BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 9 de março de 2026

A lições de Malu

Em 1979, o Brasil vivia a abertura política: anistia, ampla geral e irrestrita. Muitos comunistas puderam voltar dos seus exílios e continuarem sua revolução, começando, ano seguinte, com a fundação do PT. Os militares estavam entregando os pontos aos inimigos, a ponto do presidente João Figueiredo dizer que o país sentiria saudade daqueles anos das fardas verdes. Sentimos, de certa forma.

Na outra ponta, naquele mesmo 1979, a Globo estreava o seriado Malu Mulher. O primeiro episódio trazia o tema do desquite (antecessor do divórcio) e entre muitos tapas e beijos, claro. No segundo episódio, nossa heroína, não se importando nem com a filha de 13 anos, que ainda estava absorvendo aquela separação, se envolvia com outro homem: — eu tenho direito de ser feliz — disse à sua mãe. Pior, o sujeito, bon vivant, que ela estava indo para cama, era conhecido do seu ex-marido. Provocando ciúmes naquele homem que ainda nutria sentimentos por ela.

Quando o seriado completou 40 anos (2019), a Globo quis lembrar com seu público as aventuras daquela Malu independente, emancipada, dona do seu nariz. O fato, porém, que numa entrevista com Bial, Regina Duarte disse que não quis mais fazer o papel, porque a personagem estava virando feminista demais e aquilo não compactuava com seus princípios. Entrevista encerrada e volta a velha Regina ao seu status de separada do grupo.

Bem, como sempre trabalharam os homens de Frankfurt — terminei o livro —, a semente foi plantada, o público colheu e os frutos brotaram. Esse é o caráter da revolução cultural: deixar sementes, sem armas, sem reação. O ponto que interessa. Os militares, de então, já não corrigiam mais textos, scripts, como no início da década, e o arquétipo Malu se espalhou sem muito esforço. Roteiros semelhantes foram surgindo e as famílias foram perdendo forças nas décadas seguintes e se desfazendo para o bem de uma pseudo "felicidade". Não é isso que temos hoje?

 “Começar de novo e contar comigo...” A música de Ivan Lins, na voz da Simone, naquela abertura, caiu bem para a personagem. Ela começava e não terminava, porque tudo era uma aventura em busca da felicidade.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Março de 2026