em pé gritava “é marmelada, é marmelada”, por não aceitar que a música de Vandré não estava na final daquele festival, ele foi ao microfone e disse: “A vida não se resume em festivais”. É isso aí, eu também digo: “A vida não se resume em Copa do mundo”. Que a Era Felipe Melo seja sepultada e com ela este futebol pragmático; de quebra que vão também essas malditas vuvuzelas, passem logo esses anos e até 2014. Bola para frente.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2010.