Há tempos venho procurando essa crônica de Graciliano Ramos (em pseudônimo). Nessas linhas, naquele começo de século XX, ele dava conselhos aos brasileiros se queriam mesmo introduzir o FUTEBOL nas práticas dos esportes nacionais. O fato curioso é que, o futebol já era praticado na Europa, mas no Brasil ainda engatinhava. Dei um título meu à crônica, mas ela foi publicada a primeira vez em "O Índio", em 1921.
Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que,
certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as
novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a ideia fixa de
muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente
impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de
borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo
de fogo de palha capaz de durar bem um mês.
Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente
descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados
patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por
desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua
brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que,
de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos
nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma
pobreza de músculos lastimável.
A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões
maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade.
Para que serve ser a gente orelhuda? O burro também possui consideráveis
apêndices auriculares, o que não impede que o considerem, injustamente, o mais
estúpido dos bichos. (...). Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria.
Moles, bambos, murchos, tristes - uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos,
braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado,
bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase
pulha que se tornou popular: "Me deixa..." Precisamos fortalecer a
carne, que a inação tornou flácida, os nervos, que excitantes estragaram, os
ossos que o mercúrio escangalhou.
Consolidar o cérebro é bom, embora isto seja um órgão a que, de ordinário,
não temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque é ótimo. Convencer um
adversário com argumentos de substância não é mau. Poder convencê-lo com um
grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaçador, é magnífico. (...)
Para chegar ao soberto resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o
futebol.
Mas por que o futebol?
Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais,
sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo?
Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de
indagar se elas serão assimiláveis ou não.
No caso afirmativo, seja muito bem-vinda a instituição alheia, fecundemo-la,
arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo,
resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora,
parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É
roupa de empréstimo, que não nos serve.
Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um país
é necessário, não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber,
mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho
indígena. É preciso, pois, que vá preencher uma lacuna, como diz o chavão.
O do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida
bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que
deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído. (...)
Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas
estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que
ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.
As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As
cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras
raças; não somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou
galego.
Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por
aqui há pessoas que ainda fumam liamba. (...)
Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe,
o turfe, nada pega.
Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna
vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm
nomes que vocês nem sabem pronunciar.
Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o
cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica
ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e,
melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.
A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!
Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na
aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a
confiança no cérebro - e a rasteira nos salva.
Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para
nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras
e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.
Cultivem a rasteira, amigos!
E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza
plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a
não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo
e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e
espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de
arrastar o pé no momento oportuno.
Muito útil, sim senhor.
Dediquem-se à rasteira, rapazes.
Publicado por © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e
cronista / maio de 2024.